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Full text of "Episódios dramáticos da inquisição portuguesa"

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I ARBOR I 

Presenteei to the 

UBKARYofthe 

UNIVERSrr Y OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Stanton 



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António Baião 

Soão EFFECTIVO DA AcADEMIA DAS SOENCIAS DE LiSBOA 

Director do Archivo da Torre do Tombo 
EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

DA 

Inquisição Portuguesa 

Volume II 

HOMENS DE LETRAS E DE SCIENCIAS 
POR ELA CONDENADOS — VÁRIA 




EDIÇÃO DO 
ANNUARIO DO BRASIL 
RIO DE JANEIRO 



Reservados todos os direitos de re- 
producção nos paizes que adheriram 
 Convenção de Berne: Brash,: Lei 
N.o 2577 DE 17 DE Janeiro de 1912; 
Portugal: Dec. 18 de Março de 1911. 



EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 
DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



1589 



António Baião 

Sócio effectivo da Academia das Sciencias de Lisboa 

Director do Archivo da Torre do Tombo 



EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 
DA 

Inquisição Portuguesa 



Volume II 



HOMENS DE LETRAS E DE SCIENCIAS 
POR ELA CONDENADOS — VÁRIA 




Álvaro Pinto, Editor 

(ANNUARIO DO BRASIL) 

Rio de Janeiro 



PRIMEIRA PARTE 

HOMENS DE LETRAS E DE SCIENCIA 
POR ELA CONDENADOS. 



I 



I 



o POETA DOS RATOS DA INQUISIÇÃO, 
SERRÃO DE CASTRO 

1672 a 1682 



A BOTICA DA RUA DOS ESCUDEIROS — A CUL- 
TURA DAS MUSAS NO ÓCIO DAS RETORTAS 
E ALMOFARIZES. 

POR melados do século XVII, quem penetras- 
se no emaranhado de ruas da parte baixa 
de Lisboa e entrasse na dos Escudeiros, 
cujo nome e local o terremoto de 1755 fez desa- 
parecer — se, por mal dos seus pecados, tivesse ne- 
cessidade d^alguma xaropada ou cordial poderia 
ir de pronto avia-lo á botica de António Serrão 
de Castro. 

Botica pobre, como pobre era o seu dono. 

Penetremos-lhe indiscretamente em casa. Ahi 
veremos: um contador de páo preto de Moçam- 
bique com oito gavetas e alguns escudetes de 
prata; um bufete grande com duas gavetas de 
páo ordinário; quatro caixões da índia, um gran- 
de e os trez pequenos; uma cama de damasco 



10 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

azul; uma banca d^estrado de matizes e uma tri- 
peça também de estrado de damasco verde; seis 
cadeiras atamaradas com pregaria meúda, já usa- 
das; alguns livros de humanidades e medicina; 
dois escritórios pequemos de estrado; cinco pai- 
néis de paizagens vulgares. N'isto se resumia 
a sua mobilia. 

No emtanto a esperança sorria ao proprietá- 
rio. O avô fora cirurgião, boticário fora o pae 
e para medico andava estudando em Coimbra 
o filho Luiz. A irmã, Francisca Serrão, casara 
também com um medico, o que tudo concorria 
para a farmácia Serrão de Castro — como hoje 
lhe chamariamos — gozar no sitio de credito 
e clientella especiaes. 

Era, verdade seja, o dono meio christão 
novo, facto não destituído de importância em 
tempos tão santos e devotos. Mas não era tam- 
bém tesoureiro da irmandade do Sanctissimo 
da freguezia de S. Nicoláo e até procurador 
da mesma? Não tinha um filho, Pedro Serrão, 
estudante de teologia Moral e muito querido na 
Congregação do Oratório? Não era pontualissi- 
rno sempre em acompanhar o Santo Sacramento? 
Depois, se alguém curiosamente penetrasse na 
sua casa havia de ver oratório de bordo pinta- 
do recheado com um crucifixo e aos lados as 
imagens de Nossa Senhora e S. José; uma Se- 
nhora do Rosário e S. Francisco, de barro; um 
menino Bom Pastor, de marfim; um Santo Ono- 
fre e um Santo António, de madeira e um menino 
Jesus ensinando a ler S. João, também de barro. 
Na parte de baixo do oratório veria um Senhor 
atado á coluna, um Ecce Homo,, de barro, um 
tumulo de madeira pintado de ouro e branco 
onde Christo repousava o ultimo sono e uma 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 11 




O Padre Bartolomeu do Quental 

Testemunha de defeza de Pedro Serrão^ de Castro ■ 

dúzia de jarras de páo dourado, com os respecti- 
vos ramalhetes. E, se levantasse os olhos para 
as paredes, veria os painéis de Nossa Senhora 
da Graça, S. José, Nossa Senhora da Conceição 
e Santo António. 



12 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

Ali estava tudo, como resposta muda a quem 
se lembrasse de duvidar da crença do nosso bo- 
ticário. Era evidentemente o seu arsenal de- 
fensivo. 

Não se pense porém que na botica de Serrão 
de Castro somente se manipulavam tisanas. Não. 
De vez em quando havia animadas sessões de 
conversa a que o boticário dava especial realce 
com a sua lingua essencialmente cáustica e mor- 
daz. Entre os frequentadores podemos apontar os 
ourives Jorge Ribeiro e Luiz Alvares, o corretor 
de câmbios João da Costa Cáceres e Pedro Ri- 
beiro. 

Este ultimo foi durante certo tempo empre- 
zario das Comedias, de cujos camarotes o se- 
gundo recebia o dinheiro. Não foi todavia sem- 
pre feliz na escolha de actores, comediantes, co- 
mo então lhe chamavam e por isso, d^uma vez 
que trouxe de Hespanha uma companhia inferior, 
foi victima das ironias de Serrão de Castro, que 
contra elle chegou a publicar uns versos de troça 
e de zombaria. Tal era o feitio especial da veia 
poética do Presidente da Academia dos Sin- 
gulares. 

A DENUNCIA Â INQUISIÇÃO 

Felizes lhe foram correndo os annos até que, 
no dia 18 de junho de 1671, quando contava 
já 61 de edade, o coronel Fernão Peres o veio 
expressamente denunciar como judaisante. 

António Serrão de Castro era um grande 
scelerado: vestia camisa lavada aos sabbados!... 

A ordem de prisão demorou-se perto de um 
anno, mas ela abrangeu grande parte dos fre- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 13 

quentadores da botica da Rua dos Escudeiros, 
considerada pelo visto um perigoso foco de chris^ 
tãos novos, e alguns dos visinhos do boticário 
pertencentes á familia Pestana. 

Ê por isso que successi vãmente vemos des- 
lisar perante os inquisidores: Jorge Ribeiro, Luiz 
Alvares, Manoel da Costa Martins, António Pes- 
tana, Filipa Pestana, João da Costa Cáceres e 
Pedro Ribeiro. 

A estes acresceram as suas irmãs, Paula de 
Castro e Francisca Serrão, presas depois do Poe- 
ta, a 15 de julho de 1673. 

É bastante curiosa a forma como a Inquisi- 
sição procedeu com esta ultima. A principio ne- 
gou as suas culpas, mas depois d'um anno de 
clausura, decidio-se a fazer as suas confissões 
e denuncias. Francisca Serrão accusou primeira- 
mente pessoas indifferentes, e, como António 
Serrão tinha sido já preso, logo na segunda au- 
diência o denunciou, nada dizendo porém acerca 
dos sobrinhos, então ainda em liberdade, nem 
sobre o seu filho Luiz de Bulhão. Este silencio 
porém não agradava aos inquisidores e por isso 
sujeitaram-n^a a tormento, fazendo-a sentar no 
escabello. Não nos dizem os documentos os gri- 
tos lancinantes que soltou e sabemos apenas 
que não poude a pobre velhinha resistir, e for- 
çada pelas dores denunciou as pessoas, cujas cul- 
pas até ahi occultara. Nem por isso deixou de 
ser condenada a cárcere perpetuo e habito peni- 
tencial também perpetuo e ouvio ler a sentença 
no auto celebrado no Terreiro do Paço a 10 
de Maio de 1682. No mesmo auto sahio a outra 
irmã do Poeta: Paula de Castro. Essa foi mais 
incontinente de lingua e por isso não foi preciso 



14 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

sujeital-a a tormento. Como porém no cárcere ti- 
vesse a imprudência de judaisar, carregaram-lhe, 
além da pena que coube á irmã, com três annos 
de degredo para o Brazil. 

Mais tarde veremos como ella a cumprio. 



OS INTERROGATÓRIOS — NETO DUM PERSE- 
GUIDO PELA INQUISIÇÃO. 

Foi a 28 de junho de 1672 o primeiro in- 
terrogatório em que António Serrão de Castro 
declarou não ter culpas para confessar. 

Descendente d^uma familia de christaos no- 
vos, só sabia que o seu avô materno, Esi^evão 
Rodrigues, fora justiçado pela Santo Officio. 
Com effeito este deu entrada nos cárceres da 
Inquisição um século antes: em 16 de junho 
de 1570, Tinha vinte e cinco annos de edade, 
era ainda solteiro. Accusado de judaísmo, con- 
fessou as suas culpas e por isso foi condenado 
á confiscação de bens e a cárcere e habito pe- 
nitencial ad arbitriam , indo ao auto da fé de 
II de março de 1571. 

Não sabemos se Serrão de Castro conheceria 
estes pormenores, mas certamente ficaria bem 
surprehendido ao saber que nesse mesmo dia 
16 de junho deram também entrada nos cárceres 
inquisitoriaes a sua bisavó Inês Fernandes e as 
filhas doesta Antónia Fernandes e Branca Fer- 
nandes. Ainda mais surprehendido haveria de 
ficar quando soubesse que o culpado doestas 
prisões fora o seu tio avô Manoel Fernandes, 
tosador, que em Beja se deixou cahir nas garras 
da Inquisição e se não soube calar, talvez mes- 
mo para se vingar da oposição ao seu casamento. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 15 

De sorte que podemos fundadamente con- 
cluir a pouca limpeza de sangue da família 
do nosso Poeta e que a fatalidade que represen- 
tava para sua familia esse mês de junho de 
1570 se repetio um século apoz, em 1672. 

Emquanto os inquisidores iam por seu lado 
acumulando provas sobre provas contra o preso, 
este mantinha-se na negativa mais formal. 

Vestira porventura camisa lavada aos sabba- 
dos, cumprindo assim uma ceremonia do rito 
moysaico? Nunca fizera tal. 

Praticara o jejum do dia grande que vem 
no mez de setembro, comendo só ao romper 
da estrella d^alva? Nunca fizera tal. 

Então nunca se apartara da fé christã? Certa- 
mente que não, e para prova d^isso ahi estava 
o elegerem-no por duas vezes tesoureiro da ir- 
mandade do Santissimo da freguezia de S. Ni- 
coláo e por duas outras procurador da mesma; 
ahi estava a sua pontualidade em acompanhar o 
Santissimo, em ir á missa e em se confessar. 



UMA CONDENAÇÃO A FINGIR — A TORTURA 
DO ESPIRITO E A TORTURA DO CORPO — 
CONFISSÕES. 

Como não era possivel arrancar a confissão 
de Serrão de Castro, os inquisidores, em 17 de 
abril de 1676, condenaram-no como pertinaz e 
negativo a. ser entregue á justiça secular, o que 
na linguagem inquisitorial equivalia a ser con- 
denado á fogueira. 

Em 15 de maio o Conselho Geral confirmou 
sentença tão radical; apesar de ficar assim com' 
todos os sacramentos, não se cumprio. Evidente- 



16 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

mente não foi mais que um ardil destinado a 
amedrontar o pobre sexagenário. 

E que o leitor imagine o desalentado estado 
d^alma de quem se via preso havia quatro annos 
pa triste espectativa sempre de que o alvorecer 
d^aquelle dia fosse o ultimo; de quem espe- 
rava a todo o instante o carcereiro a anunciar- 
Ihe que eram chegados os seus derradeiros ins- 
tantes. Que sentidas e amaríssimas confidencias 
não faria elle a uma ameixieira, sua visinha, que 
melancolicamente baloiçava os ramos e de vez 
em quando os metia pelas grades da sua prisão! 



Onze vezes de folhas revestida, 
Onze vezes de flores adornada, 
Onze vezes de fructos carregada, 
Te vi, ameixieira, aqui nascida. 



Outras tantas também te vi despida, 
De folhas, flores, fructos despojada, 
Pelo rigor do inverno saqueada, 
E a seco tronco toda reduzida: 



Também a mim me vi já revestido. 
De folhas, flores, fructos adornado, 
De amigosi e parentes assistido. 



De todos eis-me aqui tão despresado; 
Mas tu voltas a ter o que has perdido, 
E eu não terei jamais o antigo estado! 



Desgraçado Poeta! Os seis annos posterio- 
res á sua fingida condemnação deviam-lhe cor- 
rer bem penosos e longos. 

Afinal, em 2 de Abril de 1682, cedendo 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



17 



á depressão moral da edade e da carceragem e 
quiçá a vagas esperanças de misericórdia, Anto- 




O Padre Bartolomeu da Quental 
(outro retrato) 



nio Serrão de Castro decidiu-se a fazer as suas 
confissões. Sim, era verdade tudo o de que o 
accusavam; sim, crera durante cincoenta e dois 
annos que a salvação estava somente na lei de 
Moysés e por esse motivo se apartara da fé 



18 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

christã, mas ali estava contricto e arrependido, 
pedindo perdão e misericórdia e acreditando fir- 
memente nesse Christo de quem os inquisidores 
se diziam apenas delegados e representantes. 
Porém estas declarações não satisfizeram por 
com.pleto. Na mesa do Santo Officio sabia-se 
com effeito, em virtude d^outras declarações, que 
os filhos do Serrão tinham egualmente judaisado, 
e a todo o custo era preciso arrancar tão preciosa 
denuncia. Por isso, em 7 de Abril, se determi- 
na que elle seja posto a tormento e o Conselho 
Geral trez dias depois confirmava aconselhando 
expressamente para o pobre velhinho hu trato 
esperto... . 

Efetivamente no dia 11 foi o réo admo- 
estado para acabar de confessar as suas culpas 
e, como nada mais dissesse, foi mandado á casa 
do tormento. 

Seriam oito horas e meia da manhã, chilrea- 
riam talvez os passarinhos na ameixieira, sua 
confidente, quando Serrão de Castro dava entra- 
da na fúnebre casa dos tormentos. Despojado 
do fato ficaram-Ihe á mostra os descarnados 
e esqueléticos membros, tão descarnados e tão 
esqueléticos que o medico e cirurgião não con- 
sentiram que elle soffresse o tormento de polé. 
Foi por isso estendido no potro e atado de pés 
e mãos, foi-lhe protestado pelo notário que se 
elle réo morresse no tormento, quebrasse algum 
membro, perdesse algum sentido, a culpa seria 
sua e não dos Senhores Inquisidores que o jul- 
garam ao dito tormento, segundo o merecimento 
do seu processo. 

Santos inquisidores! A sua maldade egua- 
lava a sua hypocrisia! Se o pobre velhinho ti- 
vesse ido parar a uma fogueira, não era a In- 



DA INQUISIÇÃ UQUESA 

AbjofaçSo ja form.*». 

p V /i^^''^^ ^''^^ ^^ r^^^ • 

pcranrcVòs Senhores InqutfidoTM.juroncftf^Gnííios 
{evangelhos cm q tccho minhas ínào»,^ dcmiobapto- 
oria & livre vótadcanJi(hcmJtÍ2o,& aparto de mim to- 
Jj açfpccie de hcrcfij q for.ou fc levàtar coorra tiolPi S. 
fè Catho!ica,& Sé A pollolica;erpcciaItnécc eflas cm q 
C9hy.& qucígoricm minha fenrcnçame forão lidas, as 
quaes cy por r» ,xri das flqui,&declaradas. E jurode fcm- 
prc ter.&: guardar a S. Fd Catholica.q tem & enfina a S. 
Madre Igreja de Roma , & que fere; lempre rauito obi- 
dienteaonoíTomuyfandoPadreoPapa ^"^^^^ 

^^y^^^ noOb Senhor Prcíldente na 

Igreja de Deos,& aíeus fucceífores: & confdlb.qac to* 
do? os q contra cila S FéCatholica vierem, faô dignos 
<jc condenação: & (uro de nunca com clles me ajuntar, 
& de os pcrreguir,& dcfcobrir as hereílasque dcllcs fou- 
ber jos InqurfKJores.ou Prchdosda S. Madre Igrej.i: & 
inro, & prometo quâto cm mim forde £ópnr a pcnícé- 
ciaqueme hc,ouíbrimpoftâ,&fd tornar a cahifDeft-cj 
erros, ou em outra qualquer fpecic de hercfia, quero & 
me praz que fe ja ávido por reIapro,3í caftigado confor- 
me a direito, & fc em algú tempo conílarocôtrariodo 
q tenho cófeíTado ante volTas mcr^cs por meu juramea* 
to.quero q cila abfolvicjJo me não valha, &tn< fometoX 
fcverid3de,& correição dos SagradosCanoocs.Ercquct 
ro aos Notários do S.Officio, q diilo piiTcra eílromca- 
ios,& aos que eftáo prefcnces fcjara tcitcmunhas, & af- 
finem aqui comigo, ^i^m /í:^^^^^«--j4r<^^ 



19 



O; ^c^r^i^n^jr/.^Ç^fiíf/^ 



/^.y^ £^52-.^^ 



Auto de abjuração de António Serrão de 

Castro com a sua assinatura muito trémula 

por ter sido já atormentado. 



20 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

quisição que o matava, eram as justiças secula- 
res; se morresse na tortura ou se deformasse, 
também nenhuma culpa tinha a Inquisição e so- 
mente elle que não queria acusar os próprios 
filhos... 

Durante um quarto de hora os seus gritos 
cortaram, lancinantemente as abobadas da sinistra 
casa de torturas. Baldadamente chamou por S. 
Domingos e Nossa Senhora do Rosário, mas as 
apetecidas denunciaçoes não vieram. 

Alguns dias' depois, a 23 de Abril, novamen- 
te o admoestaram a que confessasse a verda- 
de toda, 'mas nada mais lhe conseguiram arran- 
car. O mesmo aconteceu no dia seguinte. 

Todavia, passados dois dias, não se sabe 
por que mysteriosa sugestão, mas talvez por lhe 
darem conhecimento "das confissões do seu fi- 
lho Luiz, António Serrão de Castro quiz 'fazer 
mais confissões. O dia 26 de Abril não deveria 
ter existido para elle. Denunciou tudo ; denunciou 
todos! Â pertinácia e coragem com que, durante 
dez annos soube resistir ás investidas inquisito- 
riaes e até ao próprio tormento seguio-se um 
quebramento de forças de tal ordem que logo 
na cabeça do rol denunciou os próprios filhos!! 



A PERSEGUIÇÃO AOS FILHOS DO POETA - A 
MORTE D'UM E A CONDENAÇÃO DOS OU- 
TROS - O PADRE BARTOLOMEU DO QUEN- 
TAL DADO COMO TESTEMUNHA. 

Quatro foram os filhos de António Serrão 
de Castro: Luiz, nascido em 1649, seguio a 
carreira de medicina; Pedro nascido em 1650, 
seguio a carreira de theologia; Duarte, nascido 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 21 

em 1654, não chegou a passar dos primeiros 
estudos e finalmente Thereza Maria de Jesus, 
nascida ou na mesma occasião de Duarte, ou 
apenas com diferença de mezes. 

Puando o pai os denunciou ha muito já 
que estavam presos, pois tinham dado entrada 
nos cárceres do Santo Oficio no dia 20 de 
setembro de 1673. 




Fac-simile da assinatura de Antónia Serrão 
de Castro 



Luiz Serrão era a esse tempo já formado 
em medicina pela universidade de Salamanca. 
Tinha abandonado a universidade de Coimbra, 
onde frequentava aquela faculdade, logo que lhe 
chegou a infausta noticia da prisão do pae, 
e retirou para Salamanca, onde seu primo, Bento 
Bravo da Silva, lhe ia fornecendo mesadas, até 
que, em certa altura, lh'as retirou. Quando o 
prenderam, encontraram-lhe umas Horas de Nos- 
sa Senhora e um livrinho de S. Francisco Xa- 
vier, frágeis armas com que provavelmente pre- 
tendia demonstrar a sua intima devoção! Du- 
rante nove annos persistio, como o pae, na ne- 
gativa mais formal, no mutismo mais absoluto, 
mas não soube como elle resistir ao tormento. 



22 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

No dia 21 de abril de 1682, dez dias depois do 
pae, era também o seu corpo atado ao potro, 
e tão fortes eram as dores, que a coragem, de 
que até ahi dera provas, faltou-lhe e denunciou 
pae, irmãos, tias e primos. Sahio no auto da 
fé de 10 de Maio, abjurando então dos seus 
erros e ouvindo ler a sentença que o condenava 
a cárcere e habito penitencial perpétuos. 

Muito outro foi o proceder de Pedro Serrão 
e por conseguinte muito outro foi o resultado! 
de sua prisão. 

Se ao irmão tinham encontrado dois livros 
mysticos, a elle não só encontraram, quando foi 
preso, umas Horas de Nossa Senhora e um li- 
vro de Meditações da Paixão de Christo, como 
também uns bentinhos da Trindade e S. Fran- 
cisco, um cilicio e disciplinas de aço. Com taes 
armas não conseguio entretanto escapar o es- 
tudante de teologia, que nesse tempo não tinha 
ainda ordens algumas. 

No emtanto christianissima tinha sido a for- 
ma do seu proceder. Aos nossos olhos d^hoje 
chamar-lhe-hiamos mesmo excessivamente faná- 
tica. Vejamo-la. 

Com outros condiscípulos da congregação 
do padre Bartholomeu do Quental todas as sex- 
tas-f eiras ia ao Hospital dos Entrevados de 
Nossa Senhora do Amparo, fazendo-lhes as ca- 
mas, varrendo-lhes o hospital, dando-lhes esmo- 
las e resando com elles as ladainhas de Nossa 
Senhora e perguntando-lhes a doutrina christan. 
Quantas vezes não iam ao Hospital Real dar 
doces aos enfermos, ensinando-lhes o acto de 
contricção e aos que sabiam ler deixando-lho 
por escrito! Quantas outras não iam levar de 
jantar aos presos do Tronco, jantar comprado 







^. 







^^/ ''*^5^''^**' >'^^^*^'^*^ Jr^JTTA^^ c^A^ ^Jl^^^l^i^o 
^ /^TK^^^^/ ^^.>.*U^ ^'ê^-^^.zJi^^ (^^/Uy^^ 

/í'à^^ ^c^^/i ♦^^'v '*y-*9í^^ ^'-u*^ c^ •^c^j^'/'-%^'^ 










^yff£ ^íCm*^^í:> ^(^ffmryi0-7^Í^i^íi'rcrf^í^<Í:> 



Despacho determinando que Pedro Serrão de 
Castro seja submetido a tormento. 



24 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

com as esmolas que pediam! Doesta forma dava 
elle cumprimento ás obras de misericórdia e, 
se não acreditava em ganhar com elas a mansão 
celestial, supunha pelo menos livrar-se das sus- 
peitas inquisitoriaes e da correlativa chama das 
fogueiras. 

Pura illusãol 

Debalde Pedro Serrão persistio na mais for- 
mal e terminante negativa. Debalde apresentou 
os testemunhos dos pintores Félix da Costa e 
Braz d' Almeida, seu irmão, o primeiro dos quaes 
disse que elle muito se entregava á leitura da 
vida de Christo, e o segundo declarou que tão 
bom christão era que até para Hespanha lhe 
escrevera a recommendar-lhe viver Limpa e cas- 
tamente (1). Debalde o bom do padre Bartolo- 
meu do Quental declarpu tê-lo na melhor conta. 

Para os inquisidores, senhores como esta- 
vam, de segredos que elles não possuíam, isto 
tudo não passava de disfarces. 

(1) Não devemos passar adeante sem fazer no- 
tar que os dois pintores Félix da Costa e Braz 
d'AImeida teem tido a sua biographia muito envolta 
em mysterios. Do ultimo escreveu Barbosa Machado, 
Bibliotheca Lusitana, tomo 4.o pagina 82, que era 
professor de pintura e escultura, e que tinha es- 
cripto em 1695; estas indicações foram transcriptas 
por Raczinski, Dictionaír& Hlstonco-Artistlque dii Por- 
tugal, pagina /4. Do primeiro escreveu Raczinski, a 
pagina 57, dizendo-nos apenas, quanto á sua bio- 
grafia, que fazia parte da irmandade de S. Lucas 
em 1705 'e morreu em 1712. Podemos acrescentar 
os seguintes dados extrahidos dos seus depoimentos: 
Eram irmãos e moravam, em 1677, na rua dos Ca- 
lafates; Félix da Costa nasceu em 1642 e Braz d'AI- 
meida em 1649. 

Também do depoimento do padre Bartolomeu do 
Quental se .deduz que elle nasceu em 1628 e não 
em 1626, como diz Inocêncio. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 25 

Debalde alegou o ódio que lhe votavam 
os Pestanas, sendo até Antónia Pestana sua ini- 
miga capital porque pretendeu casar com elle. 

Para os inquisidores isto tudo não passava 
de embustes, e por isso, a 17 de Março dje 
1682, foi mandado pôr a tormento, que se effec- 
tuou no dia 1 d' Abril. Pelas nove horas da 
manhã sentaram-no no escabello, mas apezar das 
dores horrorosas que sentia, apezar de gritar de- 
sesperadamente pelo nome de Jesus, nada lhe 
conseguiram arrancar. 

Mais firme e pertinaz que o irmão foi quei- 
mado no Terreiro do Paço, no dia 10 de Maio 
de 1682, por causa dos testemunhos de seu 
pae, irmão e tios. 

Simplesmente horroroso I 

Denotou também grande coragem a única 
filha de António Serrão de Castro, Thereza Ma- 
ria de Jesus. Mas coragem somente até ao pon- 
to em que a enganaram dizendo-a condenada 
á morte. Então, a pobre rapariga sucumbio e 
acusou a familia toda. Fez até acusações de que, 
como adeante veremos, bem depressa se arre- 
pendeu. 

No decurso do processo lançou suspeitas 
sobre toda a familia Pestana, que considerava 
como inimiga da sua e sobre as suas três tias 
que queriam dar ordens na casa "do pae. 

Thereza de Jesus tinha dezoito annos quan- 
do seu pae cahio sob as garras do Santo Officio, 
Indigente como ficara, foi viver para casa de 
seu primo Luiz de Bulhão; dois mezes foi co- 
mer a casa da sua prima Izabel de Balboa, mas 
ficou escandalisada com ella desde que o marido 
faltou com mesadas ao seu irmão Luiz, estudante 
então em Salamanca, como dissemos. 



26 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

Bonita, talvez, pois que, a darmos-lhe cre- 
dito, o banqueiro Gaspar da Costa de Mesqui- 
ta (1) tentou violenta-la, e Martim Pestana bas- 
tantes diligencias fez para a namorar, bem cedo 
se fanariam as rosas d^aquelle rosto, encerrada 
durante nove longos annos num cárcere, tendo 
como companheiras duas mulheres culpadas como 
ella, Maria Francisca e Paula de Moura. Para 
mais pouca saúde logrou lá dentro; sangrias 
levou mais de duzentas e de sangue-sugas nem 
se falia I 

Condenada, em 1 de Maio de 1682, a ser 
relaxada á justiça secular, não se executou, como 
já vimos, a sentença por ella ter feito as suas 
confissões. E assim foi ao auto da fé de 10 
de Maio de 1682, ouvindo então ler a sentença 
pela qual era condenada a cárcere e habito pe- 
nitencial perpétuos com insígnias de fogo e de- 
gredo para o Brazil. 

No entretanto tinha-se arrependido d'algu- 
màs confissões que fizera. Como é natural, pe- 
savam-lhe na consciência as acusações a pessoas 
ainda não presas e que em virtude d^ellas o po- 
deriam ser. Thereza de Jesus resolveu por isso 
retratar-se, mas o caso ia-lhe sahindo mais caro 
do que supunha porque os inquisidores perce- 
beram que ella pretendia apenas salvar essas 



(1) Este banqueiro não escapou á sanha inqui- 
sitória!. Razão tinha para proferir a frase que lhe 
atribuíram de que só em Roma se podia viver, por- 
que só ahi estavam sem o susto de lhe baterem á 
porba e eram senhores do que era seu. Preso em 
25 de Abril de 1682, foi condenadio a carcerie e habito 
penitencial perpetuo. Foi ao auto da fé de 8 de 
Agosto de 1683. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 27 

pessoas, e, por muito favor foi apenas reprehen- 
dida asperamente na mesa inquisitorial. 

O seu estado fisico não podia ser peior; 
tão máo era que nem força lhe encontravam 
para ser transferida do cárcere da penitencia 
para o Limoeiro e por isso lhe foi dispen.sada 
a pena de degredo. 

De Duarte de Castro nada mais sabemos, 
além do pouco que já dissemos. 



sentença final contra o poeta — como 
um académico íronista degenera num 
mendigo — desenlace trágico da sua 
família. 

No dia 17 de abril de 1682, foi finalmente, 
pelos inquisidores de Lisboa proferida uma sen- 
tença em que, por lhes parecer que Serrão de 
Castro tinha dito bastante de si, de suas irmãs 
e filhos e até de pessoas ainda não indicadas, 
por satisfazer a maior parte da informação da 
justiça e assentar na crença dos seus erros, são 
de opinião que seja recebido ao grémio e união 
da Santa Madre Igreja com cárcere e habito pe- 
nitencial perpetuojs e vá ao auto publico da fé na 
forma costumada, ali oiça a sentença e abjure 
publicamente dos seus erros, sendo-lhe confisca- 
dos os bens. Em 2 de maio confirmou o Conse- 
lho Geral esta sentença e em 10 ia finalmente 
ao auto da fé. 

Conta-se que nesse dia, ao recolher-se a 
procissão já de noite, um rapaz o reconheceu 
entre os penitenciados que iam com as vellas 
acesas. 



^r^^ y^^^^^^/^^^f^. 




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a. r-t eC^ CO -^-r^ Cl/oÍ, 



Requerimento '^m nome de António Serrão 
de Castro pedindo que o aliviem do habito 
penitencial, porque é pobre, velho e quasi 
cego € com o habito não pode á vontade 
esmolar. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 29 

— «Alli vae O Serrão» disse elle; e o Poe- 
ta olhando para o familiar respondeu: 

— «Pescaram-me ao candeio». 

Nem em occasião tão trágica perdeu a pro- 
verbial agudeza! 

Pouco tempo demorou a sua instrucçao nos 
mysterios da religião catholica. 

No dia 21 doeste mesmo mez foi chamado 
para lhe dizerem que neste primeiro ano se 
devia confessar nas quatro festas principaes, isto 
é, na Assumpção de Nossa Senhora, Natal, Pás- 
coa e Espirito Sancto ; cada semana devia re- 
zar um rosário á Virgem e cada sexta-feira 
cinco Padre Nossos e cinco Ave Marias ás cinco 
chagas de Christo. Assinaram-lhe então por cár- 
cere a cidade de Lisboa d'onde não podia sahir 
sem licença do Santo Officio, devendo assistir 
na igreja de S. Lourenço todos os domingos e 
dias sanctos á missa e pregações com o habito 
penitencial que de resto devia trazer sempre so- 
bre o fato. Este habito amaldiçoado atrahia-lhe 
as attenções da turba que o rodeava, cobrindo-o 
de doestos e injurias. Nem ao menos podia 
em paz e socego estender á mão á caridade pu- 
blica... 

A Inquisição compadeceu-se doesta vez. E 
generosa com quem estava á beira da sepultura, 
consentio, em 25 de Maio de 1682, que a sua 
filha e irmã Paula fossem viver com elle e em 
2 de novembro de 1683 foi-lhe finalmente ti- 
rado o habito penitencial. O misero velho tinha 
73 annos, estava cego e os seus dois filhos, 
que escaparam! á fogueira, tinham perdido^ o juizo 
e estavam dementes!... 

Assim tão tragicamente se extinguia uma 
familia. 



30 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



ANTÓNIO SERRÃO DE CASTRO E CAMILLO 
CASTELLO BRANCO — RECTIFICAÇÃO ÁS INE- 
XACTIDÕES D'ESTE. 

Foi Camillo Castello Branco quem, em 1883, 
publicou o poema Os Ratos da Inquisição de 
António Serrão de Castro, inédito até ahi. Pre- 
cedeu-o d^um extenso Prefacio biographico. O 
poeta era pouco conhecido. Barbosa Machado, 
Costíi e Silva e o próprio Innocencio poucas 
palavras lhe dedicaram, dizendo-se ignorantes 
do seu modo de vida e d^outras circumstancias 
da sua biografia. 

Camillo invectiva-os por tal motivo. E ajuda- 
do dos seus discursos publicados na Academia 
dos Singulares, das suas poesias e da sentença 
do filho publicada por A3^res de Campos no Ins- 
tituto de Coimbra, volume 9, adeantou bastante 
na biografia do Poeta, mas fantasiou muito, por 
não conhecer os processos da Inquisição contra 
elles. 

Assim diz que António Serrão foi preso 
no dia 8 de maio de 1672, quando a ordem de 
prisão, cujo original está no processo, é datada 
de 24 e nesse mesmo dia deu entrada nos cár- 
ceres do Santo officio. 

Depois apresenta-nos como origem da pri- 
são da familia Serrão o facto do seu filho Pedro 
ter tido a desgraçada lembrança de escrever uma 
satyra, «fantasiando, torneios que celebravam uma 
festividade universitária no recebimento de um 
reitor também imaginado». D'esta forma «envol- 
veu na sua chacota a fradaria toda de Coimbra 
e todos os collegios monacaes, sem exceptuar, ao 
menos, os dominicanos». Ora dos processos nao 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 31 

consta que Pedro Serrão frequentasse alguma 
vez a Universidade de Coimbra e nem a minima 
alusão se faz á sua musa irónica e maldizente. 
A origem da prisão foi, a nosso ver, muito outra. 
A familia Serrão era, é isso evidente, cumpridora 
dos preceitos moysaicos; também o era a fa- 
milia Pestana com quem viviam de paredes meias 
e com quem faziam ceremonias em comum. 
Um belo dia desavieram-se, e como um dos Pes- 
tanas cahisse na rede do Santo Officio apressou- 
se a denunciar os seus então inimigos Serrões. 
Doestes as velhotas, irmãs do Poeta, foram as 
primeiras a fazer confissões; depois, vendo-se 
perdidos, denunciaram-se uns aos outros, e só 
Pedro Serrão soube pertinazmente resistir e por 
isso foi victimado no Terreiro do Paço. 

No já citado Prefacio biographico diz Ca,- 
millo não saber o nome do irmão. Pois agora 
se fica sabendo, como também as trágicas con- 
sequências do malfadado auto da fé de 10 de 
maio de 1682. 

Camillo diz-nos ainda que «o filho, cujo 
nome ignoro, de António Serrão, morreu na tor- 
tura ou pereceu pelo suicídio no cárcere; Pe- 
dro Serrão, o da Satyra, e seu pae estiveram á 
espera da sua sentença dez annos menos dois 
dias a contar de 8 de maio de 1682, dia emi 
que sahiram no auto da fé». É tudo inexacto, 
como vimos. Luiz Serrão endoideceu depois de 
sahir do cárcere do Santo Officio, e Pedro Serrão 
só foi preso em 20 de setembro de 1673. 

UMA POESIA INÉDITA DE SERRÃO DE CASTRO 

Não findaremos o estudo do Serrão sem 
publicar um producto da sua musa faceta e cho- 



32 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

carreira tal qual o encontramos num manuscrito 
seiscentista, (^) ao qual somente actualisâmos a 
grafia. 

Camilo não o publica nos Ratos da Inqui- 
sição. 

Ei-lo, com titulo e tudo: 



Decimas qae fês o Serrão depois de ir no 
aiit\o da fé a um negro que foi á taberna de 
ama mulher chamada F. dos Santos e lhe co- 
meu peixe, pão e lhe bebeu muito vinho e se 
foi sem pagar. 



Hontem á taberna da Santos 
Veio um negro dos diabos 
E comeu nella a dois cabos 
De peixes tantos e quantos 
Mas com comer então tantos 
Quantidade de pão 
Não me fás admiração 
Tivesse nesta ruína 
Um negro fome canina 
Porque, é a tal fome de cão. 



Dous contrários num sujeito 
O negro unio neste trato 
Pois a um tempo cão e gato 
Mostrou ser em o seu feito 
Depois de bem satisfeito 
Pedio vinho á taberneira 
Ella Ih^o deu mui ligeira 
Mas o negro nesse dia 
Qual perro fês perraria. 
E qual gato usou gateira 



(1) Torre do Tombo, n.o 1149, da Livraria. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 33 



Como uma pulga comia 
Com tal pressa e de maneira 
Que era vivente frieira 
E uma sarna parecia 
Pois quando o vinho bebia 
Era sanguesuga o cão 
Que como nesta ocasião 
Tanta fome e sede tinha 
Deixou o prato na espinha 
Pôs em seco o cangirão. 



Vinha o perro perdigueiro 
De fome galgo esganado 
E bebeu como um danado 
E comeu como um rafeiro 
Quando a mulher o dinheiro 
Do gasto ao negro pedio 
Em branco a pobre se vio 
Que como o vinho era branco 
E levantou o cão branco 
Em branco a sorte sahio. 



De peixe e pão se fartou 
Sem fastio o negro feio 
Porque comer do alheio 
A ninguém enfastiou 
Depois que o prato limpou 
E secou o cangirão. 
Disse a taberneira então 
Vendo do negro a má treta 
Mancaverunt the galheta 
Lampiatus est meu pam. 



Foi-se o negro sem pagar 

E comeu á tripa forra 

Que o bom filho da cachorra 

A caça apanha no ar 

A taberneira a gritar 



34 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Começou e o negro absorto 
Como tinha bom conforto 
Correu com passo esquisito 
E como era perro vivo 
Deu á mulher perro morto. 



As trovas fotografam bem o Poeta e dão- 
nos ideia exacta do tempo em que viveu. 



II 



o ENGENHEIRO E INVENTOR 
BENTO DE MOURA PORTUGAL 

1743 a 1748 



Bento de Moura Portugal, informa Ino- 
cêncio (Dir. Bib., vol. I) foi fidalgo cavalei- 
ro da Casa Real, por alvará de 24 de março 
de 1750 e cavaleiro professo na ordem de 
Cristo. Nasceu em Moimenta da Beira a 21 
de março de 1702 e, tendo viajado oito anos, 
foi preso por suspeito de inconfidência em 1760 
e lançado no forte da Junqueira com outros pre- 
sos que ahi permaneceram até o falecimento de 
D. José. No fim de 16 anos de prisão morreu 
a 27 de janeiro de 1776. 

Figura no Dicionário de Inocêncio por ter 
escrito: 

Inventos e vários pianos de melhoramentos 
para este reino, escriptos nas prisões da Jun- 
queira, pequena amostra de 28 cadernos de pa- 
pel onde estavam escritos os seus projectos e 
descobertas. 



36 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

Apezar de formado em Direito em 11 de 
maio de 1731 poz de lado as Ordenações e o 
Digesto para se entregar ás matemáticas, sua 
vocação natural, especialmente a mecânica e a 
hidráulica. Mandaram-no viajar pelos paizes es- 
trangeiros e regressando a Portugal foi ocupado 
[sucessivamente na abertura dos paúes de Villa 
Nova de Magos, Juncal e Tresoito, do que re- 
sultou grande utilidade á agricultura do Ribatejo. 

Preso em 1760 por suspeito de inconfidên- 
cia no cárcere permaneceu até á sua morte ocorn- 
da em 27 de janeiro de 1776. Numa carta que 
escreveu ao conde de S. Lourenço, seu com- 
panheiro de infortúnio, fez Moura Portugal a 
resenha dos seus serviços e inventos, cujo su- 
mario é o seguinte: 

l.o Descoberta de um artefacto por modo 
de navio para conduzir madeiras do pinhal 
real de Leiria e talvez mesmo do Pará e 
Maranhão, com o que produziria a utilida- 
lidade de 500 mil cruzados anuaes; 2.o modo de 
provar que nas terras alagadiças que correm 
ao longo dos rios ha ouro; 3. o modo de embara- 
çar com um dique engenhoso na serra de Vila 
Velha a corrente do Tejo nas cheias, de sorte 
que continue sua corrente para o mar sem alagar 
e prejudicar os campos, do que resultava não 
faltar pão em Lisboa; 4. o o mesmo invento pára 
o Mondego com ainda maior utilidade do cam- 
po e da salubridade de Coimbra; 5." a apli- 
cação de remos aos navios de porte na ocasião 
de calmarias fazendo-os navegar meia légua por 
hora; 6.o a roda hidráulica inventada em 1761 
no paiíl de Foja para enxugar as terras ala- 
gadas e que no curto periodo decorrido até ao 
tempo em que o autor escrevia já tinha dado ao 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 37 

reino utilidade de milhões de cruzados; 7.o a 
novidade da barca de Sacavém, cuja forma se 
usava já nas praias estrangeiras mas era des- 
conhecida em Portugal; 8.° A reforma da lei 
para a capitação das quintas com a qual, segundo 
diz Bento de Moura, o rei e o povo recuperaram 
muitos centos de mil cruzados; 9.» os paúes di- 
secados e apertados «de que sabem as mesmas 
pessoas reaes (dizia o autor) com tão pouco 
custo e despesa que não o podia crer o povo 
senão quando os viu dar fructo. lO.o o modo 
de aproveitar os demais paúes de que teve no- 
ticia desde Alcácer até ao Mondego, trabalho 
este composto no cárcere e escripto pelo Pe. 
João Matos, seu companheiro. Fala ainda ern 
outros inventos, mas até agora era totalmente 
desconhecido que tivesse tido os seus dares e 
tomares com a Inquisição. Como são interessan- 
tes ei-los. 



<% 




4^r^^i^ 



Fac-simile da assinatura de Bento de Moura 
Portugal. 

Em 12 de julho de 1743 fr. Francisco de 
Jesus Maria Sarmento, do convento de Jesus, 
dós Cardeaes, dirigio-se aos inquisidores a de- 
nunciar — palavras suas — «hu sogeito secular, 
por nome Bento de Moura Portugal, natural (me 
parece) de Moimenta da Serra da Estrella, que 
tem officio de engenheiro, e por cujo respeito 



38 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

lhe dá S. Magestade carruagem para andar nes- 
ta corte, aonde assiste em hfias casas, que estão 
defronte de hum oratório no meyo de hua tra- 
vessa, que vai ter do Chiado ás casas do Vis- 
conde de Barbacena». 

Em conversa com ele Bento de Moura afir- 
mou o seguinte: 

que lhe não parecia justo corresponder á 
culpa mortal eterna pena; que não havia na 
Igreja católica milagre actual que com a sua 
evidencia causasse admiração, nem convencesse 
os herejes. Falando-lhe a este propósito fr. Fran- 
cisco de Jesus Maria nos milagres do corpo 
inteiro de Santa Catharina de Bononia e da lin- 
gua incorruta de Sto. António, Bento de Moura 
replicou «que elle vira huma e outra cousa, 
porque viajou a mayor parte da Europa e que 
o corpo da santa era, sem mais diferença, como 
o de hum esqueleto de qualquer mirrado; e a 
lingua de Santo António estava tão longe de 
introduzir devoção que, parecendo de páo preto, 
causava horror». Apreciando Bento de Moura 
acrescentava fr. Francisco que «o tal sojeito por 
ser bastante subtil, e ao mesmo passo muito 
amante da sua opinião, causará damno e pre- 
juizo ás almas, continuando semelha,ntes dispu- 
tas; como sei de certo praticou já na presença do 
Serenissimo Senhor Infante D. António que lhe 
he affeiçoado, pela sua grande viveza». 

A esta denuncia acresceu a de Pedro Men- 
des Lourenço, sacerdote do habito de S. Pedro, 
que ouvio acusações varias a pessoas discretas 
do Sardoal, onde elle costuma ir passar algum 
tempo, em casa do capitão-mór Francisco Xavier 
de Mendóça. Em consequência dMsto ó -promo- 
tor da Inquisição requereu a inquirição das 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 39 

respectivas testemunhas, o que os inquisidores 
despacharam em 20 de dezembro de 1745. 

Com efeito, no Sardoal, a 26 de janeiro de 
1746 fazia-se o interrogatório. 

Primeiramente de Jacintho Serrão da Mota, 
solteiro, da nobreza da vila. Declarou ter-lhe 
ouvido proposições heréticas, que depois sal- 
vava, atribuindo-as a jocosidades e entre elas 
a de que «os turcos erão mais observantes da 
sua léy do que os mesmos christams e que 
Deos havia de uzar com elles de mizericordia, 
pois não creara aquellas almas para as entregar 
ao diabo». 

Além d^sso Bento de Moura não dava cre- 
dito aos milagres. 

Segunda testemunha foi o capelão de Fran- 
cisco X^""- de Mendonça, o p^- Manoel Alvares, 
que, por ser teólogo, fez acusações mais precisas: 
dizia Bento de Moura que não havia possessos; 
que todos se haviam de salvar, comprazendo-se 
nas conversas contra a fé. 

Terceira testemunha Manoel Freire Peixo- 
to, cavaleiro professo na ordem de Christo e dos 
principaes do Sardoal; o qual ouvio Bento de 
Moura afirmar que as relações sexuaes só eram 
pecaminosas sendo com mãe ou irmãs. 

Quarta testemunha: Ambrósio Custodio Fer- 
reira de Miranda, filho do B'^'- Estevão Ferreira, 
a quem Bento de Moura deu a entender que não 
havia demónios. 

Quinta testemunha: Bento Manoel de Mou- 
ra, fidalgo da Casa Real, cavaleiro de Christo e 
familiar do S^'' oficio, e filho do capitão-mór 
em cuja casa Bento de Moura se hospedava, 
no Sardoal. Atribuía-lhe o duvidar de Herodes 
mandar matar os inocentes; admiraVa-se de, nos 



40 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

anaes de Roma, se não falar na morte de Christo; 
duvidava dos milagres dos santos e das revela- 
ções que tiveram. 

Sexta testemunha: Francisco Xavier de M.en- 
donça, pae do antecedente, cavaleiro de Christo 
como ele e familiar do Santo oficio. 

Confirmou os depoimentos anteriores. 

Eram não ha duvida,- discretos hospedei- 
ros! 

Sétima testemunha: António Brandão de 
Cordes Pina e Almeida, fidalgo da casa real, 
senhor do Alcaide e familiar do S^°- oficio. 
Confirmou os depoimentos anteriores. 

Remetendo esta inquirição ponderava o co- 
missário de Abrantes, que a ela viera presidir. 

...«Que todas as questões e duvidas que 
altercava nas suas praticas e conversas sobre lu- 
gares da Sagrada Escriptura o dito Bento de 
Moura Portugal erão nascidas de ter andado e 
assistido nos reynos estrangeiros como Ingla- 
terra e Olanda onde reyna a herezia calviniana 
e lutherana, e estes disputarião com elle seme- 
lhantes duvidas e questões por ser philozopho 
formado pela Universidade de Coimbra com vi- 
veza de juizo e discursos, como me constou, e 
assim se fás verosímil o publicar elle agora aos 
catholicos o que ouvio aos hereges, o que tão bem 
dá a entender a testemunha António Brandão 
de Cordes Pina e Almeyda, mas não se livra 
da prezumpção de outras o viver o dito Bento 
de Moura Portugal de algua sorte vacilante e 
pouco firme na fee catholica porque regular- 
mente todas as suas conversações e praticas érão 
em matérias pertencentes a ella e só a pode 
desculpar o não persistir na que dizia mal soante 
aos fieis catholicos e pioram auríant off ensivas, 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 41 

porque tanto que se lhe dizia encontravão a 
fee catholica se submitia e calava dizendo: 

— Miserere mei Deus. 

Não deichei de reparar na primeira testemu- 
nha Jacintho Serrão da Motta dizer que o que 
dizia e altercava nas suas praticas e conversas 
o dito Bento de Moura Portugal era por modo 
de jocosidade e mostrar delgadeza do seo juizo 
e experimentar os alheyos, não lhe gabo a ga- 
lantaria em matéria tão gravissima, porque delia 
pode rezultar aos que o ouvirem o vacilarem na 
nossa santa fee, e os que forem de vida licen- 
ciosa vivererri com muita mais liberdade, pouco 
temor de Deos e menos observância dos pre- 
ceytos divinos». — Isto era escrito a 30 de 
janeiro de 1746. 

Apareceu mais tarde novo denunciante: Gas- 
par Affonso da Costa Brandão, ministro, sub- 
diacono do habito prelaticio da Sta. Igreja Pa- 
triarchal. Por duas vezes, por escrito, se dirigio 
á Inquisição: em 4 de novembro de 1746 e seis 
dias depois. Referia disputas sobre assuntos reli- 
giosos; frases heréticas lançadas porventura irre- 
fletidamente e para mais em logar tão publico 
como era o mosteiro de S. Vicente de Fora. 

lam-se pois acumulando os testemunhos con- 
tra Bento de Moura e tantos que o Promotor re- 
quereu a sua prisão sem sequestro de bens ao 
que os inquisidores porém não deferiram e, em 
28 de dezembro de 1746, ordenaram que uma 
das testemunhas fosse novamente interrogada e 
fr. Francisco de Jesus Maria Sarmento chamado 
egualmente a esclarecer a sua denuncia. 

Com efeito, em 8 de fevereiro de 1747, 
no Sardoal, era interrogado Jacintho Serrão de 
Mota que não aumentou a culpabilidade de Ben- 



42 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

to de Moura Portugal. O mesmo não aconteceu 
com o comissário de Abrantes que referindo-se 
ao réu escrevia textualmente: 

...«Não posso deixar de expor a V. S.» a 
aversão que este Bento de Moura tem ao Santo 
oficio. No fim deste verão próximo passado pas- 
sou por estas partes e foi pernoitar no lugar 
de Alvega, termo desta vila, em uma quinta de 
Luiz Francisco de Mendonça onde se achava o 
Abbade de Sylva Escura, o Pe. José Leandro, 
natural doesta vila e dois irmãos do dito Luiz 
Francisco e estando todos á mesa trouxe o dito 
Bento de Moura á colação as diferenças que 
havia entre alguns senhores bispos com o Santo 
Oficio e disse que os srs. inquisidores haviam de 
estar contentes porque qualquer dia haviam de 
ter ordem para inandarem açoutar os bispos, e 
se tinham eles visto as varias obras que neste 
particular se tinham feito por parte do Santo 
Oficio, principalmente de um letrado toleirão da 
Gorte em chamar ao Santo Oficio propugnacalam 
incontrasbíle fidei conheceram todos a displicên- 
cia e desprezo com que falava no Santo Tribunal 
e lhe disse o abbade: 

— Pois você não acha que está bem dito 
e bem dado ao Tribunal da fé o propagíiaculunt 
inccntrasbile fidei?! 

Calou-se porque conhece a grande venera- 
ção e respeito que todos geralmente, grandes e 
pequenos, têm ao Sto. Tribunal e respondeo: 

— Cá por fora não pode um homem falar 
com largueza, o que seria se estivesse ria corte». 

Era natural que taes rumores fossem chegan- 
do aos ouvidos de Bento de Moura e por isso, 
em 5 de fevereiro de 1768, ele dirigia-se com 
um oficial do Sto. oficio a casa do inquisidor 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 43 

dà primeira cadeira, a quem entregou a seguinte 
retratação: 



CONFISSÃO E RETRATAÇÃO DE BENTO DE 
., MOURA PORTUGAL 

Depois que entrei neste Reyno, costumado 
á liberdade com que nós do Norte se fala em 
ímaterias de religião, tenho tido algumas praticas 
ou questões que pudera escusar e suposto que 
nunca nellas pretendi nem entendi violar a pu- 
reza da Sta. Religião Católica romana em que 
por graça de Deus nasci e na qual e pela qual 
protesto € protestei sempre morrer e dar a vida 
se necessário for; poderia dar algum escândalo 
por mal me oCplicar ou por mal me entenderem, 
ou porque a força do argumento me faria irri- 
tar e dizer alguma cousa que não dev^esse su- 
posto que segundo minha lembrança sempre em 
semelhantes ocasiões me reportei dizendo que 
se alguma cousa contra a fé ou bons costumes 
dissera o havia por não dito na falta do quê, 
o que afirmo não podia ser de propósito por 
que sempre o meu animo foi e é crer tudo o 
que crê e ensina a Sta. Madre Igreja Católica 
Romana e todas as suas definições ainda no caso 
de serem contrarias ao meu juizo pelas conside- 
rar superiores a ele e saber que sou obrigado 
a crê-las e respeitá-las como regras infalíveis 
sem embargo da dita minha cautela e credencia 
se em alguma coisa faltei ou pareci faltar peço 
a V. S.as me perdoem e lhe prometo nunca 
mais falar em taes matérias porque ainda que me 
parece que se a V. S.as lhe chegassem como eu 
as altercava e entendia as não reprovariam, sem- 



44 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

pre acha que fiz mal em falar no que me não 
pertence nem bem entendo porque não sou teó- 
logo nem versado na Escritura Sagrada. 

As ditas questões rolavam comumente sobre 
as matérias seguintes: 

Se são mais os que se salvam ou os que 
se perdem, sobre o que algumas vezes disse 
que suposto que o numero dos católicos romanos 
seja muitoi menor que o dos que o nam são 
pode haver alguma esperança de que sejam mais 
os que se salvem porque aos mesmos turcos e 
gentios que procederem bem poderá Deus na 
hora da morte aclarar em termos que reconhe- 
çam a verdade da nossa santa religião e dese- 
jando-a ardentemente se poderão salvar por meio 
do baptismo flaminis. 

Se se devia dar inteiro credito ás confissões 
que as bruxas ou feiticeiras fazem neste santo 
tribunal ^obre o que algumas vezes disse que 
como eram pessoas costumadas a mentir e a 
fingir cousas que as fizessem temer: afim de lhes 
acudirem as suas necessidades e emportarem no 
mundo alguma cousa poderiam confessar cou- 
sas que não fizeram e somente fingiram tinham 
feito e considerando que- das mesmas mentiras 
que fizeram crer por verdades as tinham as 
confessariam sem as terem feito e a este mes- 
mo respeito disse muitas vezes que se algum de 
V. S.as dissesse, que lhe tinha visto fazer alguma 
cousa da^s que eles confessam eu acreditaria 
mas que emquanto fosse somente pella con- 
fissão delas me não certificava de todo. A, res- 
peito das endemoninhadas também algumas vezes 
disse que emquanto não fizessem ou dissessem 
cousa sobrenatural me não considerava pbrigado 
a dar-lhe inteiro credito, 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 45 

As muitas muletas e outros sinaes de mila- 
gres que se vem na ermida do Senhor da Pedra 
e em outras também algumas vezes me ocasio- 
naram dizer que poucos daqueles milagres ou 
talvez nenhums seriam certos e que se eu via 
que Deus não sarava milagrosamente a El-Rey 
por quem tantos servos seus lhe pedem entre 
os quaes me parece ha-de haver alguns justos 
como hei-de supor que faz tantos milagres a 
tantos pobretões que talvez passariam melhor 
aleijados e talvez que pelo assim suporem se 
fingiram taes e depois por se não acharem tão 
bem como esperavam se valeram do pretexto do 
milagre para tornarem ao estado antigo. Isto, 
senhores, parece-me fácil de suceder mais de uma 
pessoa me tem dito fizera falar mudos e eu mes- 
mo o fiz deante de três testemunhas que todas 
estão vivas e respondeu e confessou se tinha 
fingido tal para lhe darem mais esmolas. Tam- 
bém sobre o mesmo assunto me lembro disse 
algumas vezes que para o milagre da reprodução 
de Sto. António houvera justo motivo e que sem 
elle nie não parecia que Deus os fizesse sem 
embargo de que conheço e reconheço que não 
posso julgar se ha ou não necessidade de mi- 
lagre e assim o tenho dito em semelhantes oca- 
siões as quaes d'aqui por diante evitarei como 
já de alguns mezes a esta parte tenho evitado. 
O meu juizo, senhores, engana-me muitas vezes 
em cousas materiaes e seria eu louco se lhe con- 
fiasse a decisão das espirituaes. Eu creio em to- 
dos os milagres que a Igreja aprova e que houve 
endemoninhados e pode a presente haver alguns 
e só duvido que todas quantas mulheres se fin- 
gem ou imaginam taes o sejam, como também 
que sejam milagres todos quantos o povo tem 



46 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

por taes. Nem me lembro ter afirmado ou dito 
cousa contraria á nossa santa fé e bons costumes 
e somente repetido o que nos reinos estrangei- 
ros ouvi poderia escandalisar os circunstantes 
como por exemplo algumas vezes disse que ouvia 
dizer a muitos estrangeiros que o Sto. Moysés 
fora mais politico que outra cousa e ao mesmo 
tempo zombar das estipulações que o dito santo 
e David -faziam com Deus, dizendo que a infi- 
nidade doeste lhe não consentia defender mas 
sempre disse que emquanto a mim os tinha 
por santos visto mandá-lo assim a Sta. Madre 
Igreja e ser cousa de fé que é a tudo superior. 
Emfim, Senhores, em semelhantes ocasiões ou 
tempo algum tive animo de ofender a pureza 
da nossa santa religião como já fica expressado 
sem embargo do que se entende que tenho dito 
alguma cousa mal soante ou de que se possa 
seguir escândalo e assim se determinar pór este 
santo tribunal eu a retrato e detesto de todo o 
meu coração e protesto seguir tudo o que nelle 
se determinar. Espero da benignidade de V. S.'is 
recebam esta minha apresentação como filha do 
arrependimento do escândalo que possa ter dado 
e de me meter a falar em matérias alheias da 
minha profissão o que nunca mais farei. 

Lisboa, 5 de fevereiro de 1748. 

Bento de Moura Portugal. 



O Promotor da Inquisição porém não achou 
suficiente esta retratação e argumentava: 

«Mas porque é fama publica que o delato 
não só continua a falar com errada e . escanda- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 47 

Josa liberdade em pontos de fé, negando o ha- 
ver pecados; porque afirma que Deus é que 
tem a culpa dos homens obrarem mal, pois lho 
permite; mas também que o mesmo delato con- 
serva grande amizade com Alexandre de Gus- 
mão, o qual, sem contradição de pessoa alguma, 
uniformemente se reputa por origem principal 
dos escândalos que ao presente perturbam este 
reino com gesto dos hereges de que, com razão 
se temem perniciosíssimas consequências. E por- 
que juntamente quero mostrar que a dita apre- 
sentação não deve valer ao delato para deixar 
de se proceder contra ele, continuando-se a sua 
causa até final conclusão». Requeria por fim vá- 
rios interrogatórios que se não chegaram a efe- 
tuar e o processo foi arquivado. 

Para alguma coisa serviram as boas rela- 
ções e proteções do ilustre engenheiro que, pas- 
sados anos, viria a cahir prisioneiro por motivos 
políticos. 

Lingua solta, escapou das suas irreverências 
contra a religião, mas não, como já vimos contra 
a politica dominante, (i). 

«Estimado egualmente por dois soberanos, 
D. João V e D. José I, bem visto da rainha 
D. Mariana Victoria de Bourbon, escreve o 
sr. Alberto Telles numa Memoria acerca de 
Bento de Moura Portugal publicada pela Aca- 
demia em 1890, e venerado dos contemporâneos 
ilustres, assim no reino como fora d^ele, está 
hoje quasi de todo esquecido Bento de Moura 
Portugal». 



(í) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 6.193. 



48 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

Nas paginas que acabam de ler-se fica um 
valioso e até aqui ignorado elemento para a 
biografia do homem que teve a infelicidade de 
ser alvo dos ciúmes do onipotente marquês de 
Pombal. 



III 

o CAVALEIRO D^OLIVEIRA 

(OUTUBRO DE 1755 A SETEMBRO DE 1761) 



Assistia em Londres Francisco Xavier d^Oli- 
veira, que então se enfeitava com o grau de ca- 
valeiro professo da ordem de Christo, quianT 
do á Inquisição de Lisboa constou que em In- 
glaterra se imprimira certo livro, cujo autor 
satirisava o Santo Oficio, reprovava a publica- 
ção da Biblia em lingua vulgar, impugnava o 
culto ou adoração das imagens e queria alfim 
convencer os seus leitores de que tudo isso ori- 
ginara o castigo de Deus manifestado no terrí- 
vel terremoto de 1755! De tal maneira, á se- 
melhança do que se passou com o de 1536, se 
aproveitaram doeste fenómeno natural para d'ele 
tirarem efeitos políticos ou religiosos! 

Não se fez por isso tardar o respectivo su- 
mario de testemunhas. E successivamente de- 
puzeram perante os inquisidores, nas audiências 
da manhã: 



50 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



1.0 O padre José Thomás Borges; conhecia 
a obra, dividida em três livros e cujo fim prin- 
cipal era convencer El-Rei que o terremoto vie- 
ra em castigo dos pecados públicos da nação, 
os quaes eram na primeira parte a idolatria co- 
m^eUda no culto das imagens a que se dava 
adoração... e a conservação do tribunal da In- 
quisição neste Reino; o exemplar referido pela 
testemunha veio de presente a Joaquim Perei- 
ra da Silva Leal e julga-o muito pirejudicial á 
Egreja pois o seu intento é convencer El-Rei 
de que virá outro castigo se não tirar os in- 
convenientes que se põe pelas causas acima 
referidas como se mostra de três cartas encor- 
yporadas no proemio do sobredito livro, escri- 
tas uma á Rainha de Espanha, outra ao infanta 
D. Manoel e a terceira â Academia Real da 
Historia Portuguesa. 

2.0 Fr. Francisco da Visitação Massarelos: 
não vio o livro mas sabe-o escrito em fran- 
cês e que o seu autor, Francisco Xavier dadi- 
ve ira, seguia a seita de Lutero; 

3.0 Joaquim Pereira Leal contou como, por 
ser da Academia de Historia, e por intermédio 
do inglês Lucas Foreman, lhe chegara á mão 
um exemplar da obra do Cavaleiro d^Oliveira 
cujo titulo era: 

Discours pathetique au sujet des calamítés 
presentes arrivées en Portugal adressé à mes 
compatriotes et en particulier à Sa Magesté três 
Fldéle Joseph I Roy de Portugal par le cha- 
valier d^ Oliveira á Londres 1756. Na opinião 
doeste académico o escrito parece-lhe herético, 
blasfemo e petulantíssimo contra o Supremo 
Tribunal da Santa Inquisição. 

4.0 Fr. Bernardo do Desterro; 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 51 



5.0 Fr. Domingos da Encarnação que de- 
clarou o livro tão cheio de impiedade s, blas- 
fémias e calunias contra o Tribunal do Santo 
Oficio e seu rectíssimo procedimento que á mi- 
nha limitada comprehensão pareceram heréticas, 
mal soantes e horrorosas. 

6.0 Fr. José Malaquias, qualificador do 
Santo Oficio, como o anterior. 

7.0 Fr. Nicolau da Assumpção Bequer, egual- 
mente qualificador; 

8.0 Padre António Xavier Godinho, notá- 
rio apostólico; 

9.0 José Caetano, mestre de gramática; 

lO.o Salvador Soares Cotrim, familiar do 
Santo Oficio: se não conheceu a obra, conheceu 
e muito bem o seu autor, Francisco Xavier de 
Oliveira e Sousa, com quem teve trato de ami- 
zade durante 43 anos, até ele se ausentar como 
secretario da embaixada do conde de Tarouca, 
João Gomes da Silva; 

11. o João Pereira da Costa, cura da Igre- 
ja da Pena, em cuja freguezia, na travessa da 
Horta, residio Francisco Xavier d'01iveira; 

12.0 Padre José Agostinho Franco, coad- 
jutor na freguezia de S. José e ainda outras 
pessoas que conheceram sim o autor incrimina- 
do mas, nada mais. 

Em vista doesta grande carga contra quem 
estava a tantas léguas de distancia, em 16 de 
outubro de 1756, era o Réu citado para se 
apresentar dentro de cento e vinte dias, mas 
como se não apresentou — nessa não cahia 
ele! — correu á revelia a sua causa. 

O cavalleiro d^Oliveira, em Londres, rir- 
se-hia de certo da excomunhão maior que sobre 
ele pesava ameaçadora. 



52 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

CARTAS 

FAMILIARES, HISTÓRICAS 
POLITICAS, e CRITICAS. 

DISCURSOS 

SÉRIOS E JOCOSOS. 

Dedicados ao ExcellentiíIImo Senhor. 

ANTÓNIO GUEDES PEREYRA 

Commendador da Ordem de N^. S. Jefus 
Chrijloy Invíado Extraordinário que foi de Sua 
Magejlade na Corte de Madrid, Secretaria 
de E fiado do Reyno de Portugal éfí^. &c. £ír. 

Por 

FRANCISCO XAVIER DE OLIVEYRA . 

Cavalleyro PrôpheíTo da Ordem de N. S. 
Jefus Chrifto. 

TOMO II. 




M D C C X L I I 

Rosto da primeira edição de um livro do 
Cavaleiro de Oliveira. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 53 

Entretanto o promotor do Santo Oficio apre- 
sentava o seu libelo; o porteiro da Mesa apre- 
goava-o e dava a sua fé como não aparecia nem 
outrem por ele, á reveliia tudo ia correndo 
e á revelia foi sentenceado e condenado como 
convicto, negativo, pertinax, revel e contumaz. 
A sua obra foi qualificada como herética, seis- 
matica, sediciosa, errónea, injuriosa â Igreja Ca- 
tholica Romana e contraria aos dogmas da nos- 
sa Santa Fé. E a sua estatua — bonita es- 
tatua devia ser — na falta do original, assistia 
impassível á leitura da sentença no auto da fé 
celebrado no claustro do convento de S. Dor 
mingos, a vinte de Setembro de 1761. 

Foi relaxada á Justiça Secular mas não 
houve perigo do que tão humanamente a In- 
quisição pedia... que não Jtouvesse efusão de 
sangue. Não. 

A Justiça secular, não ha duvida, houve-se 
neste caso com o réo, benigna e piedosamente. 

E ele continuou rindo-se em Londres, rin- 
do-se a bom rir... (i) 



{}) O processo existe na Biblioteca de Évora 
e foi publicado no Arquivo Histórico Português, vol. II, 
e o Discours pathétique foi ultimamente reeditado 
pela Imprensa da Universidade de Coimbra e seguido 
de uma notável noticia bibliográfica pelo dr. Joaquim 
de Carvalho. 



IV 



o POETA FRANCISCO MANUEL 
DO NASCIMENTO 



(1778) 



Ocupêmo-nos de Filinto, o grão cantor. 

Em 22 de junho de 1778 enviou o be- 
neficiado Florêncio da Costa Pereira, notário 
do Santo oficio, noticia de que o presbitero se- 
cular José Manuel de Leiva, morador ao arco 
do Carvalhão, lhe viera referir ter ouvido a 
João da Silva, em cuja casa assistia, o se- 
guinte : 

Estando este João da Silva, em conversa 
com o padre Francisco Manoel, o nosso Filinto 
Elysio, prosaicamente proprietário da thesoura- 
ria da igreja das Chagas de Christo e sobri- 
nho de João Manoel, já falecido, que foi pa- 
trão-mór, estando em casa de um letrado por 
nome Luiz da Silva de Almeida, morador 
na Praça do Comercio, nas casas de Anselmo 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 55 

José da Cruz, o padre Francisco Manoel disse 
o seguinte: 

— Que não dessem credito a que o Padre 
Eterno houvesse de ter mandado ao mundo o 
seu unigénito filho para remir o género hu- 
mano. Falando-se doeste assurrto afirmou o pa- 
dre Francisco Manoel o seguinte: 

— Para que estão vocês cançandó-se, nem 
quebrando a sua cabeça com isso? Pois é possí- 
vel? 

E senão digam: Suponham vocês que era 
um homem rico e que tinha uma quinta ou fa- 
zenda onde tinha, por exemplo, uma noguei- 
ra, na qual, depois de mandar ao caseiro da 
quinta não bulisse, ele, quebrando o preceito, 
e ordem de seu dono, tirara delia uma noz e 
a comeu; era possível que o dono da quinta 
mandasse castigar seu filho pelo delicto que 
cometeu o caseiro? 

Cara lhe custou a alegoria, como vae ver-se. 

Em vista de tal depoimento, no dia 1 de 
julho, foi chamado á Inquisição o padre José 
Manoel de Leiva, de 33 para 34 anos e con- 
firmou a denuncia remetida pelo notário ao San- 
to Oficio. No mesmo dia foi também inquirido 
João da Silva, familiar do Santo Oficio, cava- 
leiro professo da ordem de Christo, em cuja 
casa estava o padre Leiva e depoz o seguinte: 

«Disse, que elle por ter conheciímento, e 
amizade com o Padre Francisco Manoel, sa- 
cerdote do habito de São Pedro, que morou 
em alguns tempos em casa do Patrão mór da 
Ribeira das Nãos que era seu Tio, e que hoje 
mora ao Bairro Alto, segundo tem ouvido di- 
zer, conversava frequentemente com elle, e nes- 
tas occasioens observou, que elle falava com 



56 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



muita liberdade contra a nossa Santa Fé Ca- 
tholica; e entre outras está lembrado que uma 
vez, falando-se sobre a Religião dos Mouros e 
dizendo elle testemunha que esta ceita era en- 
tre todais a peor, a mais mal fundada^ por con- 
ter muitos despropósitos e parvoíces; respon- 
dera o dito padre: 

Cale-se lá que assim como nós entende- 
moSj que só a Religião Catholica Romana, he 
a verdadeira, e em que ha Salvação e a mes- 
ma sorte, los mouros e os chinos crem, e en- 
tendem que só a sua he a verdadeira, e que 
só nella ha Salvação: que cada huma delias 
fora fundada por hum Profeta, asim como a 
nossa por Jesus Christo, que he hum Profeta 
como os outros, e por isso todas erão boas, e 
nelas havia Salvação e espantando-se elle tes- 
temunha de lhe ouvir proferir esta barbarida- 
de, elle persistio sempre no seu mesmo concei- 
to e acrescentou: 

Se entendia elle testemunha por cousa jus- 
ta, boa e racionavel, que hum homem rico que 
tinha um pomar e nelle posto hum caseiro para 
o seu trato e custodia, dando-lhe liberdade para 
usar e comer de todos os frutos que produ- 
zisse o dito pomar, exceptuando-lhe somente 
por exemplo huma nogueira, e prohibindo-lhe 
expressamente que não tocasse em huma só 
noz e obrando o dito pomareiro pelo contrario 
de sorte que o senhor do pomar o veyo a 
saber, se lhe parecia, disse, cousa boa, justa, e 
racionavel, que o senhor do pomar em lugar 
de castigar o dito pomareiro pela culpa que 
commeteo em tocar na fruta prohibida, casti- 
gasse antes e desse a morte a seu filho primo- 
génito innocente, e totalmente livre daquella 






^%.,.,v..,v^-^'^;..v,^/^ 



Filinto Elysio de trajo secular: aparenta 
cincoenta annos de idade. 



58 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



culpa; dando-lhe a entender com isto que o que 
se ensinava na nossa Santa Religião Catholica, 
de que o Nosso Deos permittisse, que seu uni- 
génito filho, nosso Senhor Jesus Christo, livre 
e innocente de toda a culpa, morresse pelo gé- 
nero humano em lugar de Adam, que foi o 
que peccou e faltou ao preceito, que o mesmo 
senhor lhe tinha posto de não comer do fructo 
prohibido, era o mesmo e em tudo semelhante 
ao caso acima proposto do Senhor do pomar 
a respeito do seu caseiro, que não observou o 
preceito de que não tocasse no fructo, ou na 
nóz prohibida: de que tudo ficou elle teste- 
munha entendendo, que o dito Padre Francisco 
Manuel tinha mãos princípios, e seguia erros 
a respeito da nossa Santa Fé Catholica. 

Disse mais que esta conversação passara 
entre ele e o dito Padre haverá anno e meyo 
pouco mais ou menos, em caza do Doutor Luiz 
da Silva e Almeida, advogado nos auditórios des- 
ta cidade, morador na Praça do Commercio no 
primeiro andar das cazas de Anselmo José da 
Cruz, andando passeando com elle em huma das 
ditas casas, na qual se achava somente pre- 
sente o dito advogado Luiz da Silva e Almeida, 
que lhe parece percebeo todas, ou muita parte 
das cousas, que nessa occasião lhe disse o dito 
Padre Francisco Manuel. 

Disse mais, que em outra occasião, tendo 
hido com o dito padre ao convento do Sobral, 
junto da villa da Alhandra, dos Religiosos An- 
tonicos, entrando em huma noite em conversa- 
ção com alguns padres do dito convento, e 
outras mais pessoas que estavão presentes, en- 
tre outras cousas que pareciam contrarias á ver- 
dadeira doutrina da nossa Santa Religião Ca- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 59 



tholica Romana, dissera que não tinha havido 
hum Diluvio Universal, porque se não podia 
dar razão, donde estava de antes, e onde se 
recolhera depois tanta quantidade de agua quan- 
ta era necessária, para causar hum diluvio Uni- 
versal, tão grande, como referem as escrituras 
e replicando-lhe alguns dos ditos padres, que 
para assim o crermos bastava que o dissesse 
a Escriptura Sagrada o dito Padre respondera 
que se elles fugiam da razão, e se acolhião á 
Escriptura Sagrada, isso era o mesmo que me- 
ter-se em hum bêcco que não tinha sahida. 

Disse mais, que na mesma occasião fallára 
com a mesma Liberdade em outros pontos da 
nossa Religião que presentemente lhe não lem- 
brão, mostrando em tudo que elle dava pouco, 
ou nenhum credito ás Escripturas Sagradas; e 
que tudo- queria mostrar com razões naturaes e 
Philosophicas. 



Disse mais, que em outra occasião ouvira 
dizer ao mesmo Padre Francisco Manoel, que 
elle tinha um livro impresso em Olanda, no 
qual se mostrava clara e evidentemente, que o 
tribunal de Santo Officio não procedia com recti- 
dão e justiça nas prizoens e castigos, que dava 
aos Reos porque sendo os crimes destes públicos 
devião também ser publicamente processados e 
defendidos^ mostrando com isto que o proce- 
dimento do Santo Officio não era justo e recto-, 
e lhe offerecia o dito livro para por elle se 
convencer melhor desta verdade; offerecimento 
que elle testemunha não quiz acceitar. 

Disse mais, que em outra occasião succe- 
dendo falar com o dito padre no Santo Sacrifi- 



60 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



cio da Missa, lhe dissera este que isto da 
missa era um officio que tinhão, e exercitavão 
os Sacerdotes, da mesma sorte que os çapa- 
teiros e carpinteiros exercitavão os seus, mos- 
trando com isto que elle não tinha sobre o 
Santo Sacrificio da missa a mesma doutrina, e 
os mesmos sentimentos que tem e ensina a San- 
ta Madre Igreja Catholica Romana. 

Disse mais que elle testemunha em muitos 
tempos tivera amisade e trato frequente com o 
dito padre pelo achar, e por lhe parecer muito 
curioso, e bem instruído na Historia; mas por- 
que com este mesmo trato foi conhecendo que 
elle não era seguro, sobre as cousas, que per- 
tencem á Religião, e observou demais que nas 
jornadas que fazia não levava Breviário nem 
vio nunca rezar por elle, e que aos Livrinhos de 
oraçoens chamava Besbelhos esplrítaaes se foi 
pouco a pouco afastando delle, e abominando a 
sua commun i cação ; e entrando por esta cauza a 
fazer reflexão sobre as cousas, que deixa re- 
feridas, e outras mais miúdas que presentemente 
lhe não lembrão. 

Consultou com o Padre José Manoel de 
Leiva, seu capellão, morador na casa delia tes- 
temunha, se tinha obrigação de as vir delatar 
ao 'Santo Officio, o qual lhe respondeo, que lhe 
parecia, que sim mas que para maior segurança 
se aconselhasse oom alguns padres doutos, dos 
quaes acharia por exemplo muitos no conven- 
to de São Domingos; o que succedeo haverá 
couza de cinco dias, pouco mais ou menos, e 
estando elle testemunha na resolução de o fazer 
assim, succedeo ser hoje chamado a esta meza 
na qual confessa que elle não tinha dado na 
mesma esta conta porque pelas suas occupações 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 61 



não tivera ainda lugar de consultar aos ditos 
Padres de São Domingos, como lhe tinha acon- 
selhado o dito seu Padre e cappelao, e por ter 
também estado molesto». 

' Dos depoimentos das restantes testemunhas, 
que aliás nada adeantaram ao anterior, só des- 
tacaremos parte do feito por António Félix Men- 
des. 



«Disse mais que sabe, pelo conhecimento 
que tem com o dito padre Francisco Manoel, 
por ser seu mestre da latinidade, que elle é mui- 
to bem instruído nela, como também na filosofia 
e na historia eclesiástica e é geralmente re- 
putado por homem douto e que por esta razão 
é muito procurado por varias pessoas para con- 
ferirem com ele algumas obras que compõem, 
principalmente em verso, em sermões e outras 
quaesquer duvidas que lhes ocorrem; e entre 
outras pessoas é frequentemente visitado por 
alguns religiosos do convento de Jesus, maior- 
mente por um religioso por sobrenome Bar- 
roco, ou Marrocos e que, pela razão da sua 
boa instrucção era estimado pelo bispo de Beja...» 

As acusações não podiam ser mais esma- 
gadoras contra Filinto. Eclesiástico, blasfemo e 
cheio de inimigos, quem o poderia salvar em 
tão calamitosos tempos? Se negasse a pés jun- 
tos esperavao a fogueira e, se confessasse, ti- 
nha a ignominia, o vexame e a miséria, com o 
habito penitencial. 

Por isso preferio o pão amargo do exilio. 
Vejamos como, porque não foi destituído de ro- 
mantismo. 



62 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



A FUGA DE FRANCISCO MANOEL DO 
NASCLWENTO 

No dia 13 de julho de 1778 despachavam 
os inquisidores de Lisboa um requerimentoi do 
Promotor em que este, por constar geralmente 
que o padre Francisco Manoel se absentâra (Tes- 
ta cidade de Lisboa no paquete de Inglaterra, 
requer que se proceda a uma diligencia que 
chama sumario de fuga. 

Com effeito, em 17, era chamado o fami>- 
liar Manoel Caetano de Melo, encarregado de 
acompanhar o conde de Rezende na prisão por 
parte do Santo oficio^ do padre Francisco Ma- 
noel. 

Contava efetua-la no dia 4 de julho. Com- 
binadas as cinco da manhã para realisar tal 
diligencia adiantou-se elle depoente a entrar nas 
mesmas casas, para o (Francisco Manoel) ter 
seguro e evitar que não fugisse, sucedeu que 
apare cendo-lhe o Wi-esmo Padre mal vestido, sem 
meias nem calções, embrulhado somente em um 
capote, como elle depoente o não conhecia, ima- 
ginando que seria algum creado da casa, lhe 
perguntou pelo dito padre, dizendo-lhe queria 
falar sobre uns negócios que lhe tinham sido 
encom,endados de Goa, cujos papeis se acha' 
vam em poder do Patrão-mór já defunto, tio 
do mesmo padre e respondendo-lhe que o dito 
padre ainda estava recolhido mas que elle lhe 
iria dar parte do negocio em que falava; e en- 
trando com efeito em um quarto em que fin- 
gia estar o dito padre vio elle depoente que 
logo abrira uma papeleira, da qual tirou uns 
papeis que lhe veio entregar, dizendo que aquel- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 63 



les eram os papeis que procurava e que os po- 
dia ver muito á sua vontade e recebendo-os 
elle depoente e entrando a examiná-los, descon- 
fiando que o dito sujeito que lhos entregara era 
o próprio que procurava lhe disse, sem lhe dar 
comtudo a parte do Santo Oficio, se fosse ves- 
tir, porque andava por aquelle modo indecente 
e entrando por efeito doeste recado para o re- 
ferido quarto, dando a entender que se ia ves- 
tir, observando elle depoente que tardava e não 
sentindo movimento algum, nem acção de se 
estar vestindo entrou em o dito quarto para 
se afirmar e então conheceu que o mesmo su- 
geito não estava no quaHo e tinha descido por 
umMS escadas que davam serventia para outros 
quartos inferiores e d^ahi para a porta da rua 
por cuja causa correu logo a mesma porta na 
qual tinha deixado um creado seu e pergun- 
tando-lhe se por ella tinha sahido alguma pes- 
soa da casa lhe respondeu este que tinha sa- 
hido um homem embrulhado em um capote al- 
vadio com uma cabeleira na cabeça e enten- 
dendo elle depoente que era o mesmo que pro- 
curava por lhe ter aparecido também com um 
capote alvadio partio imediatamente com o mes- 
mo criado em busca d^elle mas já o não po- 
deram encontrar, de sorte que quando d^ahi 
a pouco chegou o dito Excelentíssimo Conde 
de Rezende^ elle depoente lhe contou tudo o 
que tinha passado e se certificara que a di- 
ligencia estava perdida e que já não podia ter 
effeito. 

Que triste papel nesta conjuntura o d^um 
fidalgo da categoria heráldica do conde de Re- 
zende! Com que cara ficaria então? 



64 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Um sapateiro, visinho do padre Francisco 
Manoel, acrescentou o seguinte: 

. . .(.{Passados dois ou três dias veia um sar- 
gento da artilharia que dizem mora em Betem, 
ao qual não sabe o nome, ás mesmas casas 
e fez meter em uma sege ao pae e mãe do 
dito padre que se achavam doentes 'e muito ve- 
lhos e os conduzio para o sitio de Belém e 
no dia seguinte fez da mesma sorte conduzir 
por uns galegos todos os trastes e fato que 
se achavam nas mesmas casas do padre Francisco 
Manoel a elle pertencentes que eram bastantes 
e alguns preciosos e ricos tomo dois espelhos 
grandes de vestir, placas, papeleira, cravo, ca- 
deiras, mesa de jogo e outras mais cousas, fi- 
cando somente nas mesmas casas um homem 
que julga se chama Joaquim com sua familia 
que presentemente ainda nas mesmas casas as- 
siste». 

Finda esta diligencia veio o Promotor com 
novo requerimento. 



INQUIRIÇÃO DE NOVAS TESTEMUNHAS 

Em virtude doesse requerimento, apurada a 
forma como os esbirros da Inquisição ficaram 
ludibriados, em 4 de julho de 1778, foram inr 
terrogados dois frades do convento de Santo An- 
tónio, do logar do Sobral, junto a Alhandra. 
O guardião só tinha ouvido acusar o padre 
Francisco Manoel, que no seu convento pernoi- 
tara, de ser um pouco libertino. 

O padre frei Simão da Conceição foi mais 
explicito e declarou que, com efeito quando veio 
pernoitar ao convento do Sobral, na companhia 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 65 



do doutor Luiz da Silva, ouvidor da Casa da 
Moeda, morador ao Arco do Carvalho; João 
da Silva, na fabrica do bisoouto, ao arco do 
Carvalhão; Joaquim José de Souza, escrivão do 
eivei, morador na rua nova da Rainha, defronte 
da casa do Risco, nessa ocasião pois não lhe 
ouvio proposição alguma contra a nossa fé. Po- 
rém, em sua própria casa, em varias ocasiões lhe 
ouvio dizer que eram desnecessárias as pintu- 
ras do Espírito Santo e Anjos; em outra oca- 
sião olhando para uma pintura de Adão disse 
que era sonho de Aioysés, em outra, ven- 
do uma pessoa do sexo feminino, em casa do 
dito Joaquim José de Sousa, olhou para uma 
imagem de N. S. com a ação de dar de mamar 
a seu bento filho, olhou para a sobredita mu- 
lher por nome Mariana Rosa, mulher do sobre- 
dito escrivão, como quem fazia escarneo: 

— Olhe para aquella senhora que está dando 
de mamar a seu filho, disse da mesma mulher, 
está celebre pintura, de sorte que provocou a 
riso os circunstantes e permitte a Igreja isto!... 

E que em outras occasiões lhe ouviu di- 
zer sobre varias conversas: 

— Estamos em um reino que não pode a 
gente escrever por amor deste Santo Oficio. 

Em outra ocasião achando-o bastaniemente 
melancólico lhe perguntou ele testemunha que 
tinha, respondeu que tendo umas historias com 
dous padres de Rilhafoles, em casa de um li- 
vreiro, cujas historias não quis relatar, só disse 
que os padres de Rilhafoles tinham amisade com 
o Santo Oficio, que já d^ali o iam denunciar e 
que indo ao outro dia a ter com elle testemunha 
e achando-o já muito alegre lhe perguntou em 
que tinha parado o seu dissabor, respondeu: 



66 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



— Fui ter com o meu bispo de Beja, nar^ 
rei'lhe a historia e disse-me não fizesse caso 
dHsso e não ficando eu descançado fui ter com 
o meu amigo Francisco Xavier de Mendonça e 
narrando4he o caso respondeu o mesmo, que 
não fizesse caso disso e não ficando descançado 
fui ter com o meu amigo Paulo de Carvalho (i) 
narrando-lhe o caso me respondeu: 

— Descance padre Francisco Manoel, o Sun- 
to Oficio não está hoje como estava algum dia, 

Outrosim ao dito padre Francisco Manoel 
ouvio dizer e vio estar assentado ao pé da 
dita Mariana Rosa, puxar por um livro da vida 
de S. Francisco d^ Assis, que tendo suas estam- 
pas das ações da sua vida em que algumas 
se manifesta entre silvas e em outras nú, pelo 
muito amor que^ no seu peito ardia, se ma- 
nifesta na estamipa, sahir-lhe do peito a ima- 
gem de Christo crucificado e \provocando o riso 
aos circumstantes dizia por escarneo á dita mu- 
lher do escrivão: 

— Quer ver o senhor S. Francisco com a 
sua bolinha? Quer ver ao senhor S. Francisco 
parindo a N. S. Jesus Christo, por uma teta? 
e outras cousas mais que a elle testemunha lhe 
não lembra e fíepois d\isso soube elle testemunha 
que o dito livro, tendo a vida He S. Francisco 
de Assis, com suas estampas, tinha por baixo 
das estampas notas de Lutero. 

E pelo terceiro disse elle testemunha que 
a vida do dito padre Francisco Manoel não era 



{}) f: Paulo de Carvalho e Mendonça, irmão do 
marquês de Pombal ; do conselho geral do Santo 
Oficio desde 13 de março de 1759 e inquisidor da 
corte desde 28 de janeiro de 1766. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 67 



muito ajustada nem conforme ao seu espiado, 
vivendo luxuriosamente, que ma é falto de juizo 
nem o vio nunca inebriado^ e que quando lhe . 
ouvio as palavras mal soantes e o que tem de- 
posto julgou elle testemunha estava em seu 
juizo. 

Também na inquisição de Coimbra se depoz 
contra Francisco Manoel do Nascimento, em- 
bora tal acusação viesse por incidente. Foi em 
8 de agosto de 1778 que D. Rodrigo da Cunha 
Manoel Henriques Mello e Castro, de 27 anos 
de edade ao tempo e morador na sua quinta 
do Almegue, chamado á Inquisição, declarou; 
<iQue elle declarante contrahiu amizade com José 
«Anastácio da Cunha acima referido e com 
elle teve comiunicação frequente, indo a sua casa, 
onde praticavam publicamente sobre poesias^ elo- 
quências e bellas letras, e como nesse tempo,' 
que foi, haverá dois anos, estavam infestadas 
as conversações pela corrução da epocha, que 
admitia tratar-se de pontos de disciplina de dog- 
ma de matérias tocantes á nossa religião ca- 
tholica, ainda que elle declarante ajttes de ter 
entrada na dita casa ignorava tudo o que era 
pernicioso, sem embargo de que, por miseri- 
córdia de Deus, jamais seu coração se conta- 
mãnou.... Disse mais que as pessoas que comu- 
mmente frequentavam a dita assembleia eram o 
dito José Anastácio, João Paulo Bezerra, seu 
companheiro que é natural de Lisboa, filho de 
umM senhora, que é casada com o Rubim, o 
dr. José Francisco I^eal, lente de medicina nes- 
ta Universidade, os filhos do m^orgado de Ma- 
theus D. Luiz de Sousa, os filhos de D. Fran- 
cisco Inocêncio de Sousa, embaixador em Ma- 
drid, o padre Apolinário José Vieira da Silva, 



68 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



natural de Lisboa d' onde é morador, e o dJ. 
Luiz Sechi, lente de Anatomia, os quaes se jun- 
tavam para^ fim honesto e indiferente, qual o 
do passeio V do passatempo e a nenhuma d^el- 
las vio cousa que o fizesse persuadir de que 
ellas viviam apartadas da nossa santa fé ca- 
tólica.. 

Disse mais que elLe declarante não tem 
livro algum de seu prohibido, mas leu o Roes- 
se?, sem ordem de alguns como o Candide 
— Dicionário Fílosophico — . e do Evangelho do 
Dia, que andava por cima das mesas na casa 
do dito José Anastácio, não sabe se eram seus,- 
nem se tinha mais, nem também se lembra se 
iodos ou se alguns teve em casa d^elle decla- 
rante por algum tempo emprestados. 



Disse mais que em outra vez, que se traiouv 
de. atheismo. no Jardim das Necessidades, estan- 
do presentes o dito José Anastácio, o dito João 
Paulo Bezerra e um francês chamado monsieur 
Vachi, cirurgião-mór no regimento de Valença e 
o doutor Cechi, onde o francez se calava; e 
o Cechi não sabe que partido tomou. José Anas- 
tácio, João Paulo Bezerra, seguiam a verdade 
dos deistas, isto é que ha um Deus, elle dé-- 
ciar ante porém (conservando de todo o seu co- 
ração a religião catholíca) pôs argumentos so-< 
bre a formação e combinação da matéria só-' 
mente para mostrar que sabia e não para osten- 
tar que elles eram verdadeiros.... 

Disse mais que em outras vezes se achou ^ 
em Lisboa com o padre Francisco Manoel, sobrl-' 
nho do patrão-mor da Ribeira das Nãos, com o^ 
qual ainda que elle declarante lhe produzia os^ 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 69 

mesmos argumentos, elle sobredito não só os não 
contradizia, m^as até lhos apontava e anunciava. 
Disse mais que em outras vezes tratou as 
ditas matérias, com o doutor Leal, em outras, 
com: José Anastácio e João Paulo Bezerra e 
outras pessoas que lhe não lembram, indo de 
passeio junto a Santo Autonio dos Olivaes e 
ém uma doestas está certo elle declarante que 
acerrimamente defendeu o partido da nossa re- 
ligião dizendo que seria infeliz uma republica 
de atheus, que não poderia subsistir por lhe 
faltar o temor jdo Inferno e esperança do pre- 
mio eterno da Gloria, pois que estes eram os 
dois princípios de cohibição dos vicios dos ho- 
mens que por isso os faziam amar a virtude e 
que sem religião não estavam seguros os prln-^ 
cipes no trono; José Anastácio então defendeu 
o contrario o que talvez faria por génio de dis- 
puta-». 



No capitulo seguinte se verá a sorte de 
José Anastácio da Cunha. 

Em 26 de agosto de 1778 novo depoimento 
contra Francisco Manuel. Este foi do capitão 
engenheiro Manoel de Sousa, que disse consi- 
derar o réo como a th eu pelo seguinte: 

«Os motivos eram os que veio a entender 
do traio e comunicação que com elle (Francisco 
Manoel) teve por alguns anos, observando em 
geral que tratava tudo o que pertencia a re- 
ligião, como um ponto politico e necessário para 
a sua conservação, porque sempre conheceu nelle, 
que neste mundo nenhuma cousa lhe impor- 
tava mais que a sua pessoa, preferindo-a a tudo, 
que nelle havia; observando em geral que elle 



k 



70 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



nenhuma religião seguia em particular porque 
via, que pelo que pertence á nossa católica 
romana, diza jt\equentemente missa sem se con- 
fessar antecedentemente , ao mesmo tempo que 
suspeitava que elle tinha a sua consciência bas- 
tante mente embaraçada pela liberdade com que 
falava do credito e reputação das pessoas mais 
autorisadas e principalmente do recto procedi- 
mento doeste tribunal. E em uma ocasião lhe 
ouvio dizer que elle se confessara com certa 
pessoa somente para o desabusar de máo con* 
ceito, que julgava jazia d^elle, do que ficou 
entendendo que elle não usava doeste sacra- 
mento, como manda e prescreve a nossa re- 
ligião. 

Via mais que elle nenhum preceito obser- 
vara da nossa lei, nem da santa madre igreja, 
do que tudo jez conceito que elle, somente no 
exterior, para escapar dos castigos, que lhe po* 
diam ser dados, mostrava ser catholico; porém 
que no interior não tinha absolutamente religião 
alguma, mo j ando de todas com indijjerençã. 

Disse mais que nenliuns outros motivos em 
particular tem para formar o conceito que dita 
tem do referido padre Francisco Manoel do Nas- 
cimento; porque como a maior comunicação que 
com elle teve era sobre pontos de belas letras 
só por acaso, e incidentemente tocavam em ai-' 
guns de religião e como percebia que nelles 
estava totalmente apartado dos verdadeiros sen- 
timentos e do_gmas da sarita madre igreja ca- 
tholica por isso assim em geral formou o con- 
ceito de que elle em nenhum era seguro e um 
verdadeiro atheuy>. 

Mariana Rosa de Amiorim e Sousa, mulher 
do escrivão do eivei Joaquim José de Sousa, foi 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 71 



interrogada a 25 de fevereiro de 1779. Disse 
que muito bem. conhece Francisco Manoel do 
Nascimento e sabia que era thesoureiro da egre* 
ia das Chagas e morador na ribeira das Nãos 
em casa do patrão-mór a quem sempre tratou 
por seu tio ,e sabe, pelo ouvir dizer, que é fi- 
lho de Maria Manoel, casada com Manoel Si* 
mões, mas é voz publica que o dito padre Fran* 
cisco Manoel era filho do patrão-môr defunto, 
João Manoel, que se diz o tivera da sobredita 
Maria Manoel, mas que ella nunca ouvio nem vio 
que o sobredito padre dissesse ou fizesse cou- 
sa alguma contra nossa santa fé caíholica e 
que nas repetidas vezes que vinha a casa d^ella 
testemunha e com elld e seu marido conversava, 
consistia pela maior parte a sua conversa em co* 
medias, versos amatorios e sonetos e que nas 
vezes que o dito vinha a sua casa era quasí 
sempre de levante e raras vezes se seritava por 
ser seu génio jovial e de pouco assento. 

No dia 8 de julho de 1779 foi chamado o 
padre mestre frei Filipe de Santiago Travas- 
sos, professo na congregação de S. Paulo e 
morador no colégio de Évora. 

«Disse que haverá quatro anos teve co- 
nhe cimento e amizade com algumas pessoas que 
sabia tinham uso e lição de alguns livros pro- 
hibidos como ^ão Voltaire, Rousseau, e outros 
sem^elhantes, ás quaes ouvio por vezes algumas 
proposições suspeitosas contra alguns costumes 
da religião que elles deduziam dos princípios 
errados dos mesmos livros e que elle se julgou 
sem obrigação de os vir denunciar a esta mesa 
por dois motivos: primeiro porque ainda que 
nesse tempo estivesse a porta doeste tribunal 
aberta para receber as denuncias, sabia elle tes- 



72 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



iemunha que eram menos bem olhadas do mi^ 
nisterio as pessoas que intentavam as referidas 
denuncias, como ouvio dizer a estes e a outros 
seus conhecidos sobre uma disputa havida entre 
o capitão Manoel de Sousa, o padre Francisco 
'Manoel e dois religiosos de Rilhafoles, os quaes 
por susterem o partido da religião contra os 
■sobreditos, dizem, foram perseguidos. 

O segundo, porque nunca elle deprehendera 
pertinácia ou teima no proferir das ditas pro* 
posições mas antes facilimamente cediam á força 
dos argumentos da verdade pelo que nunca se 
convenceu que elles eram herefes. 



INFORMAÇÕES DA FAMÍLIA DE FRANCISCO 
MANOEL DO NASCIMENTO 

Eis o que a tal respeito informava o com- 
missario Mathias de Andrade e Almeida em 
27 de março de 1779: 

«Procedendo na diligencia que V . S.^s foram 
servidos cometer-me, sobre o conteúdo na mes- 
ma, pertencente ao Padre Francisco Manoel do 
•Nascimento, me informei meúdamente das pes- 
soas referidas no fim doesta, fidedignas, legaes, 
noticiosas e antigas; e das mesmas consta que 
conheceram sempre ao dito padra, com o nomey 
sobrenome e apelidp, e assim nomeado e que em 
nenhum tempo souberam, fora conhecido com al- 
teração ou deniiynuição nelles. 

Ouvirant umas e outras entendem ser o dito 
padre, natural da freguesia de S. Julião doesta 
cidade e uma disse ser natural da dita ■ fregue- 
sia; que o dito padre é thesoareiro colado da 
igreja das Chagas e morador, quando se ausen- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 73 



tou, em amas casas de 'Monsieur Pedro, marce- 
neiro, quasi defronte do palácio do Calhariz, com 
seus pães e com Joaquim José Pereira de Sousa. 
Ouviram algumas dizer que o dito padre se em- 
barcara no paquete para Londres e muitas ouvi- 
ram que se acha em Paris, de França e que se 
corresponde com o dito Joaquim José Pereira de 
Sousa, morador presentemente ao cães do Sodré, 
rua do Arsenal e que também escrevera ao Padre 
Mestre, frei Filipe de SanVlago, do convento de 
S. Paulo, doesta cidade. Conhecem seus paeSy 
Manoel Simões e Maria Manoéla, elle foi fraga* 
teiro e teve sua fragata, ella vendeu pelas ruas 
peixe e outras cousas comestíveis. Foram mora- 
dores, antes do terremoto, com o dito padre e 
João Manoel, que morreu patrão-môr e então 
era mestre das fragatas reaes na rua da Ferra- 
ria, freguesia de S. Julião, nas casas de José 
Rodrigues Torres, informante nesta diligencia e 
também na rua dos mercadores da dita freguesia. 
Depois do terremoto foram todos assistir em uma 
barraca ã Cotovia e na rua do Vale, freguesia 
de N. S. das Mercês. Quando o dito João Ma- 
noel sahio patrão-môr levou todos comsigo para 
as casas da ribeira das naus que lhe dá El-ReL 
Os ditos pães, Manoel Simões e Maria Ma- 
noéla, são vivos, elle se acha cego e pedindo 
esm,ola e se recolhe pelo amor de Deus em 
casa de um barbeiro do Chiado, junto á igre- 
ja de N. S. da Bôa Hora e a mãe está com 
pouco juizo em casa de uma sua afilhada, ca* 
sada com Maximiliano Gomes, carpinteiro da ri* 
beira das naus, ao terreirinho, freguesia de San* 
ta Catarina. Ouviram muitas pessoas informantes 
dizer que o pae certo do dito padre era João 
Manoel, que morreu patrão-mór. 



74 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



O reitor da igreja da Conceição Nova diz 
qwe o dilo padre lhe dissera que era filho do 
referido paírão-mór . O cura da igreja das Cha- 
gas diz que o dito padre lhe dissera que elle era 
filho do mencionado p-atrào-nvór e sua niãe Maria 
Manoéla era naquelle tempo amiga d"* elle e ca- 
sada ao mesmo tempo com Manoel Simões; o 
dito cura tirou do sentido ao Padre Francisco 
Manoel do Nascimento que queria, pela morte 
do referido patrão-mór, juntar papeis em que 
mostrasse ser filho d^elle p^ara herdar os bens 
que ficaram, alegando-lhe o diio cura que não 
fizesse isso, por ser mulher casada. 

Também Francisco da Silva de Carvalho 
ouvio dizer que o dito padre proferira, sou filho 
de João Manoel, patrão^mór . Este teve in- 
tento de ordenar ao dito padre, como seu fi- 
lho, e como vio que não podia consegui-lo, 
o fês ordenar filho de Manoel Simões e lhe 
alcançou a thesouraria da igreja das Chagas. 
O dito patrão-mór té sua morte tratou e cha- 
mou sua irmã a Maria Manuela. O dito padre 
chamava em casa mano ao referido patrão-mór e 
por fora tio. Comprou o dito padre, em vida do 
patrão-mór , uma quinta em Camarote e também 
umas casas com um quintalão defronte dã igreja 
de Camarate, além de outras propriedades em 
Lisboa, na rua do Vai e do Telhai a S. José e 
em uma d^ellas tem o seu património e dizem 
que o referido patrão-mór lhe deu o dinheiro para 
estas compras. 

O mesmo padre, e Manoel Simões, seu 
intitulado pae, e Maria Manuela, sua mãe, 
por morte do patrão-mór tomaram posse dos 
seus bens; porém dizem que pela ausência do dito 
padre apareceu em juizo um procurador com 




Filinto Elysio de habito falar: aparenta uns 
setenta annos de edade. 



76 EPISÓDIOS BRAMÁTICQS-^, 



procuração de uma sobrinha legitima do mes- 
mo patrão-mór e tem tomado posse de tudo 
que ficou por morte do referido patrão-mór e o 
Padre Sebastião José da Piedade, informante, 
que disse, escrevera ao Padre Francisco Manoel 
do Nascimento, a Paris, de França por via do 
referido Joaquim José Pereira de Sousa, aví- 
sando-o doesta posse e que, se quizesse lhe 
mandasse procuração para se opor a isto e té 
agora não lhe deu resposta. 

Procurei a certidão do baptism^o do dito 
padre na freguesia de S. Julião e não achei 
porque os livros to^dos ^e queimaram no in- 
cêndio successivo ao terremoto de 1755, como 
também procurei os que servem depois do dito 
terremoto e não se acha reformado o assento 
e passando ao cartório da camuira eclesiástica 
do patriarchado para tirar a dita certidão dos 
autos da sua habilitação disse-me o oficial da 
mesma camará que os mandara em Fevereiro 
proximi.o passado para este santo tribunal por 
ordem que levei do mesmo-». 

Com efeito o notário do Santo Oficio Cle- 
mente José da Cunha certificou em face dos 
autos de habilitação de genere o seu assen'to 
do batismo do qual consta que a 2 de janeiro 
de 1735 foi ele batisado e tinha nascido a 
21 de dezembro de 1734, filho de Manoel Si- 
mões, natural de Ílhavo, e de Maria Manuela, 
sendo padrinhos Gregório Mendes Pinto e Dona 
Catarina de Ares (i). 



(1) Prí^c, n.o 14:048 da inquisição de Lisboa. 
Sousa Monteiro publicou no Boletim da segunda classe, 
da Academia, vol. I, úm interessante estudo acerca 
de Filinto. Publicou algumas peças do processo, poucas, 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 77 



Ligada intimamente á perseguição que os in- 
quisidores lhe moveram está a seguinte poesia 
em que desalmadamente fustiga os que o fi- 
zeram exilar. Ei-la, transcrita das suas Obras: 

ODE 

Paris, 4 de julho 1806. 

N'uni dia, qual o de hoje (ha vinte e oito annos) 
Vinha da Inquisição huf?car-me um sbirro, 
Porque os Clérigos tristes, a seu gosto, 
Comigo palhetassem. 

E que, mais Réos do que eu, depois de haver-me 
Consumido, e ralado a paciência. 
Com perguntas, com cárceres, com tratos. 
Me enviassem á fogueira. 

Mas hoje, que diffrença! O dia é o mesmo, 
Dia quatro de Julho. Em vez de sbirro, 
Vem Damas, vem Amigos saudar-me, 
E ÍFestejar comigo. 

A hella escapatória; e retinnindo 
Os copos uns nos outros, apuparem 
O infame Tribunal — a dar-lhe as vaias. 

E a dar-me a mim os vivas. — 



O Sanches (i), discorridas longes terras, 
Foragido da Pátria, que o persegue. 



mas estudou a permanência do Poeta em Paris através 
da curiosa correspondência do tempo entre a secre- 
taria dos negócios estrangeiros e a embaixada por- 
tuguesa em Paris. 

(1) Vid. Elogio do Dr. António Nunes Ribeiro 
Sanches, composto em Francez por Mr. Visq. d'Azyr, 
vertido em Portuguez por Filinto Elysio, 



78 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Que lhe afflige os Parentes e Amigos, 
Com fogos, com torturas; 



Sentado á Imesa, com mais dous proscriptos (i) 
Do iniquo Tribunal, labéo da Europa, 
Tomado de celeste enthusiasmo, 

Assim rompia a brados (2) : 



<:Inda vive, inda reina, para injuria, 

«Dos Reis, que o não confundem, para escárneo 

«Dos Povos allumiados, e despeito 

«Dos Sábios, e Homens probos, 



«Esse antro de assassmos tonsurados, 
«Que, novos Polyphemos (3), despedação 
«As carnes innocentes das Donzellas? (4) 

«Que ao saber põem mordaças? (5) 



«Quando virá um Hércules, que alimpe 
«Cavalharices de brutaes Augias, 
«E as lave só nas correntes crystallinas 
«Das profícuas Sciencias? 



«Quando virá um Hércules, que affoito 
«Os Queimadores queime? Que as serpentes 
«De mais podrida Lérva, em duros braços 
«Suf foque vingativo? 



(1) F. J. d'Avelar Brotero, e Filinto. 

(2) Tal, pouco mais ou menos, foi a conversa- 
ção, que comnosco teve nesse dia. 

(3) Leião Virg. no Livr. 3.o 

(4) Donzellas, casados, viúvos, velhos, moços, 
crianças, todos, erão pasto d'esses Polyphemos, Mino- 
tauros, Cérberos, e peior ainda. 

(5) Digão-no quantos estudão por bons livros. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 79 



«Vingue o Anastácio (i) , vingue o bom Lourenço, 
«E Sanches, e Filintoj, e Varões tantos (2), 
«Que a Pátria illustrarião, se essa Pátria 
<;Não salariasse os crimes? 



«Os crimes dos que a privão de táes astros; 
«Dos que adrêde ennoitecem táes ingenhos, 
«Para encruar melhor o seu império 
«Na boçal ignorância (3). 



«Venha, venha, em meus dias um Rei justo 
«Que á Valente Razão dê fausto ouvido: 
«Que adite o Reino, assoberbando os Monstros 
«Que o gastão, que o aviltão (4). 



«Contente morrerei, se antes da morte 
«Me raia a nova, que atupirão ledos, 
«A Caverna de Caco os Portuguezes, 
E lhe dansão em roda.» 



(1) Jozé Anastácio, honra da Universidade, hon- 
ra do exército, a quemi é curto todo o Elogio. 

(2) Bartholomeu Lourenço, por alcunha da In- 
quisição, o Voador. 

(3) A lingua Portugueza é mal conhecida na Eu- 
ropa, porque os Sábios Pprtuguezes, que podião es- 
crever obras, que a fizessem conhecida, como ella 
merece, são atalhados em seus arrojos, pelas cen- 
suras dos frades, a quem nada assusta mais, que o 
ciarão das Sciencias. 

(4) Podem replicar-se os devotos do Despotismo, 
e da Ignorância, que a Inquisição tem hoje pouco 
poder, e faz pouco mal. — Como são mentecaptos! 
(lhes respondo). Considerai bem que a Inquisição 
é uma serpente, que está por ora como amadorrada 
mas que apenas, por desgraça de Portugal, subir ao 
throno um Rei, a quem os frades fanatizam, súbito a 
madorrada serpente acorda, espreguiça-se, e toman- 
do novas forças, remoçada devorará o Reino, que 
a não matou. Considerai que sopita um tanto no Rei- 



80 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Pobre Filinto! Exilado da pátria durante 
dezenas d^anos, quasi sem ter leitura portugue- 
sa, na miséria vivendo, nunca esquecia a chus- 
ma dos tarelos, aquelas pessoas muito fáceis 
na critica e muito dificeis na obra. 



nado de D. João IV^, apenas elle morreo, com que 
devastadora crueldade não se ensopou ella no san- 
gue das infelizes ,victimas do seu ciúme, e da sua 
cubica, até que o Marquez de Pombal a açaimou, 
bem que por descuido politico e não acabou de todo». 

Para a historia das suas odes julgamos final- 
mente oportuno e interessante o seguinte fragmento 
d'uma carta que nos chega ás mãos: 

1819 — OUTUBRO 16 

CARTA DE JOSÉ DA FONSECA A JOSÉ THEOTO- 
NIO CANUTO DE FORJO 

(Cartório dos Viscondes de Souto d^El Rei) 

...V. m. aponta-me na sua carta se tenho noticia 
da Ode, que este {Filinto) fez p.a o dia dos seus 
annos? tanto a conheço, q. posso affouto blasonar 
de ser o ("primeiíoí a q.™ elle a mostrou e lêo: possuo-a 
autografa. FalJecem-me as expressões p.a lhe poder 
referir o jubilo de respeitável Ancião. Durante a 
comida cravava em nós os olhos, e com a bocca cheia 
de riso asseverava-nos não haver cousa alguma q. 
mais cara lhe fosse neste mundo do q. as doçuras 
da vera amizade, mormente quando esta lhe provinha 
de conterrâneos. Não cabe no limitado espaço de huma 
carta tudo o que eu poderá dizer-lhe a seu respeito. 
Conversando com os am.os, produzia essas bellas Odes, 
que tanto acreditão a Nação e o idioma; tal era a 
sua estupenda facilidade em poetar! A parca no-lo rou-' 
bou no dia 25 de fevereiro ás 4 horas da tarde. Con- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 81 



Morreu a clamar pela falta que lhe faziam 
os clássicos que para comer havia vendido, Deus 
sabe se ao desbarato! 



servo, alem da l.a edição das suas obras, alguns 
pequenos manuscritos com que elle me brindou. Os 
10 volumes da 2.a já estão impressos, mas falta 
ainda hum que lhe serve de additamento. He ella 
assaz decente quanto a tipografia, mas pelo que toca 
a limpeza de texto não a abono. A impressão dos 
Lusíadas annunciada por Francisco Manoel náo teve 
logar: a do Morgado de Matheus he magnifica, e 
o Didot deo á estampa outra em 8.° inteiramente con- 
forme a primeira. V^ende-se em sua casa e custa 
10 cruzados, 

Dou-lhe os parabéns acerca da versão do Tácito 

Estou certo de que nella se deparará com aquella 
extreme linguagem, concisão, valentia, e atticismo, que 
tanto se admira nos nossos maiores... 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 
(JULHO DE 1778 A OUTUBRO DO MESMO ANO) 



O Lente de Geometria na Universidade de 
Coimbra, José Anastácio da Cunha, solteiro e 
filho de Lourenço da Cunha foi pela primeira 
vez denunciado á Inquisição de Coimbra, em 
17 de janeiro de 1778, pelo tenente de artilha- 
ria do Porto, aquartelado então em Valença, 
José Leandro Miliciani da Cruz, preso por cul- 
pas de libertinismo. Acusou-o de que, haveria 
dez anos, quando Anastácio da Cunha era sim- 
ples tenente de bombeiros e assistia em Va- 
lença tinha grande amizade com o brigadeiro 
escocês Diogo Ferrier, protestante, de quem re- 
cebeu o pedido da tradução em verso portu- 
guês de versos ingleses e franceses repletos 
de impiedades. Essas traduções passavam de mão 
em mão pelos oficiaes e pessoas gradas de Va- 
lença e, como nessa praça havia bastantes ofi- 
ciaes protestantes, nas suas conversas com Anas- 
tácio, proferiam-se blasphemias. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 83 

Segundo denunciante foi José Madeira Mon- 
teiro, soldado de artilharia pertencente ao mes- 
mo regimento do anterior e egualmente preso 
por culpas de libertinismo. Acusou-o porque, 
tendo amizade com os oficiaes protestantes, com 
eles comia carne ás sextas-feiras e dias prohi- 
bidos; em casa conservava uma manceba a quem 
não deixava ir á missa e era emfim tido por 
um 'dos mais Ímpios e depravados libertinos che- 
gando a ser oficiante em umas exéquias e en- 
terro siolene de um cão do capitão Muller, ce- 
lebrados Qom as ceremonias da igreja católica! 



r\yff^^ ,.-^^^&«>^--*^^ty<^ ^c^ o**..«^vCÍv-^ 



Fac-similc da assinatura do matemático José Anastácio 
da Cunha. 



Terceiro denunciante foi Henrique Leitão 
de Sousa, cadete do mesmo regimento dos an- 
teriores e, como eies, preso por cuípas de li- 
bertinismo. Repetiu as acusações já sabidas 
e disse de cór o principio dos versos de cuja 
tradução era acusado José Anastácio. São como 
se segue: 

«Oh Deus a quem tão mal o homem conhece 

Oh Deus a quem todo o Universo aclama 

As palavras escuta derradeiras 

Que a minha boca forma 

Sem me enganar foi tua santa lei buscando 

Pode o 'meu coração da boa estrada perder-se 

Mas de ti sempre está cheio 

Sem me atemorisar diante dos meus olhos 



84 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



A Eternidade vejo e crer não posso 
Que um Deus que o ser me deu 
Que um Deus que tantas bênçãos 
Lançado tem sobre os meus dias 
Agora, extintos elles, finalmente 
Haja de atormentar>me eternamente etc. 



Quarto denunciante foi Aleixo Vachi, cirur- 
gião-mór do mesmo regimento e também preso 
como libertino. Descreveu o noso réu como pes- 
soa de loucas palavras e resguardo e só d^uma 
vez lhe disse: 

— Senhor Vachi, vamos á Missa, porque 
eu tenho espiões para observarem se a ouço 
ou não e se faltar a ela receio que me acusem. 
E assim lá foram os dois á ifí^reja de Santo Es- 
tevão.... 

Surgem agora novas acusações mas estas 
espontâneas, em 22 de junho do mesmo ano, 
a primeira, do estudante do segundo ano juridi- 
co, José Jacinto de Sousa. Disse que José Anas- 
tácio é tido por libertino, entrando nas igrejas 
sem veneração e faz o mesmo ainda quando 
nellas está exposto o Sahtisslmo Sacramento. 
E acrescentou: Ele testemunha presenciou na 
igreja de Santa Clara doesta cidade (Coimbra), 
em sexta-feira santa doeste ano, entrar o de- 
lato e sahir d^ella sem ajoelhar. 

Em 18 de julho, já depois de preso, o dou- 
tor José Joaquim Vaz Pinto, opositor em leis, 
o veio também acusar em Coimbra dizendo que 
a mãe, mulher de virtude e probidade muitas 
vezes o tem, reprehendido do sistema da vida 
de filosofo que seguia e ouvio dizer meais que 
ele não cria no inferno e tinha dito que se 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 85 



sua mãe falecesse lhe não havia de mandar 
fazer sufrágios. 

Come acima dizemos José Anastácio da 
Cunha, estava já, a tal tempo, preso pois no dia 
1 de julho, ao bairro de S. Bento, então extra- 
muros de Coimbra, lhe fora deitar a mão o 
familiar José António de Oliveira e dera en- 
trada no cárcere baixo. 

Também a esse tempo se tinha já procedi- 
do, em Valença, á inquirição doutras testemu- 
nhas de acusação cujos depoimentos são bem 
mais explícitos e curiosos. 

Assim, uma d^elas^ José António Ramos, 
artífice de fogo da companhia de bombeiros 
do regimento de artilharia do Porto, acusouno 
de mostrar fastio a todas as cousas sagradas 
e funções da Igreja e de dar pouco credito 
á verdade das Escrituras Santas; além disso 
quando o seu regimento ia ouvir missa ele en- 
trava na igreja com a sua companhia e logo 
sahia para fora e á porta da mesma igreja 
andava passeando e conversando com' los ofi- 
ciaes protestantes; comia carne em dias prohibi- 
dos e, quando assistio em Valença, estava pu- 
blicamente amancebado com uma ptoça chama- 
\da Margarida, tendo-a em sua casa e nos seus 
^ersos sempre os concluiu com a sua Margarida. 
[Não ficaram só por aqui as acusações; esta tes- 
temunha, antigo oficial inferior da companhia 
le José Anastácio, acrescentou que este se to- 
lava do vinho de tal sorte que perdia o juizo 
era necessário levá-lo a casa pela mão. 

Um cónego da colegiada de Santo Estevão 
^4epoz dizendo que José Anastácio e os ofi- 
ciaes protestantes eram inseparáveis nos diver- 
timentos ilicitos, duvidava da existência do Pa- 



Os ínquifidores Apoftolicôs'codtra a Hiretícâ 
pravidade, eapoíUzia nefta Cidade de Coim- 
bra 5 e leu diíbidp > &c. Mandamos á qualquer* 
FamaÍiar,ou Official do Santo OfBcío ? a q eík da nof- 
ía parte foi* aprezcntadogue /u^/^. (2i',lC'càt> au at^j^ 

â Prendais ^--^m fcqucíiro, de bens por culpas que con- 
tra cll <i' ha nefte Santo O fficio obrigatórias à pri^am > \ 
c prex ^ a bom recado com cama , e mais fato necefía- 1 
rio pra feu uzo > e dinheiro para íeus ah*frientos athè \ 
^z^artnía: /?/^'^^ trarcis > c entregdfeis dcbaxo dé chave I 
/aoAlcaydedos cárceres deita Inquiírçaó em prezença j 
de hú Notário delJa. E mandanios em virtude de San* \ 
ta obedíencia> e íob pena de excomniuiihaômayor larse \ 
fen^entÍÊe > e de quinhentos cruzados aplicados para • 
as defpezas do Sa/iro Officio , e de proceder «los como j 
mais nos parecer a íodas as peííoas aflim Ecclefiaftí- ' 
cas como íêcu lares ? de qualquer grão » degnidade, 
condição , e preheminencia que íejaó . voâ naó impi- I 
à?ib fazer oíobre dico, antes íendo por vós requeri- \ 
dos, vós Atm todo o íovor* e ajuda , mantimentos , ■ 
camas , pouzadas j ferros , cadeyas > cavalgaduras, bar- 
cos ,c tudo o mú% por vós ^^é\áo , e que neceílario 
íor para bem da ditaprizaó , pelo precoce eftadoda i 
terra ; cumprio ailim com muita cautella , e fegrcdo , q , i 
e ai naõ façais/ Dado em Coimbra noSantoUfficio^" 7 '^„; 
da Inquiíiçaó fojb DoflosiÍiisis,çíclÍodclleem^7^/>«»^^ 1 

^^í^/ Á^t^ ,U?7U^^ ^Isl^A^ 




L...... 



Mandado de captura contra José Anastácio; tem' no 

fundo, do lado direito, o selo branco da Inquisição de 

Coimbra, ao pé da assinatura do inquisidor Manoel 

António Ribeiro, 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 87 



raiso terreal, tinha livros prohibidos, tendo uma 
mulher vários tempos fechada na sua casa por 
concubina e fazendo-lhe seus elogios nas obras 
poéticas que compunha, gloriando-se assim da 
sua culpa. Também de bêbado o acusou. 

Outra testemunha acrescentou a seguinte no- 
ta caracteristica: José Anastácio está publicamen- 
te amancebado com uma moça chamada Marga- 
rida, que se dizia ser da vila da Barca, tendo-a 
em sua casa continuamente e só na véspera que 
se havia de confessar pelo preceito quadregesi- 
mal a lançava fora mas logo ao outro dia a 
mandava chamar e nas suas poesias e versos 
que fazia sempre se lembrava da sua Marga- 
rida. 



SUA LIVRARIA E MOVEIS — PAPEIS APRE- 
HENDIDOS A JOSÉ ANASTÁCIO DA 
CUNHA — TRADUÇÕES DE POPE E 
VOLTAIRE — CURIOSA COLLEÇÃO DE 
CARTAS ENTRE AS QUAES UMA DA 
AMANTE 

Não se contentaram os esbirros inquisito- 
riaes com a prisão de José Anastácio da Cunha. 
Não. Foram mais além: sequestrarami-lhe e inven- 
tariaram-lhe os bens e aprehenderam-lhe os seus 
papeis mais reservados e Íntimos. 

Debalde alegou que era filho-familia e tudo 
pertencia a sua mãe. Debalde. Começaram por 
lhe arrolar as cadeiras de roca, as bancas de pi- 
nho, os tamboretes com assentos de damasco de 
lã amarelo,, a barra de taboas de pinho e a cama 
de campanha, as arcas encoiradas, a escrivaninha 
de páo pintada de preto, a cama da índia, os 



88 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



mapas e quatro floretes, dois de vestir e dois 
de jogo. 

Passaram ao vestuário e arrolaram: um ves- 
tido de pano fino escuro de casaca; uma ves- 
tia e casaca de limeste já virado; uma capa de 
seda lisa; uma capa de droguete preto; uma 
casaca e vestia de pano fino alvadio com bo- 
tões de requife de prata; três pares de calções 
de meia preta; um colete com bandas de veludo 
preto; uma bolsa de damasquilo encarnado com 
o capelo de doutor dentro; um colete de ganga 
e outro de belbute branco; outro de fustão bran- 
co; um calsão e vestia de belbute branco; um 
par de fivelas de sapaio e outro de ligas de 
pedras falsas; uma casaca e vestia de pan^o 
azul; um calsão de ganga; uma cinta de retrós 
encarnada; um penteador comprido, de mangas; 
dois camisoíes de esquiça com punhos; pes- 
cocinhos brancos e um preto em volta; meias 
de linhas brancas; ceroulas de Unho; camisas 
da Bretanha, com punhos; lenços, um d^eles 
com riscas encarnadas; um chapéu branco, de 
seda; uma toalha de mãos, de Guimarães; uma 
coberta de chita; um cole Mo de brim; um en- 
xergão de estopa; vinte e dois botões de pra- 
ta lisos, de vestia; sete botões de prata, de 
casaca, também lisos e finalmente um par de 
sapatos. 

Não esqueceram o seu jogo de xadrez, me- 
tido em uma bolsa de couro. 

A livraria do grande geometra e poeta foi 
então arrolada. Na sua estante de pinho, ava- 
liada em 480 réis, alinhavam-se as suas obras 
de estudo e de consulta. Obras de matemáti- 
cos oomo Newton, Bessut, Hembert, Shervin, 
Muller, Lalande, Delacaille, Butler, etc. e obras 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 89 



de literatura que certamente mais interessam a 
maioria dos leitores. Ei-las: Calepino, avalia- 
do em 2:500 réis; Diccionario Português e La- 
tino, de Pedro José da Fonseca, avaliado em 
2:000 réis; as obras do Padre António Vieira, 
em quinze volumes, avaliadas em 8:000 réis; a 
Vida do Príncipe D. The odoro avaliada em 200 
réis; as obras de Camões em um volume ava- 
liado em 370 réis; as obras de Homero; o Pas- 
tor peregrino, de Francisco Lobo, avaliada em 
720 réis; Teatro de Voltaire; Historia de Por- 
tugal, por mr. de La Clede; as obras de Cí- 
cero, Virgílio, Ovidio e Tácito; poemas de Mil- 
ton; Epistolas, de Plinio; Fabulas de Fedro; 
obras de Rabelais e Molière; Vida de Dom Qui- 
xote; Tragedias de Séneca; obras de Suetonio e 
de Luís de Gongora; finalmente a Crónica de D. 
Sancho II, avaliada em 120 réis. Conjuntamente 
com a livraria que revolveram lá foram também 
buscar a sua papelada e d^essa aprehenderam' 
varias cartas apensas ao processo, algumas das 
quaes de dizeres mysteriosos. D' entre essas des- 
tacamos as seguintes: 



I 



CARTA DE D. JOSEFA MARIA DO NASCIMEN- 
TO FERREIRA SOUTO 



Sr. José Anastácio da Cunha. 

— ^ Eu tencionava hoje neste exercício de- 
morar-me para poder mostrar-lhe o quanto lhe 



90 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



merecemos as estimáveis expressões que nos faz 
da sua saudade e afeto: porém sábado da Madre 
de Deus e visita do jubileo, tudo me embaraça. 
O que só posso é protestar-lhe o quanto estima- 
mos que vá melhor da sua cabeça e que continue 
a tradução para termos o gosto de o vermos 
para o tempo que esperamos. 

Nós passamos bem exceto a sua discípula 
que tem andado com um grande defluxo e além 
deste tem continuado a padecer as costumadas 
moléstias não obstante o uso da quina e vá- 
rios remédios que tem tomado, mas quer Deus 
mortificar-nos. Quando terão fim? 

Maria Igreja protesta não ser ingrata nem 
preguiçosa; porém diz que todas as diligencias 
que faz para estudar são baldadas. Visto a con- 
tinuação dio seu padecer porque se uma hora 
está levantada as outras está deitada, emfim pa- 
dece continuamente. Eu lhe entreguei os li- 
vros e ela lhe faz sinceros agradecimentos de 
concorrer tanto para a sua consolação; ela me 
diz ficou encantada com o Drama, de Voltaire 
e com a Tragedia Bourgeoise e que cada um, 
no seu género, tem para ela grande merecimen- 
to. Ela e sua irmã se recomendam muito, 
muito. 

As noticias da corte são funestissimas. Di- 
zem que El-Rei está desenganado de não po- 
der viver senão dias. Deus queira que eles se 
enganem. Da noiva do Minho temos noticias 
tristes que está muito desconsolada e acha o 
marido mais velho do que lhe diziam com que 
isto não concorda com a noticia que o • criado 
do Robim deu. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 91 



Todio O emprego do seu obsequio me será 
muito estimável sempre porque sou 
Sua particular veneradora 

9 de novembro de 1776 

D. Josefa Maria do Nascimento 
Ferreira Souto, (i) 



II 

CARTA FEMININA MUITO ENTERNECIDA AO RÉU 



Sr. José Anastácio. 

A sua carta que eu sinceramente estimei 
quanto se pôde estimar não chegou á minha mão 
a tempo de poder responder no mesmo correio. 
Uma dôr terrivel que me tolhia a respiração e 
uma febre ardente poz em perigo a minha vida 
e em confusão a minha familia de sorte que 
me não deram as cartas senão quando a minha 
moléstia começou a ceder. Mas quem não sabe 
que este foi o motivo de eu deixar sem res- 
posta as cartas em que eu me vejo tão lison- 
geada como julgaria a minha falta de agra- 
decimento? 

Quasi todo o mundo julga sobre aparências 
mas como os filósofos se separam doesta car- 
reira eu sei certamente que não terei sido con- 
denada. 

(1) Adiante se verá quem era esta senhora. 



92 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Os seus versos que eu tenho lido muitas 
vezes achando-lhe sempre uma nova beleza bas- 
tam para dar um grande merecimento ao seu 
aufôr. Em que arrebatamento era necessário que 
a alma estivesse quando se fizeram! Quanto so- 
freria o coração! 

Além disso as informações de um tão bom 
conhecedor como o seu amigOi e as de mil outras 
pessoas que falam no seu nome com respeito, 
tudo concorre para eu formar um justo concei- 
to a seu respeito. 

Tenho uma impaciente curiosidade de sal)er 
toda a sua historia. Não haverá umas ferias que 
me dêem essa ocasião? E será certo o que me 
disse Dom Rodrigo? Um filosofo.... um filor 
sofo traça um casamento? 

E eis aqui, a meu ver, uma contradição da 
filosofia. A sua correspondência fará menos tris- 
te a minha solidão: eu espero que ma con- 
tinue. 

Sempre terei a satisfação de confessar-me 
muito sua veneradora. 

4 — novembro de 1775. 

Joarm Isabel. {^) 

P. S. Porque razão não fizestes 
Justos Céus, porque razão 
Menos áspera a virtude 
Ou mais forte o coração? 

Quem sabe defender tão bem os direitos 
da Natureza glosará muito bem este quarteto. 

(1) Adiante se saberá quem era esta senhora. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 93 



III 



CARTA DA AMANTE DE JOSÉ ANASTÁCIO 
AO QUE PARECE 



Meu adorado José 



Recebi a tua carta que estimei mais do que 
posso explicar. Fiquei descançada da paixão que 
tinha. Havia poucos dias antes de receber a 
tua que me afirmaram tu estavas já fazendo; 
companhia a Liandro (José Leandro Meliani da 
Cruz) e aos mais. Todas estas malditas noticias 
me chegam. O juiz de 'fora doesta terra diss^e 
algumas cousas publicas a teu respeito; ele é 
natural de Vila Nova de Cerveira, conhece-te 
muito bem, essas não tas mando dizer por não 
ter a certeza de que esta te irá á mão icomo al- 
gumas que eu te já escrevi. 

Se a jornada fora mais perto e não houvesse 
■ este máo tempo havia de ter já ido ver-te e 
contar-tas. Deus queira que estes ditos não pas- 
ísem a mais. Crê, meu José, que se eu souber 
alguma coisa de maior que ainda que a chuva 
muita seja eu hei-de ser a mesma carta. Tam^ 
bem se diz que ha-de ir breve o Catvadi. Crê 
que eu sou muito, muito, tua amiga e eu em 
ti conheço o quanto és meu. 

Desta tua criada 






CARTA A JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA DA SUA 
AMANTE. INTERESSANTE PELA SUA REDAC- 
ÇÃO, PELA SUA ORTOGRAFIA, E PELOS 
INDECIFRÁVEIS SINAES COM ELE COMBI- 
NADOS, (reproduzida photographicamente) 



rv. 



j^ 



í " 














DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 95 



«Barca, 12 de dezembro. 

Meu José querido. 

Faso esta a saver da tua saúde pela obri- 
guasam que tenho e jutamente saver se he serto 
hir do teu rigimento duas ou três pesoas para 
o.... por diversas cousas e que... nisto me fala- 
ram tam bem te embocaro proguntaram se eu 
savia do teu viver que tinham noticia de que a 
tua... era a mesma e que... como querias eu gue 
disto desconfio e lembrando do mais que me ti- 
nham dito e disse que nam poâeria aver pesoa 
mais.... e a de... do que tu asim mesmo tomara 
saver o fim destas couzas e se he serto do mais 
que te relato. 

Eu fico oom grande cuidado perdoa pelo 
amor de deos eu fazer esta carta mas se o asim 
nam fizesse julguome que seria a pesoa mais 
em digna do mundo tenho esta obriguasam e 
mais ainda o que no papel não poso expelicar. 

Se poderes não me faltes com a resposta 
desta, etc». 

Note-se que as três cartas são; transcritas 
ipsis ver bis, mas não ipsis literis. A ultima, es- 
pecialmente, de tão boa redacção foi por nós 
pontuada e ortografada. Nela se encontra por 
exemplo manto por muito, etc. 



JOSÉ ANASTÁCIO CONFESSA AS SUAS 
CULPAS 

...Em audiência de manhã o senhor inquisi- 
dor Manoel António Ribeiro ntandoa vir pe- 



96 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



rante si hum homem que no dia de hoje chega 
preso aos cárceres doesta inquisição.... Disse cha- 
ntar-s^e José Anast^iclo da Cunha, lente de Geo- 
metria Jíesta Universidade de Coimbra, soltei- 
ro^ filho de Lourenço da Cunha, jâ defunto, 
mitural da cidade de Lisboa, de trinta e cinco 
anos de edade. 

Palavras sacramentaes do auto; isto passou- 
sc no dia 1 de julho de 1778. 

O grande poeta e matematicx) começou por 
se referir á sua puerícia em que christamente foi 
educado por sua santa mãe; até os 18 anos foi 
educado pelos padres da Congregação do Ora- 
tório e aos 19, por lhe oferecerem a patente 
de tenente de bombeiros para o regimento de 
artilharia da praça de Valença, que então se 
formava, para ahi foi, e ahi teve familiaridade 
com alguns oficiaes protestantes. Por virtude 
d^essa convivência lia frequentemente livros pro- 
hibidos, comia carne em dias defesos, assentindo 
em erros contrários á fé. Persuadio-se ser justa 
a tolerância em matéria de religião e que quem 
errasse nesta matéria, não sendo por maíicia, 
se salvaria; duvidou da justiça das leis da Igre- 
ja, negou a tradição, duvidou da Predestinação, 
traduzio obras de Voltaire e seguio as suas dou- 
trinas. Doestas citou a tragedia Mafoma. Con- 
fessou-se mais partidário do tolerantismo e do 
que hoje chamaríamos livre pensamento, enten- 
dendo que era impiedade e tirania obrigar os 
homens a cdtivnr os seus entendimentos e dis- 
cursos a algumas regras, leis e preceitos. Ci- 
tou uma ob-a sua em que vagamente criticara a 
Inquisição; confessou o caso do cão atrás re- 
ferido e por tudo pois se mostrou muito con- 
trito e desejoso de reconciliar-se. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 97 



Em 11 de julho aditou as suas confissões. 
Lia livros prohibidos, especialmente Voltaire de 
quem formava o seguinte conceito: vendo nas 
suas obras o zelo com que ele queri^i estabe- 
lecer que todos os homens reconhecessem um 
Deus, €e amassem mutuamente e vivessem to- 
dos como irmãos sem se perseguirem deixando 
a cada um a liberdade de pensar em matéria 
de religião e pelo ntais que também queria es- 
tabelecer a respeito da adntinist ração da Justiça 
e muitos objetos de politica todos interessantes 
ao género humano, esteve persuadido que este, 
por tudo isto, lhe deviçL muito e que era d^elle 
um grande bemfeítor e que a respeito d^ou- 
tros se não lembra de ter feito o mesmo juizo. 

Os inquisidores não estavam com meias me- 
didas e assim!, a propósito da interessante carta, 
atrás transcrita e assinada por Joana Isabel pro- 
vocaram da parte de José Anastácio a seguinte 
explicação : 

Persuade-se ser isto por que se lhe per- 
gunta o que passou com D. Joana Isabel For- 
jaz, a qual em uma ocasião lhe mandou dizer, 
escrevendo-lhe de Lisboa para esta Universidade, 
lhe parece que haverá três anos, que tinha ou- 
vido dizer ele casava e que isto contradizia a 
sua Filosofia ou que se admirava de que um 
filosofo quizesse casar mas não sabe em que 
sentido ela dizia isto, pois ele réu nunca lhe 
deu noção alguma de Filosofia que contradis- 
sesse o estado do Matrimonio e que com a dita^ 
senhora teve muito pouco trato e só de a vi- 
sitar algumas vezes por ceremonia e a tempo 
que estava assistida de outras visitas e que se 
persuade que esta carta se acharia entre os seus 
papeis e tanibem a resposta minutada que lhe 



98 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



fês na qual rejeikiva o nome de Filosofo que 
ela lhe dava. E que nunca julgou que isto ti- 
vesse a mínima referencia á Religião. E que em 
uma das ocasiões que a visitou em Lisboa lhe 
deu uns sonetos amvotorios que havia muito tem- 
po tinha feito e nada continham contra a re- 
ligião por ela lhe ter pedido com instancia que 
desejava ver alguma obra sua. 

Agora as explicações da carta que também 
atrás transcrevemos de D. Joana Maria do Nas- 
cimento: 

— Disse que nunca tivera discípulos de Fi- 
losofia, nem nunca admitira o nome de Filo- 
sofo e que só teve um:a discípula chamada D. 
Maria Inácia Ferreira Souto, filha do Inten- 
dente Geral da Policia, Inácio Ferreira Souto, 
á qual ensinava a lingua ingleza, a qual sabe 
as línguas latina e franceza e tem mudos co- 
nhecimentos e muita aplicação e ■ confessa que 
não fês eleição de livros corrétos para lhe dar 
as ditas lições e que lhe mostrou nesta lingua 
Pope na Epistola de Aluiza a Abelardo na qual 
não havia cousa que ele conhecesse contraria 
á religião e lhe levou outros como os Contos 
Moraes de Marmontel, Be lis ar lo, o Espetador 
e uns volumes de Voltaire e que não deixou de 
lhe advertir antes que neles havia alguma coisa 
contra a Religião, que era preciso ser lido com 
cautela e que ela o assegurara que nenhuma 
impressão lhe fariam as ditas cousas nem cor- 
ria risco algum do que se persuadio e ainda 
se persuade por conhecer nela muita piedade^ 
christandade e juizo e algumas traduções lhe 
deu inocentes. 

Confessando assim tão largamente deram 
os inquisidores por finda a sua missão. E por 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



99 



TERMO DE SEGREDO. 



AOS i^^z^^^^^ dias do mez de , 

de mil fetecentos Qt/^^^A.^íCí^s^íi,^^^^.^^^ annos 
em Lisboa nos Eftacs , e cafa do dcfpacho da San- 
ta Inquifiçaó, eftando ahi em audiência da .^^^fc.í:^'^'^ 

/í-^sÊsr^^a» . os Senhores Inquifidores , mandárro 

vir perante fi do cárcere *da penitencia ^J^f^:Cí3^ ^^.A/^at.^^ 

^^^^^ .R. prez<57contheud^nefte proceíTo , e fendo 

prefente, lhe foy dado juramento dos Santos Euangelhos , em 
que poz a maõ , e fob cargo delle lhe foy mandado , que tenha 
muito fegredo cm tudo o que vio , e ouvio neíles cárceres , e 
com cll fe paíTou acerca de feu proceíTo, c nem por palavra, 
nem efcnto o defcubra , nem por outra qualquer via que feja, 
fobpena de fer gravemente caíligad^^, oqUe tudo ell<e^rcmet- 
teo cumprir, e íob cargo do dito juramento , de que fefez efte 
termo de mandado dos ditos Senhores , que ^sWípfy^c/^.*'^^^ 




lUhGjjJe^fi^ 



oT 



^jy^:^.^ (..-^'Xío^-^í-/ 



Termo de segredo com que fecha o processo 
de José Anastácio da Cunha. 



100 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



isso foi-lhe finalmente publicado o acórdão con- 
denatório no auto da Fé celebrado na sala publií- 
ca 'da Inquisição, de Lisboa, a 11 de outubro 
de 1778 e por ele condenado a três anos de 
reclusão na Casa da Congregação do Oratório, 
nas Necessidades, tendo durante o primeiro ano 
2 dias por mês de penitencia e, após a re- 
clusão, desterrado por 4 anos para Évora, não 
podendo mais entrar em Coimbra nem em Va- 
lença, do Minho. 

Cumprio José Anastácio da Cunha a pena 
de reclusão e, depois de seu requerimento, foi- 
lhe perdoado, em 23 de janeiro de 1781, o 
resto da pena, ou sejam os anos de degredo 
para Évora (^). 

Amargos foram os meses da sua reclusão; 
deprimente e vexatória a pena a que o con- 
denaram mas a Inquisição alicerçou doesta arte, 
embora á custa de lagrimas, a sua celebridade 
imortal ! 



(1) Inquisição de Coimbra, proc. n.o 8.087, dos 
apartados na T. do Tombo. 



I 



VI 



o DICIONARISTA E GRAMÁTICO 
MORAES E SILVA 

PRIMEIRA VEZ 
(1779) 

SEGUNDA VEZ 
(1806 A 1810) 



Quem de nós, por miodesta que seja a sua 
livraria, não tem no meio dos seus livros o Di- 
cionário da língua portuguesa, por António de 
Moraes e Silva? 

Perfilado solenemente, grave na sua enca- 
dernação de carneira, com os dourados do estylo, 
ahi o temos sempre pronto a elucidar-nos, a 
prestar-nos todos os esclarecimentos etimológi- 
cos, a apresentar-nos os passos dos clássicos 
que nos interessam, a ensínar-nos finalmente no 
justo significado das palavras. 

Pois é o seu autor que vamos ver a bra- 
ços com a Inquisição. 



102 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Em 17 de maio de 1779, na inquisição de 
Coimbra, perante o inquisidor Manoel António 
Ribeiro, veio depor o estudante de Geometria 
na Universidade, Francisco Cândido Chaves, de 
23 anos de edade e filho do advogado nos 
auditórios de Lisboa, Joaquim Pires Chaves. 
Contou: vira-se obrigado a pedir comida numa 
republica da Travessa de Sub-Ripas onde vi- 
viam estudantes de Lisboa e do Funchal, repU' 
Mica também frequentada pelo então quintanis- 
ta brazileiro, António de Moraes, natural do 
Rio de Janeiro. Ahi se comia carne na quares- 
ma, se discutiam pontos da religião, se citavam 
autores como Voltaire, Rousseau, a quem cha- 
mavam profundiss^mo filosofo e Helvécio. 



QÂ, 



'fUrcmi^ cLAJifrt^tJ T^ 



Fac-simile da assinatura de Moraes e Silva 



Ganhando com ele confiança asseveraram-lhe 
as seguintes proposições: era fabula tudo o que 
se dizia do inferno e dos seus castigos, sendo 
Deus tão benigno; não havia purgatório; a alma 
era mortal porque, estando no corpo havia deocur 
par logar, e ocupando logar era corpórea e por 
conseguinte mortal; negavam factos da Escritu- 
ra, dizendo que em parte é necessária a sua 
doutrina somente para conter os homens na so- 
ciedade, em muitas partes é fabulosa e noutras 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 103 



contem factos pecaminosos e menos lícitos; os 
preceitos dio jejum e da abstinência de carne 
nos dias prohibidos eram quimeras; as missas 
eram uma historia para ganhar dinheiro; negam 
a validade das indulgências, escarnecem d^elas, 
da sua virtude e da autoridade pontifícia; por 
ocasião de pregar o padre mestre Durão ouvio- 
Ihes dizer que ele tinha errado em querer pro- 
var a pureza de N. Senhora pela razão natural, 
quando, para ela se provar, só pela Escritura 
Sagrada, que eles negavam; falavam contra os 
frades e o estado eclesiástico. 

Em especial, de António de Moraes contou 
que, vendo uma gata com dores de parto, disse: 

— Eis ahi o pecado original de AdãOj tudo 
são efeitos naturaes e não ha tal pecado. 

Longa era a lista de todos os denunciados: 
Diogo José de Moraes Calado, António de Mo- 
raes, António da Silva, Luiz Carlos Mourão, 
Joaquim Cavalcante, natural de Pernambuco, 
quintanista de cânones e companheiro de An- 
tónio de Moraes; Francisco de Melo, também 
brazileiro; João Theodoro e José Maria da Fon- 
seca, de Lisboa; António Pereira Caldas, bra- 
zileiro, do segundo ano de Direito Civil; e 
Joaquirh José Ferreira, de Alhandra. 

Ainda o estudante Chaves não chegaria á 
egreja de Santa Cruz, no pnoprio dia da de- 
nuncia, imediatamente os inquisidbres de Coim- 
bra oficiavam para Lisboa nestes termos: 

Senhora. 

 Meza doesta Inquisição chegou hoje 
Francisco Cândido Chaves, estudante de Geo- 
metria nesta Universidade, a denunciar nella os 



104 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



réos e os crimes que da mesma denuncia cons- 
tam, que com esta pomos na presença de V. 
Magestade. E porque estes factos são tão hor- 
rorosos e tão prejudiciaes á conservação e pu- 
reza de nossa santa fé católica, sem que fosse 
bastante a cohibi-los a demonstração publica, 
com que V. Magestade foi servida proximamen- 
te castiga-los em outros réos dos mesmos de- 
lictos e ficarão agora estes impunidos, não se 
procedendo contra elles por esta única teste- 
munha, que somente contra si tem; temendo- 
nos do evidente perigo, que ha, de que per- 
guntando-se antes de proceder á captura d^elles, 
as testemunhas referidas pelo denunciante, che- 
gue á noticia dos delatos esta deligencia e se 
frustre o fim d^ella; e ponderando as gravissi- 
mas pircumstancias de que este negocio se re- 
veste e de que a qualidade d^elle não sofre 
dilações muito especialmente por ser chegado 
o tempo de ferias para a mesma Universidade, 
nos pareceu preciso pô-lo logo sem perda de 
tempo na presença de V. Magestade, para que 
se for servida resolver se ponham os seis pri- 
meiros delatos em custodia e se passe logo a 
perguntar as ditas testemunhas referidas, assim 
o executarmos. 

Coimbra no Santo Oficio em Mesa, 17 de 
maio de 1779. 

José Áútonio Ribeiro da Moía. 
Manoel António Ribeiro. 

A isto respondeu o Conselho Geral do San- 
to Oficio: 

«Visto não ser bastante a prova de uma só 
testemunha, os inquisidores procedam com toda 



I 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 105 



a cautela, diligencia e brevidade a procurar to- 
dos os meios por que possam inquirir mais al- 
guma testemunha que concorde com o denun- 
ciante e, conseguindú-o assim, procedam logo 
sem mais recurso á prisão aos delatos. 

Lisboa, 21 de maio de 1779». 
6 rubricas. 



Com efeito assim se procedeu. 

Em 27 de maio, foi interrogado o estudan- 
te de medicina João Laureano Nunes Lager e 
contou que, indo a sua casa o quintanista Antó- 
nio de Moraes e Silva, companheiro de Joaquim 
José Cavalcante, morador no bairro do Salva- 
dor, junto á rua do Loureiro, lhe perguntou se 
queria ser pedreiro livre, ao que a testemunha 
respondeu : 

— Quero, sim senhor. • 

E o quintanista Moraes e Silva, voltando-se 
para os presentes, replicou que seria bem fei- 
to darem-lhe umas poucas de pancadas por dar 
tal resposta, parecendo entretanto ser de brin- 
cadeira. 

Outra vez, no dia 29, veio á Inquisição 
o denunciante Francisco Cândido Chaves e con- 
fou como, após a sua denuncia, os denuncia- 
dos, entre os quaes Moraes e Silva, chama- 
ram-no a um quartoi e disseram-lhe que des- 
confiavam do Santo Oficio e por isso se v^i- 
nham confessar declarando que tinham um com- 
panheiro tolo, ele denunciante, a quem, por brin- 
cadeira, convidaram para a seita dos Pedrei- 
ros Livres e por isso, caso fosse chamado, não 
desdissesse as suas declarações. Encarregaram- 



106 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



no de lhes declarar tudo o que passasse no 
Santo Oficio. 

Em 15 de junho, pela terceira vez, o no- 
vato Francisco Cândido Chaves veio á mesa da 
Inquisição e acusou especialmente o futuro dicio- 
narista. Ouviu-lhe dizer que o Santo Oficio era 
um tribunal estabelecido sem autoridade pois, 
com bulas falsas, viera a Portugal um italiano, 
Savedra, e o instituirá, oom auxilio dos padres 
da companhia; era o Santo Oficio contrario á 
Escritura Sagrada pois Christo mandava que nin- 
guém fosse obrigado a crer na sua lei com vio- 
lência e o Santo Oficio obrava mal em obrigar 
por força a seguir a religião christan, pois devia 
ser livre a cada um seguir a religião que me- 
lhor se ajustasse á sua razão. Só, por politica, 
comprehendia pois a Inquisição: para evitar as 
diferenças de crenças no mesmo paiz. 

A esse tempo, já a 28 de maio — o nosso An- 
tónio de Moraes se havia apresentado á Inqui- 
sição. Transcrevemos as declarações que á sua 
biografia interessam : 

— Disse chamar-se António de Moraes Sil- 
va, estudante do quinto ano de leis, solteiro, 
filho de António de Moraes e Silva, natural 
do Rio de Janeiro e morador na rua do Lou- 
reiro, freguezia do Salvador doesta cidade, de 
23 anos de edade. 



Que fazendo-se huma função em caza de 
de Diogo José de Moraes Calado, natural de 
Lisboa, morador na Rua de Sob Ripas, estudan- 
te do quinto anno de Leys, aonde jantarão no 
ultimo dia de Entrudo doeste ano asim elle 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 107 



apresentado, como o dito Diogo José, e os 
companheiros deste: Lourenço Justiniano de 
Moraes Calado, seu Irmão, Francisco José de 
Almeida, António Caetano, Francisco de Mello 
Franco, natural das Minas, morador na Rua do 
Norte, estudante do primeiro anno de Medi- 
cina; Vicente Júlio Fernandes, natural da Ilha 
da Madeira, morador nas vizinhanças do Pro- 
vedor da Comarca, estudante do primeiro anno 
Juridico; Nuno de Freitas, patrício e compa- 
nheiro do dito, e outros, de que não está bem 
lembrado, crescendo carne do dito jantar que 
se não pôde comer naquelle dia, na quarta 
feira de Cinza, de tarde, perto da noite, a cor* 
merão asim elle apresentado, como todos os 
sobreditos menos Francisco de Mello Franco, 
que nesse dia não apareceo na referida casa. 
Disse mais que por se achar molesto na 
quaresma passada de huma gonorrea o sobre- 
dito António Caetano pelo que em toda, ou 
na mayor parte delia, comeu carne, hindo elle 
apresentado a caza do dito como muitas vezes 
costumava fazer desde o principio deste anno 
lectivo em razão das conferencias literárias que 
tinha com o dito Diogo José, por trez vezes 
estando ceando o dito António Caetano, ou an- 
tes, ou depois disso comeu elle apresentada 
carne, da que se tinha feito para o mesmo 
doente, que sempre foy prezunto e vio que 
também delia comerão os sobreditos estudan* 
tes que asima tem dito comerão na quarta feira 
de cinza, não todos juntos nas referidas trez 
ocazioens, mas sim humas vezes huns, e em' 
outras outros, e em todas as sobreditas oca- 
zioens que elle aprezentado comeu carne, o não 
fez por desprezo do Preceito da Igreja, mas 



108 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



sim por Golozina, reconhecendo que pecava, pelo 
que se confesou destes peccados. 

Disse mais que chegando de Lisboa, em 
Dezembro passado, para estudar nesta Univer- 
sidade Francisco Cândido Chaves e não tendo 
meyos para nella subsistir, por caridade o fez 
recolher em huma caza junto da Igreja de San- 
ta Justa o Padre * Fr. Felipe, cujo sobrenome 
não sabe, Religiozo do Collegio de Nossa Se- 
nhora da Graça e pior ser o dito Francisco Cân- 
dido, patricio e conhecido de João Lauriano e 
Francisco José d^ Almeida amigos delle apre- 
sentado, forão todos trez vizitallo, e se com- 
padecerão delle por verem que dormia no chão, 
pelo que ajustarão entre si comprar-lhe huma 
cama no principio do mez seguinte em què 
havião de receber as suas mezadas, mas pouco 
depois o Senhor das Cazas deitou fora o dito 
Francisco Cândido por dar escândalo na vizi- 
nhança com mulheres, de sorte, digo por ser 
escandalozo á vizinhança que fossem a caza do 
dito Francisco Cândido estudantes, e ainda que 
constasse aos ditos João Lauriano e Francisco 
José d^Almeyda que o dito Francisco Cândido 
era tão paralvilho, que vendera a cama, que 
lhe dera o sobredito Padre Fr. Felipe, e fa- 
zia o mesmo do azeite que também lhe dava 
para se alumiar, alem da reção, movidos de 
piedade o recolherão em sua caza, aonde ainda 
está, suposto que nella não tenha tido bons 
procedimentos porque athé vendeo huns livros 
que lhe emprestou o dito João Lauriano para 
estudar, e como notassem, que elle era estú- 
pido, tollo, sendo aliaz vilhaco, o envestião mui- 
to frequentemente e hindo elle apresentado a 
caza dos ditos pouco antes, ou depois da Pas- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 109 



coa, vio que estavão falando em pedreiros li- 
vres, no segredo desta seita, seu Instituto e 
couzas similhantes, de que mostravão não ter 
noticia e elle aprezentado tinha ouvido a Fr. 
Anastácio Furtado de Mendonça, Doutor da Çar- 
bona, Religioso da Ordem do Carmo Calçado, 
que foy seu mestre de Filosoffia no Rio de Ja- 
neiro, que todo o segreda delia hera huma mera 
logração, perguntou por graça ao dito Fran- 
cisco Candiáo se queria Ser Pedreiro ^Livre te 
respondendo que sim, pondo-se todos em tom 
serio, para melhor o lograrem, pois esta era a 
sua tenção e não outra, lhe disse elle apresen- 
tado, que fasia diligencia porsatisfazer aos seus 
desejos e passados alguns dias, que não forao 
os precizos para vir resposta de Lisboa, aonde 
disse havia de escrever por estar ali o Chefe 
dos Pedreiros Livres, fingindo que tinha ordem 
para ser admitido, o levou em huma noite a 
caza de António da Silva Lisboa, natural de 
Angola e morador ao Collegio Novo, estudan- 
te do segundo anno do curso juridico, aonde 
tarnbem farão, mas separados delles, os sobre- 
ditos Diogo José de Moraes Calado, seu Ir- 
mão Lourenço Justiniano de Moraes Calado, An- 
tónio Caetano, Vicente Júlio Fernandes e Fran- 
cisco José de Almeyda, que chegou por fim do 
brinco, e introduzido o dito Francisco Cândido 
Chaves em huma caza escura por elle apresen- 
tado aonde lhe disse estava muita gente, vendo 
que estavão sós porque os mais estavão em 
hum quarto vizinho para lhes não perceber o 
rizo, que não poderião suster e perguntando- 
Ihe António da Silva se queria ser pedreiro li- 
vre respondeu que sim, perguntando-lhe mais 
se sabia o que era respondendo que não, e que 



110 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



SÓ entendia ser huma sociedade em que os mais 
ricos ajudavão aos mais pobres e feitas outras 
perguntas conforme as matérias ocorrião de Re- 
thorica e Methaphisica a que não respondeu 
em termos, lhe mandou o mesmo António da 
Silva fazer hum exórdio, com que captasse as 
benevoíencias dos sócios ao aceitarem, o que 
fez muito tola e rediculamente e não podendo 
já conter o rizo o fizerão pôr em pé no mey» 
da caza, e metendo-lhe na mão hum papel o pri- 
meiro que mais á mão se achou Ihò mandou 
pôr na cabeça como por ceremonia da seita e 
ultimamente lhe mandou despir a vestia e ca- 
miza o que fizerão os sobreditos e elle apre- 
sentado e Diogo José de Moraes Calado lhe 
derão humas poucas de chicotadas e vindo luz, 
rindo muito da logração em que cahira, o re- 
prehenderão de todos os seus mãos procedi- 
mentos passados que lhe referirão e de que 
elle tivesse a improdencia de querer entrar em 
huma sociedade que ignorava e que não sabia 
se haveria nella alguma couza que fosse offen- 
siva da Religião assim como elle apresentado 
que naquele tempo não sabia que fosse con- 
dennada como depois soube vendo em Berti 
que o Papa Clemente XIII, segundo a sua lem- 
brança, prohibira a dita seita e disserão mais 
ao dito Francisco Cândido que se intendessem 
que elle queria ser membro da dita seita com 
tenção de se afastar dos sentimentos da Igreja 
sem duvida o denunciarião ao Santo Oficio, 
mas elle protestou que não era esta a sua ten- 
ção, mas deste brinco e investida resultou ini- 
mizade e má vontade que tem o dito Francisco 
Cândido a todos amiaçando-os por muitas vezes 
dizendo: 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 111 



— Deixem estar. 

Disse mais que ouvindo o Sermão que, em 
dezagravo da Pureza da Nossa Senhora pregou 
em Santa Anna o Padre Mestre Durão na festa 
que ali se fez não ha muitos tempos, depois de 
sahir da Igreja, perguntando-se não lhe lem- 
bra por quem a Francisco José d'Almeida, de 
quem tem dito o conceito, que fizera do Ser- 
mão respondera este que fora bom, e só lhe 
não agradara querer o orador provar o misté- 
rio da virgindade com provas tiradas de Fenó- 
menos naturaes, de que uzou como foy a de 
passar a Luz por hum vidro, e por hum Dia- 
mante sem os arruinar, ou quebrar, fecundarem 
as plantas tais como a Palma estando o maxo 
e a fêmea distantes. Que pois a Virgindade da 
Senhora era hum mistério e hum Dogtna da 
Fé, ficava incomprehensivel á nossa razão, e 
acrescentou mais o mesmio Francisco José de 
Almeida que não erão necessárias aquellas pro- 
vas naturais, pois que pela revelação ficava cer- 
to, e indubitável aquelle mistério e que fazia 
estas reflexões por haver cabido em tal des- 
cuido, hum tão grande Teólogo e Filozofo como 
era o orador, o que ouvirão Francisco Cândido 
Chaves e Francisco de Mello Franco^ e se não 
lembra de mais pessoas, que estiverão a isto 
presentes. 

Disse mais que haverá dois annos pouco 
mais ou menos estando na Loje do Livreiro João 
Pedro Alho, morador na Rua das Fangas, che- 
gara ali um estudante que não conhecia, e per- 
guntara a elle aprezentado, que conceito for- 
mava da obra do Professor de Felice, que trata 
do direito natural, e respondendo-lhe que era' 
boa, e por tal a julgavão os homens doutos 



112 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



como ai li se achasse também lium clérigo do 
Seminário desta Cidade que não conhece replicou 
este dizendo que aquelle livro estava cheio de 
herezias e pedindo-lhe lhe quizesse lembrar al- 
guma pois não tinha advertido nisso replicou 
que em cada pagina se encontravão ao menos 
cinco proposições heréticas e fez menção de di- 
zer o mesmo autor que a obrigação de cazar 
era universal e que esta Proposição era heré- 
tica ao que elle apresentado respondeu que 
aquelle autor era naturalista e falava nos termos 
do direito natural e não como Teólogo, que en- 
tendia a sua Propozição como preceito do velho 
testamento dado a Adão pelo qual todos os ho- 
mens erão mandados propagar e multiplicar a 
espécie e que assim como nós entendiamos do 
preceito de Deus em huma universalidade não 
methafisica, como nas escollas se diz, nem de 
todos os individuos de espécie humana assim po- 
deríamos entender a do referido autor e haven- 
do outras razões de que se não pode lembrar, 
por haver passado tanto tempo, mudando o dito 
clérigo, a questão entrou a provar, que o es- 
tado do celibato ou castidade perfeita era me- 
lhor do que o de cazado e entre vários lugares 
de S. Paulo, que referio, se lembra daquelles 
em que o Apostolo diz, quizera que todos fos- 
sem castos como elle, ao que elle apresentado 
respondeu que aquella não era a questão que o 
Apostolo no citado lugar não provava nem man- 
dava que todos os homens fossem ou devessem 
ser castos absolutamente e não devião casar e 
que era conselho de mayor perfeição Evangé- 
lica que dava o Apostolo assim como o era offe- 
recer a face a quem ferisse na outra, que tão 
grande absurdo lhe parecia dizer que o pre- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 113 



ceito do Genezis era universal metaphisico como 
dizer que o apostolo queria que todos absoluta- 
mente se abstivessem do matrimonio, tanto por- 
que este era Sacramento Santificado, e instituí- 
do por Christo, como porque devendo-se veri- 
ficar a obra da Redempção nas nações vindou- 
ras era precizo que as gentes existentes actual- 
mente no tempo do apostolo se reproduzissem 
além de outras Profecias que se havião de veri- 
ficar e verificarão depois daquelle tempo em que 
escrevia o apostolo e que elle não tivera ten- 
ção nem o tinha de negar, que o Estado da 
castidade absoluta fosse menos perfeito, que o 
do matrimonio pois era anatematizado pelo San- 
to Consilio de Trento o que tal dissesse. 

Disse mais que por algumas vezes, não lhe 
lembra os lugares nem as pessoas, que estive- 
rão presentes dissera, que era abuzo, ou o po- 
deria haver na multiplicidade de ordenaçoens 
de Pessoas sem Beneficio, ordenadas a titulo 
de Património, fazendo-se regra geral o que era 
lemitação no sobredito Consilio, principalmen- 
te por que os ordenandos erão sem letras, e 
alguns tinha visto embaraçados na tradução do 
Cathecismo ad Ordinandos e o que mais he 
faltos de probidade e modéstia tanto que mo- 
tejavão da probidade, e Santa Simplicidade do 
Prelado, referindo gestos e senistros meyos de 
hipocresias oom que alcançarão as ordens o que 
comtudo não entendera de todos os ordenandos, 
nem também, que houvesse erro no referido, ou 
resultasse ludibrio e desdouro á ordem Ecle- 
ziastica. 

Disse mais, que geralmente se lembrava de 
haver disputado, explicado, referido e conversa- 
do com diversas pessoas, que não pode indivi- 



114 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



duar e em diversas ocazioens sobre pontos taes 
como verbi gr dia o comercio da alma com o 
corpo, da sua natureza, espiritualidade, liberda- 
des, immortalidade, da existência de Deos e 
Religião natural, necessidade da Revelação, di- 
zendo, e fazendo menção não só dos funda- 
mentos destas verdades, mas também dos argu- 
mentos contrários, que elle apresentado sabe 
por haver lido as obras de Genuensis, Abadi 
Clarqui, Pedro Daniel Depini, Bregier, nas suas 
admiráveis refutações do Deismo, e mátrialys- 
mo o que fez por se haver aplicado a Filosofia, 
de que as referidas matérias são parte muito 
essencial, e por ser obrigado pela sua profissão 
a sabellas, seus fundamentos, e rezoens contra- 
rias, ainda aquellas de que os Ímpios se servem, 
e de que os sobreditos autores se fizerão cargo 
para as refutar em vendo por exemplo argumen- 
tarem os Ímpios que refutão e impugnão a ver- 
dade da Historia do Genezis, dizerem que pois 
os animaes fêmeas da espécie irracional parem 
seus filhos com dores, sem haverem incorri- 
do em culpa alguma mas por Ley Fisica da na- 
tureza; asim as mulheres por huma Ley da na- 
tureza e não por castigo do pecado original 
sofrião dores nos partos. 

E como se suppõem que o referido castigo 
he consequência do mesmo pecado, e com tudo 
o não he, também, será falso o antecedente que 
he a existência do dito pecado; argumento que 
elle apresentado ouvio ha anos no Rio de Janei- 
ro em humas concluzoens de Teologia que de- 
fendia um Religioso Beneditino cujo nome não 
sabe aonde elle apresentado estudou Filosofia, e 
este mesmo argomento referio ha pouco tempo 
em casa de Diogo José de Morais Calado, por 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 115 



ocasião de ver parir uma gata e lhe parece que o 
ouvio Francisco Cândido Chaves, que ainda então 
não tinha por inepto, e outros, que ali estavão, 
de que ao presente se não lembra, por costuma- 
rem hir a dita caza muitas pessoas, e hindo elle 
apresentado a referir a resposta que ouvira dar 
ao dito argumento que foy segundo a sua lem- 
brança, que a espécie irracional he incapaz de 
peccado, e que a natureza do homem antes da 
culpa tinha outras leys acerca da comprehensão 
do seu espirito e padecimento do seu corpo e que 
se os homens não pecassem em Adão nenhuma 
dor sofririão, se meteu outra conversa, pelo que 
não pode referir a dita resposta. 

Disse mais que não duvidava poder-lhe ter 
escapado por imprudência ou por força de ar^ 
gumento alguma Propozição impia ou errónea, ou 
ter ouvido alguma e semelhantes a outras pessoas 
pelas mesmas ocaziíoens mas não adverte que as 
ditas pessoas tivessem adhezão a doutrinas erra- 
das assim comio elle apresentado protesta que a 
não teve nem tem e que está firme e sempre 
o esteve na nossa Santa Fé Católica e Religião 
Christã e de qualquer erro inculpável, que ti- 
ver cometido, pede perdão e mizericordia». 

Coimbra era meio pequeno e o segredo 
da Inquisição estava bem longe de ser guar- 
dado á risca, motivo porque o futuro gramático 
e dicionarista se apressou a ir assim de encon- 
tro ás acusações que lhe faziam. 

Em 12 de junho foi novamente interrogado 
pelo inquisidor José António Ribeiro da Motta, 
acerca da sua genealogia. 

Estudante do quinto ano juridico era natu- 
ral do Rio de Janeiro e morador na rua do 
Lx)ureiro, freguesia do Salvador como já disse- 



116 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



mos. Ao tempo tinha 23 anos de edade e os 
seus pães, ainda vivos, eram António de Moraes 
Silva e Rosa Maria de Carvalho, ambos natu- 
raes e moradores no Rio de Janeiro, e vivem 
dos lucros de uma botica que administram por 
um cfl/jkT^íVí?. Batisado, segundo parece, na sé do 
Rio de Janeiro por fr. João Batista, religioso 
barbadinho italiano, foram seus padrinhos Bento 
Luiz de Carvalho, padrasto de sua mãe, já de- 
funto e sua avó Teresa Ferreira de Carvalho, 
ainda então viva, natural das visinhanças do 
Porto e aquelle também natural de Portugal, mas 
não sabia d^onde. 

Continuando na sua auto-biografia disse que 
estudou gramática com seu tio Manoel Rodrigues 
de Carvalho, vigário da vara da vila de Parati, 
(íistricto do Rio de Janeiro; rhetorica, sem mes- 
tre; filosofia nos conventos dos padres de S. 
Bento e do Carmo calçado no Rio de Janeiro; 
geometria nesta universidade de Coimbra. Tem- 
se aplicado ao estudo das linguas francesa, ingle- 
sa e italiana, que sabe e tem lido o Systema 
da N ature Sã, de Mírabeaa. 

Resolvendo matricular-se em Coimbra sahio 
do Rio de Janeiro pela Bahia onde se demorou 
doze dias e por Lisboa, onde esteve dois mezes, 
e d^ahi para Coimbra d'onde só sahio uma vez 
para ir a Lisboa. 

Em 18 do mesmo junho foi novamente in- 
terrogado especialmente por causa da leitura 
do livro de Mirabeau e confessou então que 
não só este autor tinha lido, como também Mon- 
tesquieu, Becaria, Voltaire, etc. 

Em 6 de julho novamente confessou que 
fivera com um seu camarada discussão sobre o 
seguinte ponto: qual era maior pecado faltar 



» 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 117 



nos Domingos á missa ou ás aulas a que, por 
juramento, eram obrigados? Acrescentou ainda 
que lera Rousseau. 

No dia 7 ligeiramente aditou as suas con- 
fissões e os inquisidores de Coimbra proferiram 
lim despacho determinando mandar ao conselho 
geral os autos. 

Com efeito este em 20 de julho de 1779, 
ordenou a prisão de António de Moraes e Silva. 

Mas não lhe faltava boa policia e por 
isso foi nesta altura que o nosso gramático fu- 
gio, escapando-nos infelizmente as peripécias 
doesta fuga talvez romântica como a de Filinto 
Elysio (1). 



NOVO PROCESSO (14321 DA INQUISIÇÃO DE 
LISBOA) CONTRA O BACHAREL ANTÓ- 
NIO DE MORAES SILVA 

Datado de Pernambuco, de 7 de maio de 
1806, recebeu-se na Inquisição de Lisboa um 
oficio, assinado pelo commissario do Santo oficio, 
Joaquim Marques de Azevedo, do qual transcre- 
vemos o seguinte: 

— Na freguesia da Moribeca, doeste bispa- 
do, que fica, distante doeste Pernambuco três 
léguas, acha-se um bacharel chamado António 



(1) Inquisição de Coimbra, proc. n.o 8.094. 
No Boletim da segunda classe, da Academia, vol. I, 
publicou o académico Sousa Monteiro uma noticia 
intitulada O Diccionarisia António de Moraes Silva 
e a Inquisição. Faz, com o seu costumado brilho 
literário, um extracto d'este processo, mas não se 
refere ao da inquisição de Lisboa que, por isso 
supomos totalmente desconhecido. 



118 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



de Moraes Silva, o qual sendo regente da mes- 
ma freguesia vive escandalosamente, falto de re- 
ligião e pouco católico e por isso tem sido va- 
rias vezes denunciado, e de prezente denuncia 
Francisco da Costa Cordeiro que o dito bacha- 
rel não ouve missa nos dias de preceito e come 
carne nos dias de jejum e do mesmo modo 
conduz a sua mulher, filhos e escravos e além 
de não mandar los escravos á missa, os obriga 
a trabalhar nos dias santos e diz por desprezo 
que ha-de mandar ordenar a dous escravos seus 
para dizerem missa na capela do seu engenho; 
e diz Ima is o dito denunciante que vio aos fi- 
lhos do denunciado arrastando pelos campos uma 
imagem do menino Deus e que o mesmo ba- 
charel, estando na Universidade de Coimbra, fora 
acusado ao Santo Oficio, por crimes tocantes ao 
conhecimento do mesmo e que para se subtra- 
hir á pena fugira para os reinos estrangeiros e 
ao depois aparecera neste bispado e na dita 
freguesia onde, com efeito, se acha vivendo li- 
bertinamente com publico escândalo de todos 
os moradores seus subordinados por ser ele o 
regente d^aquela freguesia...» 

Em 31 de maio do mesmo ano novamente 
o mesmo comissário insistia: 

— «Já fiz presente a V. Jl.mas que Francisco 
da Costa Cordeiro denunciara que o bacharel 
António de Moraes Silva, regente da freguesia 
da Moribeca, não ouvia missa nos Domingos e 
dias sanctos e do mesmo modo comia carne nos 
dias de jejum, conduzindo assim a sua familia 
e escravos, os quaes obrigava a trabalhar nos 
dias de preceito; e depois doesta denuncia cer- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA H9 



tificara isto mesmio Manoel do Carmo Inojoza, 
morador na mesma freguezia que o dito bacha- 
rel vivia com escândalo e libertinamente, obran- 
do semelhantes ações e outras de pouco catho- 
lico, sem temor algum de Deus e, por causa 
de egual procedimento, fora também denuncia- 
do estando na Universidade de Coimbra e passan- 
do V. II. mas a tomar conhecimento da vida doeste 
bacharel se passara para reinos estrangeiros e 
agora se acha neste bispado e dita freguesia de 
Moribeca, onde com efeito pratica açÕes escan- 
dalosas e indignas de um verdadeiro catholico...» 
Em 20 de setembro do mesmo ano os in- 
quisidores de Lisboa tomavam conta do caso 
e determinavam ao oommissario respectivo que 
indagando mais circumspedamente sobre esfas 
faltas de religião nos diga se as mesmas são 
pretextadas com algumas causas temporaes, ou 
com erro de doutrina, persuadindo não serem 
pecaminosas a pratica de semelhantes transgres- 
sões, etc. 

Com efeito, em oficio de 11 de dezembro^ 
respondia o aludido comissário: 

...«Fiz a diligencia informando-me mais exac- 
tamente de Francisco da Costa Cordeiro e Ma- 
nuel do Carmo Inojosa que denunciaram ao dito 
bacharel, confirmam tudo quanto declararam nas 
suas denuncias e que as faltas nele notadas 
eram faltas de religião porque não ouve missa 
nos dias de preceito e come carne nos dias 
de jejum sem causa legitima e obriga aos seus 
escravos a trabalharem nos Domingos e dias 
santos não só para exigir d^eles este serviço 
mas para reputar a missa por cousa inútil e 



120 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



irrisória, tanto assim que diz, quer mandar orde- 
nar a dous escravos seus para dizerem missa na 
sua capella, a qual tem quasi vindo a baixo 
desornada e sem decência alguma; e uma ima- 
gem do menino Deus, que estava na dita ca- 
pela, nos braços de S. José, foi por um filho 
do dito bacharel arrastada pelos campos e es- 
tranhando D. Antónia Timotea de Albuquerque 
esta ação disse o pae que não fizesse caso que 
aquilo era ain calunga; e, além de serem estes 
denunciantes pessoas que merecem credito apon- 
tam outras pessoas que as reputam fidedignas e 
afirmam que o dito bacharel António de Moraes 
Silva é homem mui libertino e por tal conheci- 
do em toda aquela freguesia da Moribeca e 
que antes de vir para Pernambuco fora acusadb 
ao Santo Oficio por viver sem religião alguma 
estando na Universidade de Coimbra e que ten- 
do noticia que o tribunal procedia contra ele se 
retirara para Inglaterra e, passados anos voltara 
para Portugal; assim o declaram os referidos 
denunciantes e dão por testemunhas ao- capitão 
José Maria de Albuquerque, senhor do engenho 
Moribeca; o capitão André de Albuquerque, se- 
nhor do engenho Sto. André; o capitão Joaquim 
Florêncio da Fonseca, senhor do engenho Pe- 
nanduba; o tenente Luiz Bezerra, senhor do en- 
genho S. Bartolomeu; João de Barros Correia, 
senhor do engenho Megoipe de cima; o padre 
Manoel António do Espirito Santo, o padre João 
dò Rego, o padre José Inácio Ribeiro, todos 
moradores na mesma freguesia de Moribeca...» 

E nada mais consta do processo, que foi 
arquivado. 

A Inquisição ]i não podia morder. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 121 



[J ÕCJuèiJc 



a^ Ui 




\^vLyjU^ , (Pay^^ c^^/ií?^ 






'£.^Z.U. 






cvl^^^ lj^& . 



Rosto do original da primeira tentativa do 

Dicionário de Moraes; pertencem á Mesa 

Censória, cujo carimbo se vê ao alto. 

Tinham-lhe partidb os dentes. Os tempos 
não lhe corriam prósperos. 

O visconde de Porto Seguro escreveu a bio- 
grafia do ilustre lexioografo Moraes e Silva e 
conta-nos que ele tencionara seguir a carreira 
da magistratura mas António de Moraes oa já 
perseguido oa receiando perseguições do Santo 
Oficio emigrou. «Partio para Londres, diz-se no 
Dicionário Popular, e ahi foi bem acolhido e 
protegido até por Luiz Pinto de Souza Couti- 
nho, homem ilustrado que então era nosso 



122 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



ministro em Londres e que foi depois visconde 
de Balsemão... Foi ahi que adiantou bastante o 
seu Dicionário para o poder começar a publicar 
logo no ano seguinte ao da sua chegada a Por- 
tugal, porque o Dicionário começou a publicar- 
se em 1789 nós estamos convencidos que fíoi, 
em 1788, que Moraes e Silva regressou a Por- 
tugal». 

Moraes e Silva refere-se discretamente ao 
caso nas seguintes palavras do prologo da l.a 
edição do seu Dicionário: 

«Apliquei-me pois á lição dos bons autores 
e succedia-me isto em terra estranha, onde me 
levaram trabalhos, desconhecido, sem recomen- 
dação, e marcado com o ferrete da desgraça, 
origem de ludíbrios e vitupérios, com que se 
afoitam aos infelises as almas triviaes». 

Agora se ficam pois conhecendo esses tra- 
balhos. 

«O diccionario de Moraes limitava-se na 
primeira edição a um resumo do de Bluteau; 
porém na segunda (1813) e na terceira (1823) 
apareceu tão enriquecido, que se converteu em 
obra original e de muitíssima utilidade. Mo- 
raes, livre das garras da inquisição, obtivera no 
principio do presente século licença para passar 
a .Pernambuco e na Mo ri beca se achava já em 
1802. Ahi, apezar dos cuidados que demandavam 
d^elle a lavoura db assucar, á qual se entregou, 
proseguio na obra emprehendida, votando-se com 
o maior afinco ao estudb dos clássicos, e reco- 
lhendo dos campos e dos engenhos muitos ter- 
mos usados familiarmente no nosso paiz, e a 
que deu, por assim dizer sancção litteraria...» — 
pag. 1176 da Histórica geral do Brasil, 2.a edi- 
ção, pelo visconde de Porto Seguro. 



VII 

DOIS POETAS APONTADOS Â 
INQUISIÇÃO 



PEREIRA CALDAS (1779 A 1781) 
JOÃO XAVIER DE MATOS (1798) 



Vagamente se sabia que o grande poeta 
brazileiro António Pereira Caldas, ao frequen- 
tar a Universidade de Coimbra, fora incomo- 
dado pelo Santo Oficio. Mas era-lhe desconheci- 
do o processo, como desconhecido continuará, 
pois não tivemos a fortuna de o deparar. 

Entretanto alguma coisa acrescentaremos. 

Vimo-lo delatado em 17 de maio de 1779 
pelo mesmo estudante Chaves que denunciou 
Moraes e Silva. Vamos agora ver-lhe novas de- 
lações. 

Da denuncia do estudante do terceiro ano 
de Leis, José Maria da Fonseca, filho de João 
da Fonseca Garcia, natural de Lisboa, feita em 
11 de Agosto de 1779, consta o seguinte: 



124 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



«Também ás vezes se custumava ajuntar (em 
Coimbra) António Pereira Caldas, o qual ex- 
pondo o que lia em alguns livros prohibidos 
mostrava a todos os instantes contrariedades 
comsigo mesmlQ e inconstantissimo nos seus pen- 
samentos negava hoje o que amanhã havia de- 
fender; de sorte que o mesmo Francisco José 
de Almeida aff irmou ouvir-lhe dizer sinceramente 
que de tantos argumentos que encontrara con- 
tra a nossa relligião nem hum só o satisfizera» 

A 18 de agosto acrescentava: 

«António Pereira Caldas, do 2.» ano jurí- 
dico, muitas vezes vinha conversar com o Nuno 
e António Caetano (outros estudantes) e ten- 
do lido o Rossô (Rousseau) e mais alguns li- 
vros doestes expunha as suas doutrinas, tocando, 
em muitas... ; porém nisto com grande inconstân- 
cia não as af firmando senão por pouco tempo. 
Emquanto a pratica pareceu-me ve-lo rezar al- 
gumas vezes, de confissão não me lembro ouvi-lo 
fallar, nunca o vi comer carne em dia prohi- 
bido» (1) 

A Inquisição procedeu e o poeta foi em 
Coimbra ao auto da fé de 1781. 



Inocêncio apresenta Xavier de Matos como 
poeta que empregava todo o seu tempo a verse- 
jar nos outeiros a compor canções que depois 
de impressas em papel pardo lhe rendiam al- 
guns minguados cobres. Bohemio, grande foi 
a voga que teve no seu tempo. 



{}) Cadfi 13G do Promoíor da Inquisição de 
Lisboa na Torre do Tombo. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 125 



A um episodio d^essa bohemia s€ refere o 
oficia seguinte dirigido ao juiz do crime do 
bairro d' Andaluz, em Lisboa, que se encontra 
registado no livro V de AvisiOs^ fl. 95, do Arquivo 
do Ministério do Reino, na Torre do Tombo: 

«Recebi a conta de V. mce. na data de 23 
do corrente, em' que dava conta de que João Xa- 
vier de Matos, arrancara o espadim contra o Pa- 
dre Joiseph Matheus, no Mosteiro de Santa Ann.a, 
dando causa a esta desordenada acção a illicita 
correspondência que o dito João Xavier de Ma- 
tos praticava no mesmo Mosteiro, e que fora 
logo preso: E para fazer presente a S. Mag. 
o referido, e haver um pleno conhecimento deste 
cazo, he preciso que V. Mcê. informe do mo- 
tivo que teve o sobredito para arrancar o espa^ 
dim contra o mesmo Padre Joseph Mathias. 
Deus guarde a V. mce. Paço a 26 de Mayo de 
1763. Francisco Xavier de Mendonça Fartadoy>. 

Também com a Inquisição teve contas. 

Com efeito o estudante canonista Jeronymo 
Francisco Lobo, fez em 1798 denuncia de varias 
pessoas e entre essas do poeta João Xavier de 
Matos, natural de Lisboa. Resumindo o seu de- 
poimento quanto a este escreve um inquisidor: 

«João Xavier de Mattos, celebre poeta, em 
Lx.a 

Paresse q escarneou dos versos sagrados 
pelo modo prox. : supr. :; ou ao menos esteve 
prezente ao referido escarneo de João Pereira. 
Hé mais duvidoso por qual desses modos de- 
linquio, pelo mal que se acha escripto no três- 



126 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



lado desta (a de Jerónimo Lobo) extença apre- 
sentação; sendo certo que por qualquer dos dous 
modos he muito capaz de delinquir: porque cons- 
ta da laxidão com que he costumado a dis- 
correr» (^). 

A Inquisição não procedeu. 



(^) Fl. 77 do cad.o 130 do Promotor da Inqui- 
sição de Lisboa. 



VIII 
o POETA BOCAGE 

(1802 — 1803) 



«Eu Maria Theodora Sever iana Lobo, fi- 
lha de Roque Ferreira Lobo, moradora na rua 
da Era, freguesia de Santa Catharina, da ci- 
dade de Lisboa, atendendo ao preceito e obri- 
gação que impõe o tribunal do Santo Oficio 
aos que souberem alguma das cousas conten- 
das nos interrogatórios do edital do dito santo» 
tribunal declaro que ouvi dizer a Manoel Ma- 
ria de Barbosa do Bocage que elle e José Ma- 
ria de Oliveira e um fulano do qual não sei o 
nome mas sei que é filho de Matias José de 
Castro, o qual ouço dizer que é christão novo, 
que todos os três referidos, Bocage, Oliveira e 
Castro, do qual não sei nome próprio eram 
pedreiros livres; e ainda que o dito sujeito o 
disse debaixo de segredo, ella o denuncia ao 
Sto. Tribunal, obedecendo a seus preceitos. 

Alaria Theodora Sever iana Lobo, 



128 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



P. S. Declaro que sou filha do adminis- 
trador do correio do reino e que os sobreditos 
moram: Manoel Maria num beco que está na 
rua Formosa; José Maria dentro do correio do 
qual é escriturário, não sei bem a freguesia 
mas parece-me que é das Mercês e o dito ca- 
pitão Castro na Travessa da Condessa do Rio 
e também não sei decerto de que freguesia é 
mas parece-me que é de Santa Catarina. 

Também declaro que o dito Manoel Maria 
não sei que tenha ocupação e creio que vive 
das suas obras em verso e não sei se também 
em prosa». 

Tal é a reprodução ipsis verbis da denun- 
cia contra Bocage e seus companheiros apresen- 
tada ao Santo Oficio. 

Que andamento lhe deram os inquisidores? 
É o que vamos ver. 

Em 23 de novembro de 1802 oficiaram ao 
confessor da delatora, dizendo que a não cha- 
mavam a perguntas por ser filha-familia mas 
que ele, fora da confissão, lhe podia pedir para 
lhe declarar tudo, sob o máximo segredo. 

Com efeito, em 28 de abril de 1803, o pa- 
dre José dos Reis Marques respondia que a 
denunciante confirmara toda a sua delação acres- 
centando que não estava verta no tempo em 
que o tal Bocage lho tinha dito, mas que es- 
tava certa que tinha sido depois da quares- 
ma d^e 1802, em casa de uns visinhos da sua 
escada, aonde ele e o tal José Maria tam- 
bém algumas vezes iam de visita e disse mais 
que na mesma casa, achando-se ela presente 
em que estavam o dito Bocage e o dito José 
■jyiariã, o tal José Maria ^desenhara em cima 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 129 




Retrato muito conhecido, de Bocage. 



de ama banca um triangulo e em uni angulo 
d^ele um olho e dentro d^ele o sol, a lua 
€ algumas estrelas e duas mãos dadas e que 
dissera, se havia céo neste mundo era aquele 
e chamando o tal Bocage para ver ele se es- 
cusou que não gostava de desenhos, mas ins' 



130 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



tando o dito José Maria veio com efeito ver 
e disse que d^aquêíe que gostava e apagou-o 
logo porque não viesse alguém que entendesse. 

E que o tal Bocage quando lhe declarou 
as coisas não lhe declarou o logar nem o tem- 
po das suas assembleias, mas sim que a tal 
sociedade tinha muitos sócios tanto neste reino, 
como em outros e que se comunicavam e que 
tinham muitas vantagens, que se ajudavam uns 
nos outros e que tinham vftrios slnaes com que 
se entendiam, etc. 

A Inquisição apezar d' isto não procedeu. 
Bocage poude continuar a frequentar despre- 
ocupadámerite o café Nicola e a Posteridade 
perdeu decerto algumas belas produções do seu 
estro poético, ao sentir-se algemado... 



I 



IX 
o POETA CURVO SEMEDO 

(1803 e 1819) 



Por duas vezes o nome do arcadico Belmi- 
ro Transtagano foi pronunciado perante os jui- 
zes dos Estáos. 

Da primeira ainda o advertiram, mas da 
segunda a Inquisição tombava a olhos vistos, 
a revolução de 20 estava no horisonte e o 
pobre Belmiro é bem possível que não estivesse 
no seu completo juizo. Pelo menos nos últimos 
anos da sua vida apagou-se-lhe a luz da razão. 

Eis as duas denuncias: 

Em 13 de Maio de 1803 foi apresentada 
a seguinte: 

«Ouvi que Belchior Manoel Curvo Seme- 
do, filho de Francisco Ignacio Curvo Semedo, 
escrivão dos Portos Seccos, morador em casa 
de seo pay ás Fontainhas de Arroios, dissera 
que todo o padecer era neste mundo, dando a 



132 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



entender que não havia inferno, do que se es- 
candalizou entre outras pessoas sua cunhada D. 
Anna Clementina. Lisboa, 13 de Mayo de 1803. 

P. Dionísio Franco de Barbuda. 



Item ouvi que o mesmo Belchior Manoel 
Curvo Semedo dissera que estas cousas erão 
boas para conter o povo. Lisboa, 13 de maio 
de 1803. 

P. Dionísio Franco de Barbuda». 



Por letra do Inquisidor: 

«Foi advertido em 28 de novembro de 1803, 
M£llo.y> (1) 

E por aqui ficou. 

Em 19 de novembro de 1819 Silvestre An- 
tónio Diniz, professor régio de primeiras le- 
tras em Lisboa, denunciou por escrito aos in- 
quisidores as seguintes blasfémias proferidas 
por Belchior Manoel Curvo Semedo, escrivão 
da Mesa Grande d'Alfandega e morador na rua 
Direita de Thomé: 

I 

Diz que N. S. Jesus Christo é filho (2) 
adulterino porque sendO' N. Senhora casada com 
S. José se tinha copulado com o Espirito Santo. 



(1) Proc. /z.o 17.225 da Inquisição de Lisboa. 

(2) A transcripção é ipsis verbis mas não ipsis 
literis. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 133 



II 

Como podia hum Deos (a quem nada é 
futuro) dar uma lei e depois vir deroga-la? 

Hl 

Que a lei que Moisés trouxe do Monte 
Sinay, que aquelle fogo que elle trouxe era 
arteficial. 

IV 

Nega a resurreição de Jesus Christo e diz 
que umas mulheres foram com bebidas e em- 
bebedaram as sentinellas e dormiram com ellas 
para neste meio tempo o tirarem da sepultura, 
pois se elle fosse Deos não devia deixar de 
fazer uma resurreição magestosa á vista de to- 
dos. 

V 

Diz se a alma é incriada que tem Deos 
lá no outro mundo um armazém d^ almas e do 
mesmo armazém d^onde tira aquellas que fa- 
zem boas obras e se salvão tira a outra para 
o infeliz que se nãio batisou por alguns motivos 
e não fez boas obras e manda para o inferno 
e se é criada que tudo quanto tem principio 
ha-de ter fim. 

VI 

Que na criação do mundo queria Deus ser 
servido por homens ignorantes pois lhe prohi- 
bia que comesse da arvore da sciencia e mais 
que uma criança como se julga inocente não 



134 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



peca pois não sabe o que faz e que logo Adão 
e Eva não sabia o que fazia e que admira 
que não tivesse medo de uma serpente nem da 
sua babuge pois aceita o pomo da boca d^ella 
e que já não encontra serpentes tão mansas e 
que fallem como aquella. 

VII 

Diz mais que o diabo tem feito mais do 
que Deos tem com tantos castigos feito pois 
que leva tanta gente para o inferno e Deos 
por este modo leva muito menos quinhão. 

VIII 

Que admira que os santos escritores uns 
dêm a Ascenção de Deus na Galileia e outros 
em outra parte pois que logo Jesus Christo 
estava com as pernas abertas. 



IX 

Como podia ele ser levado a um alto mon- 
te d^onde visse o mundo todo sendo o mundo 
como uma bola e quem está em cima não pode 
ver o que está por baixo? 

As que disse e muitas mais que me não 
lembram as tem (Curvo Semedo)^ escritas que 
hão-de ser mais de 40 e disse que aquellas 
proposições as tinha apresentado um lente que 
foi nomeado para lecionar em Coimbra na ca- 
deira de Theologia pois que não aceitava o 
dito lugar sem que lhas decedissem e diz mais 
que a paga que lhe deram foi consumi-lo e que 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 135 

logo aqui não se podia dizer nada porque qual- 
quer cx)usa que um homem dissesse era logo 
metido na Inquisição e queí o que eu (denuncian- 
te) devia fazer era viver na Religião que me 
educaram como também me mostrou escrito os 
vicios de muitos Papas que nada me ficou na 
memoria» (i). 



(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 17.610. 



X 



o POETA JOSÉ AGOSTINHO DE 
MACEDO 

(1804 e 1807) 



A vida libertina do demagogo padre la- 
gosta, assim alcunhado pela sua cor rubra, ha- 
via de necessariamente lhe grangear inimigos 
em barda. Poeta de altíssimo merecimento; ora- 
dor sagrado, pamfl etário cheiO' dei talento, a sua 
vida nem sempre foi isenta de senões. Que 
admira pois que o seu nome fosse levado pe- 
rante os inquisidores? 

Não lhe faltavam porém amigos por outro 
lado e a Inquisição não tinha já forças para 
proceder. 

Segue-se a primeira denuncia contra ele que 
supomos inédita: 

Em 10 de Maio de 1804 Soror Mariana 
Faustina da Purificação, religiosa professora no 
convento de Sta. Marta de Jesus, denunciou 
por escrito ter tido por dois anos com o pa-» 




^' 




o poeta Agostinho de Macedo, de solidéu na cabeça 
c pena de pato na mão ao uso da epocha. 



138 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



dre José Agostinho de Macedo, morador na 
rua Velha da Palma, hanta amizade e trafo ili- 
ciio e pecaminozo. Quando d^ella se despedia 
dizia: 

— Adeos mea bem! 

 madre Mariana tinha então 39 anos de 
edade e interrogada em 19 de setembro doesse 
ano declarou que «o dito Pe. José Agostinho 
de Macedo não he confessor e só pregador, mas 
vindo pregar por muitas vezes a este convento 
(de Sta. Marta) e costumando falar com ela 
depoente, em huma d^ellas em que estava o 
sacramento exposto e não podendo por esse 
motivo vir á grade falar-lhe, forão ao confessio- 
nário da igreja, aonde falando naturalmente, no 
fim dâ conversação, lhe disse huma expressão de 
afecto e em outra ocasião, na grade do coro 
da igreja, lhe apertou o denunciado a mão e 
acompanhou com expreçoens de afecto o que 
tudo ela depoente, depois de passado algum 
tempo, lhe pareceo dever denuncia-lo á Meza 
do Santo Oficio, o que com efeito praticou». 

Informando acerca d^ella dizia o commissa- 
rio do Sto. Oficio: ... padece muito da cabeça, 
tem falado e procurado a maior parte dos con- 
fessores desta corte para seos directores por 
cujo motivo não tem a melhor escolha e esta 
moléstia a tem obrigado a estar por muitas 
vezes fora do convento a tomar ares, com que 
não tem tido alivios; porque a moléstia conti- 
nua em maior auge». 

Por outro lado o mesmo comissário infor- 
mando, após interrogatório de testemunhas, acer- 
ca do Pe. José Agostinho de Macedo dizia 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



139 




Outro retrato de Agostinho de Macedo: a farta 
cabeleira, já grisalha, cahe-lhe pelas costas. 



que ele era pregador régio, cujo ministério exer- 
citfl com geral aceitação n^esâa corte (i)'. ' 
Doesta vez poude o padre Agostinho de 



{}) Inquisição de Lisboa, processo n.o t.lld. 



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Rosto do lexemplar manuscrita do poema Gama 
apresentado á censura do Dezembargo do Paço. 











Ultima pagina do exemplar manuscrito do poema 

Gama apresentado á censura do Dezembargo do Paço; 

ao alto o selo d'este tribunal e no fundo o despacho 

mandando publicar o livro. 



142 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



m^ 



i^ Aé/T^^^^, 



C^ 




Rosto do original de outra obra de José Agostinho: 
ao alto o selo da Imprensa Régia. 

Macedo continuar dormindo descançadamente na 
sua cama sacerdotal. 

Passaram-se anos e mova denuncia surgio 
contra ele. 

Em 28 de abril de 1807 foi escrita, a 
rogo de Josefa Maria do Nascimento, antiga 
criada do pe. José Agostinho de Macedo, 
uma denuncia em que ela declarava que estan- 
do em conversação com Domingas.... mulher in- 
famada de mancebia com o referido pe. José 
Agostinho este, porque algumas vezes a diõa 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 143 



Domingas... não queria condescender aos torpes 
ap^etites delle por temor dos castigos eternos, 
o dito Pe. disse para a dita Domingas que 
não havia inferno, que isto da formação do 
mundo era huma historia., etc. (i) 

Um mês depois a Inquisição ainda fingia 
vida e por isso em 9 de maio de 1807, I3omin- 
gas Rita Ebrard, de 30 anos, foi interrogada 
por causa da seguinte denuncia contra o- P,e. 
José Agostinho de Macedo: ouvio-lhe dizer qae 
não avia inferno e qae a gente em morendo 
hera como os animais que não tinhão nada que 
sentir que com a morte acabava o espirito e 
que N. S. hera hum filosifo (sic) daquele tempo, 
taes são as próprias palavras e letras com que 
está escrito o autografo no processo n.o 17:071. 
Ha apenas uma carta d^onde consta que O' pe. 
José Agostinho tinha ameaçado mata-la, se ela 
viesse fazer tal denuncia {^). 

Por tudo isto pois se vê a verdade com que 
José Agostinho escrevia: 

— Eu nunca fui acusado á Inquisição, nem 
lá estava o meu nome. Mestre Pedro (^). 



(1) Proc. n.o 16,439. Publicada na integra a 
pag-. 183 das Memorias para a vida intima de José 
Agostinho de Macedo. 

(-) Publicada a pag. 186 das Memorias para 
a vida intima de José Agostinho de Macedo. 

(■^) Memorias para a vida íntima de José Agos- 
tinho de Macedo, p. 57. 



XI 



o ECONOMISTA 

SILVESTRE PINHEIRO FERREIRA 

DENUNCIADO Á INQUISIÇÃO 



A 10 de abril de 1806 pedio audiência, na 
inquisição de Lisboa, um Gregório Pedro que, 
em tempos fora creado de Silvestre Pinheiro Fer- 
reira a quem acompanhara para Beríim, quando 
Pinheiro Ferreira para lá fora como encarre- 
gado de negócios. Depois de lá estar foi man- 
dado, 'como correio, a Holanda e no seu regresso 
a Berlim veio encontrar o seu patrão casado 
com uma senhora que tinha abjurado^ a seita 
lutherana e se tinha feito catholica romana. Mas, 
segundo era publica voz em Berlim, essa se- 
nhora era casada com um lutherano, vivo ainda 
quando com Pinheiro Ferreira se ligou. 

Nisto consistia a culpa do grande econo- 
mista português, mas culpa a que a Inquisição 
não deu seguimento algum. 

Foi publicada a pagina 158 do Arquivo 
Histórico Português, volume VIII. 




Retrato de Pinheiro Ferreira: o sorriso que llie aflora 

aos lábios transparece nos olhos por detraz dos óculos 

de sábio enciclopedista. 



to 



XII 
o AVÔ DE ANTHERO DO QUENTAL 

1808 



André da Ponte do Quental da Camará 
foi companheiro de cárcere de Bocage. Está 
dito tudo: bohemio, estúrdio, pandego 

Era então cadete do primeiro regimento 
da armada. Poeta e homem de letras, foi, nas 
cortes que se seguiram á revolução de 20, 
deputado pela ilha de S. Miguel. 

Morgado prepotente faleceu provavel- 
mente na ignorância da boa vontade que lhe 
tinha a senhora Gertrudes Porfiria da Con- 
ceição. 

Eis a denuncia contra êle: 

«Em 17 de Maio de 1808, apresentou-se 
na Mesa do Santo Officio, uma denuncia de 
Gertrudes Porfiria da Conceição, moradora na 
Calçada do Sacramento N.o 22, 4.° andar, em 
que dizia que estando á Mesa haveria cinco me- 
ses, em casa de José Maria Marques, morador 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 147 



no Chiado, nas Casas da irmandade do Sacra- 
mento, fallando-se de vários males que pade- 
ciam, e dizendo que Nossa Senhora nos 
acudisse, disse André da Ponte, official do 
regimento do verde: 

— «Ora a que vem cá Nossa Senhora, ou, 
o que é cá Nossa Senhora, eu tinha uns poucos 
de santos em casa, mas já quebrei toda essa 
brejeirada» — o que a todos custou ouvir. 

Assignada pela própria, e escrita e assi- 
g*nada pelo seu confessor, Fr. Domingos 
Moreira, Lente Substituto de Philosophia» (i). 

Não estivesse a Inquisição em decadência 
que a André da Ponte seria bem aplicável 
aquela linda quadra do seu inspirado neto: 



Encostados ás grades da prisão, 
Olham o céo os pálidos cativos. 
Já com raios oblíquos, fugitivos 
Despede o sol um ultimo clarão. 



I 



(1) Inquisição de Lisboa, n.o 15.023. 



XIII 
o PAE DE REBELO DA SILVA 



É DENUNCIADO Â INQUISIÇÃO EM 1812, MAS 
ESTA NÃO PROCEDE 



O Padre Domingos José Fernandes de Me- 
deiros dirigio aos inquisidores de Lisboa, em 
19 de setembro de 1812, o seguinte officio: 

II. mo Sr. Inquisidor 

O Pe. Domingos José Fernandes de Me- 
deiros, presbítero secular, natural doesta cidade 
e morador na rua dos correiros n.o 144, denun- 
cia perante V. S.a que, achando-se no dia 27 
de agosto do presente ano na vila de Almada 
em casa do juiz de fora, Luiz António Rebelo 
da Silva, e estando só com ele, por ocasião 
de se falar da sua ordenação, ouvira dizer 
ao dito ministro que não havia diferença entre 
os sacerdotes egipcios e os dos christãos senão 
em que os primeiros estavam persuadidos da 
falsidade do que faziam e entre os segundos 
havia alguns que se persuadiam da verdade 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 149 

do seu culto; e que todas as religiões eram 
o mesmo, pois assim como os gentios adora- 
vam a Marte como deus da guerra, assim 
agora os christãos procuravam o patrocinio 
dos santos para as suas necessidades. 

O denunciante, assim que ouvio taes erros, 
retirou-se para outro quarto e no seu sem- 
blante mostrou não os aprovar, porém não 
se atreveu a impugna-los directamente tanto 
por conhecer de tempos anteriores pela muita 
familiaridade que tem conservado com o dito 
ministro a tenacidade em todas suas opiniões 
e a subtileza dos seus argumentos, (com a 
qual certamente o denunciante não pode com- 
petir) e que por isso nada aproveitaria e tal- 
vez obstinaria numa contestação declarada; 
como também porque, achando-se em outros 
quartos dous creados e acendendo-se a disputa 
viria a patentear-se o motivo d'ella e seguir-se 
escândalo para a familia e infâmia para o 
dono da casa. 

Denuncia mais que o sobredito ministro 
tinha em seu poder os livros UEsprit por 
Helvécio e a Historia Geral, de Voltaire, os 
quaes não sabe se são d^elle, ou se os lê. 
Declara porém o denunciante que não se 
entreteve na leitura d^essas obras, mas so as 
vio pelos titulos. 

O denunciante confirma a verdade da sua 
denuncia com o juramento dos santos evan- 
gelhos, sendo necessário. 

Lisboa, 19 de setembro de 1812. 

O Pe. Domingos José Fernandes- de Me- 
deiros (^). 

(1) Inquisição de Lisboa, n.o 14.502. 



150 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Que pena! O sr. padre Domingos, talvez 
muito familiar e muito querido da casa do 
illustre juiz de fora, enganou-se na era. 

Devia ter vindo um século antes para cevar 
á vontade a sua vileza de delator ruim. 

Assim, nada conseguio; a não ser descar- 
regar a consciência e praticar uma acção feia 
e ingrata ... 

Rebelo da Silva continuou a sorver a the- 
riaga das paginas pecadoras de Voltaire e por- 
ventura dos outros encyclopedistas e passou 
— o que mais é — a pecha para o filho que 
tão notável se tornaria nas letras pátrias! 



VÁRIA 



COMO OS CIÚMES DA ESPOSA DE 
D. JOÃO V PROVOCAM A INTER- 
VENÇÃO D^UM INQUISIDOR GERAL 



CORRIA o mês de Setembro de 1729 e 
d'elle oito dias eram já andados. 
Mês de Setembro, mês canicular, mês 
esbraseante em toda Lisboa e principalmente 
no Terreiro do Paço onde vemos apear-se 
grave e solene da sua liteira o Inquisidor Geral 
D. Nuno da Cunha, acompanhado pelo seu 
secretario e do Conselho Geral do Santo oficio. 
Boatos, é bem de vêr, logo no horisonte. Mas 
boatos que não tiveram eco na Gazeta de 
Lisboa. 

Qual seria a missão do austero e sinistro 
inquisidor? Porventura a Heresia ganharia pé 
sob os salões esplendidos do christianissimo 
Paço da Ribeira? A Apostasia tentaria medrar 
á sombra dos zimbórios, torrinhas e mirantes, 
da habitação dos nossos reis sempre tão temen- 
tes a Deus? Feriria a Blasphemia os tectos das 
ante-camaras reaes, as bellas e luxuosas tape- 



154 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



carias, com debuxos de Rafael, Ticiano, ou 
Rubens? Nada d'isso. 

Caso de bigamia ou sodomia? 

Nem pensar em tal. Porventura o Cardeal 
da Cunha desejaria ir alongar a vista á janela 
do torreão do Forte, ver sumir no horisonte a 
ultima leva de condemnados pela Inquisição 
a degredo para o Brasil . . . 

Talvez, oh, mas isso seria requinte de 
crueldade e tanto não é possível. 

A verdade, a verdade nua e crua, vae dizer- 
no-la, aqui baixinho, um processo do arquivo da 
Inquisição de Lisboa, o n.» 16:892. Mas, coi- 
tado, todo elle treme de susto, não o vamos 
nós denunciar, pois comete um delicto — a 
inconfidência — em cuja repressão o Santo ofi- 
cio costumava ser inexorável. 

Foi o caso que no primeiro de Setembro 
do mesmo 1729 num corredor escuso do palá- 
cio, apareceu, como que abandonado de pro- 
pósito, um papel que provocou grosso escân- 
dalo entre as saias do Paço, e foi objecto 
da cuscuvilhice palatina. 

Encontrou-o a criada d^uma dama da 
Rainha, D. Filipa de Faro, que regalou a sua 
curiosidade lendo-o e foi, palreira e indiscreta, 
mostral-o a D. Helena de Portugal, dama da 
Princeza e por ultimo entregal-o á própria 
Rainha. 

— Mas que diria papel tão avidamente 
lido, sublinhado e comentado com risinhos 
maliciosos, pelos vãos das janelas e pelos re- 
cantos das alcovas e corredores? — 

Falarão as próprias que o leram porque 
em assumpto de tanta monta em nada, abso- 
lutamente em nada, queremos modificar o seu 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 155 



depoimento, lembrados de que quem conta um 
conto lhe acrescenta um ponto. 

Perante pois o Cardeal da Cunha, a cujas 
mãos o papel foi parar, por intervenção da 
Rainha D. Marianna d^Austria, deporão sob 
juramento : 

Primeiro, a criada que o encontrou decla- 
rará que entre outras coisas, se dizia n^elle 
que se invocassem varias castas de almas para 
entrarem nos nervos (sic) d^EÍ-Rey N. S. para 
que morresse de amores pela sra. Infanta D. 
Francisca. 

Segundo, D. Filipa de Faro declarou que 
nesse papel se falava em invocar varias almas 
em ordem a que El-Rei N. S. quizesse estar 
bem com outra pessoa, mas que não conheceu 
a letra nem sabe que as taes rezas se fizes- 
sem e essa pessoa era a infanta D. Francisca, 
que nada sabia do caso. 

Terceiro, D. Magdalena de Portugal, dama 
de honra da Princeza, disse estar lembrada que 
no dito papel se falava em se invocarem varias 
almas para que movessem a vontade d^El- 
Rei N. S. a que fizesse a da sra. infanta D. 
Francisca e tivesse com ella amizade . . . p^re- 
sume que alguma mulher de pouca conside- 
ração ou tonta quereria aconselhar a dita sra. 
infanta semelhante cousa ou ainda reputa por 
mais certo que o intentaria fazer sem lho 
participar . . . 

Quarto, a criada de D. Magdalena de Por- 
tugal depoz que no tal papel se falava em se 
invocarem almas enforcadas e outras que não 
receberão o sangue de Christo e outras que 
por amores morrerão para entrarem no cora- 
ção d^ El-Rei para que fizesse a vontade d sra. 



156 



EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 








Retrato de D. Mariana d'Austria 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 157 



infanta D. Francisca, acrescentando supor a 
sra. infanta totalmente ignorante de tal. 

Em 15 de Setembro punha-se finalmente 
pedra sobre o caso. A vontade da Rainha estava 
satisfeita; a intriga palaciana desenredada, o 
Inquisidor Geral dava por finda a sua missão, 
e a leitora desejosa de conhecer mais uma 
aventura amorosa do monarcha freiratico, D. 
João V, fica agora desiludida ao saber que 
esta infanta D. Francisca era irmã do rei Fide- 
lissimo. 

Assim a descreveu um escritor contem- 
porâneo: 

«Foi a Infanta de estatura alta, grossa, mui 
fermosa, com grande bizarria, e excelentemente 
airosa, rosto redondo, os olhos grandes e par- 
dos, muito branca e corada, nariz e boca peque- 
nos e proporcionados, dentes perfeitissimos, 
com fisionomia alegre e sumamente agrada- 
davel» (1). 

Embora haja lisonja no retrato, honi soit 
qui mal y pense . . . 

Ciúmes portanto da Rainha?! Decerto, mas 
ciúmes no sentido casto da palavra. 

Como uma bola de sabão fugio o boato 
e a cuscuvilhice também, e D. Mariana d^Aus- 
tria, se tornou a ter ciúmes e razões demais 
teria para isso — foi somente da Madre Paula 
e das provocantes freiras de Odivelas, perfu- 
madas de incenso e rescendentes de orações. 



(1) Historia Genealo(yica da Casa Real Portu- 
guesa, tomo VIII, pag. 405. 



o LENTE CANONISTA DE COIMBRA 
CHRISTOVÃO JOÃO 
E O SANTO OFICIO 



GRAVE ESCÂNDALO NA SALA DOS ACTOS GRAN- 
DES DA UNIVERSIDADE: UM LENTE, NA 
PRESENÇA DO REITOR, RASGA O CAPELO 
E A BORLA — A INQUISIÇÃO TOMA CONTA 
DO CASO, MAS A SUA SENTENÇA Ê ILUDIDA 
PELO LENTE INSUBMISSO 



Se a imprensa periódica já existisse em 
1590, de tál maneira relataria um caso, grave, 
bem grave mesmo, sucedido na cidade do Mon- 
dego, adentro das paredes universitárias. Caso 
até agora inédito, se as nossas informações não 
falham. 

Foi seu protagonista o doutor Christovão 
João, lente de Decreto na Faculdade de Câ- 
nones. 

Figura apagada na sciencia, pois d^ele 
nenhuma obra nos resta, figura pequenina se 
correspondia ao nome, mas grande pelos seus 
feitos insubmissos e chicaneiros que distrahiram 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 159 



a Inquisição coimbrã do perigo dos christãos 
novos e chegaram até — pasmai oh céus ! — che- 
garam até a perturbar as digestões do Inquisi- 
dor Geral! 

A quelque chose malheur est bon; se não 
fora as suas questões com a Inquisição, quem 
falaria hoje no lente Christovão João? 

Por duas vezes dá que fazer aos notários 
do Santo Oficio. 

Primeiramente no ano de 1583. Acusou-o, 
em 26 de maio, o seu collega, doutor Gonçalo 
Mendes de Vasconcelos, cathedratico de sexto 
na Universidade e deputado da Inquisição. 
Culpa: ter afirmado, em contrario ao denun- 
ciante, em plena sala dos actos públicos uni- 
versitários que a agua não era de essência 
do baptismo. 

Não se afoite o leitor a avaliar a gravi- 
dade da culpa pelo critério actual, pois muito 
outros eram os tempos e de bem desvairadas 
crenças. 

Confirmada a denuncia por Pêro Homem 
de Azevedo, Paulo Sodré e outros, foi o nosso 
doutor chamado ao tribunal e interrogado 
sobre o caso em 16 de outubro de 1583. Não 
negou a sua afirmação, mas explicou-a, asseve- 
rando que o seu intento foi dizer que não era 
tão essencial, que não podesse Deus fazer baptis- 
mo sem agoa. 

Não colheu porém a explicação e o Con- 
selho Geral, por despacho de 8 de novembro 
de 1583, mandou-o retratar na mesma sala dos 
actos públicos, dando-lhe até formula para isso. 

Christovão João não gostou; do alto das 
suas prosapias cathedraticas e do seu feitio 
altivo, resolveu não se submeter. Vacilou, hesi- 



160 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



tou, foi protelando, até que, mezes depois, em 
16 de abril de 1584, se vio forçado a ir á 
sala dos actos universitários; retratou-se mas 
não nos precisos termos ordenados pelo Con- 
selho Geral. 

O facto transpirou; o Inquisidor Geral 
estranhou-o. 

Passa-se meia dúzia de annos. Entretanto 
ao doutor Christovão João é, em 24.de setembro 
de 1586, passada carta de dezembargadôr da 
Casa da Suplicação, logar para que foi no- 
meado por alvará de 21 de outubro de 1581 (^). 

Também cónego prebendado da Sé, não 
lhe faltariam certamente os ódios e as invejas, 
porventura derivados em parte do seu feitio 
demasiadamente altaneiro. 

Corria o mês de março de 1590 e efe- 
tuava-se o bacharelamento em cânones do aluno 
Manoel das Povoas. Presidia o reitor D. Fer- 
não Martins Mascarenhas e era padrinho o 
nosso Christovão João. 

Argumento sobre argumento, argúcia se- 
guindo a argúcia, citações atraz de citações. 
Assembleia numerosa composta de lentes e 
estudantes. O reitor poz uma duvida e o 
padrinho, depois de ter respondido, acrescen- 
tou que, se el-rei de França tivesse uma mulher 
estéril, podia casar com outra, por faltar neste 
caso a lei natural. Replicou-Ihe o reitor que 
tal proposição era falsa e Christovão João, 
rubro de indignação, fora de si, batendo com 
as mãos na cadeira doutoral, a darmos cre- 



(1) T. do T. — Doações de Filipe I, liv. 11 
fl. 352. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 161 



dito a uma categorisada testemunha presencial, 
vociferou: 

— V. M. fala muito mal porque quando 
hum homem tão grave como eu preside e está 
neste lugar e diz que huma cousa he verdade 
não ha V . M. de dizer que he falso, porque 
nem em Portugal nem fora d^elle o entende 
ninguém milho r que eu e eu o entendo milho r 
que todos e mais quando V. M. não tem razão 
como esses senhores doutores todos que estão 
presentes assy o entendrão.» 

Resumindo agora as declarações do nosso 
in^formadôr, o secretario da Universidade, Gre- 
gório da Silva, continuaremos. 

A isto acrescentou Christovao João que 
não queria ser lente da Universidade nem 
viria mais áquelle logar porque isso merecia 
quem vinha padrinhar em taes actos e, 
descendo da cadeira com agastamento, tirou 
o seu capelo verde e de máo modo o arremes- 
sou para a parte direita, onde estava o reitor, 
não se metendo entre ambos mais que uma 
cadeira e o mesmo fez á borla do barrete e 
por duas ou trez vezes arremeteu para sahir 
da sala e se assentou no assento que corre 
da cadeira em diante, onde se costumam sentar 
os dezembargadôres e d'ahi disse ainda ao 
reitor que não tratasse os lentes tão mal por- 
que todos eram seus negros e ele mais que 
todos. 

Plácida e serenamente o reitor disse ape- 
nas ao fogoso cathedratico : 

— Isso primeiramente é máo ensino. 
Ficou a assistência abismada com tal falta 

de respeito. O secretario foi dar os AA e RR 
para votarem e da parte do reitor chamou 



162 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Christovão João, que a principio recusou, mas 
depois veio, tornou a tomar o capelo que ainda 
estava no logar onde o deixou e subindo á 
cadeira deu o gráo ao dito bacharel e lhe fês 
sua oração de louvor. 

Terminou por fim o secretario da Univer- 
sidade : 

— Foi este o mór caso que até oje acon- 
teceo na Universidade segundo que dizem os 
antiguos. 

Outras testemunhas confirmaram mais ou 
menos estes factos mas, como o doutor Cbris-» 
tovão João deu o secretario por suspeito, apre- 
sentaremos também a versão oficial, qual é a 
do auto mandado levantar por D. Fernão Mar- 
tins Mascarenhas em 30 de março de 1590. 

Depois da insolente resposta do lente 
canonista atrás referida continuou, dirigindo-se 
ao reitor «que não tratasse os lentes como 
negros — versão diferente da que vimos — , que 
não queria ser lente da Universidade, que isso 
merecia quem vinha padrinhar aos taes autos 
e dizendo estas e outras palavras semelhantes 
se desceo da cadeira onde estava e tyrou as 
insignias doutoraes assj capelo como borla 
que tinha no barrete e arremessou tudo de 
muito máo modo para a parte onde elle senhor 
Reitor estava que hera junto delle senhor Rei- 
tor, prometendo e affirmando o dito dr. Chris- 
tovão João de não tornar mais alli com outras 
palavras mais e se desceo da dita cadeyra». 

A INQUISIÇÃO TOMA CONTA DO CASO 

Levantado pois o auto respectivo por 
ordem do Reitor da Universidade e feitas as 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 163 



devidas averiguações, em IQ de maio de 15Q0, 
foram as diligencias enviadas á inquisição de 
Coimbra. 

Doesta vez o caso fiava mais fino. A pro- 
posição incriminada foi á censura dos quali- 
ficadores do Santo Oficio e o doutor Christoi- 
vão João, chamado em 2 de julho de 159Q á 
mesa do Santo Oficio de Coimbra, foi relegado, 
por o caso ser melindroso, para o Conselho 
Geral do Santo Oficio. Ordenaram-lhe pois 
que partisse para Lisboa debaixo da mesma pri- 
são e menagem em que ora está preso em 
sua casa e chegando á dita cidade se apresen- 
tará em uma casa que para isso escolher da 
qual não sahirá sem ordem de S. A. 

Christovão João devia estar abatido. O 
vexame era grande; mas, nos doze dias, praso 
máximo que assinaram á sua viagem de Coim- 
bra a Lisboa, devia ter sentido consolação ao 
arquitectar montado no clássico macho d^alu- 
guer, a ambicionada vingança. Tinha ao tempo 
quarenta e oito anos de edade, veremos se ek 
sucumbe. 

Em 16 de agosto foi o seu primeiro inter- 
rogatório e em quatro successivas audiências 
atentamente o escutaram e por fim, na mesa 
do Conselho Geral, a 24 de janeiro de 1591, foi 
publicada a seguinte 

SENTENÇA FINAL 

Acórdão os deputados do conselho geral 
do santo officio da Inquisição e os assesso- 
res aqui assinados que, vistos estes Autos, e 
<:onfissÕes do Doutor Christovão João, conigo 



164 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



magistral na see da cidade de Coimbra e lente 
de vesporas de cânones na Universidade delia, 
que presente está, por que se mostra que 
padrinhando elle nos Autos de hum Bacharel 
na salla dos autos públicos da ditta univer- 
sidade, estando presente o reitor, e alguns dou- 
tores de todas as faculdades e muitos estu- 
dantes, respondendo a hum argumento acerca 
da matéria de que se tratava, poz por exemplo 
que se el-Rey de França tivesse a molher esté- 
ril podia casar com outra, tendo o Reyno neces- 
sidade de socçessores, affirmandosse nisso, sem 
fazer nenhua distinção emtanto que sendo logo 
advertido pello argumentante que a ditta pre- 
posição era falsa elle a defendeo dizendo que 
era verdadeira, e que sabia muito bem o que 
dezia, e o entendia milhor que ninguém do 
que logo e depois ouve escândalo nas pessoas 
que lho ouvirão e, avendo informação de todo 
o sobreditto na mesa do conselho geral, lhe 
foy mandado que apparecesse nella, onde, 
sendo perguntado e examinado pello ditto 
exemplo e proposição e como a entendia, con- 
fessou que era verdade que elle posera o ditto 
exemplo del-Rey de França da maneyra acima 
ditta e o deffendera sem fazer distinção algua 
do tempo da ley natural ao da ley evangélica» 
nem se avia de ficar com a primeyra e segunda 
molher, ou se podia repudiar a primeyra e 
ter a segunda. 

Mas que elle o entendera fallando em 
termos da ley natural e não da ley da graça, 
o qual entendimento se collegia das apos- 
tyllas que tinha dado lendo nas eschollas e 
também da matéria de que se tratava no ditto 
Auto, e doutras cousas que precederão antes 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 165 

de elle defender o ditto exemplo, e que assy 
p entendia ainda agora, declarando mays que 
então entendera que el-Rey de França podia 
casar com a segunda molher ficando tam- 
bém com a primeyra, e assy que podia ter 
duas molheres juntamente e que se esta pro- 
posição assy entendida em termos da ley na- 
tural não era averiguada e verdadeira, que 
teria e seguiria o que lhe fosse mandado; 
o que todo visto e a diligencia, que se fez 
com as testemunhas que se acharão presentes 
e o exame feito em suas apostyllas, e assy 
as censuras e qualificações que se mandarão 
fazer por pessoas doctas e pias, pellas quaes 
censuras consta a ditta proposição afirmada 
no tempo da ley da graça ou ditta indistinta- 
mente ser errónea e contra a determinação do 
sagrado concilio tridentino, e ainda tomada 
nos termos da ley natural, como o ditto doutor 
a declara em suas confissões, posto que seja 
opinião dalgus doutores catholicos, ser falsa, 
e que se não deve ter, nem ensinar nas eschol- 
las, principalmente nestes tempos por ser inco- 
moda a Igreja de Deos, e a contraria ser ver- 
dadeira, e pia, e conforme a santa escrittura 
e aos sagrados cânones e ao uso comu da 
Igreja catholica, e porquanto elle não decla- 
rou o exemplo ao tempo que o defendeo, da 
maneyra que disse despois de ser perguntado, 
tendo obrigação de o fazer pella qualidade 
de sua pessoa e ^raos e da profissão de lente 
na ditta universidade, dando motivo a muitos 
dos ouvintes terem para sy que elle defen- 
dia o ditto exemplo del-Rey de França no 
estado da ley da graça: 

Mandão ao ditto Doutor Christovão João 



166 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



para satisfazer ao escândalo que tem dado, 
que despois de estar na Universidade no pri- 
meiro auto publico de cânones, que se fizer 
na Salla, em que elle ou outrem padrinhar, 
estando na cadeira, declare que entendeo o 
ditto exemplo del-Rey de França considerado 
no estado da ley natural somente e não no 
tempo da ley da graça, nem del-Rey , de Fran- 
ça do tempo presente, e que ainda tomado nos 
termos da ley natural o tem por falso e que se 
não deve ter nem ensinar nas eschollas, princi- 
palmente nestes tempos por ser incomodo a Igre- 
ja de Deos e o contrario tem por verdadeiro con- 
forme as censuras acima dittas, a qual declaração 
fará lendoa por escritto na forma que lhe 
será dada sem acrescentar, nem diminuir cousa 
algua, sendo presente hu notário do santo offi- 
cio, que terá na mão hua copiía da dita decla- 
ração pêra dar fee como cumpre, o que per 
esta mesa lhe foy mandado, e visto mays 
como elle foy ja denuciado doutra proposição 
errónea que sustentou na matéria do Baptismo 
padrinhando em outro Auto no mesmo lugar, da 
qual lhe foy mandado por ordem do ditto con- 
selho geral que se retrattasse como consta 
dos autos appensos, o amoestão que daqui 
em diante seja advertido que não leia nem 
ensine doctrinas falsas e perigosas e que pos- 
são causar escândalo. Antes tenha e siga as 
opiniões comus dos doctores mais pios e doctos, 
e as doctrinas mays seguras e recebidas pella 
Santa Madre ígreia, por que não o fazendo 
assy se procedera contra elle com rigor. — An- 
tónio de Medoça — Dioguo de Sousa-- Lais 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 167 



Gonçalves de Ribajria — Lopo Soares d^ Alber- 
garia — Bertolamea da Fôseca (i). 

Ouvio o doutor Christovão João lêr esta 
sentença, desbarretado, e sentado numa cadeira 
d^espaldas, baixa. Intimamente furioso, cogitava 
a maneira de a iludir. Com efeito consta do 
processo que, começando por pedir trinta dias 
para a sua retratação, e não a fazendo, o Con- 
selho Geral novamente lhe assinou mais dez 
dias e depois ainda mais vinte e não consta 
que a fizesse. 

Decididamente, além de padre-mestre uni- 
versitário, era-o também na chicana, na insub- 
missão e na falta de respeito ao Santo Oficio. 

Soube ludibriar por duas vezes a Inqui- 
sição, está dito tudo per omnía soecala. 



{}) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 76ò. 



os SORTILÉGIOS DE UMA FREIRA 



(1719) 



ACUSA-SE DE INOCENTES BRINCADEIRAS NAS 
NOITES DE S. JOÃO E S. PEDRO, ATRI- 
BUÍDAS TODAS AO DEMÓNIO 



Soror Catharina Madalena de Menezes era 
professa d'um convento dos arredores de Lis- 
boa e, d^esses mesmos arredores natural. Já 
declinava na cdade pois passava dos cin- 
coenta e talvez também um pouco no entendi- 
mento. 

O certo é que veio confessar culpas — 
supostas está bem de ver — culpas praticadas 
havia mais de vinte anos. Santa Senhora foi, se 
na sua mocidade não cometeu mais faltas além 
das reveladas aos inquisidores, que o notário 
inquisitorial escreveu com a melhor grafia do 
tempo e agora ahi ficam assoalhadas urbi et 
orbi. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 169 

Definem uma epocha. 

Ei-Ias, tal qual o original: 

Aos quinze dias do Mes de Junho de Mil 
e Sette centos e dezanove no Convento de 
Nossa Senhora dos Poderes, e no locutório 
deile, chamado a grade dos Olhos Verdes, deste 
lugar de Via longa, termo ie Arcebispado de 
Lisboa Oriental, e onde veio, de ordem verbal 
de Sua Em.a, o Snr. Deputado João Paes do 
Amaral Comigo João Colaço da Costa, Notá- 
rio do Santo Officio, pêra effeito de tomar 
judicialmente a aprezentação que huma reli- 
gioza do mesmo Convento fês por seu Con- 
fessor na meza do Santo Officio, como consta 
da carta contheuda nestes autos, sendo 
presente a ditta religioza que mandou vir 
perante si o ditto Snr. Deputado lhe foi dado 
o juramento dos Santos Evangelhos sob cargo 
do qual lhe foi mandado dizer verdade, e 
guardar segredo, o que tudo prometteo cum- 
prir, e disse chamar-se Soror Catherina Mag- 
dalena de Menezes, filha de Manoel Cirne 
de Sousa, e de sua mulher Dona Luiza Maria 
de Menezes, natural da freguezia de São Julião 
do Tojal, termo da Cidade de Lisboa Occi- 
dental, e reíigioza professa deste Mosteiro de 
Nossa Senhora dos Poderes de Via longa, e 
disse ser Christaã velha, e de idade de cin- 
coenta e três annos. 

E preguntada se he verdade a noticia 
de que consta a ditta carta, a qual lhe foi lida, 
e pêra que effeito deu pello confessor a dita 
conta á meza do Santo Officio. Disse que 
era verdade a ditta noticia, e a dera com 
animo, e pêra effeito de apresentar-se de suas 
culpas, as quais quer confessar. 



170 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



E logo foi admoestada que pois tomara tão 
bom conselho como o de apresentar-se volunta- 
riamente de suas culpas devia fazer delias huma 
inteira, e verdadeira confissão trazendo todas á 
memoria não impondo porem sobre si, nem sobre 
outro testemunho falso algum por ser o que lhe 
convém pêra descargo de sua consciência e 
salvação de sua alma, e pêra alcançar a mise- 
ricórdia que pretende, e disse que só a ver- 
dade diria, a qual era que haverá trinta e 
trez annos pouco mais ou menos sendo ella 
religioza professa neste Convento de Via 
Longa por occasião de huma amizade illicita 
e dezordenada que tinha com outra religioza 
do ditto Convento, e ir ella declarante pellas 
dez horas da noite pêra ef feito de communi- 
car-se com a ditta religioza, ficando em huma 
caza só esperando pella mesma, em rezão de 
estar obscura a ditta caza, e ella declarante 
se achar só, e conceber medo disse por pala- 
vras expressas: 

— «Não me ponhas medo, que bem sabes 
estou em teu serviço — 

as quais palavras dirigia a pedir ao demónio 
lhe não mettesse medo por entender que em 
tal cazo lhe não metteria horror visto que 
hia comunicar-se com a ditta religioza, e sup- 
posto que sem animo de peccar, pello perigo 
a que se expunha, entendia fazia ao diabo 
serviço expondose ao perigo de offender a 
Deos. E em outra occazião pella mesma cauza 
lhe veio ao pensamento fazer ao demónio a 
mesma supplica, mas que entende que o não 
chegou a invocar, nem nunca crera nella, e 
só pella perturbação e medo obrou o referido. 

Disse mais que haverá o mesmo tempo, 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 171 



e no da sua mocidade, por occazião de dezejar 
saber se a ditta religioza era amiga delia con- 
fitente, e por ver que algumas pessoas fazião 
vulgarmente alguns sortilégios, ou adevinha- 
cões pêra saber da vontade de outras fês tam- 
bém alguns sortilégios na forma seguinte: 

Tomando huma bochexa de agoa na bocca, 
e pondo-se a alguma janella ou varanda donde 
ouvisse fallar gente pêra advertir se ouvia 
nomear a ditta pessoa por quem deitava a. 
sorte, ou alguém que dissese — Sim — ou 
Não — E juntamente que também não está 
certa se fes a ceremonia de passar por três, 
ou sinco portas com a bochexa de agoa por 
haver muito tempo que passou o referido, e 
s<5 se lembra que tinha ouvido assim se fazia 
a ditta adevinhação aqual se fazia na noite 
de São João, e entendi que alguns annos repe- 
tio na ditta noite ás dittas adevinhacõens, mas 
que se não lembra quantas vezes. 

E na mesma noite fazia também outra 
adevinhação de deitar no fogo huma alcarra- 
cachola, tosquiando-lhe primeiro a flor, e de- 
pois de queimada na mesma noite de São 
João a punha a huma janella pêra ver se 
florecia, entendendo que quando florecia era 
indicio que lhe querião bem e quando não flo- 
recia que lhe não tinhão amor e disse mais 
que, sendo da mesma edade e tempo ditto, fazia^ 
na noite de São Pedro a ceremonia de pôr 
sobre huma meza huma toalha, e sobre a 
mesma toalha hum espelho, humas pedras de 
sal, huns grãos de trigo, huma pouca de 
cinza, e livro tudo em partes distinctas para 
ef feito de saber ella declarante, e as mais pes- 
soas com quem fazião o ditto sortilégio que 



172 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



estado, ou sorte havião de ter, vindo cada 
huma de per si com os olhos fechados rezando 
primeiro hum Padre Nosso com huma Ave 
Maria a pôr a mão sobre as dittas couzas que 
estavão em sima da ditta meza, entendendo 
que a que puzesse a mão sobre o livro havia 
de ser freira, a que a puzesse sobre o espelho 
havia de cazar, a que tocasse a cinza havia 
de morrer sem tomar estado, e das mais cou- 
zas lhe não lembra a significação por faser 
tudo o referido materialmente com as mais 
religiozas e mossas do ditto convento por mera 
curiosidade e brinquo das tais noites sem .animo 
algum de entender que nestas cousas havia 
intervenção do demónio nem delias fazia escrú- 
pulo algum naquelle tempo, pello que respeita 
a estes sortilégios, e se haverá quinze dias 
pouco mais ou menos que confessando-se ao 
Padre Frei Manoel de Santa Roza de Viterbo 
lhe disse o mesmo Padre que devia de recor- 
rer ao Santo Officio pêra a absolvição dos 
dittos sortilégios, como também de humas pa- 
lavras que ella declarante costumava dizer no 
ditto tempo da sua mocidade, e haverá vinte 
annos das quais agora se não lembra, e só 
se lembra as achou nas epistolas de Dom 
António de GuevaJ-re, e uzava delias para 
effeito de todas as pessoas que a vissem lhe 
quizessem bem, e havião ser dittas ao primeiro 
vivente que visse todos os dias pella manha 
ou fosse racional, ou irracional, e as conti- 
nuou pello tempo de dous mezes pouco mais 
ou menos, athe que adevirtida por outro con- 
fessor, com quem naquelle tempo se confes- 
sou, deixou de uzar das dittas palavras por 
lhe dizer erão superticiozas, não obstante que 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 173 

no ditto Livro das epistolas de Dom António 
Guevarre, o qual não tem por prohibido, se 
dezia que se havia de uzar das dittas palavras 
pello dito modo. 

E que estas érão as culpas que tinha que 
confessar, e de que se aprezentou pello conselho 
de seu confessor, e pello mesmo lhe dizer era 
assim precizo, supposto que outros confessores a 
tinhão absolvido de todas as dittas culpas quo 
tem confessado e de as haver comettido está 
muito arrependida e pede perdão e que com 
ella se uze de mizericordia. 

Foi-lhe ditto que tomou muito bom con- 
selho em se aprezentar de suas culpas, e prin- 
cipiar a confessalas, e lhe convém muito recor- 
rer pella memoria pêra fazer delias huma 
inteira, e verdadeira confissão não impondo 
sobre si, nem sobre outrem testemunho falso 
algum, declarando outrosi a tenção que teve 
em commetter as que tem confessado por ser 
o que lhe convém pêra descargo de sua 
consciência, salvação de sua alma e conse-- 
guir a mizericordia que a Santa Madre Igreja 
costuma conceder aos bons, e verdadeiros con- 
fitentes. 

E por dizer que tinha confessado toda 
a verdade, nem tivera outra tenção mais que 
a que tem declarado, foi outra vês admoes- 
tada em forma e mandada pêra dentro, sendo 
lhe primeiro lida esta sua confissão que por 
ella ouvida e entendida disse que estava 
escripta na verdade e que nella se afirma, 
e ratifiqua, e torna a dizer de novo sendo 
necessário, e que nella não tem que acrescen- 
tar, ou diminuir sob cargo do mesmo jura- 
mento dos Santos Evangelhos que outra vês 



174 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



lhe foi dado, e assinou com o ditto Senhor 
Deputado, e eu o notário João Colaço da 
Costa o escrevi. 



João Paes do Amaral. 

Soror Catharina Magdalena {^). 



(í) Fl. 105 do caderno n.o 123 — numeração 
moderna — do Promotor da Inquisição de Lisboa. 



ALGUNS ROMANCES HISTÓRICOS DE 

CAMILO E RESPECTIVOS PROCESSOS 

INQUISITORIAES 



Só comprehendemos bem a extraordinária 
obra de Camilo Castelo Branco quando um dia 
nos foi dado lê-la sob uma frondosa latada do 
alto Minho d'onde os cachos negros pendiam 
como brincos de orelhas senhoris. Uma jor- 
naleira tangia os bois para a fonte, pelas con- 
gôstas os anhos barregavam e ao longe, na 
estrada a mac-adam, um cocheiro azorragava 
doidamente a chicote uns burros, como lá cha- 
mam aos cavalos pequenos, depois de os ter 
consolado com sopas de vinho tinto. 

Só então, embrenhado na vida rural do 
Minho, onde a tradição se conserva pura e 
onde a linguagem tem ainda o sabor archaico, 
nos foi possível caracterisar certos typos cami- 
lianos e admirar a fina observação com que 
o Mestre soube carrear os vocábulos populares 
para a linguagem erudita, dando-lhes, bem avi- 
sadamente, foros de classicismo. É preciso 
comer-se o caldo feito com as coives do eirado, 



176 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



beber o vinho tirado da loja, ainda espumante, 
vêr cegar herva para os chicos e quiçá supor- 
tar umas maleitas para conhecer bem o Minho 
popular, o Minho das dynastias de caseiros e 
jornaleiros, o Minho que aparece na obra de 
Camilo Castelo Branco. 

Em contraste com esse, outro lá aparece 
também : é o Minho aristocrático, das dynas- 
tias fidalgas que, nos seus solares ainda brazo- 
nados, procuram conservar as tradições dos 
pergaminhos e a religião das suas genealogias. 

Uns são os senhores, recebem a pensão 
e mandam ; outros são os servos da gleba, acor- 
rentados ao húmus, sabem revolver e fabricar 
o torrão e obedecem. 

Sim, para conhecer bem o Minho popular, 
é preciso que sejamos tratados por senhores 
fidalgos e que o rapazio de bocas sujas se 
disponha a beijar-nos a mão, como nos tempos 
fradêscos bem distantes já de nós. 

Camilo não cultivou só com mão de mes- 
tre o romance de costumes, não. Dedicou-se 
também, embora com menos felicidade, ao 
romance histórico e bem comoventes são as 
paginas d^alguns, inspirados em scênas da 
Inquisição. 

Por não conhecer senão copias das sen- 
tenças, em miscelâneas manuscritas tão nume- 
rosas nos séculos XVII e XVIÍI, é curioso 
completá-las com o estudo dos respectivos pro- 
cessos. O leitor, que conhece os personagens 
camilianos, á luz d^uma imaginação viva, fértil 
e fecunda vae vê-los agora coados atravez as 
paginas amarelecidas dos processos inquisito- 
riaes. Menos brilho, menos fantasia, mas mais 
realidade e verdade. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 177 



E queremos crer que as duas se com- 
pletem. 

Começaremos pelo mais notável, mais 
comovente e mais conhecido de todos. 



O JUDEU 
UMA família de BRASILEIROS PERSEGUIDA 



António José da Silva, o famigerado autor 
da Guerra do Alecrim e da Manjerona, o 
poeta cómico do popular theatro do Bairro 
Alto, poderia decerto ter figurado entre os 
homens de letras condenados pela Inquisição. 
Mas também aqui fica em sitio próprio ligado 
ao grande nome que, acima de tudo, o imor^ 
talisou. 

Apresenta-lo-hemos tal qual resalta das 
estiradas paginas traçadas pelos notários do 
Santo Oficio, ligando o seu processo ao de sua 
mae Lourença Coutinho, e ao de sua mulher 
Leonor Maria 'Carvalho (i). 

Depois faremos o confronto com a iiarra- 
ção de Camilo. 

Comecemos pela mãe de António José da 
Silva, Lourença Coutinho. Seu pae, Balthasar 
Rodrigues Coutinho, era christão novo natu- 
ral do Rio de Janeiro e pessoa de relativa abas- 
tança pois sua filha o dizia, senhor de engenho. 

(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 3.464. 



178 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Em má hora atravessou ela o oceano; em 11 
de Outubro de 1712, dava entrada no cárcere 
da inquisição de Lisboa, acusada de judai- 
sante, o que efetivamente confessou. 

Apesar de solteira era possuidora no Bra- 
sil de um partido de cana no sitio de Anhauma, 
com oito escravos e ela mesmo nos dirá, con- 
fidencialmente já se vê, como o declarou ao sa- 
grado tribunal, que na sua casa do Rio de Janei- 
ro possuia mais de oito escravos. De moveis en- 
contrar-lhe-hemos, se nos transportamos ao Rio, 
um leito de jacarandá, dois bufetes da mesma 
madeira e outro de vinhatico; seis tamboretes 
de sola e uma cadeira também de sola; um 
guarda-roupa de caixeta; um espelho; uma 
alcatifa grande de estrado nova; duas redes 
€ uma serpentina. Se as jóias se limitavam 
a uns brincos de ouro com pedras de crystal 
o mesmo não diremos das suas pratas: uma 
salva com três marcos de peso, um castiçal, 
seis colheres e dois garfos. 

Sumario foi este primeiro processo que 
lhe moveram; ensinada na lei de Moysés, con- 
fessou, como dissemos, imediatamente as suas 
culpas e por isso, condenada, a cárcere e habito 
penitencial perpetuo, foi ao auto da fé celebrado 
no Rocio em Q de julho de 1713, na presença 
do Inquisidor Geral, cardeal da Cunha. Pouco 
tempo porém lhe durou a prisão pois, em 20 
de julho, era solta com a condição de se não 
ausentar para fora do reino sem licença da 
mesa do Santo Oficio. 

Não chegara a estar um ano presa! Mas 
lá ficou com o cadastro nos Estáus e a Inqui- 
sição sempre a vigiá-la e a trazê-la dçbaixo 
d^ôlho. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 179 



É PRESA SEGUNDA VEZ JUNTAMENTE COM O 
FILHO ANTÓNIO JOSÉ. — SÃO ATOR- 
MENTADOS 

Treze anos após a primeira condenação, 
a 8 de agosto de 1726, novamente Lourença 
Coutinho dava entrada nos cárceres inquisi- 
toriaes e doesta vês era acompanhada por seu 
filho mais novo, António José da Silva, ao 
tempo de vinte e um anos de edade. 

Neste intervalo legalisára ela a sua situação 
domestica e amorosa, casando com o advogado 
João Mendes da Silva. 

Judaisaram os dois, está bem de vêr. 

Embora Lourença Coutinho continuasse na 
mesma penúria a respeito de bens de raiz 
é certo que bastantes moveis lhe encontra- 
remos. Trazidos do Rio ou adquiridos em 
Lisboa? Não sabemos, mas ei-los: um guarda- 
roupa de páo santo; uma meia papeleira de 
castanho ou bordo; um contador pequeno de 
charão; um leito de páo preto sem armação; 
cinco painéis ou laminas de Roma; quatro col- 
chões; dois bahús de moscovia; uma caixa 
grande de páo do Brasil;' seis cadeiras de 
moscovia; a livraria de seu marido e por ultimo 
a peça que ha-de causar a morte de seu filho, 
a escrava Leonor. 

Doesta vez o andamento do processo foi 
bem mais moroso pois se tratava d^uma rein- 
cidente ou, na linguagem inquisitorial, uma 
relapsa. 

Durante três anos foi jazendo no cárcere. 

Posta a tormento em 13 de setembro de 
1729 assim reza o respectivo termo: 



180 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Foi lançada no potro e começada a \atar . . . 
e sendo atada perfeitamente em oito partes 
lhe foy dado o tormento a que estava jul- 
gada em que se gastaria mais de um quarto 
de hora em que chamava por Santa Rita e 
que pelas chagas de Christo tivessem d'ella 
misericórdia. 

Pouco demorou a condenação e, se nos 
quizermos meter no lusido séquito de D. João 
V ou dos infantes D. Francisco ou D. Antonjo, 
ir-Ihe-hemos ouvir a sentença no auto celebrado 
na igreja do convento de S. Domingos, a 16 
de outubro de 1729: degredo por tres anos 
para o couto de Castro Marim. 

Muito mais rápido foi o processo de Antó- 
nio José da Silva. 

Talvez sugestionado pela mãe, que do 
caso tinha experiência como vimos, logo no 
dia da prisão começou as suas confissões. Con- 
fessou pois que, haveria quatro ou cinco anos, 
em casa de sua tia D. Esperança, já defunta, 
a propósito dos seus amores com uma criada, 
ela lhe di,s^séra, 'não ser isso pecado, segundo a 
lei' de Moysés, induzindo-o assim a crer em tal 
religião, que ele 'aliás bebera com o leite» mar 
terno. 

Esta sua tia, viuva de Diogo de Montar- 
royo, era natural do Rio de Janeiro e havia 
também sido reconciliada pelo Santo Oficio. 

Também, em Coimbra, em casa de seu 
primo João Thomás, estudante de medicina, 
natural do Rio de Janeiro, praticara ceremo- 
nias judaicas e em casa de sua prima. Brites 
Eugenia, irmã da anterior, em Lisboa. Ainda 
judaisou com outros, entre os quaes seus 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 181 

irmãos André Mendes da Silva e Baltasar 
Rodrigues. 

Em três de setembro continuou com as 
suas confissões, o que ainda fez no dia sete, 
mas não quiz apresentar defesa nem con- 
traditas. 

Os inquisidores porém não estiveram por 
tão poucas confissões e inexoravelmente sujei- 
taram-no a tormento em 23 de setembro de 
1726. 

Chamados á Mesa os médicos ^ assim reza 
o respectivo assento, e cirurgião e mais minis- 
tros da execução do tormento, sendo o Réu 
despojado dos vestidos que podiam servir de 
embaraço ao dito tormento, foy lançado no 
potro e começado a atar lhe foi notificado 
por mim notário em nome dos senhores inqui- 
dores que se naquelle tormento morresse,. que- 
brasse algum membro, perdesse algum sen- 
tido, a culpa seria sua e não dos senhores 
inquisidores e mais ministros que foram na 
sua causa, que a sentenciaram conforme o 
merecimento d^ella, e por dizer que não tinha 
mais culpas que confessar se lhe continuou 
o tormento e sendo atado em oito partes e 
levando nela meia volta em todas as ditas 
oito partes, que corresponde a um trato cor- 
rido a que tinha sido julgado, foi mandado 
desatar e levar a seu cárcere e duraria o 
dito tormento um quarto de hora em o qual 
gritou muito e só chamava por Deus e não 
por Jesus ou santo algum . . . 

António José da Silva estava então na 
força da vida, pois contava somente vinte e 
um anos. 



182 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Imaginamos as suas atrozes dores e d^elas 
temos um indicio quando o processo nos reve- 
la que o não consideraram capaz de assinar 
o auto do tormento! 

Nascido no Rio de Janeiro, de pães tam- 
bém nascidos no Brasil, os seus avós paternos 
foram de Portugal e a avó materna era de 
Lisboa, vindo ele para Lisboa aos oito anos 
de edade. 

Para bem, não havia duvida alguma! 

Foi finalmente condenado a cárcere e 
habito penitencial perpetuo e a ser instruido 
nos mistérios da fé. 

Publilcada esta sentença, no auto da fé 
celebrado na igreja de S. Domingos em 13 de 
outubro de 1726 com a assistência do rei e 
do infante D. Francisco, inquisidores, etc. 

Longa não foi a clausura de António José 
da Silva pois, em 23 de outubro, era afinal 
solto. 



NOVA PRISÃO DO JUDEU, DE SUA MÃE E ES- 
POSA. — ENTRA EM SCENA A ESCRA- 
VA LEONOR 

Durante onze anos gozou a liberdade 
António José da Silva e nesse meio tempo 
constituio familia e acabou a mãe o seu tempo^ 
de degredo em Castro Marim. Parece que a 
vida lhe sorriria entre os aplausos do publico 
frequentador do theatro do Bairro alto, os 
clientes que procuravam o seu escritório de 
advogado, a esposa que o idolatrava e as 
caricias d^uma criancinha que para êle — como 
seu único amparo — estendia os rosados bra- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 183 

cinhos de inocente. Pura ilusão, porém. A 
Inquisição espreitava-os e, em 5 de outubro 
de 1737, davam os dois, marido e mulhiér 
Leonor Maria Carvalha, entrada nos cárceres 
do Santo Oficio, ele preso pelo familiar, o 
Monteiro-mór, ela, pelo familiar conde de Atou- 
guia. Para ambos não eram estranhas as pri- 
sões inquisitoriaes, embora ela só tivesse 
cahido, ainda menor, sob a alçada da inqui- 
sição de Valhadolid. Acompanharam-na as jóias 
seguintes: dois pares de botões de ouro lavra- 
dos de camisa e dois botões das orelhas de 
prata com pedras vermelhas. 

Ambos acusados de judaismo, fora sua 
prindpal denunciante a escrava Leonor atraz 
referida. 

Eis na integra o seu depoimento: 

«Aos dez dias do mez de outubro de 1737 
em Lisboa, nos Estáos, e casa primeira das 
audiências da Santa Inquisição, estando ahi 
na de tarde o sr. inqdor. Theotonio da Fon- 
seca Souto-Mayor mandou vir perante si, por 
pedir audiência do cárcere da penitencia aonde 
foi mandada reservar, a Leonor Gomes, escrava 
de Lourença Continha, e sendo presente, lhe 
foi dado juramento dos santos evangelhos em 
que poz a mão sob cargo do qual lhe foi man- 
dado dizer verdade e ter segredo, o que tudo 
prometeo cumprir. 

Perguntada para que pede audiência disse 
que para declarar nesta mesa toda a verda- 
de a respeito das perguntas que se lhe fize^ 
ram na manhã de hoje, porquanto movida do 
medo que se lhe tinha (metúio) em casa de 
sua senhora, de que nesta mesa se mandava 
enforcar toda a pessoa que vinha a esta mesa 



184 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



dizer mal de outra e também lembrada do 
rigoroso castigo que lhe tinha dado sua, senhora 
Lourença Coutinho, querendo-lhe meter um 
tição de lume na boca, e com efeito lhe che- 
gou com ele á cara por ela ter dito á ama, 
que se achava em casa creando uma filha de 
Leonor Maria, nora da dita sua senhora, o 
que todos faziam em casa que a declarante, 
lhe não parecia bem, foi ocasião da dita ama 
dizer á dita sua senhora que ela declarante 
lhe tinha dito que todos eram judeus e que 
os havia de acusar no Santo Oficio, de que 
nasceu fazerem-lhe tantos castigos que por não 
chegar a experimentar outros semelhantes é 
que negou esta manhã tudo quanto sabia e, 
arrependida de assim o ter negado e faltado 
àquela verdade, que devia dizer nesta mesa 
debaixo do juramento que se lhe deu, vem 
agora a declara-la e a pedir perdão e que 
com ela se use de misericórdia e que a não 
mandem para poder dos ditos seus senhores 
porque infalivelmente a hão-de afogar o que 
pede pelas cinco chagas de Christo^ mas que 
seja a uma presa como ella. 

Disse mais que, morrendo os dias passa- 
dos Ant.a Nunes, mulher de António Froes, 
a dita Leonor Maria, nora da dita sua senhora, 
foi para casa do dito António Froes em um 
Domingo pela manhã e lá esteve até a sexta- 
feira á tarde sendo pelas quatro ou cinco horas 
e lhe parece, segundo sua lembrança, que era 
véspera de São Matheus e no dia seguinte 
mandou a dita Leonor Maria, que ella decla- 
rante lhe aquentasse agua para se lavar e 
nesse mesmo dia, que era sexta-feira, antes de 
jantar lavou todo o corpo- e vestio roupa lavada 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 185 



e uma saia de camelão, que ela declarante! lhe 
escovou e alimpou muito bem, e assim esteve 
sem comer nem beber todo o dia ainda que a 
mesma na companhia do dito seu marido Anto- 
nio José, estando comendo uma talhada de 
belancia (sic) a dita Leonor Maria lhe pegou 
em um bocado de casca, dizendo para ella 
declarante, que era muito boa belancia (sic) 
aquella, porém a verdade é que ella a não 
tinha comido, mas tirou da mão do marido 
o bocado da casca para usar daquelle fingi- 
mento e ela declarante não perceber alguma 
cousa de a não ver tomar da mesma belan- 
cia (sic) que o marido comia. 

Disse mais que hoje que é quinta-feira, 
faz oito dias, vio ella declarante que a dita 
sua senhora Lourença Coutinho e a irmã d'esta 
Isabel Cardosa ambas se lavavam no dito dia 
de quinta-feira pela manhã e os ditos António 
José e sua mulher Leonor Maria o fizeram, 
na sexta-feira antes de jantar, tendo já ela 
declarante esfregado algumas casas no dia de 
quinta-feira e na sexta pela manhã lavou e 
esfregou a camará onde dormem o dito Antó- 
nio José e sua mulher Leonor Maria sacudindo 
também as paredes, alimpando tudo muito bem 
por assim lho mandar a dita sua senhora não 
só nesta ocasião como em todas as mais em 
que elas faziam as ditas ceremonias e a dita 
Leonor Maria fez a sua cama só, sem que 
a chamasse para a ajudar, pondo-lhe roupa 
lavada, travesseiros lavados, e com aquele 
aceio que cabe na sua possibilidade e depois 
de feita, sendo ao sol posto, perto das Ave 
Marias se pôs a chorar dizendo que lhe doia 
o corpo e que estava doente e ela declarante 



186 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



percebeo que tudo nela era fingimento e mali- 
cia porque de repente é que começou a dizer 
que estava molestada e não pode ela decla- 
rante dizer se no dito dia de sexta-feira levou 
a dita Leonor Maria porquanto o dito António 
José, seu marido, não quiz consentir que ela 
declarante entrasse na dita camará depois que 
a dita Leonor Maria se deitou, mas ao dito An- 
tónio José deu ella declarante um prato com 
salada e ovos que não sabe nem pode depor 
se elle os comeu ou não, mas o que sabe é 
que no dia seguinte, que era sábado, vestidos 
todos quatro com camisas lavadas e a dita 
Leonor e seu marido com elas novas, estiveram 
todo o dia sem comer, nem beber, e a dita 
Leonor Maria lhe disse a ella declarante que 
nunca Deus faltava porque já tinham que 
cear, pois sua irmã, Paschoa dos Rios, lhe 
tinha mandado peixe frito, e um covilhete de 
abóbora, o qual peixe frito que eram lingua- 
dos, ela declarante já tinha visto em um alma- 
rio ás escondidas dos ditos seus senhores, 
porém em jantar lhe não falaram, nem ela 
fez para si mais que uma posta de bacalháo 
e um pouco de arroz com manteiga que, suposto 
o dito António José lhe pedia de comer para 
sua mãe, tudo era afectado porque nenhum 
d^eles o comeu e posto que disseram que 
estava o melhor arroz que ela nunca tinha 
feito não era possivel que no tempo em que 
tiraram um pouco de arroz para o prato, pas- 
sado menos de um credo, lhe tornaram a tra- 
zer o prato sem arroz e então é que lho 
gabavam muito. 

Disse mais que muitas vezes deixam de 
ir á missa assim a dita sua senhora, a irmã 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 187 



doesta, filho e nora, regularmente estão com 
boa saúde em todos os dias da semana até 
o sábado, mas chegado este dia se fazem doen- 
tes assim para se absterem de trabalho, como 
para não irem ao Domingo á missa e só 
quando sucede prender-se alguma pessoa pelo 
Santo Oficio é que lhe desperta a devoção 
de a ouvirem e pela semana santa na quinta- 
feira maior, sexta-feira de paixão e sábado, 
em nenhum d'estes dias vão á Igreja pelo 
que ela declarante tinha assentado que as ditas 
pessoas de casa, excepto o dito Baltasar Rodrií- 
gues e sua mulher António Theodora porque 
vivem catholicamente os mais vivem como 
herejes apartados da fé sem emenda, porque 
ante* de serem presos, como depois de sahii- 
rem, viveram sempre na mesma forma ...» 

Dois dias depois era pela terceira vez presa 
Lourença Continha e assim ficavam os três 
sob as garras dos juizes dos Estáus que, contra 
eles não teriam muito boa vontade, pois bem 
os podiam considerar como relapsos. 

Ao depoimento da escrava acresceu o da 
ama do filhinho de António José da Silva. 

Eis pois, ipsis verbis o depoimento de 
Maria Thereza, engeitada, solteira, natural de 
Lisboa, moradora no recolhimento do conde 
de S. Lourenço: 

«Aos 30 dias do mês de outubro de 1737. . . 
disse que esteve em casa de André Mendes da 
Sitlva, K:hriistão novo, 'administrador do contrato 
do paço da madeira, casado com Paschoa dos 
Rios, moradores nesta cidade de Lisboa ás Fon- 
tainhas, d'onde se mudaram para a calçada de 
Santa (sic) e ela declarante na companhia dos 
mesmos por lhe estar dando de mamar a uma 



188 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



sua filha, chamada Inês, e ao mesmo tempo 
outra, que era sobrinha, d adita Paschoa dos 
Rios e filha de Leonor Maria, sua irmã, ca^ 
sada com António José da Silva e, estando' 
na dita casa por tempo de 8 mezes com pouca 
diferença, se retirou para a da dita Leonor 
Maria, por causa da dita Paschoa dos Rios se 
enfadar com ella declarante e, no decurso de 
todo este tempo, não vio em casa dos di.tois 
André Mendes da Silva e Paschoa dos Rios 
cousa ou ação em que pudesse fazer reparo 
algumi porque sendo christaos novos viviam acau- 
telados e nunca d^ela se poderiam fiar em cousa 
alguma, mas via que a dita Paschoa dos Rios 
regularmente se vestia com aceio e muitas 
vezes sahia para fora de casa, indo umas vezes 
para casa de uma Brites Henriques, moradora 
no cemitério, e outras para a de uma filha ,da 
mesma Brites Henriques, chamada Catarina Iná- 
cia, casada com Filipe de Mesquita, escrevente 
e em outras para casa de António Froes, irmão 
da mesmia,' e para o bairro alto a casa de Antó- 
nia de Miranda e para todas estas partes cos- 
tumava ir comumente nos dias de semana e 
em muitos d^eles ia de manhã e sempre com 
os melhores vestidos que tinha, lavando-se 
muitas vezes nas vésperas dos dias de maior 
enfeite em todo o corpo e nos sábados o 
faziam da mesma sorte todos os de casa, a 
saber a dita Paschoa dos Rios e seu marido 
André Mendes, como também em casa de Ant.<^ 
José como logo referirá. E advertio ela decla- 
rante sendo uma das cousas em que faz maior 
escrúpulo que a dita Paschoa dos Rios deixasse 
em muitos Domingos e dias santos de ir á 
missa e sahir fora nas tardes dos mesmos 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 189 

dias e que também sabe um tanto em' casa 
da mesma Paschoa dos Rios como na de sua 
irmã Leonor M.a se esfregavam as casas na 
6.a-feira á tarde e se varriam e espanejavam 
no sábado pela manhã . . .» 



PEQUENA CONDENAÇÃO DA MÃE E DA ESPOSA 
DO JUDEU. — A MÃE É ATORMENTADA 
E A MULHER DECLARA A SUA GENEA- 
LOGIA E INVENTARIO 



Lourença Coutinho, ao tempo d'esta sua 
terceira prisão, era já viuva. Poupara a Pro- 
videncia, a israelita já se vê, a seu marido o 
assistir a tão lancinantes transes quaes eram 
as prisões de pessoas tão chegadas de familia 
e, acima de tudo, a morte infamante na 
fogueira do filho cuja carreira de advogado 
havia também seguido. 

Presa pelo crime de relapsia foram, como 
vimos já, suas principaes denunciantes a 
escrava Leonor e Maria Thereza, ama de seu 
neto. Quasi dois anos esteve no cárcere sem 
lhe fazerem diligencia alguma até que, a 28 
de setembro de 1739, foi a tormento: 

Foy assentada no banco . . . e sendo prin- 
cipiada a atar lhe foy logo dado o tormento 
a que estava julgada e gritava que tivessem 
d^ella misericórdia pelas chagas de Christo e 
pela Virgem Senhora Nossa em que se gasta- 
ria menos de meyo quarto de hora. 

Foi afinal condenada a cárcere a arbítrio 
e publicada a sua sentença no auto da fé lia 
igreja do convento de S. Domitigos, de 18 



190 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



de outubro de 1739, na presença de D. João 
V e dos infantes D. Francisco e D. António. 

Bem semelhante foi a sorte de sua nora 
Leonor Maria Carvalho. 

No seu processo porém se encontram va- 
rias curiosidades como o inventario da casa 
do Judeu, que em nenhum dos outros se vê 
e bem assim a explicação de vários enredos e 
intrigas. Eis pois o inventario dos moveis da 
casa, segundo as suas próprias declarações. 

Primeiramente a livraria do seu marido, 
também pertencente aos dois cunhados, Bal- 
tasar Rodrigues Coutinho e André Mendes da 
Silva, livraria que é pena não conhecermos 
nos seus numerosos volumes de Ordenações, 
de Direito e nas suas apostilas e comentários. 

Como revestimento da casa: seis cadeiras 
forradas, três bufetes áz madeira do Brasil; uma 
caixa de páo avermelhado que lhe custou 
dezaseis tostões; dois bahús de moscovia; um 
leito cuja madeira ignora; uma mesa de pinho 
redonda pintada; uma caixa de pinho e um 
caixote; um banco^ e duas mesas tudo de pinho; 
um cofre da índia pintado de charão preto e 
um taboleiro do mesmo charão. 

Nas paredes veremos dez painéis de paiza- 
gens e três 'laminas, uma das quaes de N. S. da 
Graça avaliada em cinco moedas d'ouro. Na cosi- 
nha se encontra um tacho, de arame, uma chocola- 
teira de cobre, uma caldeirinha de aquentar 
agua também de cobre, dois candeeiros de 
latão, um dos quaes custou á dona da casa 
doze tostões e para comer oito pratos, duas 
pelanganas, três sopeiras e uma chicara, dais 
que servem para chocolate, com seu pires, 
tudo de louça da índia. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 191 



De pratas havia pouca coisa: apenas seis co- 
lheres e seis garfos que custaram doze tostões. 
Em compensação as jóias eram bastantes, em- 
bora de pouco valor: dois cordões de ouro, miú- 
dos; um rosicler do pescoço de ouro com seus 
diamantes qiie Ik? parece custou quatro moedas 
de ouro; um par de brincos de orelha de ouro 
com seus diamantes que custou três moedas d^ou- 
ro; dois pares de botõis de camisa de ouro com 
seus rubins; um par de brincos de orelha de 
ouro com suas pedras verdes e um coração pe- 
quenino de ouro da sua filhinha. 

Tal era o recheio da casa do Judeu situada 
defronte da igreja de N. S. do Socorro. 

Leonor Maria de Carvalho teria ao tempo 
vinte e seis anos de edade e apezar de nova 
na sua vida contava já varias aventuras. De 
edade de dezaseis anos foi, na inquisição de 
Valhadolid, reconcliada por culpas de judaismo. 
Esta inquisição tinha-a condenado a abjuração 
em forma dos seus erros, estando seis mezes 
na casa da penitencia e sofrendo depois oito 
anos de degredo para Vilegodinho. Foi-lhe lida 
a sentença na igreja paroquial de S. Pedro, 
a 26 de janeiro de 1727. 

Vindo para Lisboa, antes mesmo de casar, 
tivera relações amorosas com António José da 
Silva, haveria dois anos lhe nasceu uma filha 
e agora ahi estava novamente pejada e, em 
tão adeantado estado, que no cárcere da inqui- 
sição lhe nasceu esse fructo dos seus amores! 

Negou todas as acusações e a ama Ma^ 
ria Thereza, novamente perguntada, em 21 
de janeiro de 1739 disse, entre outras coi- 
sas, que llie não vio fazer cousa algunta que 
fosse contra nossa santa fé catholica^ nem 



192 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



de que pudesse receber suspeita contra ela etc. 

Depois de lhe lerem o primitivo depoi- 
mento acrescentou que declarava que a dita 
limpeza da casa se fazia não só úas sextas- 
feiras d tarde e sábados pela manhã, mas 
também nos outros das da semana tanto de 
tarde como de manhã, conforme sucedia etc. 

As suas culpas iam-se pois atenuando e 
como confirmação o tormento nada deu tam- 
bém. Realisado em 10 de outubro de 1739, 
lançada no potro e começada a atar, lhe foy 
dado todo o tormento a que estava julgada, 
em que se gastaria um quarto e meio e nele 
chamava por Jesus e N. Senhora da Penha 
de França. 

Condenada a cárcere a arbitrio foi, como 
a sogra, ao auto celebrado na igreja do con- 
vento de S. Domingos, a 18 de outubro dei 
1739, mas, passados poucos dias, a 27 de outu-. 
bro, era solta, com obrigação de se confessar 
neste primeiro ano quatro vezes pelas princi- 
paes festas. 

Coitada, estava viuva, pois no mesmo ano, 
como veremos, lhe queimaram o marido. 



O PROCESSO DE ANTÓNIO JOSÉ. - A DENUN- 
CIA DA ESCRAVA LEONOR. — POUCO 
VALOR DO SEU DEPOIMENTO. — PRA- 
TICA ANTÓNIO JOSÉ JEJUNS JUDAICOS 
NA PRISÃO. — PRINCIPALMENTE ESTES 
LEVAM-NO Á FOGUEIRA 

Já vimos que a escrava Leonor Gomes, 
reservada pelos inquisidores no cárcere para 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 193 



indagações, denunciou os três. Eis o que se 
lê no processo de António José da Silva: 

«Hoje que he quinta feyra faz oito dias 
vio ella declarante que a dita sua senhora Lou- 
rença Coutinho e a irmã desta Isabel Car- 
doso ambas se lavarão no dito dia de quinta 
feyra pella manhã e o filho desta dita Lou- 
rença Coutinho, chamado António José, e sua 
mulher Leonor Maria o fizerão na sexta feyra 
antes de jantar, tendo já ella declarante esfre- 
gado algumas casas no dito dia de quinta 
feyra, e no dia da sexta feyra pella manhã 
lavou e esfregou a camará onde dormem os 
ditos António José e sua mulher Leonor Ma- 
ria, sacudindo também as paredes e alimpando 
tudo muyto bem por assim lho mandar a dita 
sua senhora não só nesta òccasião como em 
todas as mais em que ellas faziam as ditas 
ceremonias e a dita Leonor Maria fes a sua 
cama só, sem que a chamasse para a ajudar, 
pondo-lhe roupa lavada com aquelle meyo que 
cabe na sua possibilidade e depois de feyta 
sendo ao sol posto, perto das Ave Marias, se 
poz a chorar, dizendo que lhe dohia o corpo 
e que estava doente, e ella declarante percebeo 
que tudo nella era fingimento e malicia, porque 
de repente he que começou a dizer que estava 
molestada, e não poda ella declarante dizer 
se no dito dia de 6.^ feyra ceou a dita Leonor 
Maria, porquanto o dito Ant.o José, seu marido, 
não quiz consentir que ella declarante entrasse 
na dita camará, depois que a dita Leonor 
Maria se deitou, mas ao dito António José 
deu ella declarante um prato com salada e 
ovos, que não sabe, nem pode depor se elle 
os comeo ou não; mas o que sabe é que no 



194 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



dia seguinte, que era sábado, vestidos todos 
quatro com camizas lavadas e a dita Leonor 
e seu marido com ellas novas, estiveram todo 
o dia sem comer nem beber e a dita Leonor 
Maria lhe disse a ella declarante que nunca 
Deos faltava porque já tinham que cear, porque 
sua irmã Paschoa dos Rios, lhe tinha man^ 
dado peixe frito, que erão lingoados, ella decla- 
rante já tinha visto em hum armário, ás escon- 
didas dos ditos seus senhores, porem em 
jantar lhe não fallaram nem ella fez para si 
mais que huma posta de bacalháo e um pouco 
de arroz, que, supposto o dito António José 
lhe pedia de comer para sua mãe, tudo era 
afectado, porque nenhum delles o comeo e 
posto que disseram que estava o melhor arroz 
que ella nunca tinha feito, não era possivel 
que no tempo, em que tiraram um pouco de 
arroz para o prato, passado menos de um 
credo, lhe tornaram a trazer o prato sem arroz 
e então é que lho gabaram muito. 

Disse mais que muitas vezes deixavam de 
ir á miíssa, assim a dita sua senhora e irmã 
doesta, filho e nora, e regularmente estão com 
boa saúde em todos os dias da semana até 
o sábado, mas chegando este dia se fazem 
doentes, assim para se absterem do trabalho, 
como para não irem no Domingo á missa 
e só quando sucede prender-se alguma pessoa 
pelo Santo Oficio é que lhe desperta a devo- 
ção de a ouvirem; e pela semana sancta, na 
quinta-feira maior, sexta -feira de paixão e 
sábado em nenhuns doestes dias vão á igreja 
pelo que ela declarante tinha assentado que as 
ditas pessoas de casa, exceto o dito Baltasar 
Rodrigues e sua mulher Antónia Theodora, por- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 195 



que vivem catholicamente, os mais vivem como 
hereges apartados da fé e sem emenda, porque 
antes de serem presos, como depois de sahirem, 
viveram sempre na mesma forma . . .» 

Mas que credito, que autoridade tinha a 
escrava Leonor, cujo depoimento, apenas ver- 
bal, motivara as prisões dos três desgraçados, 
embora não a condenação de António José 
da Silva? 

Assim d^ela se defendia Leonor Maria de 
Carvalho: 

«Era pessoa de muito máo génio e péssi- 
mos costumes e andava amancebada com um 
preto, que dizia ser escravo do Provedor dia 
moeda, e lhe dava entrada em casa de dia e 
de noite, aparecendo-lhe nas janelas e man- 
dando.-lhe recados e escritos; e, porque a. ré e 
sua sogra, que viviam em a mesma escada, 
ainda que em quartos distintos, a repreendiam 
e castigavam pelos ditos desatinos, de nenhuma 
sorte se emendava, antes cada vez fazia pior 
e lhes dava muito más respostas, faltando-lhes 
á obediência e respeito e fazendo muitas 
gritarias com que amotivava a visinhança, 
dizendo que não queria estar naquela casa, 
que tratassem de a vender e falando a algumas 
pessoas para que lhe buscassem comprador e 
se não que havia de fugir para casar com o 
dito preto e, por não querer a sogra da ré 
vendê-la, nem consentir no dito casamento e 
fazer as diligencias e cautelas para impedir a 
dita communicação com o dito preto, lhes tomou 
a todos grande ódio.» 

De alcoviteira lhe servia uma D. Antónia, 
visinha de António José da Silva, que escrevia 
bilhetes da escrava para o preto! 



196 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Contra a escrava Leonor apresentou con- 
traditas António José da Silva, alegando a 
inimizade contra ele da ama de leite de sua 
filhinha e da escrava de sua mãe. Esta vivia 
amancebada com um preto e aquela servia-lhe 
de capa. Por esse motivo António José a repre- 
hendeu e castigou muitas vezes e a escrava 
respondia-lhe muito mal, bradando que não que- 
ria estar na dita casa, que tratassem de a 
vender. Era vulgar chamar-lhes judeus e por 
isso a ama a induziu a vir denunciá-los ao 
Santo Oficio. 

Confirmaram na verdade as testemunhas 
as differenças entre António José e as duajS 
contraditadas. Afirmaram que a escrava lhes 
chamava cachorros e judeus e dizia que lhes 
havia de pôr o fogo ã casa. 

Certa testemunha declarou mesmo: 

«A ama de leite aconselhou a dita escrava 
que levantasse falsos testemunhos ao Réu e 
a toda a gente da casa, porque assim se veria 
forra para casar com um preto, com quem 
tinha trato, dizendo a preta também por muitas 
vezes, quando a castigavam', que havia de vir 
ao Santo Oficio e levantar a si mesma um 
testemunho falso de ser feiticeira só a fim de 
se vêr livre do cativeiro d^aquela casa. E tam- 
bém dizia, quando a castigavam, que ela não 
tinha feito cousa alguma contra a fé, havendo 
continuamente motins em casa por conta da 
desenvoltura da dita preta e ama de leite». 

Decididamente a escrava Leonor não mere- 
cia credito algum. Isso mesmo reconheceriam 
os inquisidores, pois, tendo-a tanto tempo presa, 
não procuraram a ratificação do seu depoi- 
mento e, um pouco mysteriosamente, em 11 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 197 



de maio de 1738, falecia Leonor Gomes, 
mulher preta que se achava em um dos cár- 
ceres da mesma penitencia. Já não fazia falta 
aos inquisidores, pois contra António José as 
provas eram sobejas e os testemunhos multi- 
plicavam-se, desde os espiões do Santo Oficio, 
até os seus próprios companheiros de cárcere. 

Não fez falta pois e até faria conta o seu 
desaparecimento. 

A Inquisição tinha processos de investiga- 
ção que não passavam pela cabeça dos réus. 

É, quando eles se supunham a sós, ahi; 
estava o alcaide do cárcere e por fim os pró- 
prios familiares a vigia-lo atentamente. Tal 
aconteceu com António José da Silva. 

O familiar Maximiliano Gomes foi encar- 
regado de o espionar em 10 de abril de 1738 e 
ele mesmo nos dirá o que vio e* que, como 
é natural, desperta muito a nossa curiosidade. 

De manhã cedo subio o bom do familiar a 
uma das vigias e vio um preso na cama, «da 
qual se levantou seriam seis horas, sem se 
benzer, e logo chegou o alcaide e lhe deu 
os bons dias, que ele aceitou, e se foi deitar 
sobre a cama, depois de lavar as mãos e de 
dar alguns passeios; depois que o cárcere 
esteve claro, vio elle testemunha ser o dito 
preso, nhagro, alvo, de mediana esêatura, cabelo 
cario, castanho escuro, véséíia parda, roupão azu- 
lado, € forrado de encarnado. Sentindo o dito 
preso assos, levantoa-se e aceitou 2 pães que lhe 
deu o guarda António Francisco Rodrigues e 
os pôs sobre a canastra junto da qual estava 
uma palangana que tinha cousas de comer, e 
levando a mesma palangana para o canto do 
cárcere, lançou a cousa que tinha de comer 



198 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



no vaso imundo e a foi por aos pés da cama 
e se É ornou a deitar sobre a mesma e, no 
tempo em qtue ele testemunha o vigtpa, se 
levantou mais 3 vezes e de cada vez passeava ^ 
andando sempre com as mãos metidas nas man- 
gas do roupão e bulindo com os beiços, como 
quem resava, até que, sendo 10 horas e meia, 
lhe trouxe José Antunes, que servia de guarda, 
o jantar que aceitou o dito preso e foi logo 
lançar o caldo no vaso imundo, e guardou 
a carne na canastra da mesma palangana e 
lavando as mãos se foi deitar sobre a cama, 
e sendo meio dia para 1 hora, estando o preso 
ainda deitado, foi rendido a vigia . . . 

O familiar António Gomes Esteves, que o 
continuou a vigiar, declarou: 

. . . Vl0'0 deitado sobre a cama até as 2 
horas e levantando-se passeou pelo cárcere 
até as 3, com os olhos sempre no chão e as 
mãos metidas nas mangas do roupão, e, tor- 
nando para cima da cama, nella esteve deitado 
até as 4 horas e tornando a levantar-se se foi 
assentar sobre um tanho junto da porta do cár- 
cere, a tempo que chegou o guarda António Fran- 
cisco Rodrigues com um cesto; levantou-se o dito 
preso e, em um pano, recebeu 18 laranjas e as 
pôs junto a uns ovos que tinha junto á canas- 
tra e, voltando para o canto do cárcere, pre- 
parou a candeia e encheu 2 púcaros de agua, 
um dos quaes pôs junto á canastra e com agua 
do outro lavou as mãos; depois do que se 
tornou a deitar sobre a cama aonde esteve 
até as Ave Marias e então se pôs de joel}ios„ 
rezou, e benzeu-se e levantando-se passeou pelo 
cárcere até que lhe deram luz: e, sendo 7 
horas e meia, chegou á porta do cárcere e, voL- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 199 



iando para dentro^ seníoa-se sobre o tanho e 
pondo a mesa sobre a canastra da qual tirou 
pão, manteiga e queijo e, acabando de comer, 
deu graças e benzeu-se e foi fazer a cama, 
no qual tempo se retirou ele testemunha da 
vigia . . . 

Tal foi o 1.0 jejum judaico que Ant.o José 
da Silva realisou no cárcere. 



SEGUNDO JEJUM 

Em 14 de abril de 1738 pelas 5 e meia 
da manhã lambem o familiar Pedro da Silva 
de Andrade vio a hum preso sentado sobre a 
cama, calçando os sapatos e com hum roupão 
de baeta azul forrado de encarnado e, depois 
de calçado, se tornou a deitar sobre a cama, 
sem fazer ação alguma de católico, e sendo 
6 horas, com pouca diferença, veio o alcaide 
abrir-lhe a porta para lhe dar os bons dias, 
o que o dito preso foi receber, e se tornou 
a deitar sobre a cama, e então vio ele teste- 
munha que o dito preso era de mediana esta- 
tura, cabelo curto, castanho-escuro, de feições 
e cara meúda e pouca barba. 

Levantou-se da cama e passeou pelo cár- 
cere, o que fez por repetidas vezes, sem usar 
de contas, nem pegar em umas Horas, que 
estavam sobre uma canastra, no qual exercido 
andou até horas de jantar e então vieram os 
guardas e lhe trouxeram uma ração de carne, 
que o preso recebeu em uma palangana e, vol- 
tando para dentro, foi lançar o caldo no vaso 
imundo e pôs a palangana com a ração da 
carne sobre um estrado, que estava aos pés 



200 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



da canta, e foi lavar as mlãos e, feita esta deli- 
gencia, se foi deitar sobre a cama. Sendo meio 
dia para 1 hora chegaram outros dois fami- 
liares. Declarou ainda que o réu não estavaj 
doente e, se não gostasse do jantar, tinha no 
cárcere ovos e laranjas para comer, o que 
demonstrava o seu jejum como usam os judeus. 

O familiar Domingos Carvalho, que veio 
para a vigia do meio dia para uma, juntamente 
com outro familiar (eram 2 os vigilantes) depoz 
o seguinte: 

. . . Vio o preso deitado s^obre a cama, 
aonde esteve até depois das 3 horas, então 
se levantou e pôs-se a passear pelo cárcere 
até as 4 horas, encheu dois púcaros de agua 
e poz um junto da canastra e outro mais 
afastado, e, indo â palangena, tirou a ração 
e carne, que nela estava, e a lançou no vaso 
imundo; pegou em um dos púcaros, que tinha 
com agua, e lançou parte d^ella na palangana 
e com a outra lavou as mãos e continuou a 
passear, acabado o passeio pegou em umas 
Moras, que estavam sobre a canastra, nas quaes 
não leu e foi-se deitar sobre a cama aonde 
esteve até ás 6 horas e levantando-se passeou 
até ás 7, sempre com as mãos metidas nas 
mangas do roupão, neste tempo lhe vieram 
dar luz e as boas noutes a que o preso 
respondeu e d^ahi a pouco deram as Ave 
Marias, no qual tempo o R. afoelfwu, em que 
fez pouca demora, e benzeu-se apressadamente , 
continuou depois a passear para a porta do 
cárcere, aonde fazia algumas paradas; acabado 
o passeio tirou da canastra um pano, em que 
tinha alguns pedaços de pão, e uma palangana 
em que tinha ' manteiga e queijo branco, que 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 201 



comeu com pão, e depois com a manteiga tirou 
passas da canastra, que comeu, e também doce 
e bebeu o púcaro de agua, que tinha junto da 
canastra; acabando de cear recolheu o restante 
dentro da mesma canastra sem dar graças a 
Deus e continuou a passear. Seriam 8 horas 
pegou em um capote forrado de baeta encar- 
nada, estendeo-o no estrado e ali fez cama 
e apagou a candeia. 

Os outros dois vigias fizeram egual 
depoimento. 



TERCEIRO JEJUM 

Foi a 15 de abril de 1738. O familiar Ant.o 
Gomes Esteves depoz o seguinte: 

Pelas 5 horas da manhã vio a um preso, 
que se estava levantando da cama, o qual, 
depois de vestido, foi lavar as mãos em uma 
bacia, que estava junto da canastra, e limpou-se 
em uma toalha e logo foi para a porta do 
cárcere aonde ajoelhou e, demorando-se pouco 
tempo, beijou os ladrilhos e se pôs a passear 
até ás 6 horas e então, por estar o cárcere 
mais claro, vio elle testemunha que o dito 
preso era de mediana estatura, claro, magro, 
cabelo curto e com um roupão azul forrado 
de encarnado. 

Chegou o alcaide a dar4he os bons dias, 
a que o preso respondeu. Seriam 7 horas e 
meia abrio o dito preso a canastra e tirou 
uma palangana, com cousas de comer, as quaes 
lançou no vaso imundo e lavando as mãos 
se foi deitar sobre a cama, passado algum 
tempo levantou-se e passeou, o que fês por 



202 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



repetidas vezes, e finalmente pegou em a 
palangana e pôs nela dois ovos, que tirou de 
entre o atros que tinha no chão e laranjas e tra-* 
zendo-lhe o guarda Ant.^ Francisco Rodrigues 
o jantar, o preso o recebeu e llte deu os 2 ovos, 
que tinha na palangana, e logo foi lançar o 
caldo da ração no vaso imundo e pôs sobre 
o estrado a palangana com a carne e lavando 
as mãos se foi deitar sobre a cama. 

O familiar Francisco dos Reis Campos en- 
trou de vigia com outro do meio dia para a 1 
hora e depoz o seguinte: 

Vio o preso deitado sobre a cama, aonde 
esteve até 1 hora e então se levantou e passeou . 
pelo cárcere até ás 2 o que fês repetidas 
vezes até as quatro e sempre com as mãos 
metidas nas mangas do roupão e então chegou 
á grade e, pela fresta do cárcere, olhou para 
o céo em que se demorou algum espaço de 
tempo, posto de joelhos com alguma elevação 
para o ar. 

Levantou-se e, pegando em uma pucara, a 
encheu de agua e a foi pôr funto da canastra 
e voltando para onde estava a palangana a 
levou para o canto do cárcere e tirou d^ela 
a carne, que fês em bocadinhos, e os lançou 
no vaso imundo como também a agua, que 
tinha em uma bacia, e lavando esta a pôs 
com o fundo para cim^ e sobre ela o candeeiro 
no qual deitou azeite, lavou as mãos com 
a agua que tinha em a pucara e limpando-as 
se foi deitar sobre a cama aonde esteve até 
as 5 horas e então se levantou e passeou 
até as 6 e meia e tornando-se a deitar não 
se levantou senão quando sen tio vinha o 
alcaide dar-lhe luz, a qual foi receber em uma 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 203 



torcida e com ela acendeu o candeeiro e dando 
uns passeios ouvio tocar ás Ave-Marias e se 
pôs de joelhos junto da cama, levantou as 
mãos e logo as meteu nas mangas do roupão 
e esteve de joelhos o tempo em que se podiam 
rezar três Ave-Marias e no fim se benzeu 
apressadamente. 

Trouxeram-lhe 2 ovos que o preso re- 
cebeu e continuou a passear, andando nesse 
exercido, parou á porta do cárcere e enten- 
de ele testemunha que o preso fês . deli- 
gencia para ver a estrela, o que não poude 
divisar por estar distante da vigia, e ali se 
deteve até que foi noute e voltando para 
dentro lavou as mãos e as limpou em uma 
toalha e estendeu um guardanapo sobre a 
canastra da qual tirou pão, queijo e passas que 
comeu e os ovos que lhe tinham dado, o que 
tudo comeu como quem tinha boa vontade 
e depois bebeu agua; acabada a ceia levantou 
a mesa e meteu na canastra o guardanapo 
com o que restou da ceia e depois voltou-se 
para a cama, e ao pé d^ela esteve em pé e 
porque estava com as costas para a vigia, não 
poude ver o que ele fazia, finalmente continuou 
no passeio até ás oito horas em que se 
retirou)). 

A estes seguiram-se ainda quarto e quinto 
jejum, a 16 e 17 de abril de 1738. 

Mas não foram só os espiões de profissão, 
que o vieram denunciar; também dois com- 
panheiros de cárcere do infeliz hebreu lhe 
vieram sobrecarregar a culpa: José Luiz de 
Azevedo, em 10 de junho de 1738, veio acusá- 
lo por lhe dizer que cria na lei de Moysés e 
por praticar jejuns judaicos e Bento Pereira, 



204 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



segundo parece acintosamente, acusou-o de 
factos que hoje se nos antolham perfeita- 
mente inverosímeis, como: nunca reza; ri-se 
quando falam em Jesus; ajoelha ás Ave-Marias 
mas não reza e para o iludir finge que come 
mas nunca o vê mastigar em certos dias; reco- 
mendou-lhe que não rezasse o rosário; decla- 
rou-lhe que vivia na lei de Moysés; e até che- 
gara a cuspir numas imagens que estavam 
no cárcere! 

Tinha a carga toda, não havia duvida. 

Antes porém de o vermos condenado á 
pena ultima vejamos as suas declarações quanto 
ao inventario de sua casa que sua mulher 
aliás já tinha confessado. 

Em 22 de outubro de 1737 havia sido 
esse interrogatório. 

Declarou pois não ter bens alguns de 
raiz e somente uma livraria, um bufete de 
páo santo com três gavetas; seis tamboretes 
torneados; um leito de páo do Maranhão cha- 
mado rabuge; um bahú de couro e uma arca 
de páu; camisas, toalhas de mão e de mesa; 
seis colheres e seis garfos de prata; dois cor- 
dões d'ouro de sua mulher; um pingente de 
diamantes de sua mulher, que lhe tinha custado 
três moedas e meia d^ouro; uns brincos de 
diamantes de sua mulher cujo custo foram 
duas moedas d^ouro; dois pares de botões 
d^ouro com rubins de sua mulher; um tacho 
e um candeeiro já velho. 

Foi finalmente sentenceado António José 
da Silva. 

Em 11 de março de 1739, teria ele então 
trinta e quatro anos de edade, vio a inqui- 
sição de Lisboa o seu processo parecendo- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 205 




Um condenado á morte pela Inquisição — gravura ex- 
trahida do livro Coutumes et cérémonies réligieuses 
de tons les peuples du monde. Encontra-se tambeni 
na Hisioria das inqusições de Portugal impressa em 
1821. 



206 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



lhe convicto no crime de reiapsia por que 
foi preso e acusado, porquanto ainda que 
se não haja de fazer caso da primeira teste- 
munha da justiça, Leonor Gomes, escrava^, 
assim pela sua qualidade como por não estar 
repetida por ser morta, e o Réu a contradictar 
e provar a contradicta, sempre tinha cinco 
jejuns feitos dentro dos cárceres e prova- 
dos etc. 

Em 16 de Outubro foi-lhe notificada a 
sentença, de mãos atadas e no auto de 18 de 
outubro de 1739 foi relaxado á justiça secular. 

No mesmo saibram, como vimos, sua mãe e 
mulher. Dar-lhe-hiam ocasião a d^ellas se des- 
pedir? E que palavras trocariam ou que olha- 
res?. . . 



CAMILLO DOS TRÊS PROCESSOS SÓ CONHECEU 
FRAGMENTOS DO PROCESSO CONTRA 
O JUDEU. -^ COMO A SUA PODEROSA 
IMAGINAÇÃO SUPRIO ESSE CONHECI- 
MENTO. — REFLEXO DO POUCO QUE 
AO TEMPO SE CONHECIA DA ORGANI- 
SAÇÃO INQUISITORIAL. 



Do romance de Camilo Castelo Branco 
temos presente a 1.^ edição da Travessa da 
Queimada, 35. Âs suas paginas por isso fare- 
mos referencia. 

E, antes de mais nada, seja-nos permitida 
a transcrição do seguinte trecho de Camilo (i) : 



(1) O Judeu, I polume, pag. 143. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 207 



«Quem denunciou a família dos Silvas, e 
que motivo dera Lourença Coutinho para ser 
especialmente acusada de hebraismo? Não o 
dizem os muitos biógrafos franceses, italianos, 
brasileiros e portugueses, que teem comemo- 
rado os infortúnios d^aquela familia. Nem Bar- 
bosa, na Bibliotheca Lusitana, nem Sismondi na 
Littérature da midi de VEarope, nem Ferdi- 
nand Denis, nem João Manuel Pereira da 
Silva no Plutarcho brasileiro, nem Varnhagen, 
nem José Maria da Costa e Silva, nem Vegezzi 
Ruscalla na biografia d7/ Giudeo Portaghese)\ 

D'uma forma terminante encontra essa ex- 
plicação quem ler as paginas precedentes. 

Ao contrario do que pensou e escreveu 
Camillo {}) não houve depoimentos no Brazil 
contra Lourença Coutinho, embora fosse presa 
pouco depois de ppr o pé na metrópole. 

Como Camilo se engana quando escreve: 

«As esperanças dos protectores de Lou- 
rença Coutinho, não obstante os bons serviços 
do promotor do santo officio, ficaram bastante 
áquem do que se lhes antolhara. A presa 
estava de antemão absolvida, sem confissão, 
sem interrogatório, sem tortura; mas era for- 
çoso que sais-se reconciliada para não haver 
quebra nas praxes inquisitoriaes; e, como 
reconciliada, somente em auto de fé podia 
sahir. 

Felizmente para ella, naquelle anno ceie- 
brou-se ainda o santo espectáculo em julho, 
e não, como era costume, em outubro, no 
primeiro domingo do advento. Aos nove de 
julho, pois, saiu Lourença da egreja de S. 

(') O Judeu, I volume, pag. 147 e 156. 



208 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Domingos, onde entrou sem habito, e foi, rece- 
bida a penitencia da imposição do inquisidor, 
entregue ao familiar Diogo de Barros» (i). 

O grande romancista refere-se evidente- 
mente á primeira condenação de Lourença 
Coutinho mas, mesmo sendo assim, só é exacto 
o dia do auto da fé, provavelmente bebido 
nalguma das numerosas copias de listas dos 
autos profusamente espalhadas no século XVIII. 

Ao procedimento da Inquisição contra a 
mulher de António José mal se refere; em 
compensação faz larga referencia ao que com 
este se passou. 

Transcrevamos: 

«O processo d^Antonio José da Silva está 
no arquivo nacional da Torre do Tombo: para 
alli foi nos cartórios das inquisições em 1821. 
Alguns curiosos possuem copia do processo; 
eu não a vi, nem estou ao alcance de podei 
ainda consultar as peças principaes, que mere- 
ciam a publicidade, usurpada por ferragens 
inutilissimas que pejam as livrarias. Costa e 
Silva viu o processo, ou o principal d'elle; 
todavia, um sujeito que se presava de ser 
futilmente prolixo em numerosas paginas a 
propósito de nada, foi mais que omisso na 
biographia importantissima de tão assignalado 
escriptor, e desasisado nalguns dos esclareci- 
mentos que levianamente dá. Outro biblio- 
grapho de maior tomo, o sr. Innocencio Fran- 
cisco da Silva, não obstante a breve e succinta 
noticia com que antecede a relação das operas 
do judeu, cuida em corrigir de passagem os 
graves çrros de seus antecessores, e restaura 

(^) O Judeu, I volume, pag. 157. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 209 



lucidamente a verdade d^alguns essencialissi- 
mos factos. Como quer que seja, pelo que 
respeita ao processo, é judicioso atermo-nos ao 
que estiver escripto por pessoa que o haja 
examinado. Nesta parte, irei trasladando o 
pouco de Costa e Silva» (i). 

E, arrimado a tal bordão, Camillo cura 
por informações. 

Confunde lamentavelmente as duas prisões 
de António José e da segunda prisão oculta os 
curiosos depoimentos dos espiões que nos põe 
ao facto do pasado adentro do lúgubre cárcere. 
Camilo fazia tenção de examinar os processos. 
Ele mesmo nô-lo diz: 

«Não posso conjeturar quando Lourença 
Coutinho fosse presa além da segunda vez 
nos cárceres de Lisboa. Os biographos não 
o dão levemente a perceber; e a nota da 
lista, se ella terceira vez entrasse na inquisição, 
mencionaria o segundo auto da fé em que ella 
houvesse sabido reconciliada por culpas de 
judaismo. Quer-me parecer, se não ha des- 
cuido no traslado, que lhe será con- 
tada como primeira prisão nos cárceres do 
Rio de Janeiro, d'onde foi remettida para 
Lisboa. Onde limpamente se pode esclarecer 
esta duvida é na leitura do processo, o qual 
faço tenção de brevemente examinar» (^). 

Tudo agora se fica pois sabendo com o 
estudo que apresentámos dos três processos 
tão intimamente ligados. 

Camillo, que muito se serve do livro 
impresso em 1688 Relation de Vlnquisition de 



{}) O Judeu, vol. II, pag-. 212. 
(-0 O Judeu, vol. II, pag. 59. 

14 



210 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Goa, de Dslon claudica em pontos internos da 
organisação inquisitorial como ao dizer (') que 
a missão do qualificador do Santo Oficio era 
qualificar e avaliar as culpas dos christãos 
novos, hereges e feiticeiros, quando era classi- 
ficar e censurar as produções literárias e 
mesmo as proposições que ao seu critério fos- 
sem submetidas. 

Comprehende-se bem que Camillo clau- 
dicasse neste ponto pois só depois da publi- 
cação dos nossos trabalhos sobre a Inquisição 
portuguesa a organisação do Santo Oficio tem 
ficado suficientemente esclarecida. 



NO ROMANCE, O OLHO DE VIDRO: MANOEL 

FERNANDES VILA REAL E HEITOR DIAS 

DA PAZ. 



Não nos ocuparemos detidamente do pri- 
meiro dos condenados cujo nome encima este 
capitulo. O processo de Vila Real já foi minu- 
ciosamente estudado pelo falecido académico 
e conservador da Torre do Tombo, José Ramos 
Coelho, no Ocidente. 

Mas veremos como a Inquisição procedeu 
com Heitor Dias da Paz, a quem Camillo 
consagra egualmente bastantes paginas do pri- 
meiro volume dos Narcóticos, ligando-o a 
Fernão da Paz e Duarte da Paz, hebreus 
celebres. 

Heitor Dias da Paz deu entrada no cárcere 
da inquisição de Lisboa a 23 de agosto de 

(1) a Judeu, vol. II, pag. 224, nota 1. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 211 



1703, preso pelo familiar D. Felipe de Sousa(i)- 
Mais uma vez se nota, nesta primeira metade 
do século XVIII, to zelo, o ardor, com que os' 
grandes fidalgos se^ prestam ao odioso mister 
de prender christãos novos. Era decididamente 
um sport aristocrático. 

Acusado de judaismo, Heitor Dias, alto, 
magro, com os olhos azues pequenos e barba 
ruiva, estava ao tempo na flor da edade. Con- 
tava somente vinte e sete anos e, sendo natu- 
ral de Lisboa, viajara já por Beja, Serpa ^ 
Coimbra, não sahindo porém de Portugal. 
Estudante de medicina era, segundo parece, 
judeu até a medula dos ossos. Pelo menos 
d'isso o acusaram muitos réos e inclusivamente 
a própria mãe! 

A pés juntos negou as suas culpas e nessa 
negativa se manteve firmemente até sete de 
abril de 1704, audiência em que começou as 
suas confissões. Mas que confissões! Se a nega- 
tiva era terminante mais terminante o era agora 
a afirmativa. E tão extraordinária era 'tal revira- 
volta, tão fanaticamente se apresentava como 
crente na lei moysaica, que a todos abysmavá^ 
Eín 15 de maio de 1705 foi largamente interro- 
gado pelo inquisidor Nuno da Cunha dè 
Athayde, ao depois Inquisidor Geral. 

Da acta d^essa audiência consta que per^ 
sistio na crença da lei de Moysés, esperando 
nela morrer, o que não considerava como culpa^ 
mas, por motivo ignorado, não a assinou. 

Desconfiaram então os inquisidores que 
não estava em seu juizo e detidamente o man- 



{}) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 9.776. 



12 



EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 




Retrato do Inqusidôr Geral Nuno da Cunha de Athay- 
de segundo uma gravura da epocha. Teve larga in- 
tervenção no processo de Heitor Dias da Paz. 



daram examinar. O alcaide dos cerceres secre- 
tos, que com ele directamente privava, dizia-o 
louco a fing^ir e que^, á vista de todos praticava 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 213 



jejuns e outros actos da religião moysaica. 
Examinado pelos médicos também como tal o 
não consideraram e para lhe acalmar os nervos 
receitaram-lhe . . . uma sangria. 

 vista de taes opiniões enveredaram os 
inquisidores para outro caminho e escolheram 
pessoas doutas para o catequisarem na religião 
christã. Mas ele tão fanático era, tão ferrenho 
e agarrado ás suas ideias pensistia sempre na 
lei de Moysés, defendendo-a. 

Crença, fanatismo? Em todo o caso fir- 
meza nas suas convições israelitas. Tão grande 
que o levaram á fogueira aureolado porventura 
com a gloria de martyr da religião judaica. 

Condenado á pena ultima, em 29 de agosto 
de 1706, foi admoestado pela ultima vez bem 
inutilmente para ver se ainda se convertia á 
fé católica. Em dez de setembro foi afinal 
notificado para ir ao auto da fé, no Domingo» 
seguinte e ouvir ler a sentença pela qual era 
relaxado á Justiça secular e logo pelo guarda 
lhe fórão atadas as mãos. 

NO ROMANCE CAVAR EM RUÍNAS: O FORRA- 
GAITAS — PROCESSO DE ATROZ INSIDIA 

Teremos de remontar cincoenta anos atrás 
para encontrar a inquisição de Lisboa num 
periodo de intensa actividade sectarista. Noutro 
capitulo largamente nos referiremos ao peixe 
grande cabido por esse tempo nas malhas 
da rede inquisitorial, especialmente o abastado 
banqueiro e capitalista Duarte da Silva. A 
ele estava intimamente ligado o nosso Fran- 
cisco Gomes Henriques, também comerciante 



214 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



e banqueiro, mais conhecido pela alcunha do 
Forra-gaitas e doeste somente agora nos ocupa- 
paremos. Bem o merece; pois, embora não esti- 
vesse ligado a Camillo, tão atroz, tão pérfido 
é o proceder com ele da Inquisição que dificil- 
mente encontrámos caso com esse comparável. 
Dir-se-hia que o Santo Oficio esgotou com o 
Forra-gaitas a sua perfidia e a sua ferocidade! 

Juntar-lhe-hemos somente o estudo do 
processo movido contra o filho Gregório 
Gomes Henriques (i). 

Ambos no mesmo dia, 4 de outubro de 
1651, deram entrada no cárcere inquisitorial e 
ambos acusados por Manoel Cordeiro de jura- 
rem falso no processo pela Inquisição movido 
a Duarte da Silva, inventando uma briga doeste 
com Domingos de Medeiros á porta do Forra- 
gaitas, junto á sua loja na Rua Nova. 

A essa mesma porta ele foi preso. 

Conversava com o seu grande amigo Jero- 
nymo Nunes quando vio passar para baixo 
e para cima alguns familiares do Santo Oficio. 

— Que quererão por aqui estes algozes? 

Jeronymo Nunes replicou-lhe que, para não 
estar sobresaltado, fugisse para Roma e nisto 
chegaram os familiares que lhe deitaram a 
mão sem ao menos o deixarem ir a sua casal 

Francisco Gomes Henriques, baixo e 
gordo, como o descreve um amigo, tinha então 
66 anos de edade, morava ao Terreiro do 
Ximenes e era banqueiro em Lisboa havia 
mais de quarenta anos. Filho do cirurgião Pêro 
Gomes e de Filipa Henriques, com loja de 



(1) Inquisição de Lisboa, proc. ns. 10.794 e 
1.309. 



I 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 215 



fancaria, restavam-lhe então de sua mulher, 
Beatriz Mendes, os filhos seguintes: Violante 
Mendes, casada com António Brandão e mora- 
dora em Roma; António Mendes Henriques, 
também morador em Roma, arcediago de Vizeu, 
secretario de S. Santidade e beneficiado em 
muitas partes,, a quem deram o titulo de mon- 
senhor; Francisco Mendes, morador em Lior- 
ne, agora em Roma com o irmão; Maria Hen- 
riques, casada com Estevão da Silveira Rosa, 
mercador de Beja e também christão novo. 

Fiado nas relações de seu filho em Ro- 
ma, junto do pontifice, no lôro dt fidalgo 
que D. João IV lhe outorgara e na promessa 
do habito de Christo, o Forra-gaitas apresentou- 
se arrogantemente. Para mais o Promotor 
apenas requerera a sua prisão por ter jurado 
falso; isto, segundo a jurisprudência inquisi- 
torial, era pouco e Francisco Gomes Henriques 
bem o sabia. 

Mas a cilada estava-lhe urdida por mão 
de mestre e nela havia de fatalmente cahir. 
Rodeavam-no espiões sem tal lhe passar pela 
mente e as suas confidencias, os seus desaba- 
fos seriam habilmente apanhados e vilmente 
transmittidos, e até talvez acrescentados, á mesa 
do Santo Oficio. 

Em 22 de dezembro de 1651 vem pois 
denunciá-lo Manoel Camacho de Barbuda e quem 
era esta testemunha? 

Um pagem do Inquisidor Geral! 

Um pagem do Inquisidor Geral, que dos 
seus aposentos se fingio egualmente preso e 
soube puxar pela lingua ao desgraçado Forra- 
gaitas. Eis as declarações doeste, se o Camacho, 
que para confirmador improvisou um irmão 



216 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



egualmente pagem do Inquisidor Geral, não 
exagerou ou faltou á verdade. Declarou-lhe 
pois o Réu que tinha um filho clérigo a quem 
El-Rei queria fazer bispo e a quem mandara 
a Roma negociar algumas pretenções dos 
christãos novos e, na corte de Roma tinha 
tanta força, que estava prestes a ser cardeal; 
de casa lhe mandaram uma cadeira e nela um 
escrito; mandara á índia uma náo para fazer 
tornada, em serviço d'El-Rei e por este serviço 
estava prometido um bispado para um seu 
filho de muita autoridade e letras; não teve a 
sorte de fugir como Jeron3^mo Gomes e disse- 
Ihe que já sabia fazer tinta com um púcaro de 
agua, chegando-Q á candeia e a pena havia 
de ser um páo de alecrim pedido para defumar 
o cárcere. 

Um dia perguntou a um dos Camachos se 
podia apresentar suspeições contra o inquisidor 
Belchior Dias Preto, seu inimigo e como em 
casa d'eles sentisse tanger viola e harpa o 
desgraçado — suprema ingenuidade! — per- 
guntou como tinham podido introduzi-las no 
cárcere. 

Tudo isto era pouco e por isso, em 30 de 
janeiro de 1552, novamente o Camacho denun- 
ciava: disséra-lhe o réo que o melhor era negar 
e já não podia falar como d^antes porquie 
lhe tinham feito um buraco no cárcere, mas 
agora Já lá não iriam porque nele tinha pôstd 
uma coisa mal cheirosa ... e em 6 de fevereiro 
ainda o Camacho delatava Gomes Henriques 
afiançar-lhe que havia de negar sempre, troçava 
das ceremonias de quarta-feira de cinzas e comia 
galinha na quaresma. 

Já era alguma coisa, mas ainda era pouco 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 217 

e por isso lhe puzeram agora uma sentinela 
á vista, como quem dissera lhe deram por com- 
panheiro de cárcere um espião! 

Passam-se mezes e esse pérfido com-- 
panheiro fala. Assim, em 12 de novembro de 
1652, vem declarar que o Forra-gaitas tem 
as contas na mão em forma diferente da dos 
christãos, parecendo fazer figas á cruz; diz 
que os inquisidores prenderam Duarte da Silva 
para lhe apanharem o dinheiro; tão grande 
amigo era d^ele que eram duas almas em um 
só corpo; de Leorne e d^outros pontos lhe 
escreviam contra a Inquisição; quando sahisse 
do cárcere havia de ir para fora do reino; 
era irreverente com Christo; ameaçava-o de 
que, se alguma coisa dissesse, havia de o man- 
dar matar; embora lhe arrancassem a lingua 
não havia de confessar; á sua vista cozeu no 
jubão um escrito para o filho com o seu nome, 
para o filho saber que era vivo e trabalhar 
pela sua liberdade. 

Poucos dias depois, a 25 de novembro, 
voltava o mesmo Amaro Gonçalves: dissera 
o Forra-gaitas que os inquisidores queriam 
presos ricos para lhes comerem as fazendas; 
não o haviam de embaraçar nos interrogató- 
rios porque sabia tanto como os inquisidores; 
embora lhe tirassem a lingua pelo toutiço não 
lhe haviam de arrancar palavra; as confissões, 
havia de as fazer a Deus e não aos clérigos 
e era melhor não falar na cruz, nem em Christo. 

Ainda este desleal companheiro veio entre- 
gar á mesa do Santo Oficio uns escritos de 
Gomes Henriques para seu filho por ele, como 
se vê, tão bem confiados a Amaro Gonçalves! 

Mas não melhor foi para o desgraçado 



218 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



réu o seu novo companheiro, D. José Carreras. 
O testemunho do Gonçalves era só por si juri- 
dicamente insuficiente e por isso procuraram 
novo delator e não podiam ser melhor sucedi- 
dos, como vae ver-se. 

D. José Carreras desempenhou-se á altura 
da sua tão nobre missão. Delatou confidencias, 
recebeu escritos que entregou, soube bem 
puxar-lhe pela lingua e até talvez lhe não 
faltasse inventiva para forjar conversas ou 
pelo menos exagerá-las. Eis as suas declarações 
em 22 de abril de 1653: .o Forra-gaitas cha- 
ma cães aos inquisidores e disse ao denun- 
ciante que El~Rei lhes tirara agora uma bôa 
mama, isentando os judeus da pena do confisco 
e, se D. João IV não fora um rei bamba, tê- 
los-hia mandado para Angola e Cabo Verde; 
costuma clamar: 

— Ladrões, com que consciência tivestes 
preso seis anos a Duarte da Silva e a um 
menino e uma menina de treze anos, filhos 
do mesmo, justiça de Deus! Acrescentava: A 
casa da Inquisição é casa de aflição e má 
ventura, onde as mentiras são verdades e as 
verdades, mentiras. A justiça de Deus virá e 
o castigo não tardará. 

Também o réu lhe disse: que, por parte de 
Sebastião César, nomeiado» bispo de Coimbra se 
levara recado á mulher de Duarte da Silva que, 
se lhe desse 10 mil cruzados, sahiria o dito seu 
marido solto e livre; a mulher de Duarte da Silva 
disse-o ao réu e este aconselhou-a a não os dar 
porque o bispo de Coimbra só tratava de 
dinheiro e não podia fazer o que dizia. Tam- 
bém o réu disse: «Ê possível que 3 clérigos 
(referindo-se aos inquisidores) tenham poder 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 219 



de revolvxer nas barbas de um rei todo um 
reino, affrontando os homens de bem e honra- 
dos, e que El-Rei os sofjra!y> O réu contou á 
test.a que, por occasião da prisão do conde de 
Villa Franca, elle se encontra no Rocio com o 
conde capitão e lhe dissera: Nós outros espe- 
rávamos que V . Senhorias fizessem alguma 
facção para que pudéssemos mostrar o animo 
que todos temos de servir a V . Senhoria; ao 
que o conde respondeu que alguns souberam e 
outros o não souberam. 

Referindo-se ao inquisidor João de Vascon- 
cellos, chamou-lhe o réu, frade, ladrão, má alma 
que por uma testemunha somente depois de 
passados 34 annos prendeu uma parenta minha, 
citando em logar do Inquisidor Geral e a 
fizesse estar 4 annos nestas misérias e cruel- 
dades que, por sahir d^ellas, confessou o que 
não fez e sahio sambenitada. Este frade, com 
sua beatidão, foi o que primeiro deu voto 
para se prender Duarte da Silva, sendo o 
maior amigo que elle tinha e tendo-lhe 
gastado em comer e beber muita fazenda. 

O réu fiava-se muito nos filhos que tinha 
em Roma; teve Duarte da Silva fugido na sua 
casa; jurou falso no processo doeste; na 
occasião dos editaes da Inqção. contra 
Duarte da Silva, o réu o aconselhou a fugir 
mas Duarte da Silva disse-lha que fora f aliar 
com JEl-Rei e este lhe ordenara que se viesse 
apresentar porque, dentro em 2 mezes, o faria 
pôr na rua. 

Em 7 de maio de 1653 denunciou o réu 
de praticas judaicas; por dizer que os peni- 
tenciados da Inquisição eram martyres; os seus 
grandes amigos, Jeronymo Nunes Peres e Luiz 



220 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

Correia, muito haviam de fazer em seu au- 
xilio; o réu se correspondia com seu pri- 
mo Lopo Nunes, judeu publico de Hambur- 
go, queimado em estatua nuu auto da fé; 
parecera-lhe que o espreitavam por um bura- 
co da parede, mas elle totmara um rato pe- 
queno, e depois de morto, enchera-o de su- 
gidade e tapara com elle o buraco; os guar- 
das tiraram-no, mas o buraco ficou sempre 
sujo; disse-lhe que sempre foi judeu e o- ha-de 
ser; pedio á testemunha para avisar seu filho 
Gregório e seu genro Estevão da Silveira para 
fugirem. 

A pedido do réu esta testemunha, D. José 
Carreras, traçou a seguinte carta, pelo réu assi- 
gnada e cujo original está nos autos, por en- 
trega da testemunha. 

«Senhor Jeronymo Nunes 

Amigo e Senhor. 

Eu estou muito miserável d'onde estoU 
por meus peccados, que ninguém me conhe- 
cerá quando sahir e a minha ida não será 
para esta cidade porque vae cá muito grande 
bulha sobre mim. Acuda-me. Deus que pode, 
que nelle tenho fé e confiança como Pae e 
senhor de misericórdia porque até o presente 
me não teem estes homens fallado a propósito. 
Estou vendo o desamparo da minha casa; 
V. Mcê., como anjo d'alma, confio que suprirá 
a todas as necessidades urgentes consolando 
essa pobre desgraçada de minha cotnp.^, filho' 
e filhas; favorece-las quem pode e lhes dê 
paciência e a mim disponha como for dè seu 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 221 



serviço com soffrimento. Bem folgara de ter 
novas certas de minhas cousas e casa pois me 
serviriam de alivio nestas misérias em que me 
vejo, porém receio os impossiveis que estão de 
permeio, porém siga V. M. a ordem que o 
portador lhe dér em tudo. 

Ao amigo e amigos minhas lembranças e 
que muito deveras me encomendem a Deus e a 
nosso Andrada, do que fico certo por vida 
de nossa amizade, a quem Deus guarde como 
pode. Hoje, em 15 de junho de 1653. 

De V. Mcê. 
Frc.o G ao mes Enriques. 

Em 19 de junho de 1653 acrescentou a 
testemunha, D. José, que o réu afirmara que os 
inquisidores só tinham contra elle o ter jurado 
falso no processo de Duarte da Silva e que a' 
elle o não haviam de castigar porque, pelos ser- 
viços a EL- Rei, lhe estavn promettido o habito 
de Christo. 

Em 28, além de fallar nas praticas judaicas 
do R., disse que este lhe dissera que havia 
de mandar matar Bento da Costa, residente na 
Hollanda, por o haver denunciado; que seu 
genro António Brandão era judeu; que seu 
filho, Gregório Gomes, quando casou foi no 
dia da Purificação de N. Senhora, mas não 
consummou o matrimonio senão no sabbado 
seguinte, gastando esse intervallo em vários 
lavatórios, elle e a mulher, em obediência á 
religião israelita. 

Em 9 de julho de 1653 veio o réu pedir 
que o mudassem de cárcere e, como os Inqui- 



222 . EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



sidôres lhe dissessem que não bastava tratar 
da saúde do corpo, para que isso lhe era 
preciso, mas necessitava também tratar d^a 
da alma. E, como se referissem a confissão, 
elle zombou d^ella e, quando passava o 
Sanctissimo no Rocio, não se quiz ajoelhar, 
nem bateu nos peitos. D^isso se foi gabar ao 
seu pérfido companheiro D. José, que a 14 de 
julho o veio denunciar; assim como têlo o réu 
pretendido converter ao judaísmo; que havia de 
pedir (o réu) papel para fazer o testamento 
para os inquisidores verem como pretendia 
morrer. 

Surgem angora novos espiões: 
Em 13 de" agosto de 1653 os guardas dos 
cárceres vieram denunciar que o réu lá judaisa- 
va. Para isso, ás 8 da manhã, levantou-se da 
cama, lavou muito bem 2 bacias vidradas de 
lavar as mãos, encheu-as de agua, pô-las per- 
to uma da outra, disse ao companheiro que 
ali tinha agua para se lavar; na outra bacia; 
lavou as mãos e rosto, limpou-se a uma toalha 
dependurada na parede, agarrou na sua bacia 
com agua e metteu-a debaixo do estrado. Do 
seu bahú tirou uma toalha encrespada, depen- 
durou-a na mesma parede perto da outra e disse 
a D. José que ali tinha aquella toalha lavada 
para quando se levantasse. Depois chegou um' 
tanho para ao pé da grade, poz-se de joelhos, com 
as mãos levantadas sem cruzar os polegares, 
olhando para o céo, batendo com a mão no 
peito e depois andou passeando com as contas 
na mão, mas não fazendo o signal da cruz. Os 
guardas levaram-lhe o jantar ás 10 horas que 
era para o réu um frangão assado e para D. José 
uma ração de carneiro cosido com seu caldo. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 223 



O réu embrulhou o frangão num guardanapo 
e pô-lo em cima de um alguidar vidrado em 
que estavam peras e melão. Âs 11 horas vieram 
os guardas buscar a louça e o réu ajoelhou-se 
novamente no tanho e até ao meio dia não 
comeu nada. Só ás 7 horas é que comeu mar- 
melada. Âs 8 horas cearam: D. José, pão, ovos 
e azeitonas; o réu, pão, melão, queijo do Alem- 
tejo, peras, 2 ovos e sua tigela de vinho. 
Comeram os dois, pondo uma toalha em cima 
d'uma canastra, sentados cada um em seu 
tanho. O réu também comeu díasidrão q, quando 
acabou, metteu as mãos na carapuça branca 
da cabeça. Os guardas de vigia depuzeram 
que o D. José comia marmelada ás .escondidas 
do réu e lhe fazia momos, como por escarneo, 
sem elle ver. D. José leu-lhe um testamento 
que o réu ouvio attentamente e metteu na 
canastra encourada. Âs 7 horas trouxeram-lhe 
lume que D. José tomou num rolo e accendeu 
um candeeiro de latão. 

Em 11 de novembro de 1653 novamente 
D. José veio denunciar o réu porque lhe pedioi 
para, quando fosse livre, ir a casa de sua 
mulher, Beatriz Mendes, e avisa-la das pessoas 
que apresentaria para prova da sua defesa, 
e da forma como ellas deviam depor. Também 
lhe pedio para dizer á sua mulher que signii 
ficasse a Duarte da Silva, Rodrigo Ayres e Jorge 
Dias que, quando elles estiveram presos, ele réu 
dava muitas esmolas e praticava muitos jejuns 
para elles serem soltos. 

Que belo companheiro não teve Francisco 
Gomes Henriques durante oito mezes! 

Em 5 de dezembro de 1653 porém já outro 
novo e bom companheiro o vinha denunciar: 



224 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Manoel Godinho. Mas a carga era já mais 
que suficiente e doeste só aproveitaram a indi- 
cação, aliás vaga, dos jejuns judaicos do réu^ 
confirmada pelos depoimentos dos guardas. 



BENS DO FORRA-GAITAS. — O SEU SEQUESTRO 
ARDENTEMENTE ALMEJADO. — A SUA 
DEFESA. - É CONDENADO Â MORTE 
— COMO È COMOVEDOR O SEU TESTA- 
MENTO! 

Não é muito de fiar, por incompleta, a 
lista dos bens por Francisco Gomes Henriques 
apresentada á Inquisição mas, como não temos 
outros elementos sirvamo-nos d^ela. 

Interrogado pois a 6 de outubro de 1651 
declarou possuir: na entrada da rua de S. 
Mamede, vindo para Sete Cotovelos, uma habi- 
tação. Em sua casa tinha uma alcatifa grande 
de estrado, presente para seu filho, quan- 
do se casou; colchas; uma jóia, assim a de- 
signou, de diamantes, cujo valor seria dois mil 
cruzados, pertencente a seu filho. Em casa 
do prior de S. Mamede tinha empenhado jóias 
no valor de dois mil cruzados. Era possuidor 
de muita prata, como jarro, prato etc, toda do 
peso de duas arrobas. Tinha embarcadas cem 
caixas de assucar remetidas para HoUanda e 
muita fazenda no Brazil e em Pernambuco, 
d^onde se vê o género de comercio a que 
principalmente se entregava. 

Vejamos agora as suas dividas: varias pes- 
soas da Beira e Alemtejo deviam-lhe vinte 
mil cruzados de bulas, os quaes pertenciam 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 225 



a seu genro António Brandão, ausente em 
Roma; o vigário da Lourinhã, Garcês Frei- 
re, deve-lhe 250^000 rs. de bulas; Ambró- 
sio do Amaral dois mil cruzados; á con- 
dessa do Sabugal deu seiscentos mil reis 
a razão de juros; D. Pedro de Castelo Branco 
deve-lhe 3001000 rs. Finalmente em sua casa 
tinha penhores de prata e anéis de varias 
pessoas e na Companhia do Comercio Geral 
seis mil cruzados seus e de seu filho Gregório. 

Em 3 de novembro de 1651 já ele tinha 
sido interrogado por causa das suas contas com 
Duarte Gomes da Mata. Este requerera, por 
causa dMsso, a citação dos dois, pae e filho, 
pois lhe deviam três mil cruzados o que ambos, 
unf VGce, confessaram serfdo o juro de 5 o/q. 
Haviam dado de penhor para esta divida um 
livro de ouro, por sua vez recebido, de 
D., Pedro de Castelo Branco, quando entrou 
aos touros. Ainda o Forra-gaitas foi interro- 
gado por causa de contas com o escrivão do 
eivei, João da Guerra e, em 11 de junho de 
1653, deu-se por citado para a diligencia 
tocante a Francisco de Faria da Silva, almotacé- 
mór, declarando que Ambrósio de Aguiar Couti- 
nho foi casado comi a mulher doeste Francisco de 
Faria e lhe devia mil e tantos cruzados. 

Ainda finalmente declarou, em 22 de maio 
de 1652, que o Ld.» João Varela de Abreu, 
cónego tercenario da sé de Lamego, lhe pedio, 
por intermédio de Simão Mendes Chacão para 
mandar vir de Koma bulas de renunciaçâo de 
uma conezia da sé de Lamego a favor do 
Ld.o Duarte Varela e á conta entregou trinta 
mil réis. 

15 



226 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Em oito de outubro de 1654 fez um 
acrescento ao inventario dizendo que, quando o 
prenderam, tinha mandado para a índia um 
patacho chamado A^. Senhora dos Remédios, 
no qual tinha sociedade com seu filho e genro. 

Também, quando o prenderam, tinha dois 
anéis de diamantes engastados em ouro, um 
do valor de '501000 rs. e outro de 20$000 rs. 

Não era pois de despresar, apesar das 
omissões e dos sofismas em que os judeus 
eram férteis, o recheio da casa commercial de 
Francisco Gomes Henriques. 

Por isso, em 19 de junho de 1653, os inqui- 
sidores da primeira instancia foram de parecer 
que deviam ser-lhe sequestrados os bens, mas 
o Conselho Geral, em 28 de agosto de 1653, 
prudentemente emendou a mão, dizendo que 
era conveniente dissimular por ora. 

Lá está, no processo, com todas as letras, 
esta prova da extraordinária ganância inquisjto- 
rial! 

Na sua defesa alegou o Réu, entre outras 
coisas: fazer grandes festas, quer na igreja da 
Conceição, quer na de S. Julião, quando era 
oficiai das confrarias e na igreja da Concei- 
ção fez uma capela a N. Senhora da Piedade 
em que gastou muitos cruzados; sérvio de pro- 
vedor na igreja de N. Senhora da Victoria. 
Citou como testemunhas entre outros: o prior 
de Santa Justa; Francisco Botelho Chacão; 
Duarte da Silva; o jesuita Pe. Manoel Masca- 
renhas; o Pe. Manoel Lima; o companheiro do 
Pe. Vieira que foi a Roma; o banqueiro 
Jeronymo Nunes etc. 

Nas contraditas citou entre outros: a con- 
dessa do Sabugal e seu marido D. João Mas- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 227 



carenhas; D. Francisco de Castelo Branco; 
Gonçalo Peixoto da Silva, cónego da sé de 
Lisboa; Alexandre de Rezende, banqueiro; o 
conde de Vila Franca; Luiz da Silva Teles; 
D. Fernando, irmão doeste; D. Pedro de Cas- 
telo Branco; Duarte Dias, christão novo, oon- 
tractadôr do tabaco. Porém, para cumulo de 
parcialidade, nenhuma doestas testemunhas foi 
interrogada! . .. 

Mas a sentença contra o Forra^gaitas 
estava d^ante-mão traçada. Quem o mandou ter 
um filho em Roma em situação proeminente 
e adversário da Inquisição? quem o mandou 
ser rico, ter a lingua solta, pertencer á entoa- 
rage de Duarte da Silva? Com efeito, em 26 
de fevereiro de 1654, foram os inquisidores 
de primeira instancia de parecer que devia 
ser relaxado á justiça secular, e o Conselho 
Geral confirmou. 

Só passados mezes, em 28 de setembro 
de 1654, esta sentença lhe foi notificada e, 
quando lha notificaram, pretendeu Francisco 
Gomes Henriques apelar para Roma. 

Sempre a cega confiança nas proteções 
superiores que lhe falharam. 

A primeira mesa e o Conselho Geral, mais 
uma vez, lhe deram para traz, indeferindo o 
seu requerimento. 

Francisco Gomes Henriques vio-se então 
irremediavelmente perdido e, num estado 
aflitivo facilmente comprehensivel e bem de ima- 
ginar, pedio uma folha de papel e eis o que 
escreveu, actualisando apenas a sua ortografia. 

Devia então roçar pelos setenta anos e 
a sua memoria não devia certamente ser das 
melhores. 



228 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



«Deus e N. Senhor esteja em vossa com- 
panhia para amparo de nossos filhos e genro 
e vos sustente vos dê de seus bens para ampa- 
rar a minha honrada Filippa, serva de Deus 
e virtuosa, dando-se-lhe os 10 mil cruzados 
que destes a todos, pois que meus peccados 
permittiram que eu o não fizesse e seja com 
pessoa egual a nós e de vantagem. 

Agora vos quero dar conta da minha des- 
graça que por meus peccados me condemna- 
ram estes senhores 2.» feira, 28 de setembro, 
á morte, seja Deus louvado que me guardou 
isto perto de 80 annos para vir a morrer 
uma morte tão affrontosa eu a tomei com 
grande animo, appellei da dita sentença para 
a Cúria de Roma, tomaram a dita appellação 
com grandes protestos e a assignei no mesmo 
dia; a 5.a feira seguinte me chamaram e me 
disseram que não recebiam a minha appellação, 
que me puzesse bem com Deus e os ditos 
senhores me responderam em tribunal Supremo 
que se o não devia que o não dissesse que se 
passasse esta morte injustamente que gozaria 
do céo eterno eu lhe respondi como no pri- 
meiro dia assim permittirá Deus que o goze, 
pois vou conforme em sua sancta fé e mise- 
ricórdia. 

Velhacos, me chegaram a isto, más almas 
Q más consciências, Jesus Christo lhes peça conta 
com castigo e a mim me dê paciência para pas- 
sar este transe tão agoniado. 

Luz e lume dos meus olhos, minha com- 
panheira de perto de 50 annos, ficae-vos 
embora pois que N. S. J. Christo não foi ser- 
vido que morresse nos vossos braços e de 
meus filhos. Treze filhos tive em vossa com- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 229 

panhia, N. S. os confirme, assim aos presen- 
tes como ausentes, em sua sancta fé, para 
que roguem pela minha alma assim nem mais 
nem menos como os vós doutrinastes e eu 
de tamaninos. 

Meu António Mendes, luz em que me 
revia em vossas grandezas e do meu honrado 
filho Francisco e a minha virtuosa Violante 
com o António Brandão e meus netos, a minha 
alma fica encarregada a vós, pois Deus vos 
poz em terras tão sanctas e tão virtuosas, 
encommendo-vos mt.» a minha alma com mis- 
sas e officios e esmolas e jejuns, não vos 
esqueçaes do que vos encommendo pois vo-lo 
mereço que voz puz ricos e honrados e os 
meus netos já terão de edade para me encom- 
mendarem a Deus e tnão quero que me façaes 
mais que conforme vos encommendava a Deus 
em minha liberdade e muito mais em meus 
trabalhos de 3 annos que nelles estive. A todos 
vós, filhos de minha alma, e netos não vos 
esqueça a devoção de N. Senhora da Gloria, 
pois é de tantos annos e de devoção dos 
pobres que vinham a essa casa para que Deus 
se lembre da minha alma. Quando vim a estes 
cançados trabalhos prometti a Deus Nosso 
Senhor e á Virgem Nossa Senhora da Gloria 
que se me livrasse e fosse para minha casa 
lhe daria que casaria uma órfã onde lhe daria 
150 000 rs. por letra, os peccados não deram 
este logar, porém foi Deus servido não deixar 
de la casar logo para que Deus ponha seus 
olhos de misericórdia com a minha alma sendo 
ella serva sua, pois tanto o tenho offendido. 
Tinha em minha vontade que fosse aquella 
orphã parenta vossa a quem dêmos uma caixa 



230 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



de assucar das muitas que nos vieram uma 
vez do Rio de Janeiro e Ih^a deram na alfan- 
dega livre, sem pagar direitos, não lhe sei 
o nome porque me não alembra, ou essa, ou a 
filha de Luiz Paes, a mais pequena, que é 
honrada e mt.o formosa e não faltará quem 
case com ella por sua formosura e isto seja 
áquella que a vós vos parecer em vossa 
eleição. 

Minha Maria Henriques, luz em que me 
revia, e meu honrado filho e genro, Estevão 
da Silveira, minha esmoler mulher e marido, 
sabe N. Senhor, filha, as anciãs que levo vossas 
e de vosso marido porque éreis honra da nossa 
geração, Deus vos deixe lograr e gozar vossa 
mocidade em serviço de N. Senhor que é a 
verdadeira e a mim me dê paciência para 
passar este transe de agonia. Peç-vos muito 
a vós e a vosso marido, pois fazieis bem a 
todos, façaes bem a este desgraçado pois foi 
Deus servido que não morresse em vossos bra- 
ços e em nossa casa pela minha benção e a 
de Deus que vos não esqueçaes do que vos 
encommendo estes dias que viverdes, e assim 
vos peço que o escrevaes ao meu António 
Mendes e a Francisco' e a Violante o que atraz 
lhe digo a elles em todas as occasiões esti- 
marei que vos lembreis da minha alma assim 
como eu o fazia em meus trabalhos e todas 
as vossas obrigações tocante a nossa casa a 
meu filho Estevão da Silveira lhe peço que 
busque o irmão de Pêro Lopes e lhe peça 
muito e lhe ponha em consciência que é muito 
devoto dos Inglezinhos que me encommende 
a minha alma a Deus que o mesmo fizera 
cu se estivera em liberdade como elle está 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 231 



e assim o confio que o fará e teria cuidado 
d'essa casa pela muita amizade que entre nós 
havia que Ih^o mereço e gozando da vista 
de Deus, como confio, em sua misericórdia, 
eu terei cuidado de me lembrar d'elle e de 
todos os mais. 

As advertências que acho para descargo 
da minha consciência são as seguintes: a 
Jaques, mercador, lhe devo^, conforme me 
parece, 9 000 rs. de 2 pagas da sobreloja em 
que vivia, ou o que elle por sua verdade 
disser; também lhe devo mais 5 ou 6 tostões 
que lhe pedi para dar a um pobre; se não 
os tiver assentado dê-se-lhe satisfacção com 
o demais. Não acho que deva mais para des- 
carregar minha consciência isto encommendo 
três bulias de composição para ir mais satis- 
feito; se for vivo Pedro Gomes não deixepi 
de lhe fazer bem, dando-lhe oito ou dez tostões 
cada mez e um vestido cada anno, suas cami- 
sas e meias e sapatos e lhe paguem as casas 
em que viver por amor de Deus. 

O Vigário da Lourinhã, que se chama F. 
Garcês Freire, me deve 250.000 rs. e custas, 
o que a sentença disser, a qual divida me deve 
da igreja em que está, das bulias que lhe 
mandei vir de Roma que me não pagou, de 
que é escrivão dos vigários F. Pinto que mora 
a N. Senhora dos Martyres, cunhado do surdo 
o dito vigário me pagava cada anno 20 000 rs.. 
Natal e S. João 10.000 rs. em cada paga e 
devia-me 2 pagas antes que me prendessem 
e o irmão de Álvaro da Costa, mercador, me 
disse 2 dias antes que me prendessem que 
tinha 20 000 para me dar por conta do dito 
vigário se é que os não deu deve de 



232 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



meus trabalhos e o mais que por deante vae 
correndo até dar satisfacção por inteiro e não 
satisfazendo tudo o podem mandar exconimun* 
gar na conformidade da sentença e não pagava 
mais que os ditos 20 000 rs. cada anno porque 
tinha grande pensão e o havia mister se achar 
por meus escriptos de recibos lhe levarão em 
conta quando lhe deram quitação. 

Ambrósio d^Aguiar, que Deus tem, era 
muito pontual e por isso lhe emprestei 2 000 
cruzados em que entrou um cavallo, que me 
tinha custado 80.000 rs. naquelle mês,, que o 
havia comprado Ih^o dei logo por 60.000 rs. 
ainda menos do que me havia custado, cobre- 
se de seu marido, porque ella tornou a casar, 
de que está uma escriptura sua no escriptorio 
dos meus papeis e faça-se-lhe embargo nas 
casas dos Remolares para se irem pagando, 
quando não puder ser menos. A condessa do 
Sabugal me deve 600.000 rs.,. que lhos dei ha 6 
annos a razão de juro, de que tenho escripto 
seu e, antes que me prendessem, me deu con- 
signação nas lojas das suas casas da R. Nova, 
cuido que cobrei 100 000 rs. ou o que na ver- 
dade se achar por meus recibos o mais se 
cobre d^ella os créditos que os pagar com 
o primor com que Ih^os dei. Na R. da Moira- 
ria morava um alfaiate á entrada da nossa 
porta empenhou uma salva pequena em 4 000 rs. 
e nella estão outros penhores de um homem que 
nos podava as pereiras e estão em 4 000 rs., con- 
forme minha lembrança, os penhores dirá os 
que são em sua consciência pouco mais valiam 
do que lhe emprestei; também está um ces- 
tinho de prata empenhado em 8 000 rs., vieram- 
no buscar eu disse que o buscaria, se o vierem 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 233 



buscar deem-lho; também estão umas galhe- 
tas com seu pratinho, tudo de prata, empe- 
nhado em 10 000 rs. que M.a Ayres, mercador 
de pannos, sabe de quem são, pedindo-as lh'as 
dêem. Ahi estão muitos penhores de diversas 
pessoas de colheres e garfos e copos e anneis 
que todos, conforme minha lembrança, nelles 
está assentado o que devem, assim nas casas 
da Mouraria, mas empenharam, como na loja, 
vindo-se buscar se dêem que não quero levar 
esse encargo, basta-me o encargo dos meus 
peccados. Uma visinha forgideira da Mouraria 
tem empenhado ama anágua de baixo em 1 800 
rs. ou o que ella disser; vindo-a tirar, deem- 
Iha. Na enxara dos Cavalleiros, quando fui 
ver minha irmã, antes que me prendessem, vi 
tantos pobres que lhe tiz o que pude que me 
cortaram o coração assim vos peço, minha 
companheira, que todos os annos, emquanto 
viverdes, lhe deis 2 moios de mistura ou 
centeio, ou milho, tudo repartido pelos mais 
pobres da dita villa a 4 alqueires cada um, 
conforme os filhos que tiverem, avantajando 
a mãe de Felonia, a Paula de Bellas, filha 
do ferrador, e a suas filhas lhe acudam todos 
os mezes com suas amassaduras de pão e 
dinheiro e são muito pobres para que todos 
me encommendem a minha alma a Deus. As 
esmolas que se fizerem na Enxara seja pelo 
mez do Natal que é o maior aperto que elles 
teem e isto repartirá meu cunhado Simão Vaz 
ou minha irmã, se forem vivos e por vossa 
mercê deixareis isto encarregado a quem vos 
parecer para que me encommendem a Deus 
para que me perdoe meus peccados. Com a 
Duro confeiteiro tenho contas largas, ella me 



234 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 

deve e eu lhe devo, façam-se contas quem 
dever que pague e havendo algumas dividas 
que eu deva que me não lembrem a todas se 
dê satisfacção sem contenda de justiça que 
assim é a minha derradeira vontade. 

Minha senhora e companheira, peço-vos 
muito que a meu companheiro, que foi nestes 
cárceres, que lhe tenho muitas obrigações, o 
agasalhem no escriptorio de Gregório, com 
muito amor porque não é doesta terra nem tem 
ninguém nella, que eu fazia conta, se tivesse 
liberdade, leva-lo comigo e se lhe faça logo 
um vestido mt.o bom do que elle quizér, ou 
se lhe dê o dinheiro bastante para tudo o que 
lhe fôr necessário, e cama e de comer bastaiite 
e o mais que lhe fôr necessário e jubão de 
seda e toda a roupa branca que lhe fôr neces- 
sário e lenços e tudo o mais se lhe dê melhor 
do que a mim, porquê assim é minha derra- 
deira vontade. É coisa que serve para essa 
casa e de muita utilidade por ser muito nobre 
como o tempo demonstrará sobre isto não 
tenho mais que vos dizer porque nada lhe 
falte pois é forasteiro e não tenho em minha 
presença que lhe deixe, ou lhe dêem logo 
20 000 rs. para que elle faça o vestido a seu 
gosto dando-se-Ihe tudo o mais que acima digo, 
não lhe faltando nada. Muito vos avisará, mas 
estou tão aflicto que não me dá o tempo 
logar a mais. Adeus que vos guarde a todos 
e vos dê paciência e a minha benção que vos 
guarde a todos e a de Deus primeiramente. 

Deste vosso desgraçado afrigido 

Frc.o Guotnes Enriques. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



235 




Um cotidenado á morte pela Inquisição. Diz 
a legenda do sambenito: Por hereje negativo 
nierccco queimado. Do livro já citado Cérénio- 
nies etc. Encontra-se, sem a legenda, na His- 
toria das inquisições, impressa em 1821. 



236 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Foi ao auto de 11 de outubro de 1654 
servir de pasto á fogueira e á sanha ínqui- 
sitoriaes. 

Ainda avistou o Tejo indif rente, pois a 
ceremonia lúgubre realisoU-se no Terreiro do 
Paço, mas já não teve noticias do patacho que á 
índia, para servir EÍ-Rei, em cuja proteção, 
como tantos outros, baldadamente confiara! 

GREGÓRIO GOMES HENRIQUES. - COM ELE 

FOI A INQUISIÇÃO MENOS FEROZ QUE 

COM O PAE. — APEZAR D'ISSO FOI 

ATORMENTADO E DEGRADADO. 

Preso, como vimos, em 4 de outubro de 
1651, era, além de sócio de seu pae, agente 
de negócios que em Roma se tratavam, como 
dispensas do casamento etc. Dando larga conta 
dos seus negócios e haveres declarou, em 2 
de novembro de 1651, que Jeronymo Gomes 
Pessoa lhe devia 2:800S000 rs. das memorias 
das bulas de Roma; em 28 disse que Manoel 
Pedro, mercador alemão, lhe devia um barril 
de breu, assim como sete peças de artilharia 
de ferro. Brites Golias Franca lhe empenhou 
uma meiada de dezanove voltas de aljôfar com 
dois afogadôres, chamados braceletes, do mesmo 
e um cavalinho com jaezes d^ouro por vinte 
mil réis. Ao dr. Diogo Lobo Pereira, do Con- 
selho Ultramarino, emprestou cem mil réis, 
empenhando-lhe ele as seguintes peças de 
prata: um prato de aguas más; sete pratos 
pequenos; um saleiro; um castiçal; três palan- 
ganas, uma grande com bicos e duas pequenas 
sem eles, com as armas dos Lobos douradas 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 237 

no meio. Como o Réu precisasse de dinheiro 
empenhou estas peças, algumas ao irmão do 
Correio Mór, Duarte Gomes da Matta e outras 
a Sebastião Nunes Collares, familiar do 
Santo Oficio. 

Em 2 de agosto de 1652 declarou que, 
por causa do extravio de uma caixeta de telas 
dirigidas a El-Rei, se obrigou a pagar 400 
patacas em ser, mas como, por prova teste- 
munhal, se demonstrou ter sido o seu extravio 
na alfandega S. M., houve por bem que se 
não pagasse. O tal escripto entregou-o a An- 
tónio Cavide. Declarou mais que, por sua or- 
dem, se fez em Roma uma obrigação ban- 
caria de 100 escudos de ouro de camará nova 
isto é 106 escudos, e 2/3 de ouro das estam- 
pas por 6 annos, que o abbade de Guide, 
António Antunes de Paiva, se lhe obrigou a 
pagar. — Declarou ainda que possuia uns bra- 
celetes de pérolas dados por Estevão da Sil- 
veira Rosa, seu cunhado, os quaes estavam ou 
em poder de Duarte Gomes da Matta ou 'de 
pessoa conhecida do notário apostólico Manoel 
Alvares Palma encarregado de os empenhar 
por 2.000 cruzados. Disse que, dos últimos 
1.000 cruzados, com que acudiu á Junta por 
empréstimo, recebeu escripto de Diogo da Sil- 
veira, thesioureiro: geral d^ella. Disse que a D. An- 
tónia da Cunha e Menezes, recolhida no mos- 
teiro de Sant'Anna, dava 16 mil e tantos; réis 
por mez. 

Em 16 de janeiro de 1653 foi despachado 
um requerimento de D. Marianna de Noronha 
e! Castro pedindo para ser citado o réu para 
a habilitação da supplicante, como herdeira de 
D. Francisco de Castro, seu irmão. 



238 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Em 30 de janeiro de 1653 foi interro- 
gado sobre as suas contas com Ignacio de 
Sousa declarando que lhe passou 2 lettras uma 
sobre o deão de Braga, D. Ignacio Pouzado de 
Brito e outra sobre Simão Alvares, quartanario 
da mesma sé. 

Em 1 de março de 1653 foi interrogado 
sobre o caso de Jorge Breton, inglês, que 
queria cobrar do réu o valor de um navio, N. 
Senhora das Mercês, que tinha simulado ven- 
der-lhe para ò livrar do sequestro geral, man- 
dado fazer nos bens dos inglezes. Gregório Go- 
mes Henriques declarou que comprou o navio 
por 600.000 réis,; dinheiro pago, assim como pa- 
gou a competente sisa e, como fosse denunciado 
o caso, houve uma sentença favorável ao réu. 

Em 23 de abril declarou ter contas com 
o Pe. Mestre, Fr. André Telles, por lhe ter ven- 
dido 4 caixas de assucar branco, tendo elle de 
lhe tratar certo negocio em Roma, por inter- 
médio do irmão, monsenhor Mendes Hen- 
riques. 

Em 5 de maio de 1655 dedarou o réu que 
estava lembrado ter mandado vir de Roma 
um breve de absolvição para o Dr. Frandsoo de 
Leiria Monteiro. Este porém dizia que era uma 
dispensa p.a casar com sua prima D. Sebas- 
tiana da Cunha. 

O Dr. Belchior de Brito e Robles, abbade 
de Silva Escura, bispado de Vizeu, moveu-lbe 
uma acção por causa de 500.000 rs. que dizia 
o réu dever-lhe. 

E por aqui] fica a estirada lista dos negodos 
dos Gomes Henriques, apre&entando-nos em fla- 
grante a sua fisionomia tão enicyclopédicamente 
mercantil! 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 239 



Acusado de judaisar procurou Gregório 
Gomes Henriques demonstrar as suas boas 
aço es de católico. E assim, na sua defesa, alle- 
gou ter servido na igreja da Conceição a 
Confraria do Sanctissimo, como juiz, mordomo 
e escrivão; na igreja de S. Julião sérvio de 
mordomo da Mesa grande e juiz da irmandade 
e, na igreja de St.» Justa, sérvio de mordomo 
do Sanctissimo. Citou entre outras teste- 
munhas: o secretario Gaspar de Faria Seve- 
rim; o Dr. P.o Fernandes Monteiro; Ant.f> do 
Couto de Castro, sargent'o-mór, morador a Val- 
verde; João da Guerra, escrivão do eivei, no 
Rociio; o capitão Belchior Henriques Soares, 
á Cutelaria; o visconde de Castello Branco, 
D. P.o de Castello Branco; Francisco Bo- 
telho Chacão e seu sobr.o Thòmé Botelho; 
o Dr. Vicente Feio Cabral; o Jesuita, Pe. Mel. 
de Lima; Pe. Ant.o Antunes de Paiva, da 
casa do Bispo, Capellão-Mór; D. Philippa Soa- 
res, mulher do Dr. Fernão Soares Pereira, m-o- 
radora apar de S. Nicoláo; etc. 

O réu ainda allegou em sua defesa que S. 
M. tinha feito mcê. a seu pae dO' foro de fidal- 
goí e ao réu do habito de Christo com 20.000 rs. 
de tença na mesa dos Azeites por terem dado 
um navio, aprestado por sua conta, p.a ir com 
certo aviso á índia, cujos papeis estão em 
poder do secretario Gaspar de Faria Severim. A 
este art/' citou como testemunhas: Pedro Vieira 
da Silva; Gaspar de Faria Severim; o conde de 
Cast.o Brco.; Dr. P.o Fernandes Monteiro; Ruy 
de Moura Telles, vedor da Fazenda; o conde 
camareiro-mór. 

Interrogada a testemunha João da Guerra, 
escrivão do eivei, disse ter sido companheiro 



240 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



do réu no Limoeiro, onde os 2 estiveram presos, 
e vio-o praticar actos de catholico; vio muitois 
religiosos vindos de Roma darem-lhe parabéns 
do logar e auctoridade do irmão em Roma. 

Nas suas contraditas o Réu fallou nas 
inimizades de: Francisco de Faria, almotacé- 
mór, a quem executou por lhe não querer 
pagar 250 000 rs.; o cónego Pedro de Tavares 
de Távora, também por o ter demandado por 
11212:000 rs. que lelle lhe d-evia das custas 
das bulias da sua conezia; Paulo Nunes, 
escrivão da alfandega, por o ter arguido de 
perjuro; e Pe'. Fr. iManoel Moniz da Silva, 
religioso da Sanctissima Trindade, porque o 
demandou p.a elle pagar uns breves que 
mandou vir de Roma; Pedro Lopes Pardo, 
que foi contractador de bacalhau, porque, bri- 
gando na R;. Nova com o pae do réu, eiste 
puchou da espada e lhe deu cutiladas; António 
Serrão, boticário, morador na rua dos Escudei- 
ros (deve ser o poeta dos Ratos da Inquisi- 
ção), porque brigaram com elle na R. Nova por 
causa de um vaso de tr^ga que o filho de Ál- 
varo Gomes Bravo, tinha para vender-; Bento da 
Gosta,, por terem brigado por causa de umas le- 
tras, Manoel da Silva e Estevão da Silva, merca- 
dores de seda, porque tiveram uma briga; Fer- 
não Martins, mercador, morador á Sé, porque 
entrou numa briga, por causa de Jorge Dias 
Brandão, em que foi morto o seu cunhado 
(do Fernão) Francisco Ribeiro; o corretor 
António Pereira Viveiros, com quem tinha de- 
mandas, por causa da fazenda de Duarte da 
Silva; João Duarte, contractador que foi do 
tabaco, porque mandou executar um seu sobr.o, 
por causa de um pouco de tabaco que lhe ti- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 241 



nha dado de contrato; João Lopes Serra, 
porque o executou por causa de 2.500 crur 
zados; Francisco Carlos por suspeitar que 
rhe galanteava a mulher e por isso brigou o 
réu em casa d'elle com seu cunhado D. Fran-f 
cisco de Mendoça; Sebastião Nunes de Lisboa, 
thesoureiro do direito de comboyo da Comp.» 
Geral, porque lhe fez namoro á mulher ani- 
tes de casar; Manoel da Costa por ter ciumeS' 
do réu; Manoel Ayres Barrosa, mercador de 
pannos, morador na Rua Nova, por lhe fazer 
namoro a uma filha. 

Em l.o de fevereiro de 1656 foi o C.^ Geral 
de parecer que o R. devia ir ao tormento, nelle 
ter um trato esperto, e ser 2.» vez começado 
a levantar. 

Foi com effeito atado perfeitamente e 
começado a levantar subio até á roldana, gri- 
tando e chamando por N. Senhora da Piedade 
e nada confessando. 

Pela sentença final foi mandado ouvir a 
sua sentença na salla do St.o Off.o, com vella 
accesa na mão e degradado por 4 annos para 
Africa. Foi publicada a 28 de fevro. de 1656 
na salla da Inquisição de Lisboa. 

Em 25 de abril de 1656 foi--lhe concedido 
mais um mês, além dos dois, que lhe tinham: 
já concedido para se curar e isto em a attenção 
a um requerimento em que allegava não ter 
podido ainda tratar da sua cura porque o 
remédio conveniente p.a seu braço são dego- 
ladouros e mostos. 

Em 11 de maio de 1656 foi despachado 
outro requerimento em que pedio a comutação 
do degredo para um dos logares das fronteiras, 
foi irideferido, mas elle, allegando falta de emi- 

16 



242 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



barcação, não foi,. Em 23 de mai'0 de 1656 foi 
novamente mandado embarcar, em vista d^um re- 
querirhento em que pedia mais 2 mezes de dila^ 
ção!. Em 30 de maio de 1656 novamente foi 
mandado embarcar, em vista de outro requerir 
mento em que insistia pela commutaçao do de- 
gredo. 

Por isso, em 10 de junho, apresentou- 
se em Faro, afim de ir p.a Tanger cumprir 
a sua sentença". A 14 doesse mês porém par^ 
tio uma perna, cahindo por uma escada abai^ 
xo e, allegando isso, novamente pedio com- 
mutaçao de sentença. Os inquisidores porém 
deram-lhe parecer desfavorável em 18 de 
julho. Em 30 de agosto de 1656 finalmente 
foi-lhe perdoado o degredo para Africa, pa- 
gando cem cruzados para as despezas do Santo 
Officio.. 

Na verdade cinco anos de atroz martírio 
eram mais que suficientes como reâençao das 
suas faltas (i).. 



NO ROMANCE A CAVEIRA DA MARTYR: É JUS- 
TIÇADO RUY DE PINA. 

No comovente romance de Camillo A 
Caveira da Martyr encontrámos larga referen- 
cia a dois condenados pela Inquisição: Jorge 
Mendes Nobre e Ruy de Pina, dos Pinas, de 
Montemór-o-Nôvo. 



(}) Processo n.o 1.309 da Inquisição de Lisboa. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 243 



Este deu entrada no cárcere da inquisição 
de Coimbra a 5 de junho â^ 1623 (i), acusado 
de judaísmo e, em especial, por se ter achado 
num logar onde se levantou hum altar, com 
certas velas acesas e com um livro de certa 
confraria que tinha em uma folha uma pin- 
tura de um frade de certa religião ardendo 
em fogo o qual morreu queimado. 

É a confraria aludida no primeiro volume 
doestes Eplsodsos, ao tratarmos do processoi do 
canonista, doutor Antomo Homem. 

Tinha quarenta e oito anos de edáde á 
data da prisão e era meio christão novo e 
moço fidalgo da casa Real. Natural e morador 
em Monte-mór^o-nôvo, vivendo algum tempo 
na sua quinta chamada o Vi^dual, foram seus 
pães Álvaro de Pina Cardoso, christão velho, 
e Andreza d^Andrade, christã nova. Avós pater- 
nos: Ruy de Pina, christão velho e Maria Car- 
dosa, também christã velha. Avós maternos: 
Paulo Roiz e Grácia de Andrade, christãos 
novos. Todos moradores em Montemor. 

Casado com Luiza Gomes também gemeur 
do nos cárceres inquisitoriaes, d^ela tinha 
cinco filhos, o mais velho dos quaes de 11 
anos de edade. Batisado na igreja de S. Mar- 
tinho de Montemór~o-velho, foi Ruy de Pina 
para Ceuta com o duque de Caminha e mar- 
quês de Vila Real onde esteve sete anos e 
onde casou pela primeira vez com uma tal 
D. Ignês de quem, segundo parece, não logrou 
descendência. 



(1) Inquisição de Coimbra, proc. n.o 1.823. 



244 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Era Ruy de Pina pessoa abastada. Em 8 
de julho declarou que, em dinheiro, tinha três 
moedas d'ouro de quatro cruzados; um púcaro 
e uma salva de prata; colheres e garfos de 
prata e quatro facas com os seus cabos tam- 
bém de prata; três panos d^armar d^arrás que 
custaram 80:000 rs.; muita roupa; três pipas 
de vinho; setenta alqueires de azeite; quatro 
moios de trigo; seis ou sete moios de milho; 
um cavalo do valor de vinte cruzados; uma 
mula e uma égua; uma azenha; duas geiras 
de terra; quatro aguilhadas no Amieiro; oito 
aguilhadas no Trevo; cinco aguilhadas á barca 
de Verride; e mais doze aguilhadas em vários 
sitios; casas em Montemor, vinhas e uma 
capela cuja administração arrendava. 

Mas contra êle os depoimentos foram em 
grande numero e de peso: Clara de Faria, 
sua sobrinha; Francisco de Pina Perestrêlo, 
primo co-irmão do seu pae; Baltasar de Pina 
da Fonseca, seu tio; o pe. Baltasar de Pina 
Cardoso, seu primo co-irmão; D. Antónia, sua 
prima co-irmã; D. Joana, sua sobrinha; João 
d^Andrade e D. Sebastiana, seus primos; 
Andrésa Lopes e Margarida de Andrade, suas 
tias; Maria de Faria, sua prima; Manoel de Sei- 
xas, seu cunhado; António de Oliveira e 
Francisco de Sá também seus parentes, etc. 

Todos á uma o deram como um grande 
judaisante, o que ele a pés firmes negou 
sempre. 

Debalde pois alegou os seus actos de 
christão; dar muitas esmolas; prestar serviços 
como provedor da misericórdia; servir a con- 
fraria do Santíssimo Sacramento; mandar doi- 
rar o sacrário do Santíssimo. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 245 



Assim lhe notificaram a sua condenaçião 
á morte : 



«Aos dous dias do mez de Maio de 1625 
annos em Coimbra nos cárceres do Santo Offi- 
cio de mandado dos senhores inquisidores fui 
eu notário á porta da quarta casa do corre- 
dor atrás onde estava prezo Rui de Pina 
meo christam novo conthendo nestes autos e 
estando a porta da ditta casa lhe notifiquei 
que estava entregue á Justiça secullar por suas 
culpas pello que dispozesse de sua alma e 
do que lhe convinha para salvação délla e 
se encomendasse a Christo nosso Sor. 
pedindo-lhe o encaminhasse e iluminasse no 
caminho da verdade e da salvação de sua 
alma e atentasse a segueira que em seu inten- 
dimento tinha e logo o citei e ouve por citado 
pêra hir ouvir sua sentença no auto publico 
da fee que se avia de fazer na praça desta 
cidade Domingo 4 dias do presente mes de 
Maio a qual notificação lhe fis presente o 
alcaide dos cárceres Miguel de Torres Ferreira 
e dos guardas dos dittos cárceres e o reictor 
dos carmelitas descalços que logo ficou com 
elle pêra lhe tratar as couzas necessárias pêra 
sua salvação e lhe forão logo atadas as mãos 
pêra mayor seu desemgano. António Monteiro 
notário do Santo Officio o escrevi». — 

Foi pois relaxado á justiça secular que 
com a costumada benevolência se houve com 
ele, queimando-o. 



246 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



DO ROMANCE A CAVEIRA DA MARTYR: JORGE 

MENDES NOBRE: DOIS HOMONYMOS, 

TIO E SOBRINHO. - COMO, PARA DIS- 

TRAÇÃO, SE SUPLICA UM LIVRO DE 

DIREITO. 



A 7 de novembro de 1660 deu entrada no 
cárcere inquisitorial de Lisboa o advogado 
Jorge Mendes Nobre (^). Formado em leis na 
Universidade de Salamanca, frequentou Coim- 
bra durante dois anos, d^onde veio, já senhor 
do Digesto e das Pandectas e enfronhado nas 
Ordenações, advogar em Trancoso e depois 
na Guarda. Tinha sessenta e dois anos de 
edade e tinham sido seus progenitores Diogo 
Rodrigues Nobre e Guiomar Nunes, da Guarda. 

Apezar da eleição o favorecer com o cargo 
de mordomo do bem-aventurado Santo Antó- 
nio; apezar de ser irmão e confrade do serviço 
dos nobres da Santa Casa da Misericórdia de 
Trancoso, ocupações pias e devotas, contra êle 
se levantava a tremenda acusação de judaisante. 

Nos intervalos dos manuseamentos dos 
feitos orfanológicos de Trancoso, antes de 
apresentar o libelo ou a contrariedade numa 
ação, se pensava dirigir-se á divindade, fazia-o 
ao Deus pregado por Moysés e não ao Deus 
preconisado por Jesus Christo. 

Muitas foram as pessoas que o delataram: 
Miguel Gomes Henriques, advogado em Tran- 
coso — o oficial do mesmo oficio! — ; Simão 

(^) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 5.323. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 247 



Rodrigues Ayres; Jorge Nunes da Costa, ban- 
queiro da Guarda; Gaspar Soares, cereeiro, de 
Trancoso; Francisco Mendes Paredes, curtidôr 
da Guarda; Jorge Rodrigues Monsanto, curti- 
dôr da Guarda; Ld.o Manoel Mendes Nobre, 
seu filho, também advogado na Guarda; Isa- 
bel Nunes, sua mulher; suas filhas Josefa 
Maria e Luiza Nunes; Brites Mendes Chacão, 
seu filho Henrique Jorge e outros. 

Durante anos se arrastavam de ordi- 
nário os processos da Inquisição. A ma- 
quina do Santo Oficio era demasiadamente 
grave para acelerar a execução do cumprimento 
da justiça e d^a^lii vinha os pobres culpados 
suportarem a custo aqueles dias tão longos que 
lhes pareciam mêzes, aqueles mêzes tão lon- 
gos que lhes pareciam anos. 

Isso aconteceu ao pobre Jorge Mendes 
Nobre. 

Implorou por isso a graça do empréstimo 
de um livro de Direito para se distrahir. 

Com efeito os inquisidores da primeira 
instancia participavam : 

«Jorge Mendes Nobre, christão novo, advo- 
gado da cidade da Guarda, está preso nos cár- 
ceres desta Inquisiçam por culpas de judaísmo 
que não tem confessado, he homem velho e 
melanconico, tem pedido por varias vezes nesta 
meza lhe queirão dar hum livro de direito p.a 
poder ter e ler no cárcere, não lhe podemos 
deferir a este requerimento sem liç.a de V. S. 
a quem damos delle conta p.» que seja servido 
ordenar o que mais convier. Lx.a em meza 27 
de jan.o de 1662». 

A esta participação dos inquisidores respon»- 
deu o C.o Gal. 



248 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



«Os inquisidores poderão dar ao suplicante 
o livro que lhes parecer». 

Negou sempre Jorge Mendes Nobre as 
suas culpas até que, em 14 de março de 1664, 
como persistisse na negativa, mandaramrno ir 
a tormento e, não se executando este despacho, 
novamente foi mandado ir a tormento a 17 de 
junho de 1664. Não se executou porém por ter 
começado a confessar as suas culpas e de 
todos os seus cúmplices. 

Por isso foi o Réu somente condenado a 
ir ao auto da fé ouvir ler a sua sentença, 
com cárcere e habito penitencial perpetuo. Foi 
publicada a sentença no auto celebrado no 
Terreiro do Paço num Domingo, 4 de abril 
de 1666, 

O protagonista da Caveira da Martyr é 
porém outro. 

Um sobrinho do mesmo nome e egual- 
mente advogado. 

Foi mandado prender, com sequestro de 
bens, a 23 de agosto de 1703 (i). 

Mais solto da língua que o tio, começou a 
confessar as suas culpas logo a 25 de agos- 
to de 1703. Declarou ser advogado, casa- 
do com D. Mariana de Mendonça, de Tran- 
coso e ter 35 anos de edade. Haverá 18 
anos, achou-se em Abrantes, em casa de seu 
tio paterno, Henrique Jorge Nobre, homem de 
negocio, solteiro, filho de Jorge Mendes Nobre, 
advogado e condenado pela inquisição, christão 
novo e de Isabel Nunes,; natural da Guarda, seu 
tio o convidou a seguir a lei de Moysés, o que! 
fez. Acusou todas as pessoas com as quaes tinha 

{}) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 8.279. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 249 

judaisado em successivas audiências, sem instan- 
cia de maior. 

Era filho de Manoel Mendes Nobre, advo- 
gado da Guarda, e de Jacinta Mendes da 
Costa; neto paterno de Jorge Mendes Nobre, 
natural da Guarda e ouvidor da vila de Fer- 
reira; avós maternos, o conde de Mesquitéla, 
D. Rodrigo da Costa e D. Catarina Cabral. 

Foi condenado a ir ao auto publico da 
fé e ahi ouvir ler a sua sentença, tendo cár- 
cere e habito penitencial a arbítrio. Foi com 
efeito ao auto de 1703. 

Em 1706 veio confessar que não sabe se 
sua mãe era filha do conde de Mesquitéla 
se de Diogo Mendes Sola, christão novo. 

Confrontem agora este extracto do pro- 
cesso com o que Camilo diz a paginas 15 da 
segunda edição da Caveira da Martyr, que 
temos presente. 

Ahi se afirma que o alcaide recebeu o 
mandado de prisão^ que se cumprio no mez 
de fevereiro de 1701.. Pura fantasia, como 
vimos ! 

A paginas 16: O preso orçava então 
pelos quarenta anos; com efeito, vimo-lo de 
trinta e cinco. 

De trinta e cinco anos e a querer enfei- 
tar-se, como o graculus da fabula, com a 
ascendência aristocrática, embora adulterina, 
dum conde de Mesquitéla. 

Um poeta anónimo do tempo fustigou-o 
nas decimas publicadas por Camilo: 



Jorge Mendes ! espantado 

Se mostra o mundo ao presente 

Sahires réo delinquente 



250 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Sendo tão grande advogado. 
Porém que muito que errado 
Andasses nas letras, se 
O mais cândido da fé 
Denegriste com borrões, 
Ignorante das lições 
Do catholico A-b-c? 



o TORMENTO 



SEGUNDO OS CÓDIGOS INQUISÍTORIAES 



EIS uma palavra só de per si suficiente 
para nos horrorisar! O tormento! A 
casa dos tormentos 1... 

Aos nossos piedosos olhos de sentimen- 
taes o potro e a polé eram já bem duro 
castigo para quem prevaricasse, quanto mais 
para inocentes. Não se pensava porém assim 
na Inquisição; e quer a jurisprudência ecle- 
siástica, quer a jurisprudência civil, encara- 
vam-no apenas como um meio de prova, aliás 
bem falivel. Tanto que quem confessasse 
durante o tormento deveria depois ratificar 
a sua confissão. 

O primitivo Regimento inquisitorial de 
1552, inédito que publicámos e estudámos (i), 
nio seu artigo 46, não só permitia, como até 



(1) Á Inquisição em Portugal e no Brazil, in 
Arquivo Histórico Português. 



252 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



ordenava, esse meio de prova. E já por 1541 
o inquisidor Jorge Rodrigues consultava o 
Inquisidor Geral sobre a aplicação da tortura. 

Não sabia ele se directamente a haveria 
de aplicar, se devia remeter os culpados a 
S. A. ao que D. Henrique respondeu d^uma 
forma bastante vaga que sentenciasse o que 
fosse de justiça e que chamasse para a ela 
assistir o Ordinário, ou o seu representante, 
segundo a disposição da bula e do Direito. 

O tormento podia ser aplicado uma vez 
só se o réo durante ele confessasse a sua 
culpa e ratificasse a sua confissão até o 
terceiro dia depois, sendo então despachado 
como confitente (art.o 46 do Regimento de 
1552). No caso porém de negar a culpa 
depois de a ter confessado no tormento 
podiam-lho repetir (artigo 46) (2). 

O Regimento de 1613 ocupa-se do tor- 
mento no artigo 47 e seguintes. M,anda-o 
executar como até então se fazia, podendo 
Oi Ordinário assistir,, ou o seu representante 
e chega no artigo 52 a determinar tormento 
ao réo relaxado para mais testemunhar, de- 
vendo-se-lhe fazer sentir que ele he atormen- 
tado como testemunha e não como parte. 

No Regimento de 1640 intitula-se o titulo 
XIV: De como se ha de proceder com os réos 
que ouverem de ser postos a tormento e na 
execução d'êle. Além dos preceitos de ordem 
jurídica dos Regimentos anteriores só encon- 
tramos o seguinte § 6 que nos elucida, em- 



(1) Vide os meus estudos sobre Inquisição no 
A. Histórico Português, V, 207. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 253 

bora muito vagamente acerca do que se pas- 
sava na casa dos tormentos: 

«O tormento será ordinariamente de polé; 
e quando o medico e cirurgião entenderem 
que os homens por fraqueza ou indisposição 
o não poderão sofrer de polé, lhe será dado 
no potro, aonde logo será levado; porém ás 
mulheres se não dará nunca no potro pelo 
muito que se deve atentar por sua honesti- 
dade e em caso que não possam ter nenhum 
tormento de polé, nem haja logar para se 
dissimular com ele, os inquisidores darão 
conta ao Conselho, para ahi se determinar o 
que for justiça. Sendo necessário dar trato 
esperto nos quinze dias antes do auto, por 
não hirem os presos a elle, mostrando os 
sinaes do tormento, lho darão no potro e 
na sessão que se fizer na casa do tormento, 
farão os inquisidores sempre declarar a razão 
que ouve para se dar no potro, e não na 
polé; e em todas as sessões se dirá a hora 
em que começou e acabou o tormenta . . . 

No Regimento pombalino do Santo Ofi- 
cio, datado de 1774, encontra-se também o 
titulo III que se ocupa dos tormentos. Porém 
estatue expressamente no § 1.° que não deve 
haver no Santo Offício este modo de averi- 
guar delidos e a tenção com que se co- 
metem. 

Em todo o caso o § 3.o exceptua os réos 
heresiarchas ou dogmaiistas que tiverem dis- 
seminado erros e feito sequazes d^eles; se os 
não confessarem e as pessoas que com eles 
contaminaram. 

Até aqui os preceitos legaes; agora a sua 
execução. 



254 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



COMO SE EXECUTAVA O TORMENTO - PREPA- 
RATIVOS — EQUIVALÊNCIAS DO POTRO 
Á POLÉ - REGRAS SECRETAS A QUE 
OBEDECIAM OS INQUISIDORES — O 
QUE ERA LEVANTAR ATÉ O LOCAR 
DO LIBELO, DAR UM TRATO ESPERTO 
E CORRIDO 



Quem compulsa os processos inquisito- 
riaes tão cheios de minúcias em todos os 
seus incidentes, tem grande desilusão ao 
chegar aos termos do tormento. Nada mais 
lacónico, mais frio, mais hirto, mais glacial. 

O notário entrincheira-se na formula con- 
sagrada e pouco mais. D'ahi a nossa inten- 
sissima curiosidade de saber o que ordinaria- 
mente se passava na sinistra casa que bem 
forte devia ser para se não abalar com os 
gritos lancinantes das victimas. 

Vejamos os preparativos usados na inqui- 
sição de Lisboa segundo um apontamento de 
inquisidor seiscentista: 



ENTRANDO-SE EM TORMENTO 
EM LISBOA 



Seis dias antes se dá recado ao alcaide 
que veja se falta alguma correia ou cordel e 
se o calabre está são e que lhe ponha um 
peso e o solte como que houvesse trato e 
deixe estar até um dia antes do primeiro 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



255 



tormento; mandar recado por um solicitador 
a um corregedor crime que nos dê minis- 
tro etc. 




b 



Os tormentos segundo uma gravura das cé re- 
mo nies et ccutLim.es. Apezar de não ser rigo- 
rosamente histórica vê-se um condenado á polé, 
outro ao potro e outro a suplicio que não 
supomos ser da Inquisição. 



Um dia antes de se entrar no tormento 
mandar com a licença do corregedor do crime 
buscar o ministro e estando preso traga-o um 
solicitador com dois homens do meirinho de 
noite aos cárceres e ahi fica e está como em 
prisão emquanto o tormento dura e dâ-se-lhe 
de comer e o hece.^ssario ^ custa da Inquisição; 



256 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



em o ministro entrando se lhe mostram os 
apparelhos para ver se estão bons e se falta 
alguma cousa e dá-se-lhe juramento de se- 
gredo de que se faz termo; chamam-se o 
cirurgião e o medico e declaram-se-lhe as 
horas em que hão-de vir (')». 



Feitos os preparativos eis agora os dicta- 
mes a !que tinham de obedecer os inquisidores 
na execução do despacho que mandava ir á 
tortura. Foram escritos decerto como fixação 
de doutrina para inquisidores novatos, ou para 
desfazer duvidas da jurisprudência do Santo 
Oficio. Quem os escreveu mal pensaria que, 
volvidos séculos, se tornaria publico o que 
de sua natureza era tão rodeado de mysterio 
e segredo. 

Aqui vamos, também encontrar a expli- 
cação de expressões absolutamente desconhe- 
cidas como Levantar até o logar do libelo, 
levantar até a roldana, ter um trato esperto 
e ter finalmente um trato corrido. 

Vae-se pois fazer um juizo, não direi tão 
completo quanto quereríamos, mas em todo 
o caso profundamente verídico do que se pas- 
sava dentro da casa das torturas. Ê depois o 
leitor terá a explicação das duas frases, por- 
tuguesissimas de lei, amarrado ao potro da 
ignominia e inflingir tratos de polé. 

Seguem os documentos copiados ipsis 
verbis, mas não ipsis literis: 



(i) Fl. 149, do cod. 1.441 do Santo Oficio, 
na Torre do Tombo, (apontamentos do século XVII) 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 257 



EXECUÇÃO DO TORMENTO 



Conforme o Regimento liv. 2.°, tit. 14, 
§ 6.0 o tormento que se deve dar ordina- 
riamente aos réos no Santo Oficio é o de 
polé. E quando não possa ser por fraqueza e 
indisposição dos réos, com parecer e infor- 
mação dos médicos e cirurgiões iHe será dado 
o de potro. 

O que se entende a respeito dos homens; 
que ás mulheres nunca será dado no potro 
pelo muito que se deve atender por sua 
honestidade, mas em caso que a mulher não 
possa ter tormento algum de poJé, nem haja 
logar para se dissimular com ela se dará 
conta ao Conselho para lá se determinar o 
que for justiça. 

Quando o impedimento que o Réo alega 
para se lhe não dar tormento de polé não 
for patente, ou se não puder ver honesta- 
mente, em duvida, mais seguro será dar cre- 
dito ao Réo e dar-lhe o tormento no potro. 



Como se computa o grão da polé 
com o do potro 

Polé Potro 

1 Ad faciem 1 Assentar no potro 

2 começar a atar 2 atar em 8 partes sem 

3 primeira correia apertar 

4 segunda correia 3 meter os garrochos em 

5 atado perfeitamente quatro partes sem an- 

6 começar a levantar dar a roda 

7 levantar té o lugar 4 meter garrochos em 
do libelo oito partes 

17 



258 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



8 levantar até a roldana 5 começar a apertar em 
Q um trato corrido quatro partes 

10 um trato esperto 6 começar a apertar em 

oito partes 

7 um quarto de volta 
em quatro partes 

8 um quarto de volta 
em oito partes 

9 meia volta em oito 
partes 

10 volta inteira em oito 
partes 



Outro computo da polé 
para potro 

1 A um trato corrido de polé corres- 
ponde no potro 4 ou 5 voltas de cordel nos 
braços posto um sobre outro, assentado o 
Réo no potro. 

2 A um trato esperto de polé corres- 
ponde no potro sete voltas de cordel nos 
braços posto um sobre outro. 

3 A dois tratos espertos de polé cor- 
responde no potro sete voltas de cordel nos 
braços e duas voltas em cada um baixo do 
braço e outras duas nas coxas, posio o colar 
no pescoço e deitado o Réo de costas no 
potro. 

4 A três tratos espertos corresponde 
tudo ao proxime dito com mais duas voltas 
de cordel em cada canela das pernas. 

5 A todo tormento corresponde. Assen- 
tarão o Réo no potro e antes de o deita- 
rem lhe darão nos braços posto um sobre o 
outro nove voltas apertadas com o cordel, e 
sendo assim atado será admoestado que con- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 259 



fesse e não querendo, nesfe passo, se lhe 
lerá o libelo (aonde se costuma ler) e aonde 
não se costuma o deixarão estar assim atado 
por algum tempo admoestando que confesse; 
será logo deitado de costas sobre o potro e 
lhe porão o colar de ferro na garganta e lhe 
darão com o cordel duas voltas em cada baixo 
do braço e outras duas em cada coxa e duas 
em cada canela das pernas, indo-o sempre 
admoestando que confesse. Depois se lhe porá 
o véo na boca com o púcaro de agua na 
boca, sobre o véo para que vá entrando o 
véo na boca com a agua na forma que se 
costuma e isto se fará de modo que não abafe 
a ai^bitrio do medico, cirurgião e inquisidor. 

Em qualquer gráo e estado que estiver 
o tormento se o Réo disser que quer con- 
fessar logo pára o tormento e ahi mesmo 
é ouvido. Em qualquer gráo de tormento que 
o Réo estiver, se o medico e cirurgião dis- 
serem que ele não está para levar mais tor- 
mento será logo tirado d^ele e se dirá no 
termo: que por dizerem o medico e o cirur- 
gião que o Réo não estava em estado para 
poder levar mais tormento os ditos senhores 
o mandarão desatar e levar a seu cárcere, 
etc, .e assinam o medico e cirurgião. 

Quando o Réo leve todo o gráo de tor- 
mento a que foi condemnado se dirá no 
termo e por estar satisfeito o assento da 
mesa etc. (i). 



(1) Códice do Santo Oficio, n.o 1.422, na Tor- 
re do Tombo, fl. 7. 



260 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Grãos do tormento segundo 
é costuWe: 



Primeiro na polé: 

Ad fadem, pondo o réo no banco com 
as mãos postas atrás, imitindo-lhe o calabre 
em' um braço sem mais nada; 

Coimieçar a atar que é atar com a primeira 
correia, semi apertar e logo se lhe faz o pro- 
testo; 

Atar com a primeira correia; 

Atar com a 2.a correia; 

Atar perfeitamente, que é depois de atado 
com toda a correia, ir pegfar no calabre, mas 
não levantar; 

Começar a levantar que é até o primeiro 
sobrado ; 

Levantar até o logar do libelo que é até 
o segundo sobrado; 

Levantar até a roldana, que é até o alto 
e vir descendo á mtão, mansamente; 

Trato corrido, que é depois de chegar ao 
alto vir descendo com pressa, sem largar. 

Primieiro no potro ad fadem ^ 

Lo Despido o Réo se senta e deita no 
potro pondo-lhe a coleira somente ao pescoço; 

2.0 Atar o Réo em quatro partes uma 
corda em cada braço e outra em cada perna, 
fazendo-lhe o protesto logoi; 

3.0 Atar em 8 partes, uma pqr baixo e 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



261 



outra por cima do cotovelo e uma por baixo 
e outra por cima de cada joelho; 

4.0 Meter os arrochos em quatro partes; 

5.0 Meter os arrochos em 8 partes e 
doesta sorte está preparado para se lhe vol- 
tarem; 

6.0 Começar a apertar os arrochos em 
4 partes; 

7.0 Começar a apertar os arrodhos em 
todas as 8 partes; 

8.0 Um quarto de volta nas 4 partes; 

9.0 Um quarto de volta em todas as 
8 partes. 

Polé: 



lO.o 

ll.o 

libelo ; 
12.0 

roldana ; 
13.0 
14.0 

libelo ; 
15.0 
16.0 
17.0 

o libelo; 
18.0 
19.0 
20.O 



Trato corrido e (oomeçadio a levantar; 
Trato corrido e levantado até o 

Trato corrido e levantado até a 

Trato esperto; 

Trato esperto e levantado até o 

Trato esperto e corrido; 

Dois tratos espertos ; 

Dois tratos espertos e levantado até 

Dois tratos espertos e um corrido; 
Três tratos espertos; 
Todo o tormento; 



lO.o (sic) Meia volta em quatro partes; 
ll.o Idem e nas outras 4, depois de um 
quarto, começar a apertar mais nelas; 
12.0 Meia volta em 8 partes; 



262 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



13.0 Uma volta inteira em 8 partes; 

14.0 Volta inteira e mais um quarto de 

volta em todas as 8 partes; 

15.0 Volta e meia em todas as 8 partes; 

16.0 Duas voltas inteiras em todas as 8 
partes ; 

17.0 Duas voltas inteiras e um quarto 

em todas as partes; 

18.0 Duas voltas e meia em todas as 
8 partes; 

19.0 Três voltas inteiras em todas as 8 
partes; 

20.O Tudo quanto se puder apertar em 

todas as 8 partes. 

O Tormento se deve dar de manhã e 
antes das 10 horas, estando o réo em jejum; 
não durará mais de uma hora (i). 

Nem esta ultima recommendação escapou. 
Ensinou-lhes provavelmente a experiência — 
nos outros, bem entendido — que as dores agu- 
das não iam bem com os estômagos cheios!... 

E completamos o capitulo apresentando 
o caso singular do christão novo António Soa- 
res, por ser sinistramente typicx). 

«... E logo na casa e lugar do tormento es- 
tando ahi os senhores inquisidores e sendo o 
réu presente lhe foi dado juramento dos Santos 
Evangelhos em que pôs a mão sob cargo d^ele 
lhe foi mandado que dissesse verdade e lhe foi 
dito que pelo lugar em que estava e instrumen- 



(1) Códice 1.428/fl, 3, da secção o Santo Oficio, 
«a T. do Tombo. 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 263 



tos que nelle via poderia entender qual era a 
diligencia que com ele réu estava mandado fa- 
zer pelo que para a poder escusar o tornam ad- 
moestar com muita caridade da parte de Christo 
N. S. queira cx)nfessar suas culpas para oom isso 
alcançar a misericórdia que nesta mesa se dá 
aos bons e verdadeiros confitentes e por o réu 
dizer que não tinha culpas que confessar foram 
chamados os ministros e o réu despojado de 
seus vestidos e assentado no banquinhòi,, pelos 
senhores inquisidores foi protestado que se elle 
réu no dito tormento morresse,, quebrasse al- 
gum membro ou perdesse algiun sentido a cul- 
pa fosse d'elle Réu e não d'elles senliores in- 
quisidores, ordinário, deputados e mais officiaes 
e ministros do santo officio, pois comi tantoi 
atrevimento se punha a tão grande perigo e 
saúde de sua vida. 

E por os médicos e cirurgião dizerem ven- 
do e apalpando pelas costas ao réu que se quei- 
xava de dor em uma espádua direita de dioença 
que tivera de anos a esta parte, e vendo que 
havia nela alguma lesão disseram que convinha 
dar-se-lhe tormento no potro aonde logo foi pos- 
to e lhe puzeram os cordéis em todas as oito 
partes aonde de novo lhe foi feito' o protesto 
pelo sr. inquisidor na forma acima dita e o ad- 
moestou de novo com muita caridade e por di- 
zer que não tinha culpas que confessar lhe fo- 
ram dando a primeira volta com todas as ditas 
oito partes e o sr. inquisidor o foi admoestando 
que não tinha que confessar, que era christão, 
repetindo esta palavra e dizendo quando o adr 
moestavam mas que morraj, que era cbristão, 
que sobre os senhores inquisidores havia de fi- 
car, que não fizera tal cousa, e sendo admoes- 



264 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



tadoí cx)m caridade que confessasse, disse que 
não queria confessar, que o matassem e caindo 
no que tinha ditoi que não queria confessar tor- 
nou a dizer que não tinha culpas que confessar 
e tornou outra vez a dizer que não queria,, que 
não tinha que confessar e lhe deram siegunda 
volta em todos os cordéis e sendo admoestado 
não disse palavra mais que dar ais, misericórdia 
de Deus me favoreça pois me não crem, ella 
me socorra, Jesus seja com a minha alma, estou 
acabado, dizendo estas palavras em tom como 
que cantava e sendo outra vez admoestado res- 
pondeu: 

— Não me digam nada que hei-de morrer 
péla fé de Christo e logo lhe foram dando a 
terceira volta em todas as oito partes e ele di- 
zendo Misericórdia de Deus me valha, não te- 
nho que co\nfessar, sou christão, não me digam 
nada e logo lhe foram dando' quarta volta e o foh 
ram admoestando com muita caridade sem ele fal- 
lar palavra, nem dar um ai, só que se calasselm 
que era christão e logo lhe foiram dando cinco 
voltas e o tornou o sr. inquisidor a admoestar 
com muita caridade da parte de Christo que 
confessasse respondeu: 

— Sou christão, não me digam mais nada 
e se lhe deu sexta volta e sétima volta sem res- 
ponder cousa nenhuma, sendo os cordéis gros- 
sos quebraram alguns e foi dito pelos médicos 
e cirurgiões que se lhe tinham dado tratos mui- 
to expertos e que até os cordéis delgados que- 
bravam e sendo admoestado com caridade que 
pedisse tempo para cuidar suas culpas respondeu 
que não tinha que confessar,, que era bom chris- 
tão mas que o matassem e que lhe não disses- 
sem mais palavra: 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 265 



— Querem que diga mentira não o hei-de 
fazer. ■ ' ' ' i I [ í 

E por dizerem os cirurgiões e médicos que 
tinha levado todo o tormento que devia levar 
e estar satisfeito do assento mandou o sr. inqui- 
sidor o desatassemi e o levassem a seu cárcere de 
que fis este termoi que ele sr. inquisidor assi- 
nou e eu, notário, António Monteiro, o escrevi. 

Diogo Ozorio de Castro — António Mon- 
teiro — Luiz Alijares da f^ocha.» 

E suporiam estas creaturas de forma hu- 
mana que tinham coração? 



o BANQUEIRO DUARTE DA SILVA 



DURANTE ANOS A INQUISIÇÃO MANOBRA NA 

SOMBRA — PRELIMINARES DA SUA 

PRISÃO 



PRECISAMOS de remontar ao primeiro 
quartel do século XVII e tomar então 
a liberdade de entrar numa casa que 
bem poderemos classificar de remediada,, da então 
villa de Viana da Foz do Lima, para travar 
conhecimento com Brites Henriques (i), pa- 
renta do banqueiro cuja perseguição nos pro- 
pomos narrar. 

Apezar das suas vinte e duas primaveras 
nada de desconfianças, senhoras minhas, pois 
nada sabemos da sua formosura e algíuma 
coisa poderemos dizer entretanto das suas 
desditas. 

Passageiras vão ser as nossas relações, 
rápida é a vista d^olhos que lançamos á sua 
habitação, suficiente comtudo para avistarmos 
o leito de páo, de cortinas de linho, com 

(1) Inquisição de Lisboa, processo n.o 2.122. 



INQUISIÇÃO PORTUGUESA 267 



OS devidos lençoes, cobertores^ travesseiros e 
cabeçaes; suficiente com tudo para repousar- 
mos um pouco nas suas cadeiras de couro... 

Ao canto lá astá a arca encourada, cujo 
recheio nos é vedado; para comer lá tem os 
seus pratos de estanho e se lhe obtivermos 
a confiança poder-nos-ha mostrar desvane- 
cida dois anéis d^ouro com uns grãos dí'al- 
jofar; o seu terço de ooraes, com' uma cruz 
d^ouro, e cinco extremos d'ouro e os seus 
dois relicários pequeninos de cristal com uma 
argolinha também d^ouro em volta. 

Dissemos que passageiras haviam de ser 
as nossas relações e assim é de facto pois 
bate á porta a justiça inquisitorial represen- 
tada pelos seus familiares e ela inexoravel- 
mente a entregará em Lisboa, nos Estáos. 
a 10 de dezembro de 1618. 

Nada mais poderiamos dizer de Brites 
Henriques, agora entregue ao invulnerável 
segredo da Inquisição, se não tivessem esca 
pado á fúria destruidora dos tempos os milha- 
res de processos movidos pelo Santo Oficio, 
em' Portugal. 

Assim poderemos informar os nossos 
leitores de que havia meses fora denunciada 
como judaisante, quer dizer, como praticante 
de actos da religião judaica, por duas criadas 
que tivera e por duas suas irmãs, criadas 
cheias de despeito e irmãs faltas de senti- 
mentos. 

Na verdade a desgraçada, fiada talvez 
no seu Messias, pois no marido não podia 
ser, visto que comerciava lá para o Brazil, 
a desgraçada confessou-se . . . judia. Judia sim, 
d' uma familia de dhristãos novos de Viana; 



268 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



seu pae fora o cirurgião Manoel Esteves e 
entre os seus irmiãos apontaremos o boticá- 
rio Henrique Nunes; Manoel Esteves, casado 
emi Flandres; João Nunes, emig-rado no Perii 
e outros residentes em Viana,, o que bem 
demonstra a dispersão das famílias hebraicas 
nesse tempo. 

Eimi 19 de agosto de 1619 era posta a 
tormiento. Sentada no escabelo, defronte da 
polé, puzeram-lhe os braços atraz, apertaram- 
na COM a correia e dando as voltas ao redor 
Brites Henriques clamava: 

Jesus rn\e valha, valha-me a Virgem Nossa 
Serihom. 

Por fim foi atada de todo com a correia 
e cordel, mas nada adiantou. 

Em face d^isso sentenciaram -na a abju- 
rar publicamente os seus erros e a 'cárcere, 
e habito penitencial perpétuos. Publicada tal 
sentença no auto da fé celebrado na Ribeira, 
a 5 de abril de 1620, dois meses depois era 
modificada, felizmente no sentido benévolo, 
assinando-lhe Lisboa como cárcere e, em 20 
de março de 1621, mandou-lhe o Inquisidor 
Geral tirar o habito de penitencia e pagar 
dez cruzados de pena pecuniária. 

A desgraçada tinha já dois filhos me- 
nores e o marido, que em má hora regressara 
do Brasil, a contas com o terrivel tribunal. 

A pena a que foi sujeita não sérvio de 
lição a Brites Henriques. Não. Passados mais 
de vinte annos, isto é, em 23 de março de 
1644, novamente a vamos ver; a caminho dos 
Estáos, toda cabisbaixa e tremula no seu 
manto já safado e no seu habito de baeta 
velho... E se estivermos todo o dia á es- 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 269 



preita lá veremos também chegar Maria Hen- 
riques, sua filha, mais nova, de doze após, 
bem lacrimosa por sinal, vestida de manto 
velho de tafetá e saia de baeta verde e 
Francisca da Silva, de quinze anos, com a 
sua roupeta de picotilho. 

Escaparam as duas mais velhas por 
ausentes, Joana, em Sevilha e Inês, no 
Porto, amíbas casadas. Senão, ali estariam 
também. 

Brites Henriques era ao tempo já viuva, 
a sua vida cheia de dificuldades, a ponto de 
sem destino ter peregrinado por Castela. Os 
moveis da casa bem denotam a sua pobreza 
franciscana: quatro cadeiras de couro negro 
velhas, decerto não as mesmas que haviamos 
já encontrado; dois tamboretes do mes- 
mo couro; um bufete sem gavetas; um escri- 
tório de páo da índia, sem chaves; um ma- 
fameda da índia destinado a guardar o fato 
e uma caixa pequena em que tinha uma coIcTia 
de caniquim com frocos amarelos, um cober- 
tor de papa usado e um bahú com lençoes 
de linho e estopa. 

Onde paravam' os seus ouros?... 

Escusado é certamente dizer aos leitores 
o motivo da prisão: judaisavam e, com tanta 
pertinácia, que até depois de presas realisa- 
vam; jejuns judaicos ! . . . 

É bem sabido que um dos meios de 
investigação do Santo Oficio era, sem os 
réos saberem, colocarem-nos nuns cárceres 
especiaes em' que continuamente os esbirros 
do tribunal espreitavam os seus minimos actos. 
Esses cárceres tinham a designação de casas 
da vigia. Foi neles que as rés, crentes na 



270 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



fé moysaica, se entregaram a praticas que as 
ajudaram a condemnar. 

Outras vezes as companheiras do cárcere, 
colocadas adrede para infamemente espiona- 
rem, vinham denunciar e foi o que aconteceu 
com Maria Henriques (i). 

Ao lado porém doesta grave falta, punida 
ao tempo pela justiça da Inquisição, havia, 
como tantas vezes sucedia, uma vingança 
pessoal. 

Brites Henriques e suas filhas eram prin- 
cipalmente victimas duma tal Luiza Barrosa, 
creatura que se entregava ao baixo mister de 
alcoviteira, nos intervalos de se pavonear de 
virago, armada de faca e pistola. Vivendo de 
expedientes, a aventureira Luiza Barrosa che- 
gou a organisar um rol ou lista de christãos 
novos aos quaes extorquia dinheiro sob a 
aní^aça de denuncia ao Santo Oficio. Natural 
do termo das Pias,; de perto das Areias, 
filha de um medico chamado Francisco Moniz, 
sabemo-la ora dizendo-se Anastácia da Sil- 
veira, ora Anastácia de Carvalho e até com 
a alcunha da Castelhana; ora engomiadeira, 
ora fazendo atacas, mas sempre creatura capaz 
de tudo como nesta conjuntura bem demon- 
strou. 

Tentara desencaminhar as filhas de Brites 
Henriques e não faltou quem dissesse que o 
tinha conseguido com' Francisca da Silva. 
Como a mãe naturalmente levasse isso a mal 
ahi vem ela aos Estáos descarregar a sua 
consciência . . . 

— Tristes os tempos em que os tribunaes 

{}) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 11.564. 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA ?71 



servem de vingança e instrumento ás insidias, 
aos despeitos e ódios, emfim a todas as pai- 
xões ruins e baixas da Humanidade! — 

Mas se o depoimento de Barrosa não era^ 
na verdade,, digno de grande credito, já o 
mesmo não acontecia, quer €om a tal vigia 
dentro do tribunal quer com as acusações que 
umas ás outras fizeram. As desgraçadas de- 
nunciaram-se reciprocamente! E assim as filhas 
encravaram a mãe. 

Maria Henriques, atormentada em 12 de 
julho de 1667, não teve papas na lingua e, 
entre outros acusou o banqueiro Duarte da 
Silva, seu tio, e respectiva familia. Talvez, 
por isso, emi 10 de julho de 1650, foi publi- 
cada a sentença condem nando-a a cárcere e 
habito perpétuos, mias, onze dias depois, era 
mandada em paz para sua casa. 

Paralelos foram os tramites úo processo 
de Francisca da Silva (i), com ligeiras va- 
riantes potém*. Presas no mesmo dia^ ambas 
confiaram nas companheiras dos cárceres, que 
as denunciaram e ambas, sujeitas á vigilância 
dos esbirros inquisitoriaes, judaisaram. Fran- 
cisca da Silva confessou que lhe ensinaram a 
seguinte oração: 



V^ivo € Eterno Ser 

Que o Céo e a Terra fizestes 

O ser, vida, e valor 

E a mim, sendo pecador, 

Mostrastes vossa verdade 

Sendo nada em vaidade 

Me olhaes e daes favor. 



(^) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 3.098. 



272 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Pois VÓS sois meu Creador 
Que em vós nada posso 
Quanto tenho tudo é vosso 
Não me deixeis, meu Senhor. 



Também confessou que secretamente se 
tinha correspondido no cárcere com Domingos 
de Medeiros, servindo-se para isso da tigela 
do comer e, nao só o fizera por escrito, como 
também improvisando um alfabeto, por meio 
de pancadas na parede . . . 

Gomo porém as suas confissões não fos- 
semi bastantes condemnaram-na fingidamente 
á morte e, depois de lhe ser notificada a 
sentença, acusou Duarte da Silva, o cunhado 
doeste Rodrigo Aires Brandião, etc. Pela sen- 
tença final publicada em 10 de julho de 1650 
foi condemnada a cárcere e habito penitencial 
perpétuos, sem remissão. 

A esse tempo já Brites Henriques expiara 
cruelmente as suas supostas culpas: relaxada 
á justiça secular, foi publicada a sua sentença 
no auto celebrado no terreiro do Paço em 25 
de junho de 1645. Portanto os seus gritos 
fugiram pelo espaço e as suas cinzas infama- 
das foram impiedosamente lançadas ao vento. 



PRIMEIRAS DENUNCIAS DE DUARTE 
PA SILVA 

Antes d^isso, porém', já o nome de Duarte 
da Silva era proferido sob as abobadas dos 
Estáos. í 

Em 6 de dezembro de 1632 apresentou-se 
na Inquisição um meio christão novo chamado 



DA INQUISIÇÃO PORTLJQUESA 273 



Pedro da Silva, natural de Anvers, e disse que^ 
haveria ano e meio, se encontrou com Duarte 
da Silva, morador nos baixos das casas do 
Arcediago, detraz de S. Mamede, e ouvio-lhe 
chamar cães aos padres e christãos velhos e 
cães aos inquisidores, acrescentando que todos 
os ha-de levar o diabo. 

Duarte da Silva cumpria o jejum grande 
e d^ahi o conceito em' que o denunciante o 
tinha de judeu. 

Quatro anos depois, em 19 de maio de 
1636, o preso Luiz de Mello, advogado na 
Relação de Lisboa, vagamente aludio também 
a praticas judaicas de Duarte da Silva. 

Em' 8 de março de 1644 e dois dias depois 
duas testemunhas se apresentaram de ouvido: 
Anastácia de Carvalho, a quem já atraz alu- 
dimos e Maria Ribeiro. A ambas dissera 
Maria Henriques que Duarte da Silva pra- 
ticava actos de judeu. E até, em Goa, o preso 
Baltasar da Veiga disse ter ouvido emi Anvers 
a umi mercador rico que Duarte da Silva era 
judeu. 

A isto acresceu o depoimento de Domin- 
gos de Medeiros (i). Este desgraçado deu 
entrada no cárcere em 31 de janeiro de 1646. 

Denunciara-o o próprio irmão, Manoel 
Castanho, no convento de S. Domingos, de 
Viana, na cela do Padre Fr. Estevão da Luz, 
prior nesse mosteiro e mandado colocar na 
casa de vigia entregou-se a jejuns judaicos! 

Pequenos eram os seus bens, apenas umas 
caixas de assucar mascavado e um vestido de 
barberisco pardo! Foi infeliz com as teste- 

(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 3.099. 



274 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



mlinhas que apresentou, pois, em 2 de setem- 
bro de 1646, avisava o comissário da Inqui- 
sição emi Viana, Manoel Lobo de Mesquita, 
que João Malheiro Reymao não estava na 
vila mas na sua quinta, bem como Agostinho 
Casado na sua quinta de Refoyos. 

Não admira porque se aproximava o 
tempo das vindimas. 

Durante ano e meio se manteve discre- 
tamente sem acusar nenhum correligionário, 
mas em agosto de 1647, condemnadb simu- 
ladamente á morte, acusou a familia de Duarte 
da Silva, se bem que a este já muito antes 
se houvera referido d^uma maneira vaga. 
Ainda poucas eram porém as pessoas que acu- 
sava e por isso, em 6 de julho de 1650, foi 
ao tormento, despojando-o dos vestidos, puze- 
ram-no no banquinho, ataram-no com a se- 
gunda correia, puzeram-lhe o cordel e deram 
as voltas ordinárias até ser atado perfeita- 
mente. Nada porém adeantou e, em vista 
dMsso, foi ao auto da fé de 10 de julho de 
1650 de vela acesa na mão, habito peniten- 
cial com insígnias de fogo e degradaram-no 
cinco íanos para as galés, onde serviria a 
remo, sem soldo e assina ram-lhe cárcere e 
habito penitenciaes perpétuos. Um ano depois 
era-lhe comutada a pena das galés por outro 
tanto tempo de degredo para Angola. 

Taes foram pois as primeiras denuncias 
contra Duarte da Silva (i). Em vista d^elas a 
primeira instancia da Inquisição proferio, em 
4 de junho de 1646, um despacho em que se 
dizia: 

Q) Inquisição de Lisboa, processo n.o 8.132. 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 275 



. . , « E por haver informação extra-judicial 
nesta mesa que o delato estava prestes para 
se emíbarcar para as partes do norte, com 
sua família, e ser já ido para fora do reino 
seu filho mais velho, se devia dar ordem 
doesta mesa a algum ministro da justiça secu- 
lar para prender no Limoeiro ao dito Duarte 
da Silva, sem se entender que é por ordem 
do Santo Oficio e que, isto feito, se ordene 
logo saber-se por sumario judicial se o de- 
lato se quer ausentar, porque, sendo certo, 
são as culpias bastantes para ser preso etc. ». 

No mesmo dia porém o Conselho Geral 
foi de parecer que ks cu^pas não eram ainda 
forma. E por esta vez se escapou, sendo pois 
muito de notar a cautela e prudência com 
que o Conselho Geral do Santo Oficio pre- 
tendia proceder. As razões vamos vê-las em 
breve. 



QUEM ERA DUARTE DA SILVA? 



Teria ao tempio cincoenta e um anos de 
edade e a si mesmo se intitulava homem de 
negocio. D^uma familia de christáos novos de 
Alter do Chão viera fixar-se em Lisboa, depois 
de ter estado, quando solteiro, residindo em' 
Viana da Foz do Lima, durante dbis anos. 
Viajou por Castela e pelo Brasil e assim ga- 
nhou a pratica de comercio em que se tornou 
eximio. É-lhe bemi devida a designação de 
comerciante de grosso trato, largamente rela- 
cionado nas praças estrangeiras. A sua casa 
era um entreposto comercial entre as nossas 



276 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



colónias, especialmente o Brasil e a Europa 
Doi Brasil vinham os carregamentos de assucar 
e tabaco; assucar em caixas e tabaco em 
rolos. De Lisboa eram reexpedidos para as 
praças europeias, pois vemos que Duarte da 
Silva mantinha relações com Roma, Veneza, 
Hamburgo, Holanda, Liorne, Londres, Anvers, 
Ruão, etc. Pela sua casa passavam: fardos 
de seda emi rama, tafetás, sacas de arroz, 
peças de seraphína, peças de bombasina, quin- 
taes de bacalháo, roupas finas da índia, caixas 
de banequins (?) finos, caixas de coral, dia- 
mantes, etc. 

Mas onde m^is se afirmava a importân- 
cia monetária de Duarte da Silva era como 
credor ao estado e em missões ligadas ás 
suas finanças. Era pois a Fazenda Real deve- 
dora a Duarte da Silva de quinze mil cruzados ; 
mais 5:000 de biscoito; mais 24:000 do resto 
da conta do assento do Brasil; três folhas de 
pelouros, dos quaes ele e Francisco Botelho 
Chacon deram: satisfação nos armazéns de 
artilharia; uma folha de 1:320 e tantos mil 
réis do resto do assento da pólvora de 1645; 
25:000 cruzados de um assento de armas, mur- 
râo, chumbo e pelouros. 

A guerra sustentada com a Hespanha 
punha a Fazenda Real em apuros e dificul- 
dades e por isso recorriam frequentemente ao 
dinheiro e ao crédito de Duarte da Silva. 
Tendo-se incumbido, com Francisco Botelho 
Ohacon, de prover as fronteiras de dois mil 
quintaes de pólvora e de mil quintaes de 
cobre, recebeu Duarte da Silva 45:000 cru- 
zados; ao almoxarife da torre da pólvora 
entregou cem barris que o conde de Ode- 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 277 



mira tomou para o socorro que Salvador Cor- 
reia de Sá levou ao Rio de Janeiro. Sendo 
preciso comprar em Flandres dezaseis galeões 
para serviço do reino foi ao crédito de Duarte 
da Silva que recorreram pedindo-llie cem mil 
cruzados, por ordem' do próprio rei^ e d^esses 
ainda, á data da prisão lhe deviam setenta 
mil cruzados. 

Finalmente é Duarte da Silva quem em- 
presta dez mil cruzados para a armada que 
foi á Bailia e quem, por ordem d'El-Rei, dada 
por intermédio do dr. Pedro Fernandes Mon- 
teiro, é encarregado da informação da gente 
por que havia de ser dividido o empréstimo 
de cem mil cruzados. 

Se da Fazenda Real passarmos ás fazen- 
das dos particulares veremos, entre os seus 
devedores, algumas das principaes figuras do 
tempo: o correio-mór Luiz Gomes da Mata; 
D. Juliana de Noronha, senhora de Vila Verde; 
D. João Mascarenhas, o conde d^Obidos, 
o conde áo Prado, o prior e religiosos do 
convento de S. Domingos de Bemfica, etc. 



NOVAS DENUNCIAS — NOVOS DESPACHOS CON- 
TRA DUARTE DA SILVA — APRESEN- 
TA-SE DEPOIS DE BALDADAMENTE 
PROCURADO — O QUE CONTAM DES- 
TA PRISÃO O EMBAIXADOR SOUSA 
COUTINHO, O PE. ANTÓNIO VIEIRA 
E OUTROS 

A tres de junho de 1647 o preso Bento 
da Costa Brandão, de quem adeante nos ocu- 



278 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



paremos, disse ter ouvido a Beatriz Henri- 
ques que Duarte da Silva cria na lei de 
Moysés e o mesmo confirmou, em 13 e 15 
de julho a presa Maria Henriques. 

A impaciência dos inquisidores era ma- 
nifesta e por isso, em 16 de julho, foi a 
primeira jnesa, como quem dissesse a pri- 
mieira instancia, de parecer que já havia prova 
contra Duarte da Silva suficiente para prisão. 
Porém o Conselho Geral moderou-lhes os Ím- 
petos não a achando suficiente, pois conheciam 
bem o valimento e alta protecção,; nascida dos 
degráios do thrôno,, de que gozava réo tão ca- 
tegorisado. 

Em 4 de dezembro de 1647 surge nova 
acusação: a presa Francisca da Silva disse 
que, haveria cinco anos, na própria casa d^êle 
lhe confessara Duarte da Silva que jejuava 
á mloda judaica e que, ao contrario de sua 
míulhér, D. Branca da Silva, não usava comer 
toucinho. 

Veio este depoimento encher a medida 
inquisitorial e por isso, em seis de dezembro^ 
proferiram contra ele os inquisidores o des- 
pacho da pronuncia, cuja confirmação o Con- 
selho Geral decretou na mesma data. 

No mesmo dia era passado mandado de 
captura contra Duarte da Silva, contractadôr, 
homem de negocio, devendo trazer até 401000 
réis emi dinheiro para seus alimentos. 

Mas a policia do perseguido não dormia e 
por isso o familiar T^edro do Vale debalde o pro- 
curou de dia nas>suas estancias habituaieis e á njoí- 
te, levando oomsigo os familiares Vicente Fer- 
nandes de Andrade e Jeronymb do Vadre, 
postou-se em sitio d^onde bem avistava a 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 279 



porta do Réo. A um^ estudante que o pro- 
curou responderam' que não estava e gran- 
des foram os sustos em casa, segundo per- 
cebeu, quando chegou o lacaio com o madho^ 
os criados vierami com um castiçal esperá-lo 
e no madho ninguém vinha. 

Reduzidas estas declarações do familiar 
a auto os inquisidores sobresaltaram - se 
também. 

Pois quê? Era a Inquisição atraiçoada?^ 
Duarte da Silva sabia o que contra ele se 
planeava? 

Não dormiam socegados os inquisidores; 
e, em oito de dezembro, foi o Conselho Geral 
de parecer que contra o Réo se procedesse 
por éditos por estar ausente. 

No mesmo dia o famoso Inquisidor 
Geral, D. Francisco de Castro, dava ordem 
para que os inquisidores indagassem' porque 
forma Duarte da 'Silva tinha tido informações 
do processo contra ele, devendo ser dois os 
inquisidores a fazerem' o interrogatório. 

O caso era na verdade sensacional. Que 
mutuas desconfianças não iriam por lá! 

Mas o pássaro não tardou a cahir na 
gaiola: a nove de dezemlbro de 1647 apresen- 
tou-se pois Duarte da Silva, de cincoenta e 
dois anos de edadie, morador a S. Mamede. 
Seu sobrinho, Jorge Dias Brandão, havia-lhe 
dito na ermida da sua quinta de Palhavã que 
a Inquisição o procurava e por isso ali estava 
espontaneamente para provar que tudo era 
falso e poder livremente andar pela capital. 
Receava-se somente das calumnias de suas 
parentas Francisca da Silva e Maria Henri- 



280 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



ques a quem recusara dinheiro que emprestado 
lhe pediraín'. 

No ixiesmo dia, 9 de dezembro, tinham 
sido contra êle publicadas cartas cita to rias 
editaes. Não chegaram porém a ser precisas. 

Passados quasi dez anos, em carta de 
treze de agosto de 1657, escrevia textualmente 
o embaixador Sousa Coutinho: 

« Estava eu em Holanda quando prende- 
ram' a Duarte da Silva, e sendo que viveu 
toda a sua vida em' Lisboa, nunca foi judeu 
senão quando passou um crédito de 300 mil 
cruzados [para em' Holanda se fazer umas 
fragatas para a nossa armiada e chegou ali 
primeiro o aviso que o crédito com que não 
teve efeito a obra; cinco anos esteve preso, 
soube êle que o queriam prender, avisou a 
Sua Magestade e lhe respondeu que se dei- 
xasse prender que o livraria e sendo a culpa 
só por querer saber segredos da Inquisição, 
puderam mais os inquisidores que o Rei e 
não sahio dos cárceres senão para o cada- 
falso que V. Magestade vio » (i). 

A informação preciosa de Sousa Couti- 
nho não é porém completa. Contra Duarte 
da Silva havia duas queixas paralelas: de 
judaísmo a mais antiga e de pretender des- 
vendar os invulneráveis arcanos do Santo 
Oficio, a mais receilte. 

A propósito da prisão de Duarte da Silva 
lê-se na Hisioria do infante D. Duarte (2) : 



(1) Corpo Diplomático Português, vol. XIII, pa- 
gina 450. 

(1) Hisioria do infante D. Duarte, tomo II, pa- 
gina 487. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 281 



«No dia em que chegou a noticia á Haya, 
diz o padre António Vieira, então ali mora- 
dor, o camíbio subio a cinco por cento. Por 
amor da prisão de Duarte da Silva, escrevia 
Lopo Ramires, ao nosso embaixador em Ho- 
landa, Francisco de Sousa Coutinho, não se 
achava em Amsterdam quem quizesse enviar 
um' vintém para Portugal e em Hamburgo, 
estando embarcadas muitas munições que vi- 
nham' para o reino por conta do mesmo preso, 
apenas constou o que lhe sucedera desembar- 
caram-nas logo. A imprudência do nosso go- 
verno chegou, porém, ao seu auge, não pre- 
venindo os tristes resultados do mau passo 
que dera. « Duas coisas me admiram a mim 
mais que todas, escrevia o padre Vieira ao 
miarquez de Niza, relatando-lhe estes factos: 
a primeira que se fizesse em Portugal o que 
se fez; a segunda que, depois de feito, se não 
puzésse remédio aos assentos e mais negócios 
d^el-rei, p^ra que não faltassem; mas pôde 
ser que um' e outro efeito nasça da mesma 
causa ». 

Referindo-se ainda ao mesmo, diz o nosso 
jesuita: 

« Depois do que escrevi a V. S. sobre 
André Henriques, nos entrou quarta-feira pela 
porta, resoluto a se embarcar para Lisboa, 
coimi a nova da prisão de Duarte da Silva, 
cotm' que não ha que falar em se pagarem 
os créditos, por ser o dinheiro nas mãos 
doestes homens como fortalezas de homena- 
gem, que nem ao dono se entregam, se está 
preso. O dano que esta prisão faz e ha de 
fazer ao comercio de Portugal é maior do 
que lá se considera... e por ventura que seja 



282 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



e^al ao que se deseja, que não posso cuidar 
outra coisa. Emfim para que o tempo se não 
passasse, e se acudisse a esta necessidade de 
alguma maneira, resolveu o senhor embaixa- 
dor comigo que André Henriques se não fosse 
para Lisboa, senão para Hamburgo, com car- 
tas que lhe dêmos muito encarecidas para 
Duarte Nunes, pedindo-lhe quizesse assTstir 
com seu credito á compra de até seis navios, 
e segurando-lhe emi nome de S. Mde. a pron- 
tidão do pagamento, sobre o que será bom 
que V. Ex.a escreva. Jeronymo Nunes escre- 
veu tamíbem a seu pae animando-o, e cuido 
que por sua parte quer egualmente fazer com- 
pras de fragatas em Amsterdam ». 

D^ahi a pouco necessitou-se de arranjar 
dinheiro para a passagem de Christovão 
Soares de Abreu a França, que então estava 
quasi a realisar-se, e nem para isso se en- 
contrava, porque as prisões de Lisboa, entre 
as quaes se contava a do opulento negociante, 
tinham' acabado o crédito de Portugal naqueles 
paizes. 

Ná)0 era só o padre Vieira que desapro- 
vava o Gomportamento do governo portuguez; 
desaprovava-o outrosim o marquez de Niza 
e o nosso infante (D. Dunrte de Bragança) 
o qual recebia d'aqui prejuizo gravíssimo, ou 
pela dificuldade de se arranjar dinheiro em 
geral para os negócios, e em especial para o 
projecto da sua liberdade, que então se tra- 
tava com Hespanha, promovido por D. João 
d' Áustria, ou porque essa dificuldade obriga- 
va os nossos ministros a recorrerem ao seu 
correspondente Duarte Nunes da Costa, e a 
Jeronymio Nunes da Costa, seu filho, como 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



283 




Retrato de D. João IV, protector de Duarte 

da Silva, segundo uma gravura italiana quasi 

contemporânea. 



284 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



ha pouGO nos 'disse o padre Vieira, agente 
d'el-rei em Hamburgo e Amsterdam, com' 
quem o mesmo governo já não costumava 
andar muito em dia nas suas contas. D^aqui 
nascia complicar-se a situação financeira do 
pobre encarcerado, o qual via assim distra- 
hidos os fundos de que precisava, ou que lhe 
estavam' destinados. Taes motivos particulares, 
além do publico do reino, levaram o infante, 
como já dissemos, a aconselhar a el-rei que 
perdoasse ao réo, por ser tão necessário». 

Na verdade D. João IV e o seu governo 
não se pouparam a esforços nesse sentido e 
neste ponto é injusta a critica de Ramos Coe- 
lho, mas nada conseguiram. O baluarte dos 
Estáos era inexpugnável e, como adiante se 
verá, só condescendeu em o soltar depois d'e 
anos de clausura, de o vexar e de o atormen- 
tar, bem' como á familia e aderentes. 



ONDE ESTEVE ESCONDIDO DUARTE 

DA SILVA? 

DILIGENCIAS INQUISITORIAES 

PARA DESCOBRIREM O SEU INFORMADOR 



Tres dias pois mediaram entre o despacho 
de pronuncia e a apresentação de Duarte da 
Silva. Tres dias de lagrimas para os seus, de 
incalculável excitação para êle, de receio para 
os amigos e de fundada ira, de sobrecenho 
carregado para os inquisidores. Quaes foram 
os seus passos nesses tres dias? Quem tão 
bem o informou e tão habilmente o ocultou? 

Esta foi a primeira preocupação dos 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 285 



juizes dos Estáos; foi, como vimos, o cum- 
primento de uma ordem do austero Inquisidlôr 
Geral e será também o fio da nossa narração. 

No mesmo dia da apresentação do Réu 
pessoa intima da casa era interrogada: Bar- 
bara da Silva, a ama de um seu filhinho. 
Tinha estado com os amos na quinta de Pa- 
Ihavã e asseverou que Duarte da Silva dur- 
mio na sua casa a S. Mamede na noite de 
oito para nove, pois ás cinco da manhã lhe 
deu uma toalha para limpar o rosto. 

Nada adiantou o seu pagem, Gregório de 
Sequeira, também interrogado no dia nove; 
mas, no dia seguinte, tomando decerto me- 
lhor conselho com o duro travesseiro do cár- 
cere da penitencia, veio revelar a verdade 
toda. Disse ter ouvido que Duarte da Silva 
tinha razão para se recear do Santo Oficio 
e por isso o vio muito atemorisado por oca- 
sião do ultimo auto da fé; a sua filha mais 
velha, D. Catharina, haveria dez dias que se 
ausentara para casa de seu primo Duarte da 
Silva Leão para onde o seu patrão tinha 
mandado dois sacos com dinheiro e vários 
papeis que supõe escritos de dividas. Por 
ultimo elucidou, na sexta-feira, dia 6, Duarte 
da Silva sahio de casa a cavalo com um 
lacaio em direcção á morada de Pedro Fer- 
nandes Monteiro. 

Alguma coisa tinham portanto já averi- 
guado, mas era preciso continuar espremendo 
os familiares do abastado banqueiro israelita. 

Tem agora a palavra outro seu criado, 
António da Fonseca. 

Disse que na semana anterior á sua 
prisão se juntaram em casa d'êle: Jorge Dias 



286 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Brandão e Rodrigo Ayres Brandão, seus sobri- 
nhos, bem como seu primo Duarte da Silva 
Leão. Calculava o Fonseca que essas reu- 
niões fossem motivadas pela prisão de uns 
parentes do seu patrão na inquisição de 
Lisboa e de outros, naturaes de Viana da foz 
do Lima, na inquisição de Coimbra. Soube, 
pelo pagem, que Duarte da Silva, na noite 
de sexta para sábado, isto é do dia seis para 
sete, viera para casa depois da meia noite 
muito choroso e de quarta para quinta, isto 
é de quatro para cinco, lhe notou grande di- 
ferença, dizendo-lhe o pagem que nessa noite 
sahiram de casa do seu patrão muitas fazen- 
das e dinheiro. 

Era constante o murmúrio dos lacaios por 
Duarte da Silva ir muito ao terreiro de S. 
Sebastião, supõe a testemunha que para rece- 
ber noticias dos encarcerados de ha um ano 
a esta parte. O Fonseca estava persuadido de 
que as parentas presas do seu patrão nada 
diziam pois lhe deviam imensos favores taes 
como: viverem na sua casa, ora em Lisboa, 
ora na quinta; dar-lhes mesadas e ajudar a 
casar duas irmãs d^elas. 

E assim deveria ser na verdade se a 
gratidão não fosse para elas mais que uma 
palavra. 

Quem veio porém a elucidar completa- 
mente os inquisidores foi Gaspar Jorge Mo- 
reira, homem} de pee que o servia, mandado 
vir do cárcere e interrogado no dia 1 1 de 
dezembro. Disse que na quinta-feira passada, 
dia 5, Duarte da Silva fora a casa de seu 
primo Duarte da Silva Leão, morador á Praça 
da Palha; na sexta, ás Ave Marias, sahio 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 287 



Duarte da Silva num macho, com a teste- 
munha, direitos á Carreira dos Cavallos, por 
junto da igreja nova, freguezia da Mouraria 
e, por S. Lazaro; ahi apeou-se, entregando á 
testemunha o macho, e foi para o lado de 
Santo. António dos Capuchos, voltando d^ahi 
a uma hora, desceram para os Anjos, d'ahi 
ás Olarias, e a Santo André a casa de Pedro 
Fernandes que não estava,; ficando o macho 
e a testemunha detraz da igreja de Santa 
Marinha. Depois de falar com este montou 
novamente e dirigio-se para as portas d'Al- 
fofa, d^onde mandou recado pela testemunha 
para seu cunhado ir ter com elle a casa de 
Clemente Félix. Jorge Dias Brandão montou 
no macho e foram encontrar Duarte da Silva 
junto das casas onde vive o inquisidor Fran- 
cisoo Cardoso do Torneo e muito atemo- 
risados, mandaram embora a testemunha, com 
recado para dizer á mulher de Duarte da Silva 
que este, com o cunhado tinham ido para 
casa de Pedro Fernandes Monteiro. Ao ouvir 
isto, em casa de Duarte da Silva, choraram' 
e a sua mulher quiz saber se êle fora preso 
ou ferido. Jorge Dias Brandão veio para casa 
á meia noite e Duarte da Silva ás três da 
manhã. Referio por ultimo que pelo S. João 
passado êle e o seu companheiro trouxeram' 
a D. Catharina, filha dos seus amos, da 
quinta de Ralhava, onde então estavam, para 
casa de Duarte da Silva Leão. 

Conhecidos mais ou menos os passos do 
banqueiro preso durante os três dias trágicos 
vamos vêr d^ora avante estreitamente enla- 
çadas as duas investigações. 

O mysteriôso informador de Duarte da 



288 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Silva vae ser durante anos o espectro perse- 
guidor dos inquisidores. 

O próprio Gaspar Jorge Moreira, no 
depoimento a que nos acabámos de referir, 
informou que a pessoa com quem Duarte da 
Silva ia secretamente conferenciar era um clé- 
rigo de cara comprida e de meia edade. 

No mesmio dia 11 de dezembro foi inqui- 
rido outro criado do Réu: Francisco da Fon- 
seca, egualmente preso no cárcere. Vê-se que 
a Inquisição os arrebanhou a todos, a pre- 
texto de averiguações. Este declarou que seu 
amo vinha todas as semianas, já de noite, a 
cavalo, ao adro da igreja nova de S. Sebas- 
tião da Mouraria, ahi se apeava e se enca- 
minhava para a igreja de Santo Antão dos 
Estudos. 

Fazia tanto isto estando na sua quinta 
de Bemfica, como na de Palhavã. Acrescentou 
que ia fallar com um clérigo ou frade ao adro 
do Desterro. 

No dia doze foram interrogados mais dois 
creados: Belchior Monteiro e António Gon- 
çalves. Se o primeiro nada disse já o mesmo 
não aconteceu ao segundo. Declarou que os 
filhos de Duarte da Silva apresentavam como 
motivo de tristeza que lhes ia em casa ter 
seu pae prometido a El-Rei dinheiro e faltar- 
Ihe com êle. 

Seis dias depois foi interrogado fr. An- 
^tonio Nabo de Mendonça, companheiro de 
'cárcere de Manoel Barbosa Dantas, caixeiro 
de Duarte da Silva haverá vinte e cinco 
anos e também preso, é claro. Revelou-lhe 
o Dantas que sabia que o seu patrão tinha 
avisos secretos do tribunal da Inquisição, mas 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 289 



este, interrogado, nada mais adeantou senão 
que Duarte da Silva faltara em' casa na sexta- 
feira, dia 6, pelas cinco da tarde. Não se 
pôde dizer que desse grande novidade e 
também se não pode dizer que fosse muito 
fructifera esta primeira fase do inquérito 
inquisitorial. 

Ficaram - se conhecendo os passos do 
banqueiro mas continuou-se na ignorância do 
traidor á Inquisição. 

Não se pense porém que os juizes dos 
Estáos desanimaram. 



NOVAS DILIGENCIAS — PISTA FALSA POR IN- 
FUNDADAS SUSPEITAS — INTERROGA- 
TÓRIOS SOBRE INTERROGATÓRIOS 



Passou-se o resto de 1647 e, em nove 
de janeiro de 1648, reataram-se as investi- 
gações inquisitoriaes. 

Com efeito nesse dia foi inquirido outro 
homem de pé de Duarte da Silva, Thomó 
Antunes. Disse que o acompanhou muitas 
vezes á egreja nova, freguezia da Mouraria, 
quer da sua casa da cidade, quer da sua 
quinta da Cruz da Pedra junto a Bemfica; 
um pagem do seu patrão lhe contara que 
ouvira dizer ^ D. Branca que seu marido 
costumava levar uma bolsa de moedas d^ouro 
para com elas presentear um dezembargadôr. 
Ainda outras testemunhas foram nesse dia 
interrogadas e entre elas novamente o pagem 
Belchior Monteiro, preso na noite anterior. 



290 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Contou este que um filho do seu patrão, 
chamado Diogo Pinto, o convidara para fugir 
para Roma, dizendo que o fazia por ordem 
de seu pae, apezar d^êle querer que se dis- 
sesse que era sem seu consentimento. Dis- 
sérami-lhe os lacaios que Duarte da Silva ia 
falar com um hom\em desconhecido, vestido 
de comprido, no adro da egreja de Santo 
Antão dos padres da Companhia; por oca- 
sião do auto da fé, anterior ao próximo 
passado, tirou Duarte da Silva de casa um 
caixote de prata e levou-o para casa de 
Fernão Rodrigues, o Penso. Também o Mon- 
teiro ouviu que Duarte da Silva levou d^uma 
vez uma bolsa d' âmbar cheia de moedas 
d^ouro para dar ao tal hom'em com' quem ia 
falar, mysteriosa incógnita que debalde os in- 
quisidores procuravam I 

A 13 de janeiro de 1648 é inquirido João 
Reimão Toscano, morador a Santo António 
dos Capuchos, mas nada depôs. 

No dia seguinte Catharina Simões, ama 
da filhinha de Duarte da Silva, confirmou o 
caso da bolsa, ao miesmo tempo pecaminosa 
e convidativa, cheia de moedas d^ouro. E no 
mesmo dia foram interrogados os dois marido 
e mulher: Duarte da Silva e D. Branca da 
Silva. Esta referio-se vagamente a supostas 
infidelidades conjugaes e declarou que quando 
seu marido vinha tarde para casa se demo- 
rava no Paço, em casa de Pedro Fernandes 
Monteiro ou do bispo do Porto. Duarte da 
Silva explicou as suas idas á noite, ora ao 
terreiro do Colégio de Santo Antão, ora á 
bica do mosteiro de N. Senhora do Desterro, 
ora a Santo António dos Capuchos, para ter 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 291 



entrevistas com uma senhora, Donana Hen- 
riques, casada com Diogo de Melo. Por is30 
ela, em noites claras, se disfarçava vestindo 
roupeta grande de estudante e chapéu também 
de estudante. Este romance porém não pegou 
porque na rua de Santo António dos Capu- 
chos não imorava nenhum Diogo de Melo 
nem D. Ana Henriques. 

E a investigação proseguio ... 



A 31 de janeiro era inquirido o preso 
Jorge Dias Brandão que nada adeantou e 
novamente instado Duarte da Silva para dizer 
com quem ia falar aos sitios indicados repe- 
tio o que dissera acrescentando somente que 
travara relações com a tal D. Ana por inter- 
médio de uma mulher que a sua casa fora 
empenhar uma cadeia d'ouro por vinte mil 
réis, dizendo que a sua ama era formosa e 
êle podia vê-la e de tal maneira realisaram 
a primeira entrevista. 

A 18 de março foi inquirido o preso 
Rodrigo Ayres Brandão, cunhado de Duarte 
da Silva; declarou que na sexta-feira, 6 de 
dezembro de 1647,, esteve até ás quatro horas 
em casa desse banqueiro para despacharem para 
Pernambuco uma caravela e, quando sahio, 
Duarte da Silva ficou de capa e espada, 
dizendo que ia a casa de Pedro Fernandes 
Monteiro, sobre huns assentos com S. M. 

Passados meses, em 17 de julho Ôo mes- 
mo 48, foi interrogada Ana de Sousa por ter 
dito a Rodrigo Ayres que sua irmã lhe con- 
tara estar êle, Duarte da Silva e Jorge Dias 
acusados á Inquisição por Francisca da Silva. 



292 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



E, no dia seguinte, essa irmã interrogada 
explicou comio estando no cárcere ouvio uma 
altercação de Francisca da Silva com' a sua 
companheira em que esta a increpava por a 
ter forçado a denunciar os seus parentes, entre 
os quaes os acima referidos, sendo tudo 
falso. 

Nada pois de positivo çe apurava e por 
isso, em 21 de agosto de 1648, foram os 
inquisidores da primeira instancia de parecer 
que havendo evidentemente alguém a infor- 
mar Duarte da Silva, esse alguém devia ser 
o notário Domingos Esteves. Sendo isso po- 
rém somente uma presunção ele devia apenas 
ser escuso do serviço da Inquisição, sendo 
aposentado com o ordenado por inteiro ou 
transferido para Coimbra ou Évora. Em 25 
de agosto porém o Conselho Geral não con- 
firmou tal despacho e ordenou que fosse cha- 
mado Gaspar Jo^ge para ver se conheceria 
o clérigo que vio a falar com Duarte da 
Silva e, se responder afirmativamente devem- 
no pôr em sitio d^onde veja sahir todos os 
ministros do Santo Oficio e depois dirá se é 
algum d^êles. 

Com efeito, no dia 28, era novamente 
interrogado Gaspar Jorge, aquele que lhe 
ficava com o macho quando Duarte da Silva 
ia ás suas entrevistas, mas só adeantou que 
a pessoa que secretamente falava com Duarte 
da Silva era de rosto comprido, sobre o magro 
€ usava chapéu pequeno de copa baixa. 

Doesta se livrou o notário Domingos Es- 
teves e o caso continuou imerso na mesma 
escuridão. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 293 



Não cessaram por isso as investigações. 

Em 21 de outubro foi chamado e inter- 
rogado um Manoel, que sérvio de muchilla 
a Duarte da Silva, morador, como temos' dito, 
atrás da egreja de S. Mamede. Este declarou 
que o banqueiro costumava frequentar os 
seguintes logares: na Rua Nova, a casa da 
pólvora; armazéns; habitação do dr. Pedro 
Fernandes Monteiro; adro do convento de 
N. Senhora do Desterro, apeando-se do lado 
de S. Lazaro, na rua direita que vae para 
a freguezia dos Anjos. Era este Manoel auto- 
ridade no assunto pois D. Branca, ciumenta 
do marido como vimos já, incumbia-o con- 
tinuamente de o vigiar, mas êle nunca conse- 
guio vêr a pessoa com quem Duarte da Silva 
tinha as suas noturnas entrevistas. 

Entretanto era este apertado e vivamente 
instado, mas persistia na negativa. Em 19 de 
novembro de 1648, chamada a mulher em 
cuja casa afirmara ter as entrevistas, negou-o 
terminantemente e o banqueiro, em 24 de 
novembro, só declarou que na tal casa das 
suas entrevistas vivia uma mulher que usava 
toalha na cabeça como de mulher casada, 
porque não era capello de viuva. 

E passou-se todo o ano de 49 e 50 e os 
inquisidores sem. nada apurarem. Decidida- 
mente Duarte da Silva sabia guardar um 
segredo e rodear-se de precauções para que 
outros, não tão discretos oomo êle, o não 
pudessem revelar. Até que uma malvadês para 
eles providencial os veio elucidar. 



294 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



A CARTA ANONYMA EM SCENA — O VIL 
DENUNCIANTE MANOEL CORDEIRO 
— PRISÃO COMO TRAIDOR DO NOTÁ- 
RIO GASPAR CLEMENTE, JÂ REFE- 
RIDO NO PRIMEIRO VOLUME 



Ainda grande parte do 1651 os inquisi- 
dores permaneceram na ignorância daquele 
que os atraiçoava revelando cá fóra os seus 
invulneráveis segredos até que, a 7 de setem- 
bro, o dominicano e padre mestre fr. Pedro 
de Magalhães veio, triunfantemente decerto, 
comunicar o seguinte escrito recebido em. con- 
fissão pelo também padre mestre fr. Fer- 
nando Soeiro : 

« Logo que Duarte da Silva se apresentou 
no Santo Oficio, vendo V. S.^s a causa de 
seu retiro o como foi ajustada, contra a dis- 
posição e procedimento do que estava decre- 
tado, entraram V. S.as em grandissima con- 
fusão d^onde procederia o retiro dío dito Silva, 
tão ajustado á sua pronunciação, fazendo 
tantas diligencias com mulher, criados, paren- 
tes e amigos, sem alcançar mais que ver-se 
fallar de noite em logares solitários com pes- 
soa de roupas compridas e assim se ficou 
tudo nesta confusão e foram correndo com 
elle os procedimentos ordinários do Santo 
Oficio. 

Obrigação é logo correr a V. S.as a cor- 
tina doesta duvida para que (como em claro 
espelho) conheçam e vejam a causa doesta 
confusão logo que Duarte da Silva usou mal 
do disfarce de fazer prendter as duas moças 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 



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€ mãe, para haver de sanear e disfarçar seu 
erro e ruim' procedimento, logo procurou cor- 
romper os ministros do Santo Oficio, o que 
com' facilidade fez ao sugeito do secretário 



296 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Gaspar Clemente que já neste tempo era 
useiro e vezeiro e muito antigo em seme- 
lhantes obras e logo que teve corrente cozido 
se ficou com a quietação que todos vimos, 
parecendo que por este meio tinha saneado e 
seguro seu ruim proceder, antes que passe 
avante, quero dizer a V. S.a» quem foi o 
interprete doeste conhecimento e sempre ficou 
correndo com as embaixadas e pontes nas 
occasiões que foi necessário, foi este um 
Manoel Rodrigues, natural de Lamego, que 
vivia ao Chão do Loureiro e assiste em casa 
de Jorge Gomes do Alemo é foi preso pelo 
Santo Officio em Coimbra e degredado para 
galés, e profanavam estes dois sugeitos de 
qualidade e segredo o Sto. Offo. que tinham 
ramo aberto para quem se queria valer d^elles 
para suas velhacarias. Este pois, ou estes pois, 
foram os que davam clareza ao dito Silva de 
tudo o que ia succedendo e lha deram, quando 
os decretaram á prisão, cousa que elle sabia 
antecedentemente, mas naquelle dia que sobio 
ao Supremo o decreto do Ordinário, para ver 
se procedia á prisão ou não e baixou decre- 
tado de cimía, estava elle retirado desde a 
tarde aguardando a resolução que se tomava, 
e como lhe deu a noticia certa o sugeito refe- 
rido, se ficou retirado até á hora em' que se 
apresentou no Sto. off.o por conselho do mes- 
mo sugeito, parecendo-lhe (como via as aguas 
tão revoltas) que com sua apresentação pa- 
rasse o Sto. off.o nas diligencias e ficasse 
tudo quieto. Nestes dias da retirada que foram 
três, houve sempre conselhos sobre se havia 
de ausentar ou não. A culpa recusava a prisão, 
a perda da fazenda o retiro, e assim com con- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 297 



selho do grande amigo, tomando por funda- 
mento que o testemunho de Luiz de Mello, 
o letrado, era de um falsario e não tinha 
vigor, e que o testemunho das duas moças 
contradictaria elle com as fazer prenàer e que, 
caso que o Medeiros (que neste tempo estava 
convencido e relaxado) o culpasse, que em 
tempo estava para formar contradictas e dei- 
xal-as correntes. 

Posto isto neste estado, o secretario 
aconselhando e sollicitando a apresentação 
por causa do medo com que estava elle, 
abraçando-a também pela ambição da perda 
da fazenda, se sugeitou a fazel-a, elegendo 
por seus valedores, sollicitadores e protecto- 
res aos Forragaitas e dispondo na forma 
seguinte: Aos Forragaitas ficou formada a 
contradicta para o livramento do dito Silva 
ás moças dizendo o referido, como elle as 
accusara e fizera prender ao Medeiros, como 
elle certo dia, defronte da loja dlos ditos 
Forras, na Rua Nova, tivera desavença de 
palavras com o Medeiros e até lhe dera bo- 
fetadas, e elle o ameaçara jurando que Ih^o 
havia de pagar, e queixando-se que elle era 
só bom para extranhos e patifes e não para 
os parentes, uma e outra cousa foi phantastica, 
que tal pendência não houve, antes estavam 
muito amigos, o Medeiros recolhido e agasa- 
lhado em casa de R.o Ayres; e assim tratou 
o Forragaitas, velho e moço, de correr o ferro 
com as testemunhas que ficaram apontadas e 
ambos as andaram advertindo muito tempo, 
até que chegou o tempo de as chamarem e 
inquirirem (como também os ditos Forras) e 
a chamar outras para este mesmo effeito que 



298 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



não perguntaram e logo de seus ditos viram 
V. S.as como era feito o conluio, pois não 
havendo no mundo tal pendência elles a jus- 
tificaram' por verdadeira pela inducção de 
monsenhores Forras que tão sollicitos andaram 
nesta matéria e tanta jactância fazem d^ella, 
comio também a fazem de que sendo elles . . . 
Era tão grande a devassidão do secretario 
Clemente que o minimo pensamento que 
coníra este sugeito se comimunicasse lhe 
revelava logo, como foi o dia Sancto ou Do- 
mingo á tarde que V. S.as abriram o Tribunal 
pelo indicio de que se queria ausentar o Silva 
na náo Flor de Maio, ingleza, emi continente 
despedio o avizo á quinta de Bemfica aonde 
então estava pelo Manoel Rodrigues, que foi 
levar-lh^o pelos ares, elle lhe disse como a 
moça das 2 irmlãs a mais velha, estava con- 
vencida por jejum e culpas do cárcere, e em- 
fim a ausência do filho para Roma, o retiro da 
filha, e outras cousas que sucederam todas 
foram nascidas dos pontos que dava este de- 
vasso administrador. Jorge Dias Brandão, com 
o sobrinho que está em Roma, antes de se ir, 
foram a Viana a fazer a confirmação de suas 
judiarias, Lisboa está ardendo em heresias, a 
mulher de Duarte da Silva fallando mil desa- 
vergonhamentos sobre os secretos e procedi- 
mentos do Santo Oficio. Os Forras fazendo 
alarde de que o Silva e toda a sua geração 
estão despachados livres e que não hão-de 
sahir em auto publico por virtude de um' 
decreto d'El-Rei ». 

Imagine-se a estupefação dos inquisido- 
res. Ninguém ousara pensar em Gaspar Cle- 
mente agora gozando a pingue abadia de S. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 299 



Pedro da Queimada, junto a Lamego. Mas . . . 
urgia proceder quanto antes. E por isso os 
inquisidores, informados quem era o autor da 
carta anonyma, trataram de lhe deitar a mão. 
Manoel Cordeiro, tal se chamava o figu- 
rão, foi preso a trinta de setembro. Era pes- 
soa já bem conhecida no palácio dos Estaos, 
pois já estivera a contas com a justiça inqui- 
sitorial (i). 

Narremos, embora sumariamente, o seu 
primeiro processo. 

Preso em 29 de março de 1629 era acu- 
sado por varias testemunhas, entre as quaes 
sua irmã e primos, de judaisante. 

Teria ao tempo dezoito para dezenove 
anos e já tinha servido na quinta de D. 
Lopo da Cunha, senhor de Santar, junto á 
Azinhaga e na de Luiz de Miranda Henri- 
ques. Confessou as suas culpas em nove de 
agosto de 1630 mas como a confisssão não 
fosse completa foi atormentado. Para isso 
despojaram-lhe os vestidos, assentaram-no no 
banquinho e quando o iam para atar pedio 
que o deixassem, completando então a sua 
confissão. 

Pela sentença final foi mandado abjurar 
publicamente dos seus erros e ter cárcere e 
habito penitencial perpetuo. Publicada esta 
sentença no auto da fé celebrado na Ribeira 
a 1 de março ide 1632, a 15 de julho foi-lhe 
mandado retirar o habito penitencial e levan- 
tar o cárcere. 

Agora, passados quasi vinte anos, ahi 
estava novamente nas enxovias do Santo 

(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 643. 



300 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Oficio, não sem ter tentado fug^ir para Ho- 
landa, recomendado por Gaspar T)ias de Mes- 
quita e não sem ter estado escondido durante 
quatro dias ! 

Foi a tentativa de fuga por Setúbal, mas 
o advogado Belchior Fernandes Soares, des- 
confiando d^êle, não o auxiliou e a própria 
carta de recomendação fora falsificada pelo 
Cordeiro. 

Vê-se que lhe não faltavam as boas qua- 
lidades . . . 

A dois d^outubro fês as declarações que 
mais nos interessam por serem' respeitantes 
á importantissima revelação que veio fazer, 
embora por escrito e acobertado com- o ano- 
nymato. 

Disse pois que fora o mercador christão 
novo, Fernão Martins, morador á Sé quem 
lhe confidenciara os segredos que puzera nas 
duas cartas anonymas — duas porque alétn da 
que publicámos, outra adiante respigaremos 
dos processos — , a quem os contara o próprio 
Gaspar Clemente e também os dois Forra- 
gaitas (Francisco Gomes Fienriques e Gregó- 
rio Gomes Henriques) ; que Rodrigo Ayres 
Brandão era o mais esperto em alcançar os 
segredos do Santo Oficio, chamando-lhe até 
no cárcere campainha; que os confidentes da 
mulher de Duarte da Silva; que também' um 
Manoel Rodrigues contava segredos da Inqui- 
sição a Fernão Martins c era quem levava 
recados de Gaspar Clemente a Duarte da 
Silva: um dos Forragaitas dirigio-se-lhe para 
ir jurar falso a favor de Duarte da Silva; 
que Fernão Martins lhe dissera: 

— Mal haja o Forragaitas, em não querer 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 301 



largar de si vinte mil cruzados para livrar 
a Duarte da Silva porque, com isso, estivera 
o seu negocio lançado de parte e ele em sua 
casa. 

Continuou o Cordeiro afirmando: que é 
voz publica que Manoel da Gama de Pádua 
é um grande protector de christãos novos, 
procura impedir o procedimento do Santo 
Oficio até com a protecção d'El-Rei e que, 
doesta forma, alcançou a isenção do fisco; que 
os Forragaitas se gabavam de ter amigos no 
Santo Oficio e que esperavam um breve de 
Roma para a Inquisição não ter jurisdição 
sobre eles; que os Forragaitas se gabavam 
que Duarte da Silva e toda a sua gente esta- 
vam despachados livres e não haviam de sahir 
em auto publico por virtude de um decreto 
d^El-Rei; que Fernão Martins e Francisco Ro- 
drigues Vila Real, mercador que vive detráz 
de N. Senhora da Palma, filho de Gaspar 
Rodrigues Vila Real, sustentavam duas victi- 
mas da Inquisição; por fim que Gaspar Cle- 
mente queria sahir do serviço da Inquisição 
para não ser descoberto. 

Taes foram as graves delações, graves e 
variadas, feitas pelo vil falsificadôr confesso 
Manoel Cordeiro. E antes de vermos a forma 
como a Inquisição as compensou refiramos 
um' requerimento despachado em 14 de no- 
vembro de 1651 em que D. Luiza Guedes 
de Queiroz, viuva do Dezembargadôr Bartho- 
lomeu Gonçalves de Castelbranco,. dizia ter 
mandado para o Brasil,, por ordem de Manoel 
Cordeiro, varias encommendas: 1, continha um 
vestido de mulher de tela parda, saia e jubão 
e uma palheira de tela encarnada com flô- 



302 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



res de prata e ouro e um jubão, remettida 
a Angola a um Manoel Rodrigues Nunes, 
feitor d^El-Rei, assente aos procuradores de 
Gaspar Dias de Mesquita; a 2.» um vestido 
de mulher, saia e saio e jubão de pinhoela 
azul e negra guarnecida de palmas de galão 
de ouro fino e um manteo de cochonilha com 
palmas de passimaninho de ouro fino á roda, 
encommenda esta que levou o capitão Manoel 
da Veiga no navio de Gaspar Dias de Mes- 
quita. 

Como os conhecimentos tinham ficado em 
poder de Manoel Cordeiro a requerente pedia 
a entrega d^eli^irs. Manoel Cordeiro interro- 
gado disse que a 2.a encommenda referida 
fora vendida por 601000 rs. e a 1.» por 3 
peças da índia. 

Manoel Cordeiro, como recompensa das 
suas boas ações, foi absolvido e assignou o 
termo de segredo em dois d^ dezembro de 
1652. 

Como porém havia só o testemunho de 
Manoel Cordeiro contra o padre Gaspar Cle- 
mente Botelho mais uma vês os inquisidores 
se dividiram. A primeira instancia não julgou 
tal depoimento suficiente para prisão mas o 
Conselho Geral, em três d^outubro de 1651, 
foi de parecer contrario e assim a Lamego o 
iam' prender quando estava no gôso da sua 
abadia de S. Pedro da Queimada e, em 20 
d^outubro dava entrada no cárcere inqui- 
sitorial. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 303 



QUEM ERA O EX - NOTÁRIO E O ACTUAL 
ABADE GASPAR CLEMENTE? — O PRO- 
CESSO QUE A INQUISIÇÃO LHE MOVEU 
— E' DEGRADADO PARA O BRASIL 



O Ldo. Gaspar Clemente Botelho, Có- 
nego prebendado na sé de Elvas, e tendo já 
sido secretario da agencia portuguesa em 
Roma, requereu para servir o Santo Oficio e 
por isso, em 27 de junho de 1620, foram-lhe 
mandadas tirar as provanças respectivas. Era 
natural de Rezende, filho de Clemente Gomes 
e Brites Simões; neto paterno de Gonçalo 
Luiz e Verónica Gomes e neto materno de 
Simão Gonçalves e de Esperança Botelho. 

Inquiridas as testemunhas chegou-se á 
conclusão de que era limpo de sangue, e 
por isso lhe foi a sentença favorável e,; em 11 
de setembro de 1620, era habilitado para 
poder servir o Sto. Oficio em qualquer lugar 
que couber em sua pessoa {^). 

Vejamos a forma como d^êle se desem- 
penhou. 

Dizem-nos os seus acusadores. 

O denunciante Manoel Cordeiro não ficou 
isolado na acusação ao Ldo. Gaspar Cle- 
mente. Não. 

Em 10 de outubro de 1651 foi interro-, 
gado o familiar Matheus Gonçalves e disse 
que, haverá seis anos, via Manoel Rodrigues 
falar em segredo com' êle, sendo muito ami- 



(1) Habilitações do Santo Oficio, m. 1, Gaspar, 
n.o 40. 



304 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



gos (*). E quando trocou a sua situação no 
Santos Oficio pela abadia na Beira, como a 
testemunha o aconselhasse a não aceitar, 
replicou-lhe que não era para os segredos do 
Santo Oficio. 

Em 21 de outubro, ainda antes do Ldo. 
Gaspar Clemente ser interrogado, foi-o o 
familiar que de Lamego o acompanhou por 
nome Francisco Paes. Contou pois como o 
desgraçado notário lhe tinha revelado que 
não sabia a razão por que o prendiam; só 
se fora por vingança de inimigos porque 
quando servia o Santo Oficio, se entendia 
que alguns presos estavam inocentes, em 
muitas cousas gostava de os favorecer. 

— Ah, senhor Licenciado, agora sob os fer- 
ros inquisitoriaes,, não sabia que quem entra para 
o serviço da Inquisição não pode ter cora- 
ção condoido? 

Bem cara lhe vae custar a comiseraçãa 

Em 26 de outubro começou pois o seu in- 
terrogatório. 

Começou por contar a sua amizade com 
Manoel Rodrigues, que não supunha christão 
novo, com o qual muito embirrava sua so- 
brinha Isabel Botelho e era muito mentiroso 
e embusteiro. Na occasião do auto da fé nas 
escadas do Hospital, consentio que o tal Ma- 
noel Rodrigues fosse ao cadafalso ver se lá 
sahia uma tal Cardoso; que esse Manoel 
Rodrigues foi preso no Limoeiro e d'ahi foi 
para as galés; que o marquês de Pto. Seguro 
o livrou e deu-lhe um logar nas mesmas 
galés; que um tal Diogo Pinto lhe negociara em 

(í) InguLsição de Lisboa, processo n.o 10.793. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 305 



Rom'a um breve, mas não sabia quem eílè 
era e só Manoel Rodrigues o informou ser 
filho de Duarte da Silva; que d^ahi vieram as 
suas relações com Duarte da Silva, começadas em 
abril de 1647; que Duarte da Silva negociava em 
vinhos na sua quinta; que para ir a elle 
aproveitara uma occasião em que teve de ir 
á Charneca f aliar a D. Simão de Castro ; que 
Duarte da Silva estivera no Brasil e recebera: 
muitas mercês do rei de Castella e d^el-rei 
D. João 4.O. 

Referio-se ás suas relações com Francisco 
Fernandes Vila Real, contratador que foi do 
priorado do Crato, e Luiz Fernandes Vila 
Real, com loja de marcaria e Gaspar Rodri- 
gues Vila Real. Este, quando prenderam 
Duarte da Silva, disse-lhe: 

— Basta, que chegaram a prender a 
Duarte da Silva. Valha-nos Deus pois á fé 
que tinha amigos e amigos de olho e teve 
avisos de que se poderá aproveitar! 

Oiçamos agora Manoel Rodrigues que 
nos faz uma importante declaração. Interro- 
gado emi 29 de dezembro de 1651 confirmou 
o seu papel de intermediário entre os dois 
presos referidos, o banqueiro e o notário, 
acrescentando que d^uma vês Duarte da Silva 
mandara por êle ao Licenciado a quantia de 
cem cruzados que êle desinteressadamente não 
quis aceitar. 

Só foi depois interrogado a 4 de janeiro 
de 1652. Declarou que, em conversa com 
Manoel Rodrigues Lamego e com Gaspar Ro- 
drigues Vila Real fallaram em os familiares 
do Sto. Offo. procurarem Duarte da Silva e Vila 
Real disse que muita gente se temia das taes 

20 



306 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Francisca da Silva e Maria Henriques,; porque, 
sendo pobres e indo a muitas casas pedir, 
como lhe não davam quanto queriam respon- 
diam mal e por isso eram capazes de culparem 
essas pessoas. 

Se até então havia estado numa espécie 
de prisão preventiva no chamado cárcere da 
penitencia, passou por despacho de 9 de 
janeiro de 1652, para o cárcere do secreto. 

Em onze de janeiro foi o seu interroga- 
tório ín specie. Confessou ter amizade com 
Luiz Lopes Franco que lhe quiz gratificar 
certa informação do Santo Oficio, chegando 
a dar-lhe uma bolsa de âmbar. 

Foi advogado do Licenciado Gaspar Cle- 
mente o dr. António Pereira de Sousa. Ale- 
gou em sua defesa os serviços que prestou 
durante vinte e sete anos em que foi notário 
da Inquisição; sérvio de secretario das duas 
visitações, uma em tempo do capelão-mór 
D. João da Silva e outra em tempo de Diogo 
de Sousa; sérvio em Roma o Dr. Francisco 
Pereira Pina quando ahi era agente de Por- 
tugal; e em Lisboa tinha uma casa muito mo- 
desta pois não tinha pagem nem milla. 

Apezar d^isso tudo os inquisidores pro- 
feriram no caso a sentença seguinte: 

«Accordão os inquisidores, ordinário e 
deputados da Santa Inquisição, que, vistos 
estes autos, culpas e confissões de Gaspar 
Clemente Botelho . . . por que se mostra que, 
sendo, como christão e sacerdote e mais em 
particular como notário do Santo Officio, 
obrigado a zelar o bem dos negócios tocantes 
á nossa santa fé, e com promessa e juramento 
judicial, a não ter trato, nem comtnunicação 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 307 



com pessoas de nação que se esperasse hou- 
vessem de ter causas no Santo Officio, nem 
receber d^ellas dadivas, nem perturbar ou 
impedir por algum modo seu justo, recto, e 
livre procedimento. Houve informação que o 
Reo, esquecido de sua obrigação o fizera pelo 
contrario, e que, com temerária ousadia, pouco 
temor de Deus N. Senhor e da Justiça, em 
grave damno de sua consciência e prejuizo 
dos negócios tocantes á nossa sancta fé, tivera 
communicaçao com' algumas pessoas da nação, 
e que uma alcançara por sua via muitas par- 
ticularidades do estado em que estava a causa 
que, contra elle, se tratava na mesa do Santo 
Officio; e, outrosim, houve informação que a 
outra certa pessoa da nação mandara o Réo 
aviso que estivesse de bom animo porque 
outra pessoa presa não fallara nelíe; E que, 
em' occasiões de auto da fé, antes d^elles 
serem celebrados, mandara avisos antecipados 
a outras pessoas também da nação, da forma 
e modo em que haviam de sahir nelles certas 
pessoas que estavam presas, recebendo, por 
esta causa, algumas dadivas e sendo, pela 
mesma, respeitado e estimado das ditas pes- 
soas; Pelas quaes culpas, sendo o Réo preso 
e, com caridade, admoestado as quizesse con- 
fessar para descargo da sua consciência e se 
usar com elle de misericórdia, disse e confes- 
sou que, com certa pessoa da nação que tinha 
negocio no Santo Officio fallara algumas 
vezes, mas que era em cousa sua particular 
e que d^ella acceitara certa dadiva de pouco 
valor, não querendo acceitar dinheiro que lhe 
mandava, aconselhando-a do modo que devia 
ter na dita causa e que, a outra, consolara e 



308 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



animara a que esperasse bom despacho em 
certa causa de outra pessoa sua conjuncta; 
e que esta mesma lhe offerecera uma peça 
de valor que não quizera acceitar, acceitando, 
por cortezia, uma de pouca estimação e que, 
outrosim^ tivera communicação com outras 
pessoas da nação, recebendo d^ellas algumas 
cousas em confiança porém que a nenhum 
revelara segredo algum do Santo Officio, nem 
por outra via tratava de impedir ou pertur'- 
bar seus procedimentos — o que tudo visto, 
coim o mais que dos autos consta, e a grande 
culpa que o Réo commetteu no sobredito 
contra sua obrigação e o grande prejuizo que 
d^ahi resultou ao procedimento do Santo Of- 
ficio?, e o mais que dos autos resulta, havendo 
porém respeito á prova da justiça não ser 
bastante para maior condemnação, (mandam 
que D R. Gaspar Clemente Botelho,, ,em pena 
e penitencia das ditas culpas, ouça sua sen- 
tença na sala do Santo Officio na forma cos- 
tumada, em corpo, com vella accesa na mão, 
perante os Inquisidores, mais ministros e offi- 
ciaes e algumas pessoas de fora e o privam 
da aposentadoria que tem na Inquisição e o 
degradam por tempo de 6 annos para o reino 
de Angola, e cumprirá as mais penas e peni- 
tencias principaes que lhe forem impostas e 
pague as custas. Luiz Alvares da Rocha — Pe- 
dro de Castilho — Belchior Dias Preito. 

Foi publicada esta sentença em 20 de 
dezembro de 1652, estando presentes os inqui- 
sidores, deputados e notários; 2 dignidades 
do cabido; ministros e officiaes do mesmo; 
prelados das religiões e outros religiosos; 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 309 

alguns fidalgos e familiares e outras pessoas 
de fora. 

Em 9 de janeiro de 1653 foi transferido 
para o Aljube a seu requerimento para ahi 
poder tratar de certos negócios seus. 

Em 20 de março de 1653 requereu Gaspar 
Clemente para que o degredo d'Angola lhe 
fosse commutado para clausura em um dos 
conventos de S. João d'Alpendurada; de An- 
cede; ou de Santa Cruz em Lamego. Só 
obteve porém a commutação para o Brasil. 

Em 1 de outubro de 1653 partio para 
a Bahia e, em 24 de março de 1656, foi-lhe 
perdoado o tempo que faltava para cumprir 
do seu degredo. 

Regressaria ainda a Portugal? Onde não 
voltou foi decerto á sua antiga abadia. 



PERSEGUIÇÃO À família DE DUARTE DA 

SILVA — COMO SUA FILHA ZOMBA 

DOS INQUISIDORES DURANTE MAIS 

DE UM MEZ 



Ao despacho que pronunciou Duarte da 
Silva seguio-se de perto o despacho de pro- 
nuncia de sua filha, D. Catharina da Silva, 
de seus cunhados Rodrigo Ayres Brandão e 
Jorge Dias Brandão e„ um mês após, o de 
seu filho Francisco Dias da Silva. 

Todos judaisantes está bem de ver. 

Em 14 de dezembro pois deram entrada 
no cárcere inquisitorial os dois Brandões mas 
já o mesmo não aconteceu á filha de Duarte 



310 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



da Silva. Ocupêmo-nos doesta para logo aten- 
tarmos nos cunhados e no filho do perseguido 
banqueiro. 

D. Catharina da Silva, procurada, não 
foi encontrada e aqui começam pertinazes 
diligencias inquisitoriaes. Constando pelos 
criados que a filha de Duarte da Silva se 
refugiara em casa de seu primo Duarte da 
Silva Leão contra este se voltaram as iras 
dos inquisidores e marido e mulher vieram, 
gemer sob os ferros do palácio dos Estáos (i-)- 

Duarte da Silva de Leão foi preso a 23 
de dezembro de 1647 e bem assim sua mulher 
Catharina Alvares. Moradores á praça da Palha 
confessaram que D. Catharina estivera em sua 
casa desde terça-feira 3 de dezembro até sete 
doesse mesmo mês, dia em que já não jantou 
em sua casa, acrescentando Catharina Alvares 
que nesse dia tomando o manto se fora 
embora. Também foram interrogadas Isabel 
da Silva, filha dos dois novos presos e a 
creada, dizendo apenas esta de novo que no 
dia em que D. Catharina veio para casa de 
seus patrões lhe mandaram, além d^uma ca- 
misa, para comer peixe frito, fructa e uma 
galinha ensopada. 

Tão apressada fora a sua fuga que nem 
tempo tivera para oomêr . . . 

Pequeno foi o resultado d'este interro- 
gatório, más quem devia ser conhecedora do 
segredo todo era sua mãe D. Branca da Silva 
e por isso no mesmo dia 23 de dezembro 
lhe lançaram a mão. Reservada no cárcere 



(1) Inquisição de Lisboa, processos n.os 7.216 e 
12.209. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 311 



da penitencia organisaram-lhe processo, pois 
á desgraçada mãe entenderam que não basta- 
vam os transes aflictivos por que ia passando 
da prisão e fuga dos seus entes mais que- 
ridos e adorados. 

Declarou ter 4 filhos machos: Diogo Pinto 
que fará para abril 18 annos; Francisco Dias, 
de 14 annos; Simão Henriques, de 12 para 
13 annos e João, de 7 mezes e meio; as 
filhas são: D. Catharina, de 16 annos, solteira, 
cujo paradeiro desconhece, D. Serafina, de 4 
annos e D. Joanna, de 2 annos e meio as 
quaes vão estar ás vezes a casa de Vicencia 
de Pina, viuva de Manoel de Sousa Reimâo. 

Encobrir o destino de sua filha tal era 
o crime de D. Branca da Silva. 

Em 10 de março de 1648 foram os inqui- 
sidores de parecer que, não constando dos 
autos saber 'D. Branca os sitios por onde 
andou sua filha, devia ser absolvida, o que 
foi confirmado pelo Conselho Geral no mes- 
mo dia (13). 

Entretanto esclarecia-se completamente o 
caso e D. Catharina da Silva dava entrada 
no cárcere inquisitorial a 29 de janeiro de 
1648, denunciada de judaisante por Anastácia 
Carvalho, uma infame a quem aludimos ao 
principiar este capitulo, por Maria Ribeiro, 
Maria Henriques e Domingos de Medeiros. 

Agora, que a temos debaixo de ferros, 
vão os inquisidores satisfazer a curiosidade 
da sua clandestina peregrinação e também os 
leitores, não ha duvida nenhuma. 

Em 1 de fevereiro de 1648 foi efectiva- 

(1) Processo n.o 13.101 da Inquisição de Lisboa. 



312 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



mente interrogado Gonçalo Pinto Soares, mo- 
rador junto ás casas do marquês de Nisa a 
quem serve e disse que suppunha ser chamado 
por causa do manifesto que fez da filha de 
Duarte da Silva. Declarou que foi á igreja 
de Santa Justa para informar o mercador, 
Fernão Rodrigues Penso, da prisão de Duarte 
da Silva e depois a S. Mamede, onde encon- 
trou Jorge Dias, a quem deu os pêsames por 
causa da prisão do cunhado e, passados dias 
este lhe pedio para ir para casa d^elle D. 
Catharina da Silva, no que a testemunha con- 
sentio, sendo apenas por 3 dias e mudando 
ella o nome, o que effectivamente fez, pas- 
sando a chamar-se Maria Ferreira. Quando 
porém a testemunha soube da prisão de Jorge 
Dias Brandão, foi á condessa de Vila Franca 
e pedio-lhe para ella ir para lá, dizendo-a 
filha de um seu amigo, soldado da índia, 
ausente; ahi esteve até á véspera de Reis, 
dia em que a condessa se havia de mudar 
para a sua quinta de Cruz da Pedra e então, 
a testemunha, levou-a num coche para casa 
do capitão Jeronymo Saraiva, morador na R. 
Larga, defronte do postigo da Trindade. A 
testemunha vendo as prisões de toda a fami- 
lia, foi-se aconselhar com o Padre Luiz Bran- 
dão, jesuíta, e este disse-lhe que não tinha 
obrigação de a vir denunciar. Como porém 
a Inquisição publicasse editaes sobre o caso, 
Fernão Rodrigues Penso foi ter com a tes- 
temunha e dizer-lho e a testemunha resolveu- 
se a entregar a sua protegida. 

A 1 de fevereiro foi interrogado Fernão 
Rodrigues Pen&o. Disse que "D. Catharina 
tinha ido para casa da condessa de Vila 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 313 

Franca na segunda-feira, depois do auto de 
16 de dezembro. 

D. Catharina da Silva estava então na 
flor da vida. Com esperanças de rica pelos 
avultados cabedaes de seu pae, quem diria 
que tão negra nuvem havia de empanar as 
suas risonhas dezoito primaveras?! 

Fac-simile de D. Catarina da Silva (copiado 
d,o seu processo). 



A sete de fevereiro de 1648 lhe deram 
como curador o alcaide dos cárceres e no 
mesmo dia foi largamente interrogada acerca 
dos sitios onde estivera oculta e das suas 
culpas que, a pé juntos negou. 

A dose do mesmo mês eram-no também 
os primos d^ela que primeiro lhe deram asylo 
Duarte da Silva de Leão e Catharina Alvares, 
mas nenhuma novidade puderam' dar além do 
que já sabemos, mas esta ultima, em nove 
de março, veio tocar num ríôvo ponto muito 
curioso: o da correspondência clandestina dos 
presos a que adiante nos referiremos. 

Contou ela que no cabaz vinha fructa e 
duas canastrinhas negras fechadas e uma 
bocetinha de veludo verm'êlho, forrada de 
tafetá branco e dentro uma rosa de diamantes 
redonda e outra boceta oom um colar de 
ouro de favo (?) ; quando D. Catharina veio 
para casa d^ela deu-lhe uma boceta redonda 
de chumbo do feitio de tinteiro, dizendo que 



314 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



O pae d^ella lhe pedia para a guardar porque 
tinha três onças d^almiscar que valiam muito 
dinheiro. 

No dia seguinte era posta em liberdade e 
bem assim seu marido e D. Branca da Silva, 
mas a joven D. Catharina da Silva lá coíi- 
tinúa em lucta aberta com os seus algozes 



A FILHA DE DUARTE DA SILVA É DUAS 
VEZES ATORMENTADA MAS RESISTE 
HEROICAMENTE Á TORTURA - AO 
REQUINTE DE CRUELDADE DOS IN- 
QUISIDORES OPÕE-SE O REQUINTE 
DE CORAGEM DA DONZlÉLA — SALVA-A 
O MEDICO 

Duas graves acusações pesavam sobre a 
nossa judiasinha: fazer obras da religião moy- 
saica e corresponder-se secretamente no cár- 
cere com seu tio Rodrigo Ayres Brandão por 
via da cosinha. Já vimos que se refugiava na 
negativa e em sua defesa alegou por ela o 
seu advogado Luiz Ferrão que, se fugira de 
casa dos pães fora por doudice e não por 
medo. 

Antes leviana que israelita! 

A's suas contraditas citou, entre outras 
testemunhas o Padre Manoel Nunes de 
Freitas, beneficiado. 

Em 30 de janeiro de 1651 foram os 
inquisidores de parecer que a Ré devia ser 
posta a tormento; os inquisidores Luiz Al- 
vares da Rocha, Belchior Dias Preto e depu- 
tados, Bispo de Targa e João Delgado Fi- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 315 



gueira foram de parecer que ella tivesse um 
trato corrido^ s fosse levantada segunda vez 
até o logar do libe lio; aos deputados Fran- 
cisco de Miranda Henriques e Manoel Côrte- 
Real de Abranches que tivessse um trato es- 
perto e outro corrido e ao deputado Martim 
Afonso de Mello que tivesse um trato es- 
perto. 

Em 4 de fevereiro de 1651 o Conselho 
Geral foi de parecer que a Ré tivesse um 
trato corrido e seja 2.a vez levantada até o 
logar do libello. 

A 21 de abril de 1651 realisou-se o tor- 
m.ento e persistio na negativa e por isso, des- 
pojada dos vestidos, oomeçaram-na a atar, 
atando-a com a 1.» correia, depois com a 2.^ 
mas ella negou sempre, chamando por Jesus, 
N. Senhora e pelo medico que bem sabia que 
ella tinha estado doente levantaram-na, deram- 
Ihe um trato corrido e foi levantada segunda 
vez, até. que por fim a desataram. 

Em 11 de setembro de 1652 foram os 
inquisidores Luiz Alvares da Rocha e Bel- 
chior Dias Preto e deputados Estevão da Cu- 
nha e Manoel Côrte-Real de Abranches de 
parecer que a Ré devia ser posta novamente 
a tormento e atada perfeitamente; ao inqui- 
sidor Pedro de Castilho que fosse atada com 
a l.a correia; aos deputados bispo de Targa, 
Francisco de Miranda Henriques e Martim 
Afonso de Mello que a Ré ficasse reservada 
e ao deputado Padre Mestre Fr. Pêro de Ma- 
galhães pareceu que a Ré fosse posta ad faciem 
to r menti. 

Em 12 de setembro de 1652 o Conselho 
Geral opinou que a Ré fosse posta em cárcere 



316 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



de vigia. Todavia o medico não consentio 
nisso pelas suas continuas doenças e pelo 
estado de fraqueza em que estava não era 
possível que estivesse só, Apezar d^isso foi 
para o cárcere de vigia em 14 de outubro 
de 1652. 

Em 19 de novembro de 1652 foram os 
inquisidores da l.a instancia de parecer que 
a Ré íosse a tormento; e o deputado Bispo 
de Targa que fosse atada com a l.a correia 
e aos deputados Francisco de Miranda Hen- 
riques e Martimi António de Mello que fosse 
atada perfeitamente. 

Em 21 de novemlDro o Conselho Geral 
opinou pelo tormento sendo atada perfeita- 
mente. Foi com effeito novamente atormen- 
tada em 22 de novembro de 1652; deram-lhe 
3 voltas com a primeira correia e então inter- 
veio o cirurgião, mas ê'lla nada confessou. 

No accordam final sentencearam que D. 
Catharina da Silva fosse ao auto da fé, de 
vella accesa na mão, abjurasse de levi sus- 
peita e tendo cárcere a arbítrio dos inqui- 
sidores onde será instruída. A sentença foi 
publicada no l.o de dezembro de 1652. 

Pagas as custas foi, em 6 de dezembro 
de 1652, dada como bastante instruída nas 
coisas da fé catholica (*). 

O FILHO DE DUARTE DA SILVA É TAMBÉM 
ATORMENTADO DUAS VEZES 

Quinze anos apenas e já preso em mas- 
morra inquisitorial ! 

(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 8.133. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 317 



Foi a 10 de janeiro de 1648 que o fami- 
liar João Baptista de Cordes deitou as gar- 
ras a Trancisco Dias da Silva. Acusado de 



II 


iuíliliiL liilíiilillilIlllM — 

^^ — u-^ 


1 


-^-\ \ \ T\l 


iiik xi d 


■ 1 \ \ \ ^ ^ ^tllllitf. NMI 



Penitentes da Inquisição encaminhados por um 
inquisidor vestida de sobrepeliz e estola e na 
mão um livro. Dirigem-se a um templo (Gra- 
vura da primeira metade do século XVII). 



judaisar tamisem António da Fonseca, cai- 
xeiro de seu pae, o acusou porque, na vés- 
pera do dia de Reis, em casa de Duarte da 
Silva, onde o Fonseca estava de guarda por 



318 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



ordem dos juizes do fisco, Belchior Monteiro 
lhe comunicou, em segredo, que Francisco 
Dias asseverava que o havia de mandar 
matar, por lhe atribuir os trabalhos da casa 
paterna e, com tal fim, havia de o mandar 
esperar a deshoras, ao Convento de Bem- 
fica para ahi darem cabo d'êle (r). 

Inocentes bravatas juvenis que o Belchior 
Monteiro confirmou, mas *de que os inquisi- 
dores pouco caso fizeram. 

Em 21 de janeiro confessou que o tinham 
aconselhado a não comer carne de porco e, 
nas suas contraditas, referio-se ao furto de 
umia salva de prata praticado por uma filha 
de Beatriz Henriques a quem ele esbofeteara. 

Bagatelas porém' aos olhos dos seus jul- 
gadores que queriam' mais. Por isso em 23 
de janeiro de 1651 pareceu aos inquisidores 
Luiz Alvares da Rocha e Belchior Dias Preto 
e deputados Bispo de Targa, Estevão da Cu- 
nha e Manoel Côrte-Real de Abranches que 
devia ir ao tormento, ahi tivesse um trato 
esperto e fosse 2.a vez levantado até ao 
logar do libello; ao deputado João Delgado 
Figueira que fosse atado perfeitamente; aos 
deputados Francisco de Miranda Henriques e 
IMartim Affonso de Mello que o Réu tivesse 
um trato esperto. 

Em 26 de janeiro de 1651 o Conselho 
Geral mandou-o ir a tormento e ter um trato 
corrido e ser 2.a vez levantado até ao logar 
do libello. 

Com éffeito realisou-se o tormento a 7 



(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 5.407. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 319 



de fevereiro de 1651 mas elle só disse que 
era catholico e que morria. 

Em 14 de fevereiro de 1651 foram de 
parecer os do Conselho Geral, confirmando 
ai.* instancia,, que o Réu abjurasse de levi sos- 
peito, tivesse cárcere a arbitrio, penitencias 
espirituaes e pagasse as custas. 

Em 11 de maio porém começaram a 
fazer-lhe exame sobre os escriptos do cár- 
cere. O Réu confessou que a cosinheira se lhe 
offerecera para transmittir as suas noticias ao 
pae e confessou depois a paternidade dos 
escriptos, que adeante publicaremos. 

Em 19 de novembro de 1652 foram os 
inquisidores. Bispo de Targa, Estevão da Cu- 
nha, Manoel Côrte-Real e fr. Pedro de Ma- 
galhães de parecer que o Réu fosse a tormento,, 
atado oom a 1. a correia; ao deputado João Delga- 
do Figueira que somente fosse posto á vista 
do tormento e aos deputados Francisco de 
Miranda e Martim Affonso de Mello que 
fosse atado perfeitamente. 

Em 21 de novembro de 1652 mandou o 
Conselho Geral que o réo fosse a tormento, 
o que se realisou a 22, mas sem resultado. 
Apezar da sua pouca edade não o fizeram 
inventar culpas e culpados. 

Pela sentença final mandaram-no ir ao 
auto da fé ouvir a sentença, abjurar de levi 
suspeito na fé e cárcere a arbitrio. 

Foi publicada no dia 1 de dezembro e 
pagou de custas 5:046 rs. 



320 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



PRISÃO DE JORGE DIAS BRANDÃO, CUNHADO 
DE DUARTE DA SILVA E HOMEM 
ABASTADO — APREENDEM-LHE PAPEIS 
E ATORMENTAM-NO POR DUAS VEZES 



As prisões a que assistimos no principio 
doeste capitulo das Henriques puzeram em 
fundo sobresalto todos os parentes, natural- 
mente mais os ricos, cujas fortunas seriam 
ardentemente cubicadas. Entre estes estava o 
nosso Jorge Dias Brandão mercador e con- 
tratador de cabedal. 

Certamente por isso requereu passa-porte 
para êle e um' criado irem a Itália, alegando 
ter lá a receber muito dinheiro que lhe não 
queriam remeter. 

Puro pretexto evidentemente. 

Em' 10 de março de 1646 foi dada infor- 
mação pela Junta, dizendo que devia prestar 
fiança porque, d^outra maneira poderia não 
voltar e era grande prejuízo para o reino 
irem-se os homens de negocio. El-Rei D. 
João IV conformou-se com este parecer assi- 
nado pelo dr. Martim Monteiro, por despacho 
de 26 de março de 1646. 

Jorge Dias fioou fiado na alta protecção 
régia e as denuncias contra ele iam-se acu- 
mulando no tribunal do Santo Oficio. A^s 
Henriques sucedeu Domingos de Medeiros e 
outros e Jorge Dias, homem de cabedal 
grosso, como êle próprio se dizia, de grande 
crédito na praça de Lisboa, tendo dado a 
juros grandes partidas de dinheiro começava 
afoutam'ente e continuava com a mesma ou- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 321 



sadia grandes obras na sua quinta de Palhavã 
nas quaes á hora da prisão tinha já consu- 
mido o melhor de sete mil cruzados. 

Por isso a prisão do argentario Duarte 
da Silva o surpreencieu amargamente e a sua 
o fulminou em 14 de dezembro de 1647. Era 
êle natural de Viana da foz do Lima, filho 
de Francisco Dias, homem de negocio, e de 
Joana Brandoa; neto paterno de Jorge Dias 
e de Branca Mendes e materno de Rodrigo 
Ayres e Isabel da Silva, moradores que foram 
em Lisboa. Havia na sua família um ourives 
de Viana, Paulo Mendes; um boticário; um 
lapidario Fernão Dias da Fonseca e até — pas- 
mae oh crentes ! — freiras professas no con- 
vento de Odivelas e no de Vai de Pereiras. 
Era Jorge Dias viajado pois não só residira 
no Brasil, como peregrinara por França e In- 
glaterra. (^) 

Colhido pois inesperadamente, como vi- 
mos, aparece no processo copias de cartas 
a êle dirigidas que punham os Inquisidores 
um pouco ao facto de manejos judaicos contra 
o sagrado tribunal. 

Primeiro, uma carta escrita de Viana por 
Bento de Melo Pinto, em 27 de março de 
1646, na qual se refere a certas informações 
sobre as sobrinhas do Réo — as Henriques já 
referidas — sahirem muito honradas ; segundo 
outra escrita em 28 de fevereiro de 1646 por 
Rafael de Burgos onde vagamente se diz que 
espera sahirem com victória dos inimigos e 
refere-se ás boas conjecturas que alcançamos; 
terceiro, outra escrita de Viana por Miguel 

(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 11.752. 



322 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Velho em 17 de fevereiro de 1646; quarto, 
outra de Manoel Pinto Cardoso, escrita no 
Porto, em 12 de maio de 1646, na qual pre- 
vine o Réu que se acautele porque Faustino 
Pereira disse no adro de S. Domingos que 
Diogo Pinto faltava e fugira por ordem do 
pae; 5.« outra, escrita do Porto por Álvaro 
Lobo Tavares, em 16 de Agosto de 1646, na 
qual diz ajo Réu i^que faça vir provisão d^ El- Rei 
para se entrecrarem seus bens e sua casa toda 
a Luiz Fernandes ou a quem V. Mercê ordenar 
por tirar a justiça d\esta casa e se lhe não 
verem seus papeis, eic; 6.o outra, escrita de 
Viana, em 22 de fevereiro (sic) por Fran- 
cisco Mendes, na qual se refere a avisos que 
espera sobre a Inquisição e a negócios entre 
os dois como, ter chegado embarcação de 
Vianna, com bacalhau e breu, e pede que o 
avise se o Padre Vieira, da Companhia de 
Jesus, foi sobre abertas e publicadas a França; 
7.0 outra de 22 de março de 1646, escripta 
pelo mesmo Francisco Mendes, na qual faz 
referencia a vários segredos da Inquisição; 
8.0 outra do mesmo Francisco Mendes, escri- 
pta em 5 de abril de 1646, na qual diz cfue 
tinha estado toda a tarde com o prior de 
S. Domingos, porque correram muitas deli- 
genclas depois da prisão e me deu grandes 
alivios de bom fim, referindo-se a emulos 
^om olhos de lince; 9.» outra, do mesmo, 
escripta em 1 de março de 1646, na qual diz 
que esteve com o prior de S. Domingos, que 
lhe assegurou todas as esperanças; lO.o outra 
do mesmo, escripta em 30 de abril, na qual 
se refere ao triumpho que espera, dizendo que 
nisto se tinha mettido a Rainha; 11. o outra 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 323 



do mesmo, datada de 17 de maio de 1.646; 
12.0 outra na qual ha uma allegoria; 13.» 
outra, datada de 28 de fevereiro de 1646, do 
mesmo, na qual diz que da genie de cá não 
ha que ter cuidado. 

Interrogado sobre estas cartas em 8 de 
fevereiro de 1651, Rodrigo Ayres Brandão, o 
irmão do Réu de quem adiante nos ocupa- 
remos, cuja sorte acompanhou, declarou que 
de facto conhecia seu primo coirmão Fran- 
cisco Mendes, de Viana; que o negocio refe- 
rido nas cartas é a prisão de Clara de Me- 
deiros, Joana Mendes, Ana Castanho, Isabel, 
Maria e Bernardo de Medeiros; finalmente, 
que Francisco Mendes lhe mandara dizer para 
visitar Fr. Lopo, religioso capucho, irmão de 
D. Pedro da Costa, ao facto de taes negócios. 



INVENTARIO DE JORGE DIAS 

Em 23 de janeiro de 1648, o Réu decla- 
rou possuir: 

Uma quinta no limite de Lisboa, onde 
chamam Palhavã, que consta de casas nobres 
com sua ermida, pomar e vinhas comprada 
pelio Réu a D. Manoel Pereira Coutinho e a 
D. Ant.â da Cunha, sua mulher, por 271000 
rs. de juro, e por ella ser vinculada obteve 
D. Mamoiel provisão d^El-Rei. Para pagamento 
da quinta comprou o Róu 201000 de juroi a 
D. Brites Tibáo, mulher do senhor de Aguas 
Bellas; nessa quinta havia os seguintes mo- 
veis: uma armação de pannos de arraz, Q ou 
10, de diff crentes estofos e poderão valer até 
100^000 rs.; um caixão da índia, onde esta- 



324 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



vam colchões, peças de panno de linho e 
carros de linhas; 2 caixões feitos no Brasil, 
2 ou 4 contadores também do Brasil, um 
buffete da mesma origem e 2 ou 3 buffetes 
mais da terra; 4 quadros de paisagens; 6 
cadeiras novas e 4 tamboretes e peças d^ara- 
me que serviam na cosinha e 2501000 rs. de 
madeira que tinha para continuar a obra da 
quinta. 

D. Ant.^ da Cunha, recolhida no con- 
vento de Sanf Anna de Lisboa,, deve ao Réu 
3801000 rs. ; Francisco Bressane, italiano, ho- 
mem do oommercio,, deve ao Réu 450$000 rs.; 
Jorge Pereira, sirgueiro da R. Nova, deve-lhe 
501000 rs. e mais 53$000 rs., por ter sido 
fiador de Braz da Horta,, fugido para o Brasil; 
Francisco Teixeira Tibáo, que vive numa 
quinta a Palhavã, deve-lhe 251000 rs.; 
D. Guiomar de Sousa, sogra de Francisco 
Teixeira, atraz referido, deve-lhe 5$000 rs. 
que o Réu não quer receber por ser viuva e 
pobre; a viuva de Henrique de Barreira, mora- 
dora numa quinta juncto a Bemfica, deve-lhe 
16$000 rs.; Christovão Peixoto Cyrne deve- 
lhe quantia pela qual o Réu lhe tinha em pe- 
nhor uma colcha de setim; D. Luiz d'Almada 
deve-lhe 550$000 rs.; enumera varias dividas 
pequenas; com Lourenço Vaz Preto, juiz de 
fora em Coimbra e morador numa quinta a 
Palhavã, tem o Réu contas; D. Úrsula, reli- 
giosa no convento da Rosa, deve-lhe 121000 
rs., para cujo penhor tinha o Réu uma alcatifa; 
Christina dos Anjos, filha de Leonor Luiz, 
moradora em casa ide D. Maria de Almada, mu- 
lher do Phisioormór do Brasil, era-lhe deve- 
dora de quantia, pela qual lhe penhorara 2 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 325 



alcatifas da índia, uma colcha de Montaria e 
uma gargantilha de ouro; a D. Ignez Bote- 
lho, viuva do Dr. Baltasar Fialho emprestou o 
Réu 2 cadeias de ouro para empenhar uma 
afflicção; Manoel de Brito de Almeida, mo- 
rador na sua quinta do Lumiar, deve ao Réu 
301000 rs.; Christovão de Burgos, letrado 
despadhado para a ilha úe S. Miguel, deve 
ao Réu 261000 rs. e além d^isso mais 30$000 
rs., em penhor dos quaes lhe deixou uma 
cadeia d^ouro; Luiz da Mota da Silveira, da 
Bahia, deve ao Réu 2.500 cruzados; D. Fran- 
cisca d^Eça, moradora na Capitania dos Ilheos 
(Bahia) deve-lhe 2001000 rs. dinheiro que 
entregou aos filhos d^ella, Balthazar Peixoto, 
já fallecido, Jeronymo Peixoto, estudante em 
Coimbra e D. Úrsula, religiosa na Rosa; An- 
tónio Correia de Bulhões, procurador da coroa 
do arraial de Pernambuco,, deve ao Réu 201000 
rs.; José Rodrigues do Lago, ouvidor geral 
do Brasil, deve-lhe 601000 rs.; Luiz Fernan- 
des Lopes, natural de Ponte do Lima, levou, 
por ordem do Réu, para a índia, uma carregaí- 
ção com varias coisas; Ambrósio Pereira de 
Berredo, deve-lhe 771000 rs.; com Domingos 
Antunes, caeiro, combinou o Réu o forneci- 
mento de cal para as obras da sua quinta(,i 
a 7$000 rs. a carrada; na quinta tinha o R. 
2 castiçaes de prata que um italiano lhe em- 
penhara, uma bacia de barbear de prata, um 
jarro, 2 salvas e 1 iemhladeira (?), 3 ou 4 
colheres e garfos, tudo pertencente ao Réu; no 
armazém de Rodrigo Ayres Brandão tinha 
uma caixa de assucar branco e uma de mas- 
cavado; com Francisco Mendes, negociante de 
Vianna, tinha o Réu contas e elle dirá quanto 



326 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



O Réu lhe deve; idem, com o capitão Fran-. 
cisco de Barros, morador no Porto; idem, 
com Simão Fernandes Dias, também morador 
no Porto; idem, com Francisco Pereira, mora- 
dor no Porto; idem, com Jeronymo Gomes 
Pessoa, Fernão Rodrigues Pinto e Gonçalo, 
homens de negocio de Lisboa; idem, com Ma- 
noel Rebello e Manuel Fernandes Brandão, 
mercadores de loja de sedas na R. Nova; a 
D. Maria de Almada, mulher do phisico-mór 
do Brasil, devia o Réu 380$000 rs. que tem 
pago, estando só a dever 25$000 rs. ; a An- 
tónio Coelho, almoxarife dos vinhos, deve 
54$000 rs.; deve ao carpinteiro e pedreiro que, 
nas suas obras de Palhavã, trabalhavam na 
occasião da prisão; a Duarte Gomes da Matta 
pedio 1301000 rs. e empenhou-lhe para isso 
10 ou 12 pratos de prata, oito dos quaes eram 
de Rodrigo Ayres Brandão; em sua casa tinha 
também 2 alcatifas da índia e 1 ou 2 tapetes. 

Em 7 de fevereiro de 1648 continuou a 
declarar que António Luiz de Oliveira, filho 
de Diogo Luiz de Oliveira, deve o Réu 701000 
rs. e outras dividas pequenas; 

Em 20 de maio de 1648 declarou ter man- 
dado fazer uma cadeira de mãos de velludo 
carmesim por ordem de Francisco Alvares, 
por causa da qual tinha contas com João de 
Sousa, latoeiro, por causa das ferragens; 

Em 14 de julho de 1648 declarou mais 
pertencer-lhe a 4.a parte de uma carregação 
de uma caravella que tinha por mestre An- 
tónio Gonçalves Mealhada; 

Em 27 de agosto de 1648 declarou que 
recebeu de Vianna, de António Rodrigues 
Pinto, 80.f000 rs. para enviar para resgate 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 327 

de um captivo, o que não poude fazer por 
causa da sua prisão; 

Em 7 de setembro de 1648 declarou que 
Bento de Brito, morador em Liorne, lhe remet- 
teu 14 peças de velludo; 

Em 29 de janeiro de 1649 declarou que 
tinha contas com António Alvares, mestre de 
uma náo inglesa; que emprestou por 2 vezes, 
dinheiro a D. Luiza de Noronha, religiosa db 
mosteiro de Odivellas, sobre vários penhores 
de prata e sobre uma colòha branca, franjada 
de retroz branco; e que na sua quinta tinha 
um captivo por 25$000 rs. cada anno. 

Entre os seus bens avulta a quinta de 
Palhavã. 

Declarou o Réu, como vimos, tê-la com- 
prado a D. Manoel Pereira Coutinho. 

D. Manoel Pereira Coutinho era capitão 
de uma companhia de infantaria no exercito 
do Alemtejo. Pedio mil cruzados emprestados 
a António Gomes d' Elvas, hipotecando-lhe as 
propriedades do seu morgado mas como a 
guerra o preocupava mais que a administra- 
ção da sua casa não pagou no tempo devido. 
O credor requereu execução, mas ahi veio a 
munificência régia mandando suspender a exe- 
cução emquanto andasse ocupado na defesa 
da pátria. Tem o alvará a data de 10 de 
abril de 1641 (Doações de D. João IV, liv. 
12, fl. 76). 

Mais tarde, em 17 de agosto de 1645, 
foi autorisado a trocar as bens do seu mor- 
gado, instituido por Leonor Anes, que consta 
de duas quintas, uma vinha e umas casas 
térreas, taberna, pomar e vinhas, em Palhavã; 
pelas casas na calçada de Paio de Navaes 



328 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



que pertenciam ao morgado de João Gomes 
da Silva. Este tinha em Palhavã uma quinta 
que confinava com a de D. Manoel Pereira 
Coutinho (Doações de D. João IV, liv. 19, 
fl. 63). 

Devia ser uma doestas a quinta com sua 
ermida onde Jorge Dias Brandão consumia 
o seu dinheiro para afinal vir o 2.o conde 
de Sarzedas, D. Luiz da Silveira, aproveitar-se 
e gozar d^essas bemfeitorias em 1656, se não 
ha erro na identificação bastante dificil por 
haver mais d^uma quinta chamada quinta de 
Palhavã, pois, além das duas de que falá- 
mos, ambas em Palhavã, encontrámos nos 
assentos paroquiaes de S. Sebastião da Pe- 
dreira referencia a uma senhora D. Maria de 
Mesquita, moradora em 1620 na sua quinta 
de Palhavã. 

Em 12 de outubro de 1648 veio o Réu 
com a sua defesa, tendo tido para advogado 
o Ldo. Luiz Ferrão. Nella allega em seu 
favor o seguinte: servir na confraria do Se- 
nhor, de S. Mamede, fazendo festas á sua 
custa e mandando fazer também um sepul- 
chro para 5.» feira de endoenças; por occa- 
sião da sua prisão servia a confraria de S. 
Sebastião da Pedreira; sérvio N. Senhora do 
Parto da igreja de S. Crispim e no Brasil 
sérvio varias confrarias; todos os Domingos 
mandava dizer missa em umia capella que 
tinha na sua quinta de Palhavã, etc. Citou, 
entre outras testemunhas: Rodrigo de Ceita Fer- 
rão.,: morador em Palhavã; Dr. Lourenço Vaz 
Preto^ idem, etc. Com effeito algumas das teste- 
munhas citadas foram interrogadas em 17 de 
março de 1649. A testemunha Ruy de Ceita 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 329 



Ferrão, familiar do Santo Officio, e almo- 
xarife das 7 casas,, foi interrogado em 20 de 
março de 1649. Disse que é verdade que o 
Réu em S. Sebastião da Pedreira mandou fazer 
uma festa com boa musica; que todos os 
Domingos e dias sanctos mandava buscar 
padres, no seu macho, para dizerem missa na 
sua capella de Falhava. O Padre Urbano da 
Silva, prior de S. Mamede, disse que ia ás 
vezes dizer missa na capella do Réu em Palhavã 
e elle o ajudava com devoção. O Padre Paulo 
Carreira d^Almada, cura da freguezia de S. 
Sebastião da Pedreira,, disse que o Réu quando 
o prenderam, era juiz da confraria de Jesus 
de S. Sebastião da Pedreira. Em 12 de 
dezembro de 1650 foi interrogado Francisco 
Teixeira Tibáo, que vive á lei da nobreza na 
sua quinta juncto a Sete Rios. 

Em 27 de outubro de 1650 veio o Réu 
com as suas contraditas. Sobre ellas foram 
interrogados: António Pereira de Viveiros que 
só fallou na inimizade do Réu com Fernão 
Martins, por lhe ter morto um cunhado numa 
briga, tendo estado por isso preso no Li- 
moeiro e também com Jeronymo Correia. Em 
22 de novembro foi interrogado Francisco 
Gomes Henriques, o Forragaitas, e seu filho 
Gregório Gomes Henriques. Ainda por causa 
doeste réo foram interrogadas varias pessoas 
em Braga, e no Porto, entre outros, Damião 
Cardoso, escrivão dos aggravos na Relação, 
de 70 annos, interrogado em 13 de dezembro 
de 1650. M 

Em 24 de janeiro de 1651 disse o "Réu 
que se costumava corresponder com: capitão 
Francisco de Barros, "Faustino Pereira, Damião 



330 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Cardoso e F. Dias, todos do Porto; Fran- 
cisco Mendes, Bento de Mello Pinto e An- 
tónio Lopes Ortiz, moradores em Vianna; em 
Amsterdam correspon'dia-se com Bento Osório 
e Duarte de Palácios; em Hamburgo com os 
herdeiros de Duarte Esteves de Pina e Carlos 
Lamfiort; em Veneza oom José Peres; em 
Leorne com Rafael de Peralta e António Men- 
des Henriques. 

Em 27 de janeiro de 1651 foi novamente 
interrogado Jorge Dias Brandão sobre as 
cartas a que atraz faço referencia^ negando 
a paternidade da que não estava por elle 
assignada. 

Em 15 de fevereiro de 1651 foram os 
inquisidores de parecer que devia ser posto 
a tormento, o que foi confirmado pelo Con- 
selho Geral em 28 de março, devendo ter 
no tormento um' trato esperto e outro 
corrido. 

O tormento realisou-se^ com efeito, em 
22 de abril de 1651; examinado porém pelo 
cirurgião-mór e pelo cirurgião Balthazar Tei- 
xeira disseram que o R. era quebrado de 
ambas as virilhas e tinha aímorreim,as e por 
isso não podia levar tormento esperto na polé 
nem no potro e só o podia levar corrido e 
soccorrido. Por isso foi atado com a 1.» 
correia, depois com a segunda, megiando sempre 
a falta e chamando por Jesus, foi levantado 
e lhe deram um trato corrido. 

Em 5 de setembro de 1651 foram os do 
Conselho Geral de parecer que elle tivesse cárcere 
a arbitrio, pagasse 500 cruzados para as des- 
pezas do Santo Officio. Acresceram-lhe porém 
mais culpas. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 331 

EJm 19 de junho de 1652 foi inte^ 
rogado especialmente sobre os escriptos secre- 
tos trocados na prisão. Apresentou contraditas 
ao libello e, por causa doestas, foi interrogado 
no Porto Damião Cardoso, morador na rua 
das Flores, de 70 annos, escrivão dos aggra- 
vos na Relação do Porto, a quem atrás aludimos. 

Em 5 de setembro de 1652 pareceu aos 
inquisidores e deputados Martim Affonso de 
Mello e Fr. Pedro de Magalhães que se devia 
repetir o tormento; ao inquisidor Pedro de 
Castilho que elle seja atado perfeitamente; 
ao inquisidor Luiz Alvares da Rocha e depu- 
tado Martim Affonso de Mello que tenha 
2 tratos espertos; ao inquisidor Belchior Dias 
Preto que tivesse 2 tratos corridos; aos depu- 
tados Francisco de Miranda Henriques, Es- 
tevão da Cunha e Manoel Côrte-Real de 
Abranches que ficasse reservado no cárcere. 

Com effeito, em 10 de setembro de 1652, 
o Conselho Geral foi doeste ultimo parecer. 
Em 19 de novembro porém já o Conselho 
Geral dava o seu parecer para o Réu ir nova- 
mente a tormento. O tormento realisou-se 
effectivamente em 20 de. novembro de 1652 e, 
começado a atar, negou as culpas; dando-lhe 
a l.a volta disse que queria misericórdia e 
pedio o auxilio da Virgem Sanctissima e, 
sendo então admoestado, disse: 

llLustrissinto, não tenho culpas e, continuan- 
do as voltas disse que morria. 

Na sentença final é determinado que 
vá a^o auto da fé na forma do costume,, 
em corpo e com vella accesa na mão, faça 
abjuração de vehemente suspeito, com cárcere 



332 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



a arbítrio dos inquisidores e deverá pagar as 
custas. 

Esta sentença foi publicada no auto da 
fé de 1 de dezembro de 1652 e, em 11 de 
dezembro de 1652, foi finalmente solto. 



O OUTRO CUNHADO DE DUARTE DA SILVA, 
RODRIGO AYRES BRANDÃO — COMO 
CONSEGUE ILUDIR A VIGILÂNCIA IN- 
QUiSITORIAL MANDANDO ESCRIPTOS 
PARA FORA - TENDO SOFRIDO O 
MÁXIMO DO TORMENTO POR POUCO 
NÃO É CONDEMNADO Â MORTE 



Rodrigo Ayres Brandão foi preso no 
mesmo dia 14 de dezembro de 1647 (i). 
Irmão de Jorge Dias Brandão teria ao tempo 
quarenta e dois anos de edade. Apezar de 
novo tinha ido já á Biscaia, a Madrid, a 
Valência e por varias vezes assistio no Brasil. 

Foi denunciado, em 30 de junho de 1647, 
I>elo preso Bento da. Costa Brandão, porque, 
estando no Rocio com o conf itente, com Mar- 
tim Affonso da Costa, christão novo, contra- 
ctador e com seu creado Bento pae, Álvaro 
Gomes Bravo e com Rodrigo Ayres, alludi- 
ram ao jejum de Quipur. Também foi culpado 
por: Francisco da Silva e Domingos de Me- 
deiros,, sobrinho do Rodrigo; por João Velho Be- 
zerra, morador em Pernambuco em 24 de feve- 



(1) Inquisição de Lisboa, proc. n.o 4.107. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 333 



reiro de 1643 e pelo preso Leandro de 
Medeiros, seu sobrinho. 

Em 13 de abril de 1652 o preso João 
Lopes, agora no cárcere da penitencia, veio 
dizer que, haveria anno e meio, tendo no 
cárcere por companheiro Rodrigo Ayres, natu- 
ral de Vianna e António Lopes Savedr»i, cor- 
"•eu que se faria um auto da fé e nelle sahiria 
António Lopes Savedra. 

Então Rodrigo Ayres fez alguns escriptos 
em pedaços de papel, que seriam 14 ou 15, 
e pedio á testemunha para os coser nas pal- 
milhas das meias do António Lopes e entre 
os calções e respectivos forros. Assim fez e 
para isso^ palmilhou umas meias de seda apa- 
vonadas com as soleias das palmilhas dobra- 
das e eatre coiro e coiro metteu alguns dos 
papeis e outros pelas ilhargas dos calções, os 
quaes eram de estamenha parda, guarnecidos 
de rendas apavonadas. O Rodrigo prometteu a 
António Lopes que lá fora lhe dariam um 
vestido de baeta comprido e uma roupeta for- 
rada de tafetá. 

Em 16 de abril de 1652 depôs António Lo- 
pes d'^ Savedra,, mas 0|Seu depoimento foi já tras- 
ladado no processo de Duarte da Silva e 
acrescentou que os escriptos atraz referidos 
eram além de Rodrigo Ayres, de Jorge Dias e 
de Duarte da Silva e António Lopes os devia 
entregar á ínulher de Riodrigo Ayres. Nesses escri- 
ptos Rodrigo Ayres dizia á mulher que, oom D. 
Branca da Silva, fossem ter com El-Rei para 
ver se elle, o irmão e cunhado, sabiam livres 
depressa, como acontecera a Jorge Lopes da 
GarQ,a que devia ter sabido com a protecção 
d^ El-Rei, por causa de Manoel da Gama, seu 



334 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



irmãio E desconfiava Rodrigo Ayres dMstO' porque 
o não sentia escarrar no corredor, como 
d^antes. Também Rodrigo Ayres o encarregou de 
fazer varias visitas, entre as quaes á con- 
dessa de Serem, grande amiga do Réu. 



INVENTARIO Dli RODRIGO AYRES BRANDÃO 



Em IQ de fevereiro de 1648 foi R.« Ayres 
interrogado sobre o inventario. Declarou que 
não tinha bens alguns de raiz e dos movei? 
enumerou: Um prato e jarro de prata; um 
saleiro grande; umas galhetas; duas saJvas; 
dois castiçaes; uma bacia de pés de cama; 
colheres, garfos e facas de praia; tembla- 
deiras (?) ; em casa de Sebastião Nunes, ce- 
reeim tinha vários objectos empenhados. 

Rodrigo Ferandes Trancoso, residente no 
Rio de Janeiro,, deve ao Réu o resto de umas car- 
regações; Luiz da Motta Silveira, morador na 
Bahia, também lhe deve; tinha contas com 
varias pessoas. Duarte da Silva, cunhado do 
Réu, pedio-lhe para depositar, em razão de 
uma demanda, uma abotoadura d^ouro com 
diamantes que o Réu tinha em seu poder e era 
do conde d^Obidos, D. Vasco Mascarenhas; 
D. Felippe de Moura deve. ao Réu 300 mil 
reis que lhe pedio emprestados a 6 V4 ^/o. 

Fez vários despachos na alfandega de 
assucares, sedas e chumbo, de sociedade com 
Duarte da Silva. Pára o apresto da armada 
que no anno passado foi para o Brazil em- 
prestou o Réu mil cruzados, para servir S. M.; 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 335 



D. Branca da Gama, mãe de D. Luiz da 
Gama, deve-lhe 1201000 rs., como herdeira 
de D. João da Gama, seu filho, ao qual 
o Réu emprestou essa quantia quando passou 
ao Brazil, em companhia do marques de 
Montalvão; Francisco Peres da Silva, tenente 
general, morador em Elvas, deve-lhe 30$000 
rs. emprestados na Bahia; Bernardo Velho 
Lobo, morador em Vianna, deve-lhe 261000 
rs. que lhe emprestou quando veio como pro- 
curador de Vianna ás cortes passadas; Ant.o 
d€ Sousa de Menezes, morador em Vian- 
na, deve ao Réu 16$000 rs.; Tristão da Cunha 
de Athayde deve ao Réu cento e tantos mil 
reis; D. João de Almeida alcaide-mór de Al- 
cobaça, deve ao Réu 2001000 rs. a 6 1/4 ^/o ; 
Luiz Correia da Silva, que foi abbade de 
Lordello, deve-lhe 281000 rs.; Sebastião Gon- 
çalves de Alvellos, morador juncto á igreja 
de S. José, deve-lhe 186^000 rs.; Bento de 
Sá de Miranda, morador em Coimbra ou Con- 
deixa, deve-lhe 32$000 rs. que lhe emprestou 
na Bahia; os herdeiros de D. Thomaz Velas- 
ques Sarmento devem-lhe 2001000 rs. do que 
é sabedor seu cunhado Alonso de Cisneiros; 
D. Joanna Coutinho, recolhida no convento 
de Lorvão, deve-lhe 20S000 rs.; tinha contas 
com Fernão Rodrigues Penso e outros; com 
Simão Fernandes Dias, do Porto, tinha contas; 
o capitão Duarte Lopes Ilhoa empenhou ao 
Réu em 101000 rs. umas contas de tartaruga 
engrazadas em prata e uma salva de prata 
com um púcaro do mesmo metal, declarando 
que pertenciam a uma religiosa do convento 
de Odivellas. Manoel Esteves Carreira, pro- 
curador das religiosas do convento de Santa 



336 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Martha, pedio ao Réu 101000 rs. emprestados, 
dando-íhe em penhor uma colcha usada e um 
pavilhão de pouca valia; Sebastião Nunes, 
cereeim, emprestou ao Réu dinheiro, dizendo 
ser de António Telles da Silva; D. Manoel 
Rolim de Moura, também lhe havia pedido 
dinheiro emprestado, dando como penhor 2 
cadeias d^ouro. uma 'bandeja e uma confei- 
teira com outras peças de prata; Maria Ferraz, 
com tenda,, empenhou ao Réu oito almofadas de 
estrado de velludo carmesim bordadas com 
retalhos de tella e torçal de ouro e se*da, 
1 cama de damasco carmesim com alamares e 
franjas de ouro, retroz e alp\aravazes de vel- 
ludo,, por 65 mil reis, declarando ao Réu que 
esses objectos pertenciam a D. Luiza Guedes, 
viuva do Dezembargador Bartholomeu Gon- 
çalves de Castelbranco ; o Padre Manoel Nu- 
nes Peniche, beneficiado em S. Nicolau pedio 
emprestados ao Réu 6$000 rs. e para isso lhe 
empenhou um annel, umas contas de páo do 
Maranhão com extremos de ouro e cruz tam- 
bém de ouro; Sebastião Nunes, familiar do 
Santo Officio emprestou ao Réu 3601000 rs.,. 
empenhando-lhe T cadeias de ouro, dos quaes 
emprestou 300^000 rs. a Ruy de Ceita Fer- 
rão, almoxarife dos vinhos, a quem pertencem 
6 das ditas cadeias; D. Manoel Sarmento, 
filho, de Thomaz Velasques,. pedio ao Réu 
122$000 rs. emprestados, empenhando para 
isso um trancelim de ouro com pedras brancas 
de cristaes e um annel com um diamante e 
uma cadeia d^ouro, obra das índias, e um 
irmão d^elle, D. Pedro, foi na armada de 
1647 ao Brazil; também o Réu emprestou a 
D. Manoel Sarmento, para ir para a sua casa 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 337 



de Penella, 14$000 rs. e, como penhor d^isto, 
deu-lhe um habito de Aviz, com alguns dia- 
mantes, e um saleiro de prata pequeno, dou- 
rado; o tio doeste D. Manoel Alonso de Cis- 
neiros, morava na rua Direita do Loreto; 
com Bento de Araújo, morador na Bahia, 
tinha contas e elle por conta lhe remetteu 
um vestido de damasco para a mulher do Réu^ 

Em 5 de outubro de 1648 apresentou a 
sua defesa, assignada por Luiz Ferrão, seu 
advogado. Nella allegou o Réu que tinha per- 
tencido a varias confrarias,, quer em Lisboa, quer 
na Bahia, ora como escrivão, ora como juiz, 
etc. Citou, como testemunhas, entre outros: 
o marquez de Montalvão; o filho doeste, conde 
de Serem; o criado doeste Belchior Rangel de 
Macedo; Jacintho Fagundes Bezerra, secreta- 
rio do Paço; Tristão da Cunha de Athayde 
que mandava muitas lampreias ao Réu; D. Ma- 
noel Rolim"» que mandava ao Réu muitas mar- 
ras e coelhos. 

Em 12 de dezembro de 1650 foi interro- 
gado o Dr, António de Sousa de Tavares, 
Dezembargador dos Aggravos, de 50 annos 
de edade; no mesmo dia foi interrogado 
Fernão Gomes da Guarda, homem de negocio, 
morador ás Janellas Verdes, cunhado do Réu, 
isto é, casado com uma irmã da mulher 
do Réu. 

Nas testemunhas de contraditas foram 
interrogados: o Forra Gaitas; António Pe- 
reira de Viveiros; Manoel Barbosa Dantas; 
Sebastião Nunes de Lisboa, morador ao Poço 
de Borratem; Luiz Lopes Franco, homem de 
negocio, etc. 



338 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Em 22 de março de 1651, foram os inqui- 
sidores da l.a instancia de parecer que devia 
ir a tormento: aos inquisidores Luiz Alvares 
da Rocha e Belchior Dias Preto, deputados 
Bispo de Targa e Martim Affonso de Mello pa- 
receu que devia ter 2 tratos corridos e ser outra 
vez levantado até o logar do libello; os inqui- 
sidores Pedro de Castilho e deputado Maneei 
Côrte-Real de Abranches, que tivesse um trato 
esperto; ao deputado João Delgado Figueira 
que levasse um trato corrido; ao deputado 
Francisco de Miranda Henriques que tivesse 
todo o tormento. Em 28 de março de 1651 
o Conselho Geral foi de parecer que o Réu, 
posto a tormento, tivesse 2 tratos corridos e 
levantado pela 3. a vez até ao logar do libello. 

Realisou-se o tormento em 22 de abril 
de 1651. Começado a atar com os primeiros 
cordéis, chamou por Jesus, Maria e Virgem 
do Rosário e deram-lhe os 2 tratos corridos 
e levantado 3.» vez. 

Em 5 de setembro de 1651 foram os 
inquisidores da l.a instancia de parecer que 
o Réu devia ir ao auto da fé, abjurar de levi 
sospeito, cárcere a arbitrio, e pena pecuniária. 
Quanto a esta os inquisidores e deputados 
João Delgado Figueira, Francisco de Miranda 
Henriques, Estevão da Cunha e Manoel Côrte- 
Real de Abranches foram de parecer que devii 
pagar 200 cruzados; o Bispo de Targa e Mar- 
tim Afonso de Melo que pagasse 400 cruzados. 

Em 5 de setembro de 1651 foi confirmada 
a sentença pelo Conselho Geral. Não chegou 
a ser lavrada a sentença final. 

Em 16 de abril de 1652 foi R.o Ayres 
interrogado por causa da correspondência clan- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 339 



destina. Confessou-a e acrescentou ao depoi- 
mento já extractado sobre o caso que os 
escriptos para fora foram feitos em tiras de 
papel impresso que lhe haviam dado com 
assucar; que o- Réu foi enfermeiro de Antó- 
nio Lopes Savedra, seu companheiro de 
cárcere. 

Por causa das culpas que lhe acresce- 
ram teve de vir oom nova defesa. Apre- 
sentou varias testemunhas e, entre ellas, o 
capitão André Botelho, seu companlieiro de 
cárcere, o qual disse que o Réu passava no 
cárcere a maior parte do dia a rezar por umas 
Horas d'e N. Senhora e por umas camandulas 
e até de noite faz isso. 

Em 3 de setembro de 1652 foram os 
inquisidores Pedro de Castilho, e deputados 
António de Mendonça, Martim Affonso de 
Mello e Fr. Pedro de Magalhães de parecer 
que o Réu ficasse reservado no cárcere; ao 
inquisidor Belchior Dias Preto e Martim 
Affonso de Mello pareceu que elle devia ser 
]X}sto novamente a tormento, tendo o trato 
todo que pudesse; ao inquisidor Luiz Alvares 
da Rocha, deputado Francisco de Miranda 
Henriques e Manoel Corte Real de Abranches 
pareceu que devia ir ao auto e ser en- 
tregue á cúria secular, com confiscação de 
bens. 

O Conselho Geral, em 10 de novembro 
de 1652, mandiou-lhe applicar todo o tor- 
mento que pudesse ter. Realisou-se este tor- 
mento em 20 de novembro de 1652 e ata- 
ram -no com 6 voltas, 2 em cada perna, e 
duas no braço direito e no outro braço tinha 
uma fonte e dando-se-lhe voltas começou a 



340 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



dizer que morria, que lhe acudissem, dhamandb 
pela Virgem, etc. 

Pela sentença final é o Réu mandado abju- 
rar de vehementi sospeito, cárcere a arbitrio 
e pague as custas. Foi lida a sentença no auto 
de 1 de dezembro. As custas do processo são 
121765 rs. 



COMO A PRISÃO DE DUARTE DA SILVA FEZ 

SENSAÇÃO ATÉ JUNTO DOS DEGRÂOS 

DO THRONO 



Temos de retroceder um pouco para só 
vermos na frente a figura principal e de maior 
prestigio* doeste tenebroso e trágico trama, a 
potencia monetária e financeira do tempo, 
esteio e apoio económico do vencedor da 
revolução de 1640, o israelita português, 
Duarte da Silva. 

Do processo movido a Gaspar Clemente 
atrás largamente referido respigaremos pois 
os seguintes depoimentos elucidativos dos 
(pormenores doesta prisão, além dos já refe- 
ridos em logar próprio. 

Em 13 de dezembro de 1647 Álvaro de 
Lima, escrivão d!a correição do crime, disse 
que, a Q doeste mês, estando a jogar, no 
Rocio, em casa do corregedor Pedro Alvares 
Sêcco, defronte d'ondc ele estava ficava Pedro 
Alvares Moreira, morador junto da egreja da 
Victoria e estavam também: Manoel Freire de 
Mattos, alcaide, morador nos arcos do Rocio; 
Luiz Angel ique tem o habito de Christo, 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 341 



morador á entrada da Caldeiraria; Gonçalo 
Rodrigues, sobrinho doeste, que tem o hábito 
de Sant^Iago; Leonardo Ximenes; António de 
Sequeira Pestana, procurador da villa de 
Arronches ás cortes, morador numa estalagem 
defronte do paço que foi das comedias. Es- 
tando assim todos fallaram na prisão de 
Duarte da Silva e ouvio dizer que tinham 
feito uma juncta no Santo off.o e decidido que 
se sobrestivesse na prisão de Duarte da Silva 
e que um ministro do Santo off.o, estando 
com Duarte da Silva, lhe dissera que era bom 
ter amigos em toda a parte. 

Em 19 acrescentou que o dr. Pedro Vieira 
da Silva, secretario d^Estado, mandara cha- 
mar Francisco Botelho Chacão, mercador, mo- 
rador ao terreiro dos Martyres e lhe dissera 
que o seu cunhado Duarte da Silva andava 
para fugir de Portugal, ao que Chacão res- 
pondeu que não era seu cunhado, mas seu 
amigo. Pedro Vieira da Silva perguntou-lhe 
então se elle queria ser fiador de Duarte da 
Silva e Chacão respondeu que sim. A Inqui- 
sição mandou fazer diligencia sobre o facto 
e, como visse tudo socegado, fizeram a junta 
a que a testemunha se referio no l.o depoi- 
mento. Isto foi contado por Chacão a Gonçalo 
Rodrigues Angel, em presença do dr. Paulo 
da Fonseca. 

Em 20 de dezembro de 1647 foi interro- 
gado o Dezembargador da Casa da Suppli- 
cação, P.o Paulo de Sousa, mas nada disse. 

Em 20 de dezembro de 1647 foi interro- 
gado Gonçalo Rodrigues Angel, cavalleiro do 
habito de Sanflago, morador a Sete Coto- 
vellos, e contou o já referido por Álvaro de 



342 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Lima no 2.» depoimento, acrescentando que 
Pedro Vieira da Silva tinha dito ao Chacão 
para dizer a Duarte da Silva que lhe pedisse 
para este ser fiador d'elle. Que depois d'isto 
Duarte da Silva fora fallar com El-Rei, asse- 
gurando-lhe que não tinha intenção de se 
ausentar, senão de o servir. Disse finalmente 
que lhe constava que Duarte da Silva tinha 
amigos no Santo off.o que eram: F. João de 
Vasconcellos e o Bispo do Porto. 

Em 3 de janeiro de 1648 foi interrogado 
Francisco Botelho Chacão e declarou que: 
haverá anno e meio, estando El-Rei em Al- 
cântara, foi a testemunha lá chamada pelo 
secretario d' Estado, Pedro Vieira da Silva o 
qual lhe disse que El-Rei sabia que Duarte 
da Silva queria fugir e por isso o havia de 
mandar prender se Duarte da Silva lhe não 
desse fiador, do que Chacão prevenio Duarte 
da Silva. Disse mais que, pouco depois do 
que passou com o secretario d^ Estado, foi a 
casa do Dr. Sebastião César, Bispo do Porto, 
por causa de negócios do serviço d' El-Rei^ 
e fallando em Duarte da Silva contou a tes- 
temunha o que passara com o secretario d^ Es- 
tado e Sebastião César lhe respondeu que bom 
era ter amigos em toda a parte. 

Em 8 de janeiro de 1648 veio Chacão 
additar o seu testemunho, dizendo que, poucos 
dias depois da prisão de Duarte da Silva, 
foi a testemunha a casa d^elle visitar Jorge 
Dias Brandão e, fallando na prisão, lhe disse 
Jorge Dias que El-Rei sentira tanto a dita 
prisão que fizera ir á sua presença os inqui- 
sidores para se procurar algum meio de a 
atalhar ou dilatar. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 343 



INTERROGATÓRIOS DO RÉO — NOVAS DENUN- 
CIAS — DOIS PROCESSOS ÁS COSTAS 
— ILUDINDO A VIGILÂNCIA DOS ES- 
BIRROS INQUISITORIAES CORRESPON- 
DE-SE COM MANOEL FERNANDES VILA 
REAL E COM OS PARENTES - DUAS 
D'ESSAS CARTAS APANHADAS EM BO- 
CADINHOS PELOS INQUISIDORES SÃO 
POR ELES restituídas E AGORA 
PUBLICADAS 



Encerrado nas lúgubres masmorras inqui- 
sitoriaes vamos assistir agora aos apertados 
interrogatórios que o Santo Officio lhe urdio. 
Alguns da praxe regimental, outros porém 
especiaes para o Réu. 

A 27 de janeiro de 1648 começou com 
as declarações respeitantes ao seu inventario, 
que prolongou durante mais oito audiências. 
Merecem largo extracto, embora recordemos 
que não faltarão as dividas fantásticas e 
outros subterfúgios usuaes aos abastados 
israelitas que pretendiam livrar o máximo do 
fisco inquisitorial. 

Declarou ele pois dever a Diogo de Ara- 
gão Pereira, morador na Bahia 6008000 rs.; 
a António da Silva Pimentel, também morador 
na Bahia, além do constante do seu livro 
Razão, duas caixas de assucar; a Diogo de 
Aragão Pereira 3001000 rs. de caixas de assu- 
car que foram ao Fayal; a Paulo Antunes 
Freire, morador na Bahia, o que declara o 
seu livro Razão; a Diogo Moniz Telles, mo- 
rador na Bahia, metade de cinco caixas de 



344 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



assucar branco, metade de seis caixas de pa- 
nella (sic) vindas a Lisboa, metade de cinco 
caixas de panella que foram á ilha Terceira; 
ao capitão Francisco de Barros * deve 6 
cargas de linho e os gastos das entradas e 
sabidas de quatro caixas de tabaco do Brazil; 
a Pedro Franco d^Albuquerque, morador em 
Liorne, 4.000 cruzados; a Ruy Lopes da Silva^ 
de Roma, 300S400 rs. e 6001000 rs. de um 
credito dado a D. João da Costa; a Fran- 
cisco Nunes Sanches, de Roma, a quarta parte 
do rendimento de certa seda em rama e a 
terça parte dos tafetás; a Gaspar de Paiva, 
em Roma, o que constar; a Henrique Gil da 
Veiga, morador em Liorne, 800^000 rs. de 
metade de 59 peças de tafetá de catella; 
com António de Franchy, António e Simão 
Mendes d^Almeida tem contas e deve-lhes 
1:8001000 rs. de nove fardos de seda; a 
Francisco da Serra, fallido, deve metade do 
rendimento de LI 96 sacas de arroz; a Diogo 
Mendes,, morador em Lisboa, deve 34 caixas de 
assucar do Rio de Janeiro que Duarte da 
Silva mandou para Hollanda; a António Pe- 
reira de Viveiros todas as corretagens con- 
stantes do seu livro, 301000 rs., uma peça 
de seraphina vermelha, 16 peças de seraphi- 
nas, 50 peças de bombasina e 42 quintaes 
de bacalhau; com Jorge Dias Brandão tinha 
contas antigas e está por tudo o que elle 
disser; a Rodrigo Ayres Brandão devia 3.000 
cruzados pouco mais ou menos; a vários, fretes 
de caixas; a Manoel Francisco Migueis frete 
de 7 caixas e rolos de tabaco Haver; Jorge 
Dias Brandão tinha em sua casa um sacco 
de dinheiro, com 380 e tantos mil reis; em 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 345 



casa d'elle Réu havia 30 fardos de seda em 
rama, valendo 38.000 cruzados, a quarta 
parte da qual pertencia a Francisco Nunes, 
morador em Roma, a outra quarta a Antó- 
nio e Simão Mendes d^Almeida, moradores 
em Veneza; em sua casa estão 100 peças de 
tafetá singelo, a terça parte das quaes pertence 
a Francisco Nunes Sanches, de Roma e outra 
terça a António e Simão Mendes d' Almeida; 
em casa tem uma caixa grande de roupa da 
índia fina de Bonina de 80 xerafins a corja; 
em sua casa tem uma caixa de banequís (?) 
finios; idem 366 maços de seda floxa (?) per- 
tencentes a António de Franchy e António 
e Simão Mendes d^Almeida, moradores em 
Veneza. 

A fazenda real é-lhe devedora de 30 mil 
cruzados, metade dos quaes pertence a Fran- 
cisco Botelho Chacon; de 5.000 cruzados de 
biscoito; 24.000 cruzados do resto da conta 
do assento do Brazil; 3 folhas de pelouros, 
dos quaes elle e Francisco Botelho Chacon 
deram satisfacção nos armazéns de artilharia; 
uma folha de 1 :320 e tantos mil reis do resto 
do assento da pólvora de 1645; 25.000 cru- 
zados de um assento de armas, murrão, chum- 
bo e pelouros; de um assento para elle Réu, 
e Francisco Botelho Chacon proverem as 
fronteiras de 2.000 quintaes de pólvora e de 
mil quintas de cobre,; recebeu o RéiU 45.000 
cruzados; ao almoxarife da torre da pólvora 
entregou 100 barris de pólvora que o conde 
d' Odemira tomou para o soccorro de Sal- 
vador Correia de Sá ao Rio de Janeiro; 
por ordem d^El-Rei pediram-lhe credito para 
que, em Flandres, se dessem 100 mil cruzados 



46 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



para comprar 16 galeões de serviço do reino^ 
dos quaes ainda liie devem 70.000 cruzados; 
O' Réu e Francisco Botelho Chacon entregaram 
nos armazéns cento e tantos quintaes de pe- 
louros; na índia, em Affonso Monhoz, tinha 
12 mil xerafins, que são 9.000 cruzados; 
Affonso Morihoz era-lhe devedor de 1 :200$000 
rs., para pagamento da qual quantia estavam 
em Anvers certos diamantes ainda por vender; 
na índia tinha o Réu,, em mão de João dos 
Reis, um resto de 4 caixas de coraj; para 
a índia mandou certas caixas de coral, e 
nellas coral redondo lavrado e outras mais 
que valerão 14.000 cruzados; em 5 de de- 
zembro mandou o Réu para os portos de Per- 
nambuco uma caravella para lhe trazer 150 
caixas de assucar, levando um carregamento 
que valeria 8.000 cruzados; em outra cara- 
vella mandou o Réu 3.000 cruzados em dinheiro 
e 1.500 cruzados em fazendas; para o Rio de 
Janeiro mandou varias carregações e por troca 
tem recebido 6.000 cruzados em assucares; 
para a Bahia mandou o Réu carregações de 
dinheiro e fazendas para em troca receber 
assucares e tabaco; numa caravella que estava 
para partir para os portos de Pernambuco 
tinha 3.000 cruzados de fazendas e esperava 
150 caixas de assucar; em Itália tinha o Réu 
2 carregações de assucares para vender, com 
120 caixas; em Hamburgo, na mão da viuva 
e herdeiros de Duarte Esteves de Pina,; tinha 
carregações de assucares e diamantes por 
vender; em Ruão, em poder de Manoel Rodri- 
gues Nunes, tinha cincoenta e tantas caixas 
de assucar por vender; em Ruão tinha mais 
10 caixas de assucar em poder de Agostinho 



DA INOl JSIÇÂO PORTUQUESA 347 



Coronel Chacon; Bento Osório era corres- 
pondente do Réu em Hollanda e minha em. seu 
poder algum dinheiro do Réu e 74 caixas de 
assucar e alguns diamantes; para Londres tinha 
mandado o Réu para a casa de Drick Host (?) 
sessenta e tantas caixas d^assucar; em Anvers, 
em poder de Gaspar Rodrigues Passarinho, ti- 
nha varias partidas de diamantes. 

Picssuia além d^isso uma propriedade de 
casas na Fancaria de baixo, de 150S000 rs. 
de rendimento. Manoel Estevão da Silveira 
deve-lhe 10 mil cruzados, 1001000 rs., pouco 
mais ou menos, das sedas e tafetás; Philippe 
dVAraujo deve4he 2:500$000 rs. de seda 
em rama; Gabriel Ferreira deve ao Réu 3.000 
cruzados; Francisco Ferreira deve-lhe 7001000 
rs. ; Gaspar Fernandes, torcedor de seda, deve- 
lhe 3:4001000 rs. de seda em rama; Manoel 
Madhado deve-lhe 3.000 cruzados e 5 caixas 
de assucar; Manoel Rebello deve-lhe 120$000 
rs. de uma peça de tafetá; o cirgueiro Sebas- 
tião Ferreira deve-lhe quantia que não pode 
precisar; Miguel Pereira deve-lhe 670^000 rs. 
e um flamengo, de quem Miguel Pereira foi 
fiador, deve-lhe 650 mil reis; o cirgueiro Ma- 
noel Carreira deve-lhe 580$000 rs.; António 
da Costa Raya deve 5501000 rs. ; o correio- 
mór Luiz Gomes da Matta deve-lhe 100$000 
rs., que lhe emprestou; D. Julianna de No- 
ronha, senhora de Villa Verde, deve-lhe 
3001000 rs. que lhe emprestou; D. João 
Mascarenhas deve-lhe 1001000 rs. que lhe em- 
prestou; o conde d'Obidos deve-lhe 400$000 rs. 
que lhe emprestou e, além d^isso, 17 mil e 
tantos reis; Luiz de Góes de Mattos deve-lhe 
1501000 rs. ; o prior e religiosos do convento 



348 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



de S. Domingos de Bemfica devem-lhe 1501000 
rs. que lhes emprestou; Fr. António de Len- 
castre, provedor do Hospital de N. Senhora 
da Luz deve-l!he 2001000 rs.; Jorge Pereira 
deve-lhe um fardo de seda. 

O Réu emprestou para a armada que foi á 
Bahia 10 mil cruzados. 

O aonde do Prado \deve ao Réu 1301000 rs.; 
Jorge Fernandes, de Elvas, deve 40$000 rs.; 
o herdeiro de Áffonso de Barros Caminha 
deve cento e tantos mil reis. 

A 13 de março de 1648 continuou a 
declarar o inventario. A Bernardo Ferreira, 
sollicitador do Réu,, deve 4$000 rs. que pelo 
Natal de cada anno lhe costumava dar; a 
André Luiz, também é devedor; idem a João 
Rodrigues Calvo. 

A 24 de abril continuou o mesmo assum- 
pto e declarou que: Manoel Fernandes Cama- 
cho, morador na ilha da Madeira onde foi 
commissario do R., não era muito correcto 
em contas e a elle nada devia; depois delle 
passou a ser seu commissario na Madeira 
Manoel de Ceia. 

A 30 de abril declarou mais: que era 
devedor de fretes a Jorge Rodrigues Calvo,, mo- 
rador na Pederneira. 

A 11 de maio declarou mais que, a ins- 
tancias do seu correspondente na ilha da 
Madeira, foi fiador de 100^000 rs., preço de 
2 escravas. 

A 18 de maio continuou: dever a An- 
tónio Thomé, frete de 7 caixas d^assucar; 
a Diogo Fernandes Crespo, mercador do Al- 
garve, 140$000 rs.; á igreja de S. Julião uma 
lâmpada de prata. O Réu arrendou a Franciscoí 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 349 



Mascarenhas Henriques uma quinta sita na 
Cruz da Pedra, em Sete Rios, freguezia de 
S. Sebastião da Pedreira, por 351000 rs. anuaes 
e a Francisco Mascarenhas deu por ,conta 
1001000 rs. em 1643, quando El-Rei foi ao 
Alemtejo. 

A 13 de julho declarou mais: que com 
o ferrador António Lopes ajustara ferrar-lhe 
7 cavalgaduras por anno pelo preço de 11 $000 
rs.; a Belchior Duarte Ramos deve um frete 
de 8 caixas de assucar, ide Pernambuco. 

A 29 de julho declarou as suas contas 
com Henrique Gil da Veiga, morador em 
Liorne, de quem recebeu tafetás e uma caixa 
de coral grejo (?) e, em troca, mandou-lhe 
6 caixas d^assucar, ficando-lhe a dever uns 
oito centos e tantos mil reis. 

A 27 de agosto acrescentou que o cor- 
retor, António Pereira, lhe deu 2 peças de 
baeta quando morreu a mãe do Réu e se lhe 
devem pagar. 

A 18 de maio de 1649 declarou mais que 
Beldhior Monteiro, seu pagem, lhe furtou 1 
peça de setim e umas meadas d^ouro e certos 
pares de meias de lã e por isso nada lhe deve. 

A 3 de agostoi de 1649 declarou ainda que 
a Lourenço de Brito Correia, morador na 
Bahia, agora preso no Limoeiro, nada deve. 

A 14 de fevereiro de 1650 declarou final- 
mente., depois de especialmente interrogado sobre 
o assumpto, que: a Balthazar Rodrigues, que 
foi cirgueiro, deve o que se gastou no enterro 
de sua filha e além d'isso: 2 piviteiros de 
prata; um oratório de páo preto; e 2 conta- 
dores de páo preto; e Balthazar Rodrigues 
também deve ao- Réu. 



350 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



A 10 de maioi de 1650 elucidou ainda as 
suas contas com Lourenço de Brito. 

Este longo relato de dividas e operações 
comerciaes pode bem ser destituido de exacti- 
dão; mas dá-nos seguramente ideia curiosa da 
vastidão da actividade mercantil do judeu Duar- 
te da Silva. E bem assim das suas relações 
oom o estado português e com individualidades 
seiscentistas de destaque. 

Entretanto a IQ de fevereiro de 1648 havia 
sido interrogado sobre a sua genealogia. 

Disse chamar-se Duarte da Silva, ter 52 
annos de edade, ser christão novo e natural 
e morador em Lisboa,, homem de negocio. Seu 
pae chamou-se Diogo Pinto, natural de Alter 
do Chão, d'onde veio para Lisboa; sua mãe 
chamou-se Catharina Henriques. Seus avós 
paternos foram: Duarte da Silva, natural de 
Alter do Chão, onde foi escrivão das cizas 
e Beatriz Pinto. Seus avós maternos foram: 
Fernão Jorge e Marquesa Lopes, ambos natu- 
raes de Lisboa. Declarou-se primo de Duarte 
da Silva de Leão, morador á Praça da Palha, 
casado com Catharina Alvares. Dos seus tios 
maternos, três foram para a índia e ahi morre- 
ram. Teve o Réu um irmão e duas irmãs,, todos 
já defuntos. É casado com D. Branca da 
Silva, filha da sua prima Joanna Brandão, 
e tem quatro filhos e três filhas. D. o Pinto da 
Silva de 19 anmos,, residente em Roma; Francisco 
Dias, de 14 annos; Simão Henriques de 12 
para 13 annos; João de 6 para 7 mezes; 
D. Catharina da Silva de 16 annos, solteira; 
D. Seraphina de 4 annos; e D. Joanna de 3 
annos. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 351 

O Réu declarou ter sido baptisado na 
igreja de S. Nicolau, sendo seu padrinho Luiz 
Rodrigues de Paiva; só sabe ler, escrever e con- 
tar; esteve em Castella e no Brazil e viveu dois 
annos em Vianna, quando solteiro. 

A 20 de fevereiro de 1648 f aliou nos 
seus cunhados: Jorge Dias Brandão, solteiro, 
morador em Palhavan; Rodrigo Ayres Bran- 
dão, casado com Leonor Rodrigues, christã 
nova; Grácia Brandão, freira em Odivellas; 
Isabel de Solis e Maria Brandão,, ambas casadas 
em Castella. Assim ficou satisffeita a curiosidade 
inquisitorial neste ponto. 

Começa agora o torniquete das subtis 
perguntas dos inquisidores. 

No dia três de junho de 1648 foi inter- 
rogado in specie, negando tudo o que lhe 
perguntavam. A 29 de outubro do mesmo 
âno fizeram-lhe novo exame in specie, mas 
negou terminantemente ter querido saber 
segredos do Santo oficio. Não o largavam. 
A 5 de novembro novo exame também, mas 
continuou negando e disse que tanto não 
supunha ser preso pelo Santo oficio que, 
poucos dias antes, havia despachado para os 
portos de Pernambuco duas caravelas com 
quantidade de dinheiro em sacos e outras 
fazendas para lhe virem carregadas de assu- 
car; quatro ou cinco dias antes tinha feito as- 
sento na Junta dos três estados de armas e mu- 
nições que importavam em 25.000 cruzados e, 
um mês antes da prisão, fizera assistência a S. 
Magestade com 100.000 cruzados para lhe vi- 
rem navios do norte. 

Instado baldadamente em 16 de novembro 
de 1648 ainda anos depois, em 20 de fevereiro de 



352 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



1652, negava terminantemente querer saber 
segredos da Inquisição. 

A 8 de junho de 1648 prestou juramento 
o seu procurador,, Luiz Ferrão. Na contestação 
ao libello defendeu-se recordando ter praticado 
toda a sua vida actos de christao e tanto assim 
que, por três vezes foi eleito para servir na igreja 
de S.Mamede a confraria do Senhor,, a de Santo 
António e a de S. Sebastião e, por causa de um ju- 
bileu, ahi gastou mais de 300 mil reis; á sua custa 
mandou concertar os telhados da igreja e deu 
o painel para o coro. Na igreja de S. Julião, 
da qual foi freguez por 1626, poz uma lâm- 
pada de prata. Em 1645 sérvio o Sanctissimo 
Sacramento do mosteiro de S. Domingos e„ 
como António Cavide o quizesse servir e os 
frades estivessem inclinados a dar-lh*o, elle 
desgostou-se com isso e os frades lh'o não 
tiraram, dando elle tudo o que faltava para 
se acabar a custodia rica e na festa do Corpus 
dava de jantar a toda a communidade. Obri- 
gou os filhos a irem aprender latim no ms- 
teiro de Bemfica. Mandou acabar de azulejar 
á sua custa a igreja de S. Sebastião da Pe- 
dreira; ao mosteiro do Sacramento, para se 
fazer a sua capella,, deu de esmola 20$000 rs.; 
aos carmelitas descalços de Carnide deu tam- 
bém. Allegou ainda que todos os annos 
mandavam vir para gasto de casa,, do Porto 
e de Lamego, canastras de presuntos e do 
Alemtejo marrans e chouriços e ainda em 
sua casa faziam matança. Entre as teste- 
munhas avultavam: Gaspar da Silva de Vas- 
concellos, musico d'El-Rei; Fr. António de 
Lencastre, provedor do hospital da Luz; An- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 353 



tonio Rebelo de Moura, almoxarife da cabana; 
o Padre António Vieira, em Santo Antão; 
Luiz Gomes de Barros, procurador da cidade; 
Gonçalo Pinto Soares, em casa do marquês 
de Niza; o correio-mór Luiz Gomes; D. João 
Mascarenhas; Diogo Bernardes Pimenta, des- 
embargador; o conde d^Obidos; D. João da 
Costa; Dr. Pedro Fernandes Monteiro; conde 
de Odemira etc, notando-se que o Padre 
Vieira foi apresentado como testemunha a três 
pontos. 

Foi esta defesa recebida em 19 de junho 
de 1648. 

Vão agora seguindo os tramites ordinários 
do processo. 

Em 28 de novembro de 1648 foi-lhe feita 
admoestação antes do libelo,, e, quando este 
lhe foi lido, Duarte da Silva declarou tudo falso. 
A 9 de dezembro fez o seu devido juramento» e 
defensor Licenseado Luiz Ferrão que, no dia 
onze, logo dois dias depois, veio com a contes- 
tação ao libelo que lhe foi recebida. 

Na sua defesa Duarte da Silva nega o 
ter querido saber segredos do Santo Officio e 
diz que tanto isso é verdade que no tempo 
que procedeu a sua prisão andou publicamente 
fazendo o seu negocio. Assim poucos dias 
antes fez um assento de armas na Junta dos 
três Estados no valor de 25.000 cruzados; a 
5 ou 6 de dezembro de 1647, sendo chamado 
á Junta dos três Estados, para ef feito de fazer 
melhora em um assento de 6.000 quintaes de 
pólvora e 2.000 de cobre que importavam em 
90.000 cruzados, deu palavra de o fazer depois 
de um dos coniendentes que eram Gregório 
Dias contra Gaspar Pacheco se descer hum 

23 



354 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



deites; um mez antes deu credito em Flan- 
dres para se darem 5.000 cruzados por conta 
d'El-Rei para compra de xaos (?) para o 
serviço da armada, o qual dinheiro devia ser 
cobrado do procedido das provincias do Alemtejo 
e Beira do empréstimo que a El-Rei se fazia; que, 
pedindo-lhe o conde de 'Odemira para, por serviço 
d'El-Rey, fazer um assento de mil quintaes de 
pólvora,, que importavam em 25.000 cruzados, um 
mez antes da prisão, Duarte da Silva se obrigava a 
fazê-lo e, como o conde de Odemira lhe man- 
dasse instar por intermédio do dr. Pedro Fer- 
nandes Monteiro, assim o fez; poucos mezes an- 
tes da prisão,, pedindo-se-lhe da parte de S. M. 
ajuda para a armada da Bahia emprestou, sem 
juros, 10.000 cruzados; para Salvador Correia 
ir em soccorro ao Rio de Janeiro emprestou 
4.000 cruzados. Tanto era verdade Duarte da 
Silva não esperar a prisão que, poucos mezes 
antes, comprou um prédio de casas na Fan- 
caria por 8.000 cruzados; em sua casa ti- 
nha 60.000 cruzados de seda em rama,, peças 
de tafetá, e roupas da índia, o que tudo 
vendia a praso; a 5 de dezembro de 1647 
despachou Duarte da Silva para a costa de 
Pernambuco a caravella do mestre Gaspar 
Palhano com muitas fazendas e 5.000 cru- 
zados para compra de um carregamento de 
assucar. 

A 17 de março de 1649 foi chamado 
António da Fonseca, seu antigo caixeiro e confir- 
mou quanto allegou na sua defesa quanto á parte 
oommercial. 

A 18 de março foi chamado Gonçalo 
Pinto Soares, cavalleiro do habito de Christo, 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 355 



também testemunha de defeza do Réu, em cujo 
favor depoz. 

A 29 de março chamado Miguel de Aze- 
vedo^ official da secretaria da Junta dos três 
Estados, confirmou o que o Réu allegara em 
sua defeza referente á J. dos 3 Estados. 

Nj mesmo dia Pedro de Abreu,, ourives, 
testemunha de defeza do Réu, depoz em seu 
favor. 

No mesmo dia foi chamado o Dr. João 
Ccrreia de Carvalho do Dezembargo d^El-Rei, 
também testemunha de defeza, cujos factos 
confirmou. 

A 9 de abril de 1649 Ruy Correia Lucas, 
tenente general da artilharia, ministro da Junta 
dos três Estados,, testemunha do Réu, depoz 
egualmente em sua defesa. 

A 22 de abril de 1649 foi chamado o 
Padre Manoel Nunes de Freitas, beneficiado 
na igreja de S. Christovão, testemunha que 
depK^z em defeza de Duarte da Silva e no 
mesmio dia Diogo Barreiros,, cidadão de Lisboa, 
confirmou o facto da compra das casas. 

A 17 de maio Francisco Botelho Chacão 
dejx)z em favor do Réu e no mesmo dia Thor 
mé Botelho da Silveira,, christão novo, casado 
com D. Guiomar Pereira também depoz a seu 
fawr. 

A 10 de junho de 1649 foi chamado Ma- 
noel Rodrigues da Costa, christão novo, mer- 
cador, e depoz em 4^avor do Réu e bem assim An- 
tónio Pereira de Viveiros, corretor do numero, 
o qual contou ter oiuvido ao Réu que o 
haviam intrigado com El -Rei, dizendo-lhe 
que se queria ausentar do reino e por isso 
El-Rei o chamara e, como lh'o perguntasse, 



356 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Duarte da Silva respondeu ser falso. Na verdade 
como poderia elle ausentar-se se a fazenda 
Real lhe devia mais de cem mil cruzados e 
El-Rei mandou-o f aliar com o secretario d' Es- 
tado. Deu também a perceber que Duarte da 
Silva desconfiava de qualquer coisa da Inqui- 
sição. 

A 10 de junho de 1649 foi finalmente cha- 
mado Jorge Pereira, familiar do Santo Officio, 
e depoz em favor do Réu,, terminando por elle 
o extenso rol da prova testemunhal. 

Duarte da Silva veio depois com as suas con- 
traditas e nellas allegou que: António da Fon- 
seca, caixeiro do Réu, lhe foi inimigo por elle 
o ter reprehendido por causa das suas incon- 
fidências em matérias de negocio, precisando 
até de o pôr na rua; que Monteiro, agente 
que foi do Réu era seu inimigo,: por o ter 
roubado; idem o lacaio Fonseca, seu litei- 
reiro e o lacaio Moreira, por descontos que 
lhes tem feito; idem Gonçalves, azemel d^agua 
do Réu, porque este lhe quiz bater; que, se 
na sua casa havia tristezas antes da sua prisão 
era por lhe ter morrido a mãe,, haveria um mez; 
que,, por causa dos empréstimos a El-Rei, vi- 
nham do Alemtejo os negociantes Gaspar Fer- 
nandes, o marquês e João Rodrigues Mesas e 
da Beira, Nuno Fernandes de Carvalho e Fernão 
[Mendes, íois iquaes oom o Réu tinham conferencias. 

Entretanto novas acusações iam acres- 
cendo contra Duarte da Silva, novos libelos, 
novas contraditas e quatro defesas! 

A 11 de maio de 1649 foi interrogado 
Leandro de Medeiros, irmão de Domingos de 
'Medeiros, e disse ter-lhe o irmão contado que 
Duarte da Silvia eifamilia criam na lei dtí Mioysés. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 357 



A 24 de novembro de 1650 o Padre 
Urbano da Silva,; prior da igreja de S. 
Mamede depoz que, estando na sua quinta, 
de Palhavã, lhe disseram que Duarte da Silva 
quando passava pela cruz que estava na Cruz 
da Pedra nunca tirava o chapéu, nem lhe fazia 
reverencia; também o familiar Pedro de Sousa 
disse á testemunha que Duarte da Silva nunca 
tirava o chapéu á cruz que está na ilharga 
da igreja de S. Mamede, defronte dá casa 
do correio-mór; e Duarte da Silva foi juiz 
da confraria do Sanctissimo Sacramento da 
igreja de S. Mamede„ não fez festa, mas so- 
mente um terce no. 

A 26 de novembro foi chamada Maria 
da Silva, mulher de um sapateiro, morador 
á Cruz da Pedra, junto a S. Domingos de 
Bemfica e disse que Duarte da Silva alugou 
uma quinta defronte d^ella testemunha, na 
estrada de Bemfica^ junto ao mosteiro, onde 
chamam a Cruz da Pedra e ahi passou os 
três verões anteriores (i) á sua prisão e con- 



(1) Onde ficava a quinta da Cruz da Pedra que 
Duarte da Silva alugou para descanço dos seus ár- 
duos trabaliios financeiros e mercantis? 

Hesitámos durante algum tempo entre a quinta 
da Macaista pertencente hoje aos herdeiros do dr. 
Carvalho Monteiro e assim chamada por ter per- 
tencido a Joaquim José Ferreira da Veiga, capita- 
lista em Macau (Resenha dos titulares, vol. II, pag. 
206) c a qumta da Infanta que confina com a cer- 
ca do convento de S, Domingos de Bemfica e com 
a quinta dos marquezes de Fronteira e pertenceu, 
por meados do século XVIII, a Gerardo Devisme. 

Não era porém nenhuma d'essas. 

A quinta da Cruz da Pedra, tão falada no 
processo de Duarte da Silva, foi depois nada mais 



358 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



firmou que elle nem da janela da casa, d'onde 
avistava a cruz grande de pedra, llie tirava 
o chapéu. O marido doesta testemunha decla- 
rou que a quinta onde Duarte da Silva morou 
pertencia agora a Duarte Gomes da Mata; 
e Duarte da Silva fez uma festa á dita cru:z„ 
mas não lhe tirava o chapéu. 

Sobre este caso da Cruz da Pedra,; foram 
internogadas várias testemunhas que nada adian- 
taram e, entre ellas, o^ sapateiro Manoel da Sil- 
va. Afirmou este que a tal Cruz da Pedra é 
grande e tem as imagens de Chrisfo e N. Se- 
nhora em cima. 

'É evidentemente o lindo cruzeiro quinhen- 
tista da quinta das Larangeiras do qual se ocupa 
Sousa Viterbo á pagina 11 da primeira serie 
dos Cruzeiros de Portugal. 



nada menos que a cerca do Convento de Santo An- 
tónio da Convalescença. 

Com efeito oonstâ do processo, pelo dito de uma 
testemunha, que a sobredita quinta pertencia a Duar- 
te Gomes da Mata. E percorrendo-se os poucos pa- 
peis do cartório do Convento de Sto. António da 
Convalescença, hoje na Torre do Tombo, encontra- 
se a origem d'este convento em duas doações: a 
primeira duma quinta de Palhavã que pertenceu a 
D. António de Mascarenhas e d'ela fez doação para 
se curarem os doentes da provincia de Santo An- 
tónio dos Capuchos, tomando os padres posse em 
4 de setembro de 1637; outra datada de 29 de 
março de 1663 e feita pelo arcediago de Cerveira, 
Duarte Gomes da Mata, irmão do correio-mór, da 
sua quinta á Cruz da Pedra, para convalescença dos 
doentes dos padres capuchos da provincia de Sto. 
António, de Lisboa. 

Com razão pois lhe chama o padre João Batista 
de Castro, no seu Mapa de Portugal, Convento de 
Santo António da Cruz da Pedra. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 359 

Mas os interrogatórios proseguiam. 

Em 24 de novembro de 1650 foi interro- 
gado Manoel Barbosa Dantas,, ainda caixeiro em 
casa de D. Branco da Silva, e disse ser 
verdade que Manoel Fernandes de Moraes, 
morador no Porto, e Francisco Mendes, de 
Vianna, mandavam canastras de presuntos e 
linguas a Duarte da Silva e do Alemtejo 
vinham, por via de Duarte da Silva de Leão 
e de Balthazar Rodrigues, marras, chouriços 
e queijos. 

A 28 de novembro de 1650 foi interrogado 
Manoel Martins de França, mercador,* e depoz 
em favor do Réu; idem,; João Burger. Manoel 
Barbosa, novamente interrogado, disse ser ver- 
dade mandar o Réu dizer muitas missas no 
convento de S. Domingos de Bemfica e nesse 
convento tem uma capella, a da Senhora do 
Rosário, na qual já está enterrada a sua mãe. 

E as contraditas não faltavam. 

Nestas o Réu allegou a inimizade de: 
Licenciado Luiz de Mello,; morador ás Pedras 
Negras, com quem brigou em casa de Gaspar 
Rodrigues Passarinho; Pedro de Mesquita, 
mercador, por o ter demandado deante do 
ouvidor da alfandega; Gaspar Fernandes Nu- 
nes, mercador de pannos, por ser seu deve- 
dor; Francisco Dias Mendes de Brito e 
D.o Mendes de Brito, seu irmão, moradores 
ao Poço do Borratem, por os ter desacredi- 
tado, commercialmente f aliando, na praça; 
Beatriz Henriques e suas filhas Francisca da 
Silva e Maria Henriques porque Maria Hen- 
riques, indo em 1643 á sua quinta da Cruz 
da Pedra, lhe roubou uma salva de prata e 
a escondeu num saco de trigo e por seu 



360 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



filhio, Diogo Pinto, ter relações illicitas com 
Francisca da Silva, o que o Réu não levou a 
bem, mandando sahir o filho para o Porto, 
e por isso lhe mandaram uma carta anonyma, 
ameaçando-o ; a mulher de Pedro de Carnide, 
porque tendo o Réu um grosso negocio com 
Affonso Monhoz, irmão d^essas presas, na 
índia, não quiz dar a Pedro Carnide certo di- 
nlieim que elle desejava; Gaspar Fernandes 
e João Rodrigues Mesas, de Estremoz, são 
inimigos do Réu porque elle não quiz re- 
commendar certa pretenção a S. Magestade; 
Fernão Martins,, homem de negocio, mora- 
dor em Lisboa é seu inimigo porque o 
seu cunhado, Francisco Ribeiro, teve na Rua 
Nova uma loja com Jorge Dias Brandão, 
cunhadio do Réu; Domingos de Medeiros,, de 
Vianna da Foz do Lima,; é inimigo do Réu 
porque lhe bateu por lhe não pagar uma 
caixa de assucar; Branca Gomes, viuva de 
Fernando Dias da Fonseca é sua inimiga 
por a ter censurado pelos seus costumes. An- 
tónio da Fonseca,, caixeiro do Réu, é seu ini- 
migo, por elle o criticar nas suas aptidões 
profissionaes e o substituir por Barbosa Dan- 
tas; o liteireiro Fonseca,, porque o Réu lhe 
chamou maricas e lhe descontou dias no orde- 
nado; o lacaio Moreira, por causa de des- 
contos; Gonçalves, azamel du agua, por lhe 
ter chamado nomes feios, em virtude de lhe 
trazer o comer guisado da quinta de Palhavã 
para Lisboa mal arranjado; o pagem Belchior 
Monteiro, por o ter roubado; a Barrosa, visi- 
nha de Beatriz Henriques,; porque se associou 
á tal carta de ameaça que Duarte da Silva rece- 
beu. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 361 

Terminam as contraditas por o Réu dizer 
que as não pôde concluir sem lhe declararem 
os logares em que as testemunhas formam 
as suas culpas, o que foi feito, em 30 de 
agosto de 1650, dizendo-se-lhe ser em Lisboa 
e arredores. Depois d^isso veio com segunda de- 
feza: 

O Réu nunca pensou em se ausentar e„ se 
chegou a f aliar nisso nos principios de dezem- 
bro de 1647, pouco antes do auto da fé de 
15 doesse mez, foi porque o Dr. Pedro Fer- 
nandes Monteiro, por ordem d^El-Rei, o en- 
carregou da informação da gente por que havia 
de ser dividido o empréstimo de cem mil cru- 
zados e, por causa de ajustar a divisão na 
comarca de Setúbal, foi para a quinta de Fa- 
lhava afim de trabalhar com mais socego. 

Como testemunhas das contraditas foram 
inquiridos: António Pereira de Viveiros, cor- 
retor do numero, o qual depoz ter ouvido 
que Duarte da Silva questionara com o Me- 
deiros; Estevão Luiz da Costa, mercador, 
christão novo; Francisco Gomes Henriques, o 
Forragaitas, de 66 annos de edade; Gregório 
Gomes Henriques, christão novo, homem de 
negocio, de 33 annos; Fr. António dos Reis, 
dominicano; D. Maria de Almada, mulher do 
phisico-mór do Brazil. 

Em 28 de novembro de 1650 foram inqui- 
ridas mais: Jeronymo Gomes Pessoa, contra- 
ctador, morador ao Rocio; Álvaro Fernandes, 
de Elvas, contratador; Maria Marinha, filha 
de Luiza d^Eça, moradora na rua da Rosa 
de Carvalho. 

A 19 de dezembro de 1650 foi inquirido: 
Fernão Rodrigues Penso, homem de negocio. 



362 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



morador ao Rocio. Foram também interroga- 
dos: Francisco Guedes Pereira, ttiesoureiro- 
mór de Portugal, morador a S. Chrispim; Ruy 
Correia Lucas,, tenente general de artilharia, 
morador ao Cães do Carvão; João Guterres, 
homem de negocio, morador no becco de João 
de Deus; Gaspar Malheiro, familiar do Santo 
Officio, homem de negocio, morador na Ribeira; 
D. Álvaro de Abranches, ministro da Junta 
dos três Estados; João Nunes Santarém, mer- 
cador, morador á Magdalena. 

Em Setúbal foi interrogado Phelippe Ser- 
rão, mercador. 

Da terceira defesa com que veio o Réu se 
deduz que elle de outubro a maio costumava 
estar na sua casa em S. Mamede e no verão 
ia para ta quinta da Cruz da Pedra de Pa- 
Ihavã. 

Veio Duarte da Silva com quarta defesa e 
nella allegou que, em 1644, morando á Cruz 
da Pedra, no dia da Invenção da Cruz^ man- 
dou fazer um altar de grande ostentação na 
mesma cruz e uma festa, com pregação, mu- 
sicas e carreiras de cavallos, ordenadas estas 
por seu filho Diogo Pinto; que desde 1643 a 
1647 viveu todos os verões nas quintas da 
Cruz da Pedra e Palhavã e, ao vir para Lisboa, 
passava a S. Sebastião da Pedreira^ juncto 
a uma cruz grande, á qual costumava tirar o 
chapéu. 

Citou, entre outras testemunhas, Luiz Go- 
mes de Barros, procurador da cidade, morador 
ás portas de Santa Catharina; Francisco Tei- 
xeira Tibáo, morador á Palhavã; João Ba- 
ptista de Cordes,, familiar do Santo Officio, the- 
soureiro do fisco; o correio-mór, Luiz Gomes 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 363 



da Matta; e Manoel da Fonseca que foi 
official maior do correio-mór. Esta defesa foi 
recebida em 9 de dezembro de 165n 

O Réu veio ainda com contraditas,, as ter- 
ceiras das quaes não foram já recebidas e 
o mesmo lhe aconteceu ás quartas. Nestas falla- 
va elle na inimizade de : Jeronymo Serrão 
Pimentel, porque, passando o Réu para a quinta 
da Cruz da Pedra, teve em Sete Rios umai 
altercação com elle que então estava numa 
quinta de Manoel Gomes da Costa; Francisco 
Soares Serrão, mercador, morador na Rua Nova, 
porque o Réu lhe pedio um dinheiro que lhe 
devia. Entre outras testemunhas citou a viuva 
do Ldo. Manoel de Sousa Reimão,, sua visinha, 
chamada Vicencia de Pina. 

Entretanto surgio um facto extraordinário 
ao qual já anteriormente aludimos: as cartas 
anonymas, cujo autor foi, como vimos, o vil 
Manoel Cordeiro. 

Mas antes d^isso também já a Inquisi- 
ção estava de sobreaviso. 

Com effeito, em 18 de janeiro de 1651, 
foi chamado João Baptista Cordes, thesou- 
reiro do fisco, e declarou que, indo a casa de 
Duarte da Silva, lhe pareceu que ali havia 
prevenção porquanto D. Branca, sua mulher, 
o recebeu como quem esperava que ali fossem 
para fazer inventario, não se encontrando o 
livro de caixa principal de Duarte da Silva, 
nem papeis que apareceram depois, nem os 
vestidos de sua filha mais velha, nem jóias, 
nem livros de carregações de sedas. 

Ag^ra a explicação do facto: ^ 

A 26 de abril de 1651 foi levantado um 
auto de um papel cerrado que o inquisidor 



364 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Luiz Alvares da Rocha; o Dr. Pedro Borges, 
promotor; e o notário José Cardoso, encon- 
traram antes das dez horas da manhã, na 
varanda da Inquisição, fora das grades, para 
onde fora atirado na noite anterior, em que 
tinha chovido torrencialmente. Nesse papel, 
carta anonyma como hoje lhe chamariamos, 
eram avisados os inquisidores que todos os 
dias á mulher de Duarte da Silva, por mão 
de Manoel da Gama de Padua^ chegavam noti- 
cias do que lá se passa. Doesta correspondência 
sabem somente a mulher de Duarte Barbosa, 
uma ama sua, um criado por nome Barbosa 
e o dito Gama. 

Em vista d'esta denuncia fizeram busca 
no mesmo dia 26 nos fatos de Duarte da 
Silva e Rodrigo Ayres Brandão, quer dizer 
nas suas respectivas capas, roupetas, gibões, 
calções, ceroulas, camisas e sapatos e nada 
encontraram. Foram fazer busca aos cárceres e 
só encontraram avisos de communicação entre 
Rodrigo Ayres Brandão, Manoel Fernandes 
Villa Real e Duarte da Silva, por intervenção 
de Maria das Candeias. 

Também no cárcere de Duarte da Silva 
encontraram penas. 

Juntaram os inquisidores os papelinhos e 
restituíram alguma da correspondência que no 
processo se encontra transcrita e da qual res- 
pigámos as duas seguintes e interessantes e oo- 
mioventes cartas: a primeira de íManoel Fernandes 
Villa Real, a segunda de Francisco Dias da Silva 
para seu pae, o perseguido comerciante israe- 
lita. Ei-las ipsis verhis: 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 365 

I 

Amigo e Senhor meu 

Com a doença do nosso anjo (porque 
nesta casa até os anjos padecem) não pude 
responder mais cedo e sabe Deus o alivio 
que tive com o que V. M. me diz do estado 
da sua causa, que espero seja como V. M. 
deseja. Eu, senhor, estava despachado com 
501000 reis cada mez pqr ordem de S. Mde., 
de quem era bem visto € de todos os mi- 
nistros e, além d'isto, nomeado por commis- 
sario dos 3 Estados e o meu officio esta- 
belecido. Tudo perdi com a liberdade e 
querem perca também a vida; tenho dado 
contraditas, queira Deus aproveitem. Darei a 
V. M. novas de Maria Ferraz, que com muitas 
lagrimas fallavamos em V. M. e ia muitas 
vezes visitar a senhora D. Branca. O com- 
panheiro, ainda que não conhece a V. M. 
agradece a M. que V. M. lhe faz e queira 
Deus dê a V. M. liberdade para que vá alle- 
grar sua casa de quem V. M. pode estar certo 
que lhe não falta mais que a vista de V. M. 
a quem Deus guarde. Amigio d^alma V. R. ». 



II 



« Meu querido e amado conde dos 
meus olhos 

Miranda pede muito a V. M. que para 
conservar a vida convém muito fazer por 
dormir, porque o somno é o que assenta não 



366 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



bastando o sentido a nada, e que descance 
porque a sua vida não é somente para res- 
taurar assim mas para augmento de muitos 
penhores e que almoce sempre um pastel 
porque os mais achaques cedo sararão com a 
vista da condessa que tinha grande valor em 
tudo e Miranda tem sabido por 3 vezes de 
certos companheiros que teve 22 mezes que 
ella estava no mundo. Ter animo, tudo ha-de 
sarar o que convém é que Henrique Greli 
não bote o humor -por uma das 2 feridas 
que entendo tem, suposto que lh'as espremam 
e . . . mais feridas e as do conde sararão. 

Miranda, além do que se lhe receitou, 
curou a cutilada por boa traça, porquanto 
Ih^a deu os amores de Catharina, a Lavan- 
deira, e declarou as próprias mesinhas a Ma- 
noel Jorge para que elle e o conde o articu- 
lassem também, que importa na coartada 
não quizeram tomar nada, porquanto era 
pouca distancia, com ella encheu Miranda 
meia folha e com o mais uma até ao cabo 
e não queriam nada de naxão (?), eu me 
agastei e as fiz por com razões que dei e 
a Deus ter animo ». — N. B. 

Ha mo processo a transcripção de mais jcartas 
que foram apanhadas no chão do cárcere de 
Duarte da Silva em bocadinhos que os notá- 
rios junctaram em 17 de julho de 1652. 

Em 3 de junho de 1652 foi interrogada 
a presa Maria das Candeias acerca da trans- 
missão de bilhetes. Confessou que, indo para 
a cosinha e, por saber escrever, uma sua com- 
panheira lhe dera papel, uma pena de galli- 
escreveu um bilhete a D. Catharina, filha de 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 367 



Duarte dá Silva. A companheira da testemu- 
nha ensinou -lhe forma de transmittir os 
bilhetes, pois quer D. Catharina, quer seu 
pae, comiam em covilhete assim como seus 
cunhados. D^uma vez fez um escripto para 
Duarte dá Silva dizendo-lhe que a filha se 
livrava e a sua companheira Beatriz Rodri- 
gues metteu-o dentro d^um frangâo. Disse 
mais que o Miranda a quem um escripto se 
refere era um filho de Duarte da Silva; que 
a abbadessa em que falia era a filha de Duarte 
da Silva e o conde, Duarte da Silva. 

A 11 de maio de 1652 o preso Francisco 
Dias da Silva confessou que escrevera ao pae 
e a forma porque o fazia, dizendo chamar-se 
na correspondência Miranda; o pae, conde; 
a cosinheira, menina; a mãe, a condessa. Que 
esta, quando Francisco Dias da Silva foi preso, 
sua mãe ficou presa nas Escolas Geraes. Que 
também usava do nome supposto de Henrique 
Greli, e fallava allegoricamente nas cartas. 

Larga foi a investigação sobre este caso 
da correspondência nos cárceres da Inqui- 
sição. 

Em 16 de abril de 1652 o preso António 
Lopes Savedra, companheiro de cárcere de Ro- 
drigo Ayres Brandão,, disse que a este appareceu 
um gato com um papel na bocca no qual esta- 
vam escriptas estas palavras: Filho, não me faças 
mal, em letra que parecia ser feita com algum 
pausinho. 

Também para o Rodrigo Ayres vieram 
muitos escriptos da cosinha mettidos na carne 
de carneiro e nos ovos escalfados, entre a 
gemma e a clara, respondendo Rodrigo Ayres 
pela mesma via da cosinha quer a seu cunha- 



368 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



do Duarte da Silva, quer zl seu irmão Jorge 
Dias Brandão, quer a seu sobrinho Francisco 
Dias. Nesses escriptos diziam os presos o 
estado das suas causas e em especial Duarte 
da Silva também contava ter escripto a seus 
filhos Francisco e Cátharina, presos, que 
olhassem o que faziam e avisara-os de como 
haviam de proceder no^ seus livramentos. Os 
escriptos que Rodrigo Ayres enviava iam 
pegados no fundo de uma das tigellas, pondlo- 
se outra tigella por baixo e, na cosinha, uma 
das cosinheiras os encaminhava. Esses escri- 
ptos eram feitos em tiras de papel que pare- 
ciam margens de alguns livros. 

Em 5 de abril de 1652 em Coimbra o 
preso Leandro de Medeiros disse que, haverá 
12 annos, estando em casa de Duarte da Silva, 
D. Branca lhe disse que acreditava na lei de 
Moysés. 

Também, em 12 de julho de 1652, foi 
o próprio Duarte da Silva interrogado acerca 
dos escritos clandestinos do cárcere. Confes- 
sou então ter escrito a Jorge Dias Brandão e 
a Manoel Fernandes Vila Real; instado disse 
que havia escrito a Rodrigo Ayres Brandão 
e mais instado ainda disse ter recebido um 
escrito de seu filho. 

Voltaremos um pouco atrás para o vermos 
a braços com um exame que, aos nossos olhos 
actuaes, se antolha vexatório. Foi em 24 de 
janeiro de 1651 e os inquisidores da primeira 
instancia foram de parecer que se devia exa- 
minar se o Réu era ou não circumcidado. 
Fez-se-lhe na verdade, no dia 27, esse exame 
e acharam os médicos que ele não era cir- 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 369 



cumcidado, falhando assim uma das armas com 
que os inquisidores contavam. 

Em 4 de setembro de 1651, considerando 
que contra êle havia dois processos, um por 
culpas de judaismo e outro por querer saber 
segredos do Santo oficio discutio-se se deviam 
despachar as causas juntamente ou em sepa- 
rado. Dividiram-se os votos na primeira ins- 
tancia da Inquisição e por isso o Conselho 
Geral inclinou-se, por despacho de 5 de 
setembro, no sentido de serem os dois pro- 
cessos despachados em separado. 

Contra o Réu foi pois apresentado segundo 
libello, com factos concretos, por ter preten- 
dido conhecer os segredos do Santo off.o. Por 
causa dMsso a 5 de março de 1652 esteve 
com seu novo procurador, o Dr. António de 
Magalhães, sendo a sua segunda defesa recebida 
em 8 de março de 1652. 

Na defesa diz não se lembrar de ter 
pedido para Roma algum breve para alguém; 
mas a certeza dMsso pode ter-se examinando 
o seu livro de irasão ; nunca esteve escondido nem 
retirado três dias em razão de algum auto da fé ; 
veio-se apresentar numa 2.a feira 9 de dezembro, 
pelas 7 da manhã e na 6.a feira estivera na 
Rua Nova e depois na sua casa; nessa 6.a fei- 
ra, pelas 10 da noite, estivera em casa de 
P.í> Fernandes Monteiro; depois, para fazer 
uma repartição na comarca de Setúbal por 
causa do empréstimo para a armada do Bra- 
zil, foi para a quinta de Palhava, de seu 
sobrinho Jorge Dias Brandão; era tido na 
praça por homem de mais credito e cabedal. 

Em 14 de março de 1652 foi chamado 
(test.â de defesa do R.) António Pereira de 



370 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Viveiro, corretor do numero, que depoz em 
favor de Duarte da Silva. 

Em 16 de março foi chamado o inglez, 
Guilherme Roles, fretador e disse que Duarte 
da Silva era commerciante tido pelo mais 
grosso mercador e de mais credito que havia 
nesta praça. João Roles, filho do anterior, 
disse que Duarte da Silva carregava de ordi- 
nário grande quantidade de assucares em náos 
inglezas. 

A 5 de abril de 1652 o Promotor requereu 
para ser publicada ao Réo mais prova contra 
elle e o Réu negou tudo, dizendo .querer vir 
com contraditas e para isso esteve com o seu 
procurador em 15 de abril. 

Nas dontraditas allega: que Belchior 
Monteiro, seu pagem, é seu inimigo por ter 
contra elle procedido por lhe roubar uma peça 
de setim, meadas d^ouro de Milão e pares 
de meias de lã; e Fernão Martins,; homem 
de negocio, morador á Sé, é seu inimigo capita) 
porque, altercando o seu cunhado Francisco 
Ribeiro com o sobr.o e cunhado do Réu,, Jorge 
Dias Brandão, puxaram das espadas e d^essa 
briga cahio morto Francisco Ribeiro e, como 
o assassino fosse preso, o Réu pedio por elle. 
Estas contraditas não foram porém recebidas. 



DUARTE DA SILVA É ATORMENTADO — QUASI 
CONDEMNADO Á MORTE, É DEGRA- 
DADO PARA O BRAZIL, MAS SALVO 
POR EL-REI D. JOÃO IV — COMO ELE 
SE VINGA DA INQUISIÇÃO — HON- 



DA INQUISIÇÃO PORTUQUESA 371 



RARIAS E MERCÊS NÃO LHE FALTAM 
E BEM ASSIM AOS FILHOS. 



Já em 24 de julho de 1652, os inqui- 
sidores da primeira instancia tinham resolvido 
que Duarte da Silva fosse posto a tormento 
mas, em 22 de agosto o Conselho Geral man- 
dava esperar pelo resultado do outro processo. 

Antes d'este despacho do Conselho Geral, 
em 2 de agosto de 1652, por acórdão da pri- 
meira instancia inquisitorial dividiram-se os 
votos: ao inquisidor Luiz Alvares da Rocha 
e aos deputados bispo de Targa que assistia 
pelo Ordinário; Francisco de Miranda Hen- 
riques, Estevão da Cunha, Martim Affonso 
de Mello e Manoel Côrte-Real de Abranches 
pareceu que o Réu devia ser entregue á cúria 
secular, sendo-lhe confiscados todos os bens. 
Ao inquisidor Belchior Dias Preto e ao depu- 
tado António de Mendonça pareceu porém que 
devia ser posto a tormento. Em 22 de agosto 
de 1652 foi o Inquisitor Geral e os do Conselho 
Geral de parecer que ficasse reservado no cárcere. 

Em 19 de novembro de 1652 veio o Pro- 
motor requerer mais publicação contra o Réu 
o qual negou tudo. 

Na sua defesa diz que seu filho D.o 
Pinto da Silva fugio para Roma para não 
ser obrigado a casar com certa mulher e indo, 
sem o Réu saber,, para casa de seu tio Ruy Lopes 
da Silva, cavalleiro do habito de Santiago. 
Esta defesa porém não foi recebida. 

Em 20 de novembro de 1652 os inquisi- 
dores, que votaram pela entrega á cúria secu- 
lar, persistiram nessa opinião, e o inquisidor 



372 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Pedro de Castilho que da primeira vez não tinha 
votado foi de parecer que o Réu devia ir a 
tormento e, em 21 de novembro de 1652, o 
Conselho Geral votou pelo tormento. 

Fioi pois posto a tormento em 23 de novem- 
bro de 1652. 

Começado a atar,; deram-se-lhe as primeiras 
Moitas que foram 8 e o Réu sempre a dizer qjue 
não tinha que confessar e morria. Deu-se-lhe 
mais meia volta mas o medico disse que 
IO Réu era quebrado e não podia supportar mais. 
Pior isso o deixaram. 

Em 23 de novembro de 1652 foram vistos 
pela terceira vez,, na primeira instancia os autos 
e foram de parecer que o Réu fosse condemnado 
erji pena de degredo e pena pecuniária; o inqui- 
sidor Luiz Alvares da Rocha e deputados Fran- 
cisco de Miranda Henriques e Martim Affonso 
de Mello foram de parecer que fosse de- 
gradado para Angola por 6 annos; os inqui- 
sidores P.o de Castilho e Belchior Dias Preto 
e deputados Bispo de Targa, Estevão da Cu- 
nha, Manoel Côrte-Real de Abranches e Fr. 
P.o de Magalhães que o degredo fosse para 
o Brazil pelos mesmos 6 annos. Quanto á 
pena pecuniária: pareceu aos inquisidores Luiz 
Alvares da Rocha e Pedro de Castilho e depu- 
tados Francisco de Miranda Henriques, Este- 
vão da Cunha, Manoel Côrte-Real d' Abranches 
e Fr. P.o de Magalhães, que pagasse 5.000 
cruzados para as despezas do Santo off.o; ao 
inquisidor Belchior Dias Preto, deputados 
Bispo de Targa e Martim Affonso de Mello 
pareceu que pagasse 2.000 cruzados, pare- 
cendo a todos que a quantia não devia exce- 
der a terça parte dos seus bens. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 373 



O Conselho Geral foi de parecer que elle 
vá ao auto da fé, abjure de vehemente suspeito, 
cárcere a arbítrio, pague as custas e 1.000 
cruzados para as despezas do Santo off.o e 
degredo para o Brazil por 5 annos. (Tem 
a data de 25 de novembro de 1652). 

No accordão final mandam-no efectivamente 
ir ao auto da fé^ fazer abjuração de vehementi, 
cárcere a larbitrio^ e o 'degradam para o Brazil por 
5 annos, devendo pagar as custas. 

Esta sentença foi publicada no auto da 
fé celebrado no 1.» de dezembro de 1652, 
com a assistência dos Reis, Príncipe, Inqui- 
sidor Geral D. Francisco de Castro, etc. 

Em 11 de dezembro de 1652 foi Duarte 
da Silva chamado do cárcere da penitenciaria, 
mandado confessar nas quatro festas principaes 
do anno e jejuar uma ó.a feira por mês. 

Duarte da Silva requereu então que,, em vista 
do seu estado de saúde, sob fiança, o dei- 
xassem ir convalescer para casa. Com effeito, 
em 10 de dezembro de 1652, o Inquisidor 
Geral consentio nisso sob a fiança de mil 
cruzados. 

As custas doeste processo, foram: 231458 
reis. 

Mas os inquisidores não o perdiam de vista. 

Em 24 de abril de 1653, em virtude de 
Duarte da Silva andar são e bem disposto, 
foram de parecer que,; no praso de 3 mezes, 
devia ir para o degredo. Tinha sido seu fiador 
Manoel da Gama de Pádua. 

O praso dos três mezes acabava em 26 
de julho de 1653. O Réu porém„ allegando gra- 
ves achaques de que se está curando e estar 
occupado em muitas cousas do serviço de S. 



374 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Magestade e por ordem d^El-Rei recorreu ao 
Conselho Geral e este, em 31 de julho de 
1653, perdoou-lhe o degredo, podendo ir em 
paz para onde quizesse. 

Para alguma coisa sérvio,; afinal depois de 
tantas demoras, a protecção do monarcha res- 
taurador. 

Bem grandes deveriam ter sido os serviços 
por Duarte da Silva prestados a uma nação 
que como a nossa se via então em sérias 
dificuldades financeiras ! 

Morto D. João IV seguio-se-lhe a regên- 
cia de D. Luiza de Gusmão e vamos ver o 
hebreu Duarte, da Silva, condenado pela Inqui- 
sição, a tripudiar sobre esta e a encher-se 
de honorários e dádivas, embora lhe surgissem 
dificuldades facilmente vencidas. 

Com efeito eis os termos d'um decreto 
real : 

El-Rei Nosso Senhor tendo respeito aos 
muitos serviços que Duarte da Silva, fidalgo 
da sua casa, fez por varias vezes assi em 
tempo de S. Magestade que Deus haja como 
depois de seu falecimento,, sempre que foi 
necessário valer-se de sua pessoa e fazenda, 
com que ajudou nas ocasiões de maior aperto 
e falta de cabedaes. Ha por bem fazer-lhe 
mercê para seu filho mais velho Francisco 
da Silva de uma comenda efectiva de até 
cem mil réis da ordem de Christo, a cujo 
titulo tomará logo o habito d^elle. Lisboa, 
14 de fevereiro de 659. — Por despacho de 
S. Magestade de 20 de maio de 659. 

El-Rei N. S. em satisfação da promessa 
de comenda, conteúda na portaria acima de 
que havia feito mercê a Duarte da Silva para 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 375 



seu filho mais velho Francisco da Silva ha 
por-bem fazer-lhe mercê para o mesmo Fran- 
cisco da Silva nomear-lhe a comenda por ele 
apontada de Santa Maria do Mação que va^ou 
por Manoel Pereira Coutinho com reserva de 
50$000 rs. de pensão para soldados benemé- 
ritos a quem S. Magestade os tem mandado 
nomear. Lisboa em 23 de maio de 659. 



El-Rei N. S. ha por bem mandar lançar 
o habito da ordem de Christo a Francisco da 
Silva para o ter a titulo de uma comenda 
efectiva de até 100^000 rs. e manda que para 
haver de receber o habito se lhe façam as 
provanças e habilitações de sua pessoa na 
forma dos estatutos e definições da mesma 
ordem. Lisboa, 14 de fevereiro de 659 (^). 

Nas provanças ergueu-se contra lêle o sangue 
israelita,, mas a protecção real tudo venceu. Eis 
o que resta doesse processo: 

Senhor 

« Para Francisco da Silva, filho de Duarte 
da Silva, receber o habito da ordem de Christo 
que V. Mgde. lhe tem mandado lançar, 
se lhe fizerão nesta corte donde disse ser 
natural, seu pai e avós paternos, as provan- 
ças de sua pessoa; e em Viana foz do Lima 
pelo que tocava a sua mãy e avós maternos 
e porque em húa e outra parte por dito de 



(1) T. do T. — Portarias do Reino, liv. 4.o, 
fl. 27. 



376 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



todas as testemunhas que para este effeito 
se perguntarão, constou que Francisco da Silva 
he descendente da nação hebrea, e jque elle 
e seu pay forão presos pello Santo Officio 
e sahirão em auto publico com vella na mão; 
foi sentenceado por incapaz do habito e por 
reprovado para aver de entrar ha ordem de 
que na forma dos novos dif finito rios se dá 
ccJrita a V. Mgde. e a razão que ouve para 
se não dar despacho a este justificante. Mesa 
5 de julho de 1659.» 

Tal era a informação da Mesa da Con- 
sciência e Ordens. Piorem 'o rei não se conformou 
e á margem fez lavrar o seguinte despacho 
que rubricou: 

De todos estes de ff eitos havia 
noticia quãdo se lhe fez esta mcê. 
mas houve considerações tão persísas 
(sic) que fizerão não reparar neíles. 
E assi se guarde o que peitos decre- 
tos que forão á Mesa tenho reso- 
luto. Lx.^ 8 de julho de 1659 /i). 

Agora era o outro filho contemplado: 

Por despacho de S. Magde. de 5 de 
junho de 659. 

El-Rei N. S. tendo respeito a hum serviço 
particular que Duarte da Silva^ fidalgo da sua 
casa lhe fês ha por bem fazer-lhe mercê do 



Q) T. do Tombo — Habilitações da ordem de 
Chrisio, m. 37, n.o 58. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 377 



habito da ordem de Christo para seu filho 
João da Silva com 50^000 rs. de pensão con- 
signados na comenda de Santa Maria de Ma- 
ção da mesma ordem, de que é provido Fran- 
cisco da Silva também seu filho com esta 
reserva e manda que nesta conformidade se 
lhe passem os despachos necessários. Lisboa, 
23 de junho dé 659. 



Em data de 23 de junho de 659 foi man- 
dado com efeito lançar o. habito de Christo a 
Jioão da Silva, filho de Duarte da Silva {^). 

Mas agora surgem novamente as dificulda- 
des provocadas sempre pela terrível infeção de 
judaísmo. Valeu-lhe entretanto muito o prece- 
dente do irmão Francisco, da Silva já ter sido 
agraciado e,, mais que tudo, a decisão e firmeza 
dos secretários doestado da regente D. Luiza 
de Gusmão. 

Eis pois, ipsls verbis, as peças doi pro- 
cessio que, por tal motivo, correu na Mesa da 
Oonsciencia e Ordens: 

Diz Duarte da Silva que V. Mde. lhe fês 
mercê para seu filho João da Silva, de 
50S000 rs. de penção na comenda de seu 
irmão Francisco da Silva, e a este titolo 
mandou V. Mde. a meza da consçiensia e hor- 
dens lhe desem os despachos neseçarios pêra 
tomar o habito de Christo e porque se lhe 
tem feito as provanças nesta cidade^ aonde 



{}) T. do Tombo, Poesias do Reino, livro 4.o, 
fl. 55. 



378 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



naseo, e em Viana e ha muitos mezes que 
se lhe não daa o dito despacho pêra tomar 
o habito 

P. a V. Mde. lhe faça mcê. man- 
dar se lhe dem os despachos e ordens 
neseçarias na mesma comformidade 
com que se derão a Francisco da 
Silva, seu irmão, porquanto na mes- 
ma forma he V. Mde. servido fazer 
mcê. ao dito João da Silva pêra 
tomar o habito de Christo. E. R. M. 



Despacho á margem: 

Pela Mesa da Consciência e Ordens se 
passem os despachos necessários para João 
da Sylva filho do suplicante tomar o habito 
da ordem de Christo de que lhe tenho feito 
mercê na mesma forma em que o tomou seu 
irmão Francisco da Silva porque por razões 
que a isso me movem o hey assi por bem. 
Lx.a 28 de fevereiro de 660. 

Rubrica real. 



Senhor 

Pello decreto posto no rosto da petição 
inclusa de Duarte da Silva manda V. Mde. 
que por este tribunal da Mesa da Consciência 
e Ordens se passem os despachos necessários 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 379 



para JOião da Silva, filho do mesmo Duarte 
da Silva, tomar o habito da ordem de Christo, 
de que V. Mde. lhe tem feito mercê na mesma 
forma em que o tomou seu irmão Francisco 
da Silva porque assim o Jia V. Mde. por bem. 
Sobre o que pareçeo dar conta a V. Mde. que 
as provanças de João da Silva se tem feito 
ha dias nesta corte e em Vianna, donde de- 
clarou serem seus pais e avós naturaes, mas 
porque nas provanças que se fizerao a Fran- 
cisco da Silva ouve húa testemunha que disse 
ouvira dizer que os pais de Duarte da Silva, 
avós paternos do justificante herão de Mon- 
forte, se teve por conveniente antes de sen- 
ten cearem as suas provanças (posto que nellas 
não ouve testemunha que o declarasse) man- 
dar aquella villa a averiguar a verdade do 
que se ouvera dito, porque de mais de o 
pedir assim a rasão, podia esperar João da 
Silva que se fizesse esta diligencia, que se 
deixou de fazer antes de se habelitar seu irmão, 
por dizer hia para fora do reino e a dilação 
lhe hera de perjuizo, causa que não concorre 
em João da Silva, que pode esperar sem rece- 
ber dano da dilação que já não pode ser 
muita. Lx.^ a 4 de março de 660. (Assinaturas 
do presidente e vogaes da Mesa da Con- 
sciência e Ordens). 

Despacho â margem: 

Os defeitos que podem resultar destas 
provanças são conhecidos e a parte os não 
nega e com esta noticia houve resões muito 
forsosas para se lhe fazer esta mcê. que obri- 



380 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



gão a que a mesa dê cumprimento ao meiu. 
decreto. Lx.^, 6 de março de 1660. 

Rubrica real. 



Senhor 

A João da Silva, filho de Duarte da Silva, 
a que V. Mde. tem mandado lançar o habito 
da ordem de Christo, segundo se vio de huma 
portaria do secretario Gaspar de Faria Se- 
verim de 23 de junho do ano passado se 
fizerão provanças em Vianna e nesta cidade, 
e em huma e outra parte constou por todas 
as testemunhas que elle era descendente da 
nação hebrea; as quaes provanças sem em- 
bargo de não averem vindo as que se tem 
mandado fazer a Alter, como se disse em huma 
consulta que sobre isso se fez a V. Mde. em 
4 do presente por V. Mde. assim o mandar 
por solução tomada na mesma consulta, e 
também por não apresentar breve nem ordem 
para se lhe guardar, se virão e pello que delas 
constou foi João da Silva julgado por incapaz 
do habito e sentenceado para aver de entrar 
na ordem; de que se dá conta a V. Mde. como 
mestre que he da dita ordem, para que seja 
presente a V. Mde. a rasão que ouve para 
se não dar despacho a este justificante. Mesa 
17 de março de 660. 

Depois de feita esta consulta offereceo 
João da Sylva neste tribunal o breve de 
S. Sd^. e decreta de V. Mde. porque manda 
que se lhe guarde e posto que se lhe mandou 
dar despacho comtudo pareceo dar conta a 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 381 



V. Mde. do que se refere por se não faltar 
á forma por que dispõem os difinitorios. 

( Ássínataras do presidente e vogaes da 
Mesa da Consciência e Ordens). 



Despacho d margem: 

A mesa he presente as resões 
que houve para mandar proceder 
nesta matéria e como se tem dado 
os despachos na forma dos meus 
decretos não ha que alterar do que 
está feito. 

Lx.a 22 de março de 660. 

(Rubrica Real) (i) 



O hebreu Duarte da^Silva, o preso e vexado 
durante anos, o atormentado, o condenado pela 
Inquisição, vencia mais uma vez. Devia cx)nsi- 
derar-se feliz. 

Tratava-se agora do casamento de D. Ca- 
tharina, filha do nosso D. João IV, com o 
monarcha inglês, acto em que andava envol- 
vida a fina flor da diplomacia portuguesa d^ 
Restauração. 

Bem conhecido é o facto, pois a rainha in- 
glesa tem sido ultimamente alvo de monogra- 
fias muito completas; aqui só pretendemos 



(1) Habilitações da ordem de ChrlstOf m. 93, 
n.o 45. 



382 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



salientar o papel de Duarte da Silva e as 
correspondentes recompensas. 

Segundo parece o banqueiro israelita mu- 
dara a residência para Londres, ou por lá 
andaria nas negociações preliminares do casa- 
mento. O certo é que da seguinte carta consta 
oomo suportou um grave dissabor. Ei-la: 



Carta original de António de Sousa 
de Macedo ao marquez de Sande 

« Estas regras que vão a ventura de ainda 
alcançarem hum navio pelo qual hontem se 
escreveo a V. Ex.^ faço >para dizer a V. Ex.^ 
que por Holanda chegou noticia de ficar prezo 
Duarte da Silva, conforme huma carta sua 
de 24 de março cuja copia remeteo o conde 
de Miranda, sobre o que nam pode S. Mde. 
responder couza particular sem ter carta de 
V. Ex.â e do mesmo Duarte da Silva com rela- 
ção mais meúda do cazo. Entretanto pelo que 
em geral consta da dita copia da carta de 
Duarte da Silva não pode deixar de causar gran- 
de admiração ser elle molestado pelas causas que 
aponta e o que por agora se pode dizer a 
V. Ex.ã he que bem sabe V. Ex.^ que o conde 
de Sandwich vio aqui as jóias e tudo mais 
que hia e ficou aprovando tudo o que não 
refuzou e sobre as jóias disse que quando 
El-Rey seu sr. as não quizesse se venderião 
e assy parece razão esperar que se vendão 
e não querer que entrem em conta as péro- 
las e jóias que tem a Rainha e El-Rey tomou, 
não se alcança que razão tenha. Emfim com 
cuidado se espera avizo de V. Ex.^ sobre isto 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 383 



e que com suas deligencias mande S. Mde. 
Britânica proceder como he justo e a Duarte 
da Silva certefique V. Ex.a do pezar aue aqui 
ha deste seu trabalho e desejo de o remediar 
em tudo. 



Lx.a a 19 de dezembro 661. 

António de Sousa de Macedo {}) 



Clomo era elevada a consideração ligada ao 
antigo preso dos cárceres inquisitoriaes para Sou- 
sa de Macedo se lhe referir em taes termos I 

Não admira por isso que, em documento 
oficial se lhe referissem nos honrosissimos ter- 
mios seguintes: 

«El-Rei N. S. em consideração dos muitos 
serviços que Duarte da Silva fidalgo de sua 
casa tem continuado em varias ocasiões que 
o ocupou e empréstimos que fez á sua fa- 
zenda e particularmente em respeito do zelo 
e boa vontade com que ora se ofereceo e 
dispôs passar a Inglaterra, tomando á sua 
conta os créditos e passagens do dote de 
S.ms Rainha de Grã-Bretanha sua muito pre- 
zada irmã, demais de outras mercês que sepa- 
radamente por portarias particulares lhe fez 
pelos mesmos respeitos ha por bem fazer-lhe 
mercê do foro de fidalgo de sua casa para 



(1) T. do Tombo, Coleção de S. Vicente, vol. 
XII, fl. 435. 



384 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



Jorge Dias Brandão, genro d^ele, Duarte da 
Silva. Lisboa, 17 de fevereiro de 662» (i). 

Em oito de abril de 1662 foi passada 
procuração por D. Affonso VI, tendo respeito 
á muita confiança que faço da prudência^ ver- 
dade e zelo de meu serviço que se acha em 
Duarte da Silva, fidalgo da minha casa, e 
ao acerto com que procedeu nos negócios de 
que o encarreguei, esperando d^elle, que neste 
tão grande, de que hora o encarrego, proceda 
muito á minha satisfação; dá-lhe pois pro- 
curaçãio para entregar á ordem de Carlos II 
de Inglaterra o dote da rainha D. Catharina. 
Tem a procuração a assinatura da rainha D. 
Luiza de Gusmão, regente do reino e encontra- 
se em minuta a fl. 268 do tomo VIII da Co- 
leção de S. Vicente, na Torre do Tombo e 
publicada a pag. 222 do tomo IX do Suple- 
mento d coUecção dos Tratados publicado por 
Júdice Bicker. (Lisboa, 1872). 

E continuam largamente as recompensas: 

El-Rei N. S. em consideração de haver 
feito mcê., entre outras, por despacho de 21 
de abril de 1662 a Duarte da Silva de 20$000 
rs. de pensão com o habito de Christo para 
a pessoa que ele nomeasse, tendo respeito á 
boa vontade com que se ofereceu passar a 
Inglaterra com os efeitos do primeiro milhão 
do dote da Sereníssima Rainha de Inglaterra 
e ora nomear Duarte da Silva a mercê refe- 



(1) T. do Tombo, Portarias do Reino, liv. 4.o, 
fl. 298. 



DA INQUISIÇÃO PORTUGUESA 385 



rida em Álvaro da Silveira, fidalgo da casa 
de S. Mde., ha por bem fazer mercê ao mesmo 
Álvaro da Silveira dos 201000 rs. de pensão 
referidos para os ter com o habito de Christo 
que lhe tem mandado lançar. Lisboa, 16 de 
agosto de 662 (O- 

El-Rei N. S. alem de outros despachos 
com que Duarte da Silva fidalgo de sua casa 
foi respondido em 13 de fevereiro do presente 
ano com ocasião de passar a Inglaterra em 
companhia da Sereníssima Rainha de Grã Bre- 
tanha e de 201000 rs. de pensão com o habito 
de Christo para Álvaro da Silveira, depois 
em 21 de abril, de que já se lhe passou por- 
taria, ha por bem fazer-lhe mercê de 20$000 
rs. de tença pagos nos sobejos do rendimento 
da alfandega da ilha da Macieira sem prejuízo 
das primeiras consignações que tiverem para 
nomear logo em filho, neto ou neta, cujo 
vencimento começará a correr desde o dia que 
fizer a tal nomeação e que havendo o oficio 
por ele pedido de tesoureiro do dinheiro e efei- 
tos aplicados para a paz de Holanda o pro- 
verá S. Mde. na pessoa de Jorge Dias Brandão, 
seu genro com o ordenado que então parecer. 
Lisboa, 18 de agosto de 662 {^). 

El-Rei ... ha por bem fazer mercê ao 
genro de Duarte da Silva, Francisco Nicoláo, 
residente na cúria de Roma de 20^000 rs. de 



(1) T. do Tombo, Portarias do Reino, liv. 4.o, 
fl. 352, v.o. 

(2) T. do Tombo, Portarias do Reino, liv. 4.o, 
fl. 353, v.o. 

25 



386 EPISÓDIOS DRAMÁTICOS 



tetíça para os ter Gom o habito de Sanflago. 
Para isto atendeu-se aos mesmos serviços 
pelos quaes foi dado o foro de fidalgo a 
Jorge Dias Brandão (i). 

Não rezam os papeis seiscentistas da cara 
despeitada dos inquisidores ao terem conheci- 
mento de tal chuveiro de benesses e mercês. Mas 
Roma estava vigilante. 

Pior isso ^ em 11 de fevereiro de 1663, o papa 
Alexandre VII expedio um breve aos inquisido- 
res de Portugal, Ex omnl fide, para se opo- 
rem ao oferecimento do hebreu português, 
Duarte, morador em Londres, e já castigado 
na Inquisição de Portugal. Este oferecia di- 
nheiro e forças marítimas e terrestres com 
3 condições: um logar seguro para os hebreus 
terem synagoga; perdão geral para eles e 
publicarem-se-lhes os nomes das testemunhas. 
(Pag. 26 do vol. XIV do Corpo Diplomático 
Português). 

O opulento argentario era doesta vês porém 
derrotado e os seus correligionários haviam de 
continuar sem templo onde erguer as preces 
ao Deus de Moysés e Israel! 



(^) T. do Tombo, Portarias do Reino ^ liv. 4.o, 
fl. 298. ■' '■ ■ 



índice 



ÍNDICE 



PRIMEIRA PARTE 



Homens de letras e de sciencia condenados 
pela Inquisição 



I— O poeta dos ratos da Inquisição, Serrão 

de Castro (1672. a .1682) . . . . . . 9 

II — O engenheiro e inventor Bento de Mou- 
ra Portugal (1743 a 1748) . .... 35 

III — O Cavaleiro d'Oiiveira (Outubro de 1756 

a Setembro de 1761) . 49 

IV — O poeta Francisco Manuel do Nascimento 

(1778) 54 

V — José Anastácio da Cunha (Julho de 1778 

a Outubro do mesmo ano) 82 

VI — O dicionarista e gramático Moraes e Sil- 
va — Primeira vez (1779) — Segunda 

vez (1806 a 1810) 101 

VII — Dois poetas apontados á Inquisição — 
Pereira Caldas (1779 a 1781) — João 

Xavier de Matos (1798) 123 

VIU— O poeta Bocage (1802-1803) ... 127 
IX — O poeta Curvo Semedo (1803 e 1819) 131 

X— O poeta José Agostinho de Macedo (1804 

e 1807) 136 

XI — C> economista Silvestre Pinheiro Ferrei- 
ra denunciado á Inquisição 144 



390 EPISÓDIOS DR.\MÁTICOS 



XII— O avô de Anthero do Quental (1808) . 146 
XIII — O pae de Rebelo da Silva é denunciado 
á Inquisição em 1812, mas esta não pro- 
cede 148 



VARIA 

Como os ciúmes da esposa de D. João V 
provocam a intervenção d' um Inquisidor 
Geral 153 

O lente canonista de Coimbra Christovão João 

e o Santo Oficio 158 

Os sortilégios de uma freira (1719) . . . 168 

Alguns romances históricos de Camilo e res- 
pectivos processos inquisitoriaes .... 1 75 

O Judeu — Uma familia de brasileiros per- 
seguida 177 

No romance «O Olho de Vidro»: Manoel Fer- 
nandes Vila Real e Heitor Dias da Paz 210 

No romance «Cavar em Ruinas»: O Forra — 

Gaitas — Processo de atroz insidia . . 213 

No roínance «A Caveira da Martyr»: É jus- 
tiçado Ruy de Pina ........ 242 

No romance «A Caveira da Martyr»: Jorge 
Mendes Nobre: dois homonymos, tio e 
sobrinho — Como, jjara distração, se su- 
plica um livro de Direito ...... 246 

Os tormentos segundo os códigos iijquisitoriaes 251 

O banqueiro Duarte da Silva . . . . . . 266 




ACABOU DE SE IMPRIMIR 

NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO DO BRASIL, 

(ALMANAK LAEMMERT) 

R. D. MANOEL, 62 -RIO DE JANEIRO 

AOS 16 DE JANEIRO DE 1924 



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